Uma culpa dividida

A morte de Toinho, como o cozinheiro e bicicleteiro Antônio José da Silva, 53 anos, era conhecido, foi brutal e imediata. A bicicleta foi praticamente triturada. As pernas ficaram presas nas rodas dianteiras da carreta que vinha do Rio Grande do Sul, enquanto o restante do corpo era projetado para fora, exposto a todos. Assim a companheira do cozinheiro, Cléa Ferreira da Silva, 44, o encontrou. Antônio José foi atropelado quando tentava atravessar a BR-101, na altura do bairro da Macaxeira, Zona Norte do Recife, pelo motorista de uma carreta que, ao vê-lo, não conseguiu frear a tempo. Era a tarde do dia 11 de janeiro  de 2017. Toinho tinha quase concluído a travessia. Foi pego já no acostamento.

Ele ainda teve o cuidado de descer da bicicleta e empurrá-la, como sempre fazia quando ia atravessar a BR. Mas não teve jeito”, Cléa Ferreira da Silva, viúva de Antônio José da Silva, ciclista

No registro da Polícia Rodoviária Federal (PRF), a culpa dividida pelo acidente. Do ciclista vítima, por ter feito uma travessia forçada, inadequada e perigosa. Do caminhoneiro, por estar acima da velocidade máxima da rodovia, o que dificultou o processo de frenagem do caminhão. Toinho era bicicleteiro experiente. Só andava de bike. Evitava o ônibus sob a alegação de que demorava muito para chegar e no percurso. Era acostumado a resolver tudo na bicicleta e a utilizava quase que diariamente para chegar ao restaurante onde trabalhava. No dia de sua morte, inclusive, estava a caminho do trabalho e precisava atravessar a BR-101. Sem opções de passarelas ou qualquer tipo de passagem segura, o jeito foi, mais uma vez, arriscar-se na travessia.

Pode ser que, de fato, tenha tido culpa, mas por onde ele passaria? Qual é a segurança que existe para quem anda de bicicleta, principalmente numa BR?”, indaga Cléa Ferreira, viúva de Antônio José da Silva, ciclista

 

– Ele ainda teve o cuidado de descer da bicicleta e empurrá-la, como sempre fazia quando ia atravessar a BR. Mas não teve jeito. Pelo que soubemos, o caminhoneiro estava com a família na cabine e teria se distraído por alguns minutos, até perceber o movimento de Toinho. Disseram que ele fez uma travessia imprudente. Pode ser, até porque não há outra forma de atravessar a BR. Mas ele foi pego quando já chegava ao acostamento. Pode ser que, de fato, tenha tido culpa, mas por onde ele passaria? Qual é a segurança que existe para quem anda de bicicleta, principalmente numa BR?”, indaga Cléa Ferreira.

 

O caminhoneiro, de fato, viajava com a mulher e dois filhos pequenos, que segundo o registro da ocorrência, ficaram em estado de choque com o acidente e precisaram receber atendimento médico. O condutor permaneceu no local e contou à PRF que, quando percebeu a travessia do ciclista, freou de imediato, mas não deu tempo. Foi ouvido por carta precatória (quando a pessoa reside em outro estado) e será indiciado por homicídio culposo, quando não há culpa. No boletim de ocorrência, a PRF identificou responsabilidade sobre o acidente tanto do motorista como do ciclista. À família de Toinho, restou apenas a dor da saudade e a busca pelo conforto da alma.

Expediente

28 de Setembro de 2017

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