O futuro que se prevê já tem elementos no presente

Entrevista - Carmem Cardoso, psicanalista e sócia-fundadora da TGI Consultoria em Gestão

O profissional de hoje precisa desenvolver competências intelectuais e emocionais para lidar com a tecnologia e resolver conflitos. As tendências apontam para um leque de oportunidades de conhecimento, inovação e informação. Pelo excesso de estímulos que chegam, o momento é de fazer escolhas e selecionar qual caminho seguir. Essa é a opinião da psicanalista e sócia-fundadora da TGI Consultoria em Gestão, Carmem Cardoso.

CENÁRIO

Quando você começa a raciocinar sobre futuro, você raciocina em cima de tendências, de necessidades que você percebe que tenderão a se consolidar ou a se acentuar. O conceito de planejamento estratégico é começar a construir o futuro desejado hoje, e você não constrói em cima do nada, mas sim baseado na observação de tendências ou até do que a gente chama de fatos portadores de futuro. A realidade hoje tem evidências de que essas demandas que se imaginam vão se consolidar no futuro, já estão presentes. Por exemplo, a tecnologia. As escolas já falam em crianças como nativos digitais; os jovens que chegam às empresas como estagiários ou trainees são pessoas para quem a vida digital é algo absolutamente natural em seu cotidiano. A comunicação está cada vez mais rápida. Antes se utilizava muito o e-mail, hoje os aplicativos agilizam essa interação. São tendências consolidadas na magnitude.

INDIVIDUALIDADE

Cada vez mais há a clareza de que as pessoas é que fazem a grande diferença na condução dos negócios. O conceito de Inteligência Emocional não é um conceito novo, mas está mais acentuado. Durante muito tempo se achou que a inteligência estava mais relacionada à dimensão intelectual, de raciocínio, de capacidade de lógica, de expressão e de análise. A partir da contribuição de alguns teóricos, hoje sabe-se que a experiência de vida também é importante. Você pode ser uma pessoa de mente brilhante, mas de comportamento desastroso no dia a dia, na relação com as pessoas. Com isso, o empresário sente que a habilidade de liderança – que alia competências intelectuais a competências emocionais – é cada vez mais decisiva na condução dos negócios, não só na relação com a equipe, como na relação com outros empresários, com fornecedores, na sua posição como cidadão.

 

ENSINO

As universidades precisam pensar mais crescentemente sobre a preparação emocional. Recentemente eu li algo sobre incluir a disciplina da felicidade na grade curricular. O nome é até um pouco romântico, mas, na verdade, quando você se aprofunda, significa que o que vai fazer a diferença no mercado de trabalho, na vida, não é só o profissional intelectual e cheio de conhecimento que você vai ser, mas a qualidade de pessoa que você é. Antes se esperava isso das lideranças nas empresas, essa habilidade no relacionamento interpessoal – de perceber o outro e não só ser centrado em você mesmo. Mas hoje há um conhecimento de que qualquer pessoa, em qualquer nível da hierarquia, em qualquer função, precisa dessa complexidade de saber se relacionar, de saber trabalhar em equipe, de ter sensibilidade com o outro, de perceber a individualidade e lidar com as diferenças. Essa habilidade é vital em qualquer relação, seja profissional ou pessoal, porque você não pode tomar o outro como espelho de si, ninguém é. 

MUDANÇAS

Eu acompanho através dos meus netos, que estão no ensino fundamental, que a escola está crescentemente atenta ao fato de que o processo de aprendizagem hoje é central. Àquela expectativa de que o professor é aquele que transmite conhecimento está mudando. O professor é aquele que mobiliza o aluno a buscar conhecimento, a se apropriar do conhecimento e a lidar com ele. E veja que essa não é uma visão de agora, tem uma frase de Guimarães Rosa, no livro Grandes Sertões Veredas, que diz: “mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende”. Então, mostra que a relação entre ensino e aprendizagem precisa ser de mão dupla. O professor não é aquele que detém conhecimento, professor é aquele que tem por função catalisar no aluno a capacidade de aprender e se desenvolver.

 

INICIATIVA

A empresa pode e deve estimular o conhecimento de um profissional, mas é você que tem que cuidar do seu conhecimento. É preciso ter o que em inglês chamamos de “drive”, que é o movimento próprio, uma certa inquietação, ou até a inconformidade com o que já sabe, está relacionado à disposição de aprender coisas novas, de buscar coisas novas e não ter uma posição passiva. A passividade, esperar que o outro faça, que o outro responda pelo que você precisa, que o outro assegure que você tenha o que você precisa não é mais um conceito, algumas pessoas ainda esperam, mas já uma convicção mais ampla e generalizada de que a empresa não responde pelo seu desenvolvimento, a empresa estimula e cria algumas condições, dá alguns aportes, promove alguns insumos, mas é você que tem que cuidar do seu conhecimento.

