A morte veio num ônibus

Vânia Maria da Silva, 42 anos, diarista, carrega duas dores no peito. A primeira é a morte prematura do único filho homem, Anderson Pedro da Silva, de 23 anos, atropelado por um ônibus quando seguia para o trabalho de bicicleta, no dia 10 de janeiro de 2017, na Avenida Beberibe, altura do bairro do Fundão, periferia da Zona Norte do Recife. A segunda, é não saber, até hoje, quem o matou. Sabe-se que foi um ônibus e até a placa do veículo foi dada à Polícia Civil. Mas em vão. A mesma polícia diz não conseguir identificar o motorista que dirigia o coletivo. A morte do ciclista é mais um crime sem face, sem autoria.

Eu pedia para não ir de bicicleta, que era perigoso, mas ele dizia que era o melhor porque o ônibus demorava muito e ele não podia chegar atrasado ao trabalho. Aquele emprego, de polidor, era a coisa mais importante na vida dele”, Vânia Maria da Silva

Anderson Pedro era daqueles que fazem tudo de bicicleta. Tinha medo, principalmente, porque estava na sua rota diária avenidas e ruas sem qualquer prioridade para as bikes e extremamente adensadas, tanto por carros como por ônibus. Diariamente, saía de casa, em Caixa D’Água, bairro de Olinda, para as Graças, na Zona Norte do Recife. E ia de bicicleta. Voltava para o almoço, no início da tarde, e retornava ao trabalho. Tudo de bike. Sempre de bike. À mãe, que sempre temeu a vulnerabilidade da bicicleta, dizia que era rápido e prático. Muito melhor do que o ônibus. Mas era pelos coletivos que mais nutria medo – como qualquer ciclista.

 

 

– No último dia que vi meu filho, era à tarde, ele tinha vindo almoçar em casa, como fazia todos os dias. Chegava às 11h, 11h30, e voltava 13h, 13h10. Eu pedia para não ir de bicicleta, que era perigoso, mas ele dizia que era o melhor porque o ônibus demorava muito e ele não podia chegar atrasado ao trabalho. Aquele emprego, de polidor, era a coisa mais importante na vida dele. Era meu filho quem estava sustentando a casa. Naquela tarde se foi. Me deu um beijo e foi trabalhar de bicicleta. Mas com meia hora chegou a notícia de sua morte, atropelado por um motorista de ônibus que não se deu sequer ao trabalho de parar para socorrê-lo”, relembra Vânia Maria.

Tudo acabou assim. Ainda cheguei a segurar em sua mão. O corpo estendido no chão, já coberto por um lençol. Meu filho não teve chances. Nenhuma. Morreu na hora. E foi morto exatamente por um ônibus. Todos os dias disputava espaço com eles”, Vânia Maria da Silva

A cena do acidente construída com depoimento de testemunhas é de que Anderson pedalava pela Avenida Beberibe, quando, ao desviar de um buraco na pista, foi pego pelo coletivo. O veículo teria batido no ciclista, jogando-o ao chão e, em seguida, passado sobre ele. A morte foi instantânea.

 

– Tudo acabou assim. Ainda cheguei a segurar em sua mão. O corpo estendido no chão, já coberto por um lençol. Meu filho não teve chances. Nenhuma. Morreu na hora. E foi morto exatamente por um ônibus. Todos os dias disputava espaço com eles. Não há qualquer condição para as pessoas usarem a bicicleta na cidade. É muito arriscado e ninguém se importa com as mortes no trânsito. Principalmente os atropelamentos”, critica a mãe de Anderson.

 

Oito meses depois, não há punidos pela morte do jovem polidor, apaixonado pelos paredões de som e pai de uma menina de 5 anos. O veículo, da empresa Caxangá, número de ordem 519 e placa PDF-3393, foi identificado, mas não havia provas do acidente. Motoristas que estariam escalados naquele dia chegaram a ser ouvidos na Delegacia de Delitos de Trânsito, onde o inquérito está aberto, mas negaram qualquer acidente. A polícia diz não ter caminhos a seguir e o caso é mais um que começa a cair no esquecimento.

– As pessoas que viram o ônibus atropelar meu filho pegaram essas informações e repassaram para a polícia. Mas nada acontece. Cheguei a procurar a empresa, mas fui mal recebida e não sabia o que fazer. Não sei o que é preciso para esse motorista ser identificado. Acredito que é falta de interesse mesmo”, lamenta Vânia Maria. Dois dias antes do acidente, Anderson tinha caído de bike. Foi fechado por um carro, mas conseguiu pular da bicicleta e se equilibrar no pedaço de calçada por onde passava. Foi sua última chance.

Expediente

28 de Setembro de 2017

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