Descobrindo o prazer de ler

Projetos de escolas ajudam estudantes a adquirir hábito da leitura enriquecendo o vocabulário e o universo dos alunos

Por Juliana Ângela


Beatriz lê em média 15 livros por mês e gosta também de escrever suas histórias [foto: Felipe Ribeiro/JC Imagem]



É hora do recreio e Beatriz Férre, 10 anos, corre direto para a biblioteca, escolhe alguns livros e começa a diversão. A leitura alimenta a criatividade da garota, que, como muitas crianças, ainda não sabe direito que profissão seguir, mas tem certeza de que quer continuar exercitando a imaginação por meio da leitura e da escrita. No 5º ano do ensino fundamental, a menina diz que lê em média 15 livros por mês e escreve muitas histórias. Com um vocabulário bastante elevado para sua idade, fala empolgada sobre a importância da leitura: “Os livros fazem você visitar vários mundos e saber que omundo que você vive não é o único mundo criativo que existe”, afirma Beatriz. Matriculada em um colégio particular situado no bairro do Rosarinho, Zona Norte do Recife, Beatriz é exemplo de que práticas de incentivo à leitura vivenciadas na escola fazem a diferença no aprendizado e na formação dos alunos.

Assim como Beatriz, grande parte dos estudantes desse colégio fazem da biblioteca um local de lazer e essa postura é fruto de um trabalho de estímulo à leitura desenvolvido desde a educação infantil. Logo nos primeiros anos, as crianças já têm as chamadas aulas de biblioteca, em que as professoras levam os pequenos, contam histórias e fazem atividades para que se familiarizem com o ambiente e com os livros. No ensino fundamental 1, que vai do 1º ao 5º ano, as aulas na biblioteca ocorrem toda semana e são ministradas pela professora Janira Oliveira. Contratada no colégio como professora de literatura, ela dá aulas de biblioteca a todas as turmas do fundamental 1 e vivencia projetos de leitura diferentes com cada uma delas.

Nas aulas da tia Janira, como os alunos costumam chamá-la, não são cobradas notas. As crianças vivenciam atividades de leitura envolvendo dramatizações, contação de histórias, debates, atividades com fantoches, gravações de vídeos das histórias que leem. Além disso, em cada turma há um projeto sendo desenvolvido. No 1º ano, com o projeto intitulado Conhecendo o autor, os alunos estão aprendendo um pouco mais sobre Ruth Rocha e fazendo atividades de acordo com os livros da autora. Como 2º ano, Janira trabalha contos populares. E, para apresentar as obras de Shakespeare aos alunos do 5º ano, a estratégia da professora foi começar apresentando o autor, fazendo intertextualidade com outros meios como filmes, revistas, novelas. Depois de ler algumas obras os alunos vão promover um baile aos moldes da época de Shakespeare. Depois de lerem as histórias podem também reescrever o final.

A partir do ensino fundamental 2, os estudantes já têm aulas curriculares de literatura, mas continuam indo à biblioteca porque já vinham sendo estimulados desde cedo. “Desse modo formamos leitores que vêm em busca dos livros por prazer e não apenas para conseguir uma nota. Tentamos fazer com que as crianças gostem de ler para quando chegarem ao ensino médio não vejam os livros como uma obrigação para passar no vestibular”, afirma a professora.

Quando os estudantes não são incentivados a ler desde cedo, o professor do ensino médio tem um grande desafio pela frente. Foi diante desse desafio de semear nos jovens o prazer pela leitura e ao mesmo tempo promover a valorização da cultura e das artes que o professor Daniel Filho mobilizou os alunos do ensino médio de uma escola estadual da cidade de Petrolândia, no Sertão de Pernambuco, a 429 km do Recife. Com o projeto intitulado Integrando a sétima arte, na quinta edição, o professor de literatura e produção de texto acabou envolvendo toda a comunidade. Os alunos leem os livros, criam seus roteiros e gravam curtas metragens que são exibidos em sessões de cinema gratuitas, em um telão montado na praça da igreja matriz da cidade.

