Atropelado sobre a faixa de pedestres

Quem olhava o atropelamento do comerciante Sebastião Tenório, 53 anos, bicicleteiro desses que resolvem tudo de bike, no dia 11 de março de 2017, em Casa Caiada, Olinda, na Região Metropolitana do Recife, ainda guarda na mente e no coração a cena de dois corpos ao chão. Um deles era Sebastião, morto após ser pego por um carro sobre a faixa de pedestres. Ao lado, a companheira por dez anos de vida e mãe de sua filha, viva de corpo, mas de alma dilacerada. A dor foi tamanha ao ver o marido daquele jeito, estirado no asfalto, que a assessora comercial Graça Queiroz, 54, não suportou e foi ao chão.

– Quando vi aquela imagem de Sebastião no chão, morto, atropelado sobre a faixa de pedestres, me senti um lixo. Não podia fazer nada a não ser me deitar ao lado dele para protegê-lo do olhar dos curiosos. Porque a única coisa que uma pessoa tem direito quando morre atropelada é aos olhares dos curiosos”, lamenta.

 

Não podia fazer nada a não ser me deitar ao lado dele para protegê-lo do olhar dos curiosos. Porque a única coisa que uma pessoa tem direito quando morre atropelada é aos olhares dos curiosos”, Graça Queiroz

A frase final da viúva, forte e dilacerante, dá a dimensão do abismo que se abre na vida das pessoas que ficam após a morte no trânsito. A brutalidade da morte pesa, sem dúvida, mas a impotência diante da punição dos culpados é o que mais dói. Sebastião atravessava um das duas faixas de pedestres que existem no cruzamento da Avenida Doutor José Augusto Moreira com a Rua Desembargador Tomaz Antônio Guimarães, quando foi morto. Desmontou da bicicleta e a empurrava ao lado do corpo, como devem fazer os ciclistas – pelo menos segundo o Código de Trânsito Brasileiro (CTB).

Tanto cuidado de nada adiantou. Já estava no meio da travessia, segundo uma testemunha, quando a morte o arrastou. Morreu na hora. A bicicleta voou para um lado, ele poucos metros à frente. Antes, uma freada brusca, como um prenúncio da violência seguinte, comum nas mortes no trânsito.

O condutor do veículo Gol que atropelou Sebastião abandonou o automóvel e fugiu. Retornou depois de algum tempo. Afirmou à polícia que saiu por temer ser agredido diante da cena do homem estirado ao chão, sobre uma faixa de pedestres. As versões sobre o acidente mudam de acordo com quem as conta. A família de Sebastião diz, com base no depoimento de testemunhas, que o motorista forçou a ultrapassagem no amarelo do primeiro semáforo do cruzamento. Conseguiu passar pela primeira faixa de pedestres, mas não pela segunda, onde Sebastião iniciava a travessia.

Sebastião fez tudo certo. Saiu de um supermercado e pedalou onde podia. Na travessia, empurrou a bicicleta como é o certo. E, por ironia, fez aquele caminho porque pegaria a ciclofaixa da beira-mar de Olinda”, Graça Queiroz

 

Há quem diga que Sebastião tinha bebido e se precipitou na travessia – perigosa, apesar das faixas de pedestres, porque a avenida tem tráfego em mão dupla, com cruzamentos que têm programação semafórica de até três tempos. A família confirma que ele abriu uma cerveja na saída do supermercado, mas que isso não foi o fator determinante para a morte.

– Meu marido não estava embriagado, como querem insinuar. Foi pego, de surpresa, sem qualquer chance de defesa, no meio da travessia numa faixa de pedestres. O que mais falta para as pessoas enxergarem que imprudente foi o motorista, que forçou a passagem no sinal amarelo? Sebastião fez tudo certo. Saiu de um supermercado e pedalou onde podia. Na travessia, empurrou a bicicleta como é o certo. E, por ironia, fez aquele caminho porque pegaria a ciclofaixa da beira-mar de Olinda”, reage a víuva.

Graça Queiroz, aliás, é pura revolta. Até agora, não viu nenhuma providência ser adotada pela polícia. Não chegou sequer a ser ouvida na investigação. Nem sabe, admite, se há investigação.

– Meu primeiro pensamento, ainda quando cheguei no local do acidente e vi meu marido morto, foi: onde estão os culpados pela morte dele? E continuo fazendo a mesma pergunta. Tanto tempo depois e nada aconteceu. Não tive sequer o depoimento colhido pela polícia. Os meses estão se passando e eu ficando mais velha, mais triste e mais sábia para entender que não há justiça para quem mata no trânsito. Choro todos os dias querendo saber se haverá alguma pena para esse motorista. Se a morte de Sebastião será apenas mais uma no trânsito”, desabafa.

Expediente

28 de Setembro de 2017

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