“Meu filho, eu nasci no Dia do Frevo, nove de fevereiro, já vim ao mundo pulando, em festa””

Irmã Socorro

Sport e prática esportiva, coisas de freira? Sim!

Dizem que futebol e religião não se discute. E quando essas duas paixões, em vez de dividir, unem, aí é que não há conflito mesmo. Apenas uma santa comunhão. Este é o testemunho da freira Maria do Socorro Freire de Souza, conhecida como Irmã Socorro, do Colégio Damas, que, além de esportes, também é apaixonada pelo Sport. Do alto dos seus 70 anos, a religiosa já praticou vôlei, futebol, dança, natação, corrida e caminhada e ainda faz muitas desses modalidades. Esbanjando saúde, energia e alegria é um exemplo de vida – material e espiritualmente falando.

Data de nascimento? “Meu filho, eu nasci no Dia do Frevo, nove de fevereiro, já vim ao mundo pulando, em festa”, assim respondeu a freira com sorriso aberto tal qual sombrinha e olhos azuis claros brilhando como lantejoulas. A festa em questão foi em Vitória de Santo Antão, na Zona da Mata Pernambucana. A pacata cidade, onde nasceu, viria a conhecer uma habitante não tão pacata assim. “Sempre fui muito ativa, gostava de fazer um monte coisa ao mesmo tempo, daí na escola canalizei essa energia toda para os esportes”, explicou irmã Socorro.

As modalidades escolhidas foram comuns, já as posições. “No futebol, eu só queria ser a goleira. Meu negócio era fazer com que meu time não levasse gol. Lá na frente elas tinham que fazer porque lá atrás eu procurava fechar a barra. Já no vôlei eu era a levantadora. Como nunca fui alta, compensava no passe pras minhas amigas. E tinha bom saque viu?! Quando eu ia sacar e mirava uma adversária não tinha jeito: era bomba direto nela”, recorda, entre risos. A energia extra também era gasta com dança e não só as “soltas” como o frevo. “Tem coisa melhor do que dançar um forró agarradinho? Era daquelas que só ia embora quando já estavam limpando o salão”, brincou.

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Tem coisa melhor do que dançar um forró agarradinho? Era daquelas que só ia embora quando já estavam limpando o salão”

Irmã Socorro

Sim, mas e a paixão pelo Sport como começou? Irmã Socorro diz que ela não veio “de berço”. O pai e os irmãos eram todos alvirrubros. Mas na árvore genealógica da família tinha os primos rubro-negros. “Comecei a gostar por conta do animal, sou fascinada pelo leão. Depois me encantei pelo time. Sou rubro-negra de coração, mas doente não! Sou sadia porque torcer faz muito bem”, garante a freira.

O enredo da história da jovem elétrica rubro-negra mudou a partir de uma pescaria, como ela mesma gosta de classificar. A então moça de 19 anos, que já tinha emprego e noivo, largou tudo após ser fisgada. “Eu aceitei convite para um encontro religioso de jovens em Itamaracá. Lá a palavra do evangelho foi de que Jesus mandou jogar a rede para pegar os peixes. Eu estava na praia e fui pescada por Ele. Encontrei resposta para a inquietação que sentia. Daí não tive dúvida, pedi demissão do emprego, acabei o noivado e fui ser feliz como sou até hoje”, contou a irmã.

Felicidade completada pela harmonia em saber unir o amor pela religião, esportes e Sport. “Não é porque me tornei freira que deixei de torcer ou praticar atividade física. Pelo contrário, os esportes só fazem bem à saúde”, disse e parou para dar uma risada ao lembrar de quando o colégio ganhou piscinas. Afoita como ela só, já foi para a inauguração “preparada”. “No final fui perguntar à madre se freiras também poderiam nadar e ela disse que sim. Não tive dúvida. Na mesma hora, tirei o hábito no meio de todos e como já estava de maiô por baixo me joguei na piscina. Fui eu que inaugurei, a água estava uma delícia”, rememorou.

Atualmente a freira faz caminhadas todos os dias. E “pra variar” ainda se sente inquieta. “Eu ando uns cinco quilômetros e faço em média cada quilômetro em oito minutos. Até que me sinto satisfeita com esse tempo, mas não vou negar, acho que posso baixar mais um pouquinho”, disse a irmã do alto seus 70 anos com fôlego de menina que mira mais um desafio.

Uma sala que mais parece Ilha do Retiro

Quem chega na sala de irmã Socorro mais parece estar dentro de um estádio. Mas não um estádio qualquer e sim na Ilha do Retiro, dada a quantidade de adereços referentes ao Sport presentes nela. São diversos acessórios em vermelho e preto ornamentando o recinto. Posso sentar? “Fique à vontade!”, ela responde apontando para as cadeiras presentes em sua sala, sendo que uma delas coberta com a bandeira do Leão.