A exibição é um dos eventos mais esperados da cidade, as pessoas lotam a praça para assistir. O projeto também conta com uma premiação em 16 categorias seguindo os moldes da premiação do Oscar. “A cada edição os filmes ficam cada vez melhores e, para isso, os alunos têm que se preparar, ler mais e, consequentemente começaram a frequentar mais a biblioteca”, destaca Daniel Filho.


O ambiente procura promover o prazer pela leitura [foto: Felipe Ribeiro/JC Imagem]


Movimento cultural Boca do Lixo

Foi por iniciativa de um grupo de jovens artistas, a maioria deles músicos de bandas de rock, que surgiu a Biblioteca Multicultural Nascedouro. Os jovens fazem parte do movimento Cultural Boca do Lixo, que já promovia ações culturais nas comunidades, mas sentiam necessidade de uma atividade permanente. A proposta era concretizar o conceito de biblioteca viva, onde o acesso ao acervo é democratizado e aliado a práticas artísticas e pedagógicas. Assim, com o apoio de um poeta da comunidade e dono de um sebo, que doou os primeiros exemplares, o grupo foi à luta, participou de capacitações e, dois anos depois, a Biblioteca Multicultural Nascedouro foi inaugurada como integrante da rede de bibliotecas comunitárias Releitura.

Localizada em Peixinhos, nos limites de Olinda e Recife, a biblioteca atende a vários outros bairros e comunidades e vem cumprindo a proposta de ser um espaço diferenciado de incentivo à leitura, que foge dos moldes das bibliotecas tradicionais. O local é um ambiente para promoveroprazer pela leitura. A própria disposição das estantes de livros já é diferente das bibliotecas tradicionais. Além das atividades cotidianas de empréstimo de títulos e orientação à pesquisa, a biblioteca vivencia com crianças de escolas públicas e grupos comunitários atividades lúdico-pedagógicas, recitais de poesia, rodas de leitura, contação de história, exibição de filmes.

Todas as quintas-feiras são realizadas as mediações de leitura através do projeto Ler, brincar e aprender. Os professores procuram a biblioteca e agendam um horário para levar as turmas. Lá os alunos participam de brincadeiras, contação de histórias e produção de textos, tudo orientado por mediadores, capacitados pela rede de bibliotecas comunitárias e pelo programa Manoel bandeira da Prefeitura do Recife. Um dos mediadores, inclusive, quando criança foi frequentador da biblioteca e hoje faz parte da equipe gestora.

Além das atividades internas há também o Biblioboca Mambembe, um projeto itinerante em que a biblioteca vai atéa comunidade. Essa atividade é vivenciada a cada quatro mesesenecessita de uma grande mobilização. Seis tendas são montadas na rua com atividades diferentes como cantinho de leitura, oficinas, brincadeiras populares, contação de história. À noite, a culminância do projeto é uma sessão de cinema. Rogério Bezerra, coordenador executivo do Movimento Cultural Boca do Lixo, afirma que este ano, por falta de recursos o projeto ainda não pôde ser vivenciado. “O Movimentodas bibliotecas comunitárias é sem fins lucrativos. Realizamos nossas atividades por meio de instituições que custeiam nossos projetos ou com a ajuda de empresas parceiras. Essa ajuda infelizmente vem diminuindo”, lamenta Rogério.

Em busca de apoio, a equipe da Biblioteca Multicultural Nascedouro promoverá campanha nas redes sociais e no comércio local. Atualmente, a biblioteca tem 600 frequentadores cadastrados e atende uma média de 120 crianças por mês. “Estamos tentando sensibilizar nossos empresários a nos apoiar nessa luta de incentivar a leitura como uma forma de desenvolvimento humano”, afirma o coordenador do Movimento Cultural Boca do Lixo.

>> Para ajudar

A biblioteca multicultural Nascedouro fica na Avenida Jardim Brasília, s/n, Olinda, no Nascedouro de Peixinhos.
Contatos: 3244-3355 / 8839-2501, bibliotecanascedouro@gmail.com e movimentobocalixo@yahoo.com.br.