 

ESTÍMULOS

O mundo hoje é um mar de oportunidades, para conhecimento, para informação, para inovação. No entanto, essa busca por conhecimento é paradoxal. Há um tempo, ele chega mais fácil. Por outro lado, chega tanto, que atordoa e exige cada vez mais uma habilidade de selecionar, de fazer escolhas. É como quando você navega na internet, se você não tiver clareza de que tipo de informação você quer, você se perde com uma facilidade imensa, porque a internet estimula, levando para um caminho orientado pelo aplicativo, pelo site, e aí é você que tem que ter clareza de que tipo de informação você quer, precisa decidir, senão aquilo que era sua tarefa inicial fica distante. Então é um misto, de oportunidade e de ameaça, por essa overdose de estímulos e ofertas.

IDIOMAS

Num cenário em que já se espera que o profissional saiba o idioma inglês, o domínio de outras línguas é sim um diferencial, mas você tem que pensar em que mundo você está inserido. Se é um mundo de relações mais próximas com a América Latina, estudar espanhol é uma boa opção. Se busca ou integra a equipe de uma multinacional com raízes na Europa, a escolha mais viável será dominar a língua nativa da empresa. Alguém que vai seguir como relações internacionais tem que dominar algumas outras línguas. Então, é observar no campo do conhecimento qual o tipo de país lhe interessa mais, qual tem maior relação com seu contexto. E o bom é que quando você começa a multiplicar seu domínio em línguas, fica cada vez mais fácil aprender outros idiomas. É como se você quebrasse as fixações mentais para sua língua mãe, desenvolvendo a facilidade de aprender outros idiomas.

 

PREPARAÇÃO

Eu só faria uma ressalva, para a gente não idealizar que vai existir um dia um profissional pronto, com domínio teórico e, sobretudo, das emoções. Eu acho que a gente precisa ter sensibilidade para lidar com as emoções, mas cada um de nós está sujeito em algum momento a não dominá-las, porque teve uma experiência tão forte ou tão traumática. A gente não pode imaginar um profissional muito perfeito. Os ideais de perfeição são sempre tirânicos e exigem de qualquer um de nós algo que ninguém consegue ser, que é alguém todo o tempo equilibrado, cheio de conhecimento, estruturado, essa pessoa é uma ficção. Digamos, sim, que esse profissional é alguém que tem um bom desenvolvimento nas coisas centrais, na habilidade emocional – eu chamaria habilidade, não domínio – bons conhecimentos naquilo que é sua área de competência e conhecimento da realidade que o cerca.

 

FLEXIBILIDADE

Eu acho que esse profissional já está mais habilitado hoje e estará, de certo, no futuro. Um profissional mais flexível, que tenha a capacidade para desaprender o que já não funciona mais no mundo que vive e reaprender ou aprender coisas novas. Para alguns teóricos, essa habilidade do processo de desenvolvimento é mais importante do que dominar conhecimentos. Pessoas que são verdadeiras enciclopédias não são hoje mais o padrão, mas sim aquela pessoa viva, que está sempre atenta ao que pode aprender de novo, com capacidade de se movimentar e renovar a realidade em que vive.

 

TENDÊNCIAS

Quando falamos nesse profissional mais preparado para o futuro, considero como tendências essa capacidade de desaprender e reaprender, além da capacidade de fazer escolhas e ter clareza para onde vai. Você não é um refém do mundo ou uma pessoa passiva, esperando oportunidades que vão lhe levar, é você que faz o seu caminho. E um profissional precisa ter essa clareza, que ele tem prumo, tem uma centralidade. É claro que ele pode fazer mudanças ao longo da vida – ele pode mudar de emprego, ampliar competências, adquirir novas habilidades – mas ele tem que ter clareza de onde está o eixo, do que ele quer como sucesso profissional. O mundo oferece tantos estímulos, que corre o risco de ser dispersivo e o profissional ficar nessa de “essa é a tendência, eu vou por aqui” e não ter um prumo de volta. É uma questão de autoconhecimento. Assim, ele estará com mais prontidão para o futuro.

 

FUTURO

A gente nunca vai estar preparado, de fato, para o futuro até que ele chegue. Só que o futuro não vai simplesmente chegar amanhã e estourar, você vai acompanhando as tendências, reciclando conhecimento, buscando novas oportunidades. Por isso que eu não acho que a visão do futuro possa ser catastrófica. O desafio é a gente lidar com o futuro hoje e saber que ele não é uma ameaça, tenho uma visão muito positiva dessa disponibilidade para o futuro. Eu ouço, às vezes, um pai dizer que vai preparar o filho porque o futuro será totalmente diferente e eu digo que sim, será diferente para você, mas o prepare para a vida, para buscar conhecimento, inovar e não vai ter como ele não dar conta de qualquer futuro que venha.

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