“Aqui todos são bem-vindos, mas quem é rubro-negro tem uma cadeira exclusiva. Só senta aí quem honra o manto e é torcedor do Sport”, explica a freira para qualquer um que adentre o recinto pela primeira vez. Pergunto se quem senta na cadeira com a bandeira leonina tem algum tipo de preferência e ela garante que não. “Trato todos iguais. Quem não é rubro-negro senta nas outras cadeiras e atendo da mesma forma. Apenas como rubro-negra reservei um lugar especial para quem torce pelo mesmo time que eu”, justificou.

A irmã conta que não comprou nenhum adereço da sala. Ganha todos de presente dos funcionários, professores e alunos. Entre os mimos, duas miniaturas da religiosa em bonecas de biscuit: uma de hábito em pé com um leão ao lado e outra com um vestido rubro-negro sentada em um banco. O presente mais especial ela usa na cadeira em que senta e foi dada pessoalmente pelos jogadores do Sport: uma camisa autografada pelo time de 1998. “Eles vieram aqui e assinaram essa camisa para mim!”, contou, orgulhosa.

Aqui todos são bem-vindos, mas quem é rubro-negro tem uma cadeira exclusiva. Só senta aí quem honra o manto e é torcedor do Sport”

Ao comentar sobre o atual elenco do Sport, ela mostra o lado de torcedora crítica. “Não tem oração que dê jeito, eles têm mesmo é que jogar bola”, disse, num raro momento em que não sorriu.

"Estar junto com essa garotada me rejuvenesce"

“Homenagem boa é uma dessas, ainda em vida”, comenta a irmã Socorro ao apontar com orgulho para a placa com seu nome que batizou o ginásio do colégio. A justa homenagem mostra a importância da freira para a instituição. Importância vista também no cargo de coordenadora geral de esportes que ela ocupa. A religiosa, no entanto, não se contenta apenas em administrar. Gosta de acompanhar de perto as atividades dentro e fora do Damas, sendo presença certa nas delegações das equipes nos jogos longe de Pernambuco.

“Se tem uma coisa que eu gosto é trabalhar nessa área de esportes. Faz bem à saúde e é muito prazeroso. Me sinto realizada. E os pais, inclusive, gostam e ficam mais tranquilos quando sabem que uma irmã vai acompanhando os times nas viagens. Eu particularmente adoro e acho que por isso que não envelheço. Estar junto com essa garotada me rejuvenesce. Quando estou no meio deles me sinto com 18 anos”, disse a irmã com, de fato, semblante de 18 anos.

Na beira da quadra, esquece o lado dirigente e vira mais uma torcedora. “Quando eles entram em quadra, estou com eles, quando fazem um gol ou acertam uma cesta, estou lá também. Na arquibancada acompanho tudo fazendo minhas orações. Peço para que Jesus abençoe o pé dela para que acerte o gol. Eu sempre digo: acreditem que Jesus está com vocês!”, afirmou.

A freira marcou presença no título de campeã da equipe feminina de futsal do colégio nos Jogos Escolares de Pernambuco, em Serra Talhada. Ainda acompanhou o time na disputa da fase nacional do Jogos da Juventude, em Curitiba, onde foi eliminado na primeira fase. “Gosto de estar perto em todos os momentos, na hora de vibrar, mas nas tristezas também. Porque eu choro mesmo com eles quando perdem”, disse irmã Socorro.

O trabalho desenvolvido pela irmã é elogiado até pela comissão técnica. “Trabalho há 31 anos no colégio e sempre tivemos o apoio dela, espiritual e físico. A irmã dá muita força para essa meninada. É o nosso inusitado amuleto, ela nos dá sorte”, garantiu o técnico Luciano Santos. Por falar em inusitado ao longo da reportagem flagramos a religiosa participando um pouco da roda de toquinho de bola com as meninas.

Gosto de estar perto em todos os momentos, na hora de vibrar, mas nas tristezas também. Porque eu choro mesmo com eles quando perdem”

As jogadoras também destacaram a presença da freira nas delegações. “Ela é ótima, está com a gente dando apoio nos jogos. Sempre que a gente precisa de uma dica ela está lá. E sem contar que torce pelo Sport, o que faz com que ela seja perfeita”, comemorou o a atleta Júlia Nogueira. No meio das alunas torcedoras rubro-negras e com a bandeira do Sport, irmã Socorro não resistiu. Encerrou a entrevista com o cazá-cazá.

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Reportagem
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Edição de vídeo
Leonardo Vasconcelos

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1 de Outubro de 2017

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Edição de texto

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