Um crime ainda sem culpados

Quem vê as imagens do atropelamento do engenheiro eletricista Hélio Almeida Araújo, 64 anos, ciclista por opção e devoção, ainda se impressiona com a estupidez do acidente. A impressão é de que o motorista do veículo Fiesta prata, não se sabe por qual razão, sequer percebe a bicicleta à sua frente. Passa por cima como se faz com um inseto, sumindo em seguida. Permanece sem identificação até hoje. Deixa para trás um rastro de violência. De tão forte, a pancada que surpreende Hélio Almeida e derruba-o da bicicleta como se fosse um boneco de pano, também provoca o deslocamento do cérebro do engenheiro, decretando sua morte horas depois.

A dor da perda é intraduzível. Só quem sente, sabe. Ela não cabe dentro da gente. Transborda. Não há como traduzir. E a única coisa que você pode fazer é chorar, chorar e chorar”, Adriane de Carvalho

Um estrago tão grande que fez a companheira de 30 anos de vida, a professora de piano Adriane de Carvalho, pedir aos médicos por sua morte. Uma forma de abreviar tanta dor e desesperança provocadas pela brutalidade da colisão. Hélio não teve qualquer chance. Foi pego de surpresa, por trás, às 5h30 da manhã do dia 21 de março de 2017, por um motorista sem face, ainda desconhecido. Ficou jogado no chão da Rua Carlos Chagas (continuação da Rua dos Palmares e da Avenida Mário Melo, em Santo Amaro, área central do Recife).

 

– A dor da perda é intraduzível. Só quem sente, sabe. Ela não cabe dentro da gente. Transborda. Não há como traduzir. E o sentimento de impotência é o pior porque tudo que a gente quer é trazer aquela pessoa de volta. E a única coisa que você pode fazer é chorar, chorar e chorar. O estrago feito em Hélio foi tão grande que cheguei a pedir à médica que deixasse ele morrer, mas ela disse que não. Que seu papel era lutar para que vivesse”, descreve Adriane de Carvalho.

O crime já começa a cair no esquecimento do Estado e o culpado (ou seria culpada?) segue sem identificação. Impune e livre. No dia do acidente, houve várias versões porque a colisão foi rápida e a fuga do condutor ainda mais. Inicialmente, um ônibus teria atropelado Hélio Almeida. Depois, a partir da localização de duas imagens obtidas em estabelecimentos particulares, se confirmou que foi um Fiesta prateado. Nada mais. É possível ver Hélio pedalando e fazendo a curva embalado, até ser atingido pelo carro, que surge rapidamente do nada. Polícia e familiares buscaram, em vão, outras imagens que pudessem ter captado o veículo momentos antes da colisão, em outras vias e cruzamentos. Mas todas as câmeras públicas da Secretaria de Defesa Social (SDS) estavam desativadas.

O estrago feito em Hélio foi tão grande que cheguei a pedir à médica que deixasse ele morrer, mas ela disse que não. Que seu papel era lutar para que vivesse”, Adriane de Carvalho

 

– A polícia até que se empenhou, foi em busca de várias câmeras, mas todas ao longo do possível percurso estavam sem funcionar. Seria fácil identificar o veículo se as câmeras estivessem funcionando. Era muito cedo e poucos carros estavam na rua. Essa pessoa que fez isso com Hélio não foi pega porque a estrutura do Estado está deteriorada. A polícia não tem como trabalhar, não conseguiu identificar por falta de estrutura. O Estado não funciona e a gente está entregue à própria sorte. Foi o que aconteceu com Hélio”, critica a viúva do engenheiro.

Adriane de Carvalho está desesperançosa. Não acredita mais que a polícia consiga localizar essa pessoa. Muito menos que será presa um dia. Inicialmente, a delegacia de Delitos de Trânsito estimulou a versão de que um ônibus teria atropelado Hélio Almeida, embora já tivesse informações de que era um automóvel. Foi uma estratégia para evitar uma possível fuga do condutor responsável. Mas como a placa do veículo não foi identificada – tanto pelas testemunhas como pelas câmeras –, de nada adiantou.

Essa pessoa que fez isso com Hélio não foi pega porque a estrutura do Estado está deteriorada. A polícia não tem como trabalhar, não conseguiu identificar por falta de estrutura”, critica Adriane de Carvalho

– Não tenho mais esperança de que a polícia pegue essa pessoa. Não há qualquer indício. Não temos a placa, não temos nada. O carro, depois de tanto tempo, já deve estar sem provas. A família desse motorista não irá entregá-lo. Teríamos que contar com a humanidade dele. Mas se não teve no dia do acidente, imagine agora. Após bater, contaram à polícia que ele ainda parou. Olhou dois segundos e partiu, cantando pneu. Não socorreu. Mas ele sabe que atropelou uma pessoa. E isso dói. Saber que ele não prestou socorro e que talvez a sobrevivência de Hélio dependesse desse socorro”, diz.

– Mas o sentimento de perda é tão intolerável que esse homem ou essa mulher q matou Hélio não cabe nesse espaço ocupado pela dor. Só lamento porque ele está nas ruas e pelo que pode fazer no futuro. Ninguém mata no trânsito porque quer, mas o sentimento de impunidade é muito ruim para todos porque, quando o Estado oferece condições para a polícia trabalhar e quem mata no trânsito é punido, os outros miram o exemplo”, acrescenta a viúva do engenheiro.

Expediente

28 de Setembro de 2017

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