Crimes de difícil investigação

Investigar o crime de trânsito é tarefa árdua. Difícil. Missão, muitas vezes, mais complicada do que a investigação de um assassinato. A ausência de elo emocional entre autor e vítima é o grande obstáculo. Quando se mata e se morre no trânsito, dificilmente envolvidos se conhecem. Não há um histórico de amor ou ódio, por exemplo, a ser seguido. Por isso tudo, os crimes de trânsito são fáceis de ficarem impunes. Aqueles que têm o ciclista e o pedestre como vítimas ainda mais.

A fuga é mais fácil para quem está motorizado. A vítima não-motorizada é sempre mais vulnerável. Não é à toa que o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) cobra de todos o cuidado maior para com eles. Os ciclistas, inclusive, são responsáveis pelos pedestres. Newson Motta, delegado titular da Delitos de Trânsito há cinco anos, lembra que a ausência de ligação entre autor e vítima engessa, muitas vezes, o trabalho de investigação. “Ficamos dependentes de recursos externos, como filmagens de câmeras públicas ou privadas. E nem sempre conseguimos a qualidade ou o ângulo correto para esclarecer uma morte. Outra dependência é de testemunhas e, às vezes, elas não existem ou não dão detalhes suficientes”, argumenta.

Dois dos casos em que ciclistas foram mortos no trânsito do Recife – o engenheiro elétrico Hélio Almeida e o polidor Anderson Pedro da Silva – são exemplos dessa vulnerabilidade da investigação. Nenhuma câmera ou testemunha conseguiu identificar a placa do Fiesta prata que é visto atropelando o engenheiro. Eram 5h30 e poucas pessoas estavam na rua. Ao mesmo tempo, as câmeras que, pela posição, poderiam ter pego a placa estavam quebradas. No caso do polidor, nem câmeras havia para flagrar o acidente.

Testemunhas repassaram a placa e o número de ordem do ônibus, mas diante da negativa veemente dos motoristas ouvidos pela polícia, não existe uma prova técnica que comprove o atropelamento. “Temos a vontade de fazer, de esclarecer, mas ficamos sem caminhos para seguir. Pistas para checar. Num assassinato, por exemplo, um familiar dá uma dica de uma desavença, de uma discussão ou ameaça, que nós ajuda a ir puxando, puxando, até contextualizar as razões do crime. No crime de trânsito isso é impossível porque autor e vítima não têm qualquer tipo de relação, sequer se conhecem”, diz Newson Motta.

No caso da morte de Sebastião, em Olinda, investigado pela equipe da Delegacia de Rio Doce, a Polícia Civil não conseguiu provas de que foi o motorista quem provocou o atropelamento. O condutor alega que o ciclista passou antes de a travessia ser liberada, provocando o acidente. A polícia não conseguiu imagens do momento do atropelamento nem testemunhas oculares do fato. A dúvida ficou no ar e o inquérito terminou sendo remetido à Justiça sem apontar culpados. Será arquivado. Para revolta da família de Sebastião.

Um olhar ainda equivocado

Um olhar ainda equivocado

Para ampliar o abismo, o olhar sobre o crime de trânsito permanece equivocado. Ninguém quer matar no trânsito. Essa ainda é a percepção que a maioria das pessoas têm sobre o crime de trânsito, pouco importando se a vítima estava de carro, moto, bicicleta ou a pé...

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28 de Setembro de 2017

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