SANTA CATARINA MOSTRA QUE BASTA QUERER MUDAR REALIDADE DA EDUCAÇÃO

Duas frases impressas no verso de uma nota fiscal emitida em uma lanchonete da cidade de Brusque (Vale do Itajaí) resumem o motivo da visita a Santa Catarina. “Você pode mudar a educação. E a educação pode mudar o Brasil.” Na primeira parada da equipe do Sistema Jornal do Commercio para uma refeição depois de deixar o Recife, pousar em Florianópolis e rumar por mais de 100 quilômetros a noroeste, a mensagem no papel reforça a vontade coletiva dos catarinenses. A disposição para melhorar a qualidade e o acesso ao ensino público. Há cerca de cinco anos o Estado vive uma revolução ao tornar o tema uma prioridade constante de toda a sociedade. Essa mudança ganhou o nome de Movimento Santa Catarina pela Educação. Que hoje reúne mais de duas mil empresas. Exemplo para Pernambuco e para o Brasil.

“Você pode mudar a educação. E a educação pode mudar o Brasil” Frase impressa no verso da nota fiscal de uma lanchonete

A inquietação com os indicadores educacionais partiu da indústria. O setor ocupa quase 24% da população de Santa Catarina, que tem o sexto maior PIB do País. Há cinco anos, 39% dos trabalhadores industriais não tinham formação básica concluída, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego. O Estado, então, vivia um impasse: como manter um crescimento sustentável sem mão de obra qualificada? Mais que a resposta, a ação partiu de um personagem essencial nessa história, o presidente da Fiesc, Glauco José Côrte. Em 2012 ele arregaçou as mangas e, usando sua influência, reuniu empresas interessadas em investir no futuro e criou o movimento A Indústria Pela Educação. “Educação sempre foi importante para o País, mas nunca prioridade. Em Santa Catarina agora ela é prioridade”, garante. A mobilização conseguiu captar, de uma só vez, o interesse pela educação e a inclinação que parece ser natural dos catarinenses de olhar para a coletividade.

Um ano após o início da mobilização, o executivo Gilberto Heinzelmann assumiu a presidência da Zen Metal Mecânica, indústria produtora e exportadora de peças de motor criada há mais de 50 anos em Brusque, a tal cidade do Vale do Itajaí onde a reportagem fez a primeira parada. Adepto do movimento, sua proposta de gestão estratégica era investir na qualificação dos próprios funcionários, desde a base até os cargos mais altos. Sempre que explica a razão da iniciativa, ele faz a mesma reflexão em tom de parábola. “O diretor financeiro da empresa olha para o presidente e diz: ‘mas se a gente investir tudo isso em educação dos funcionários e eles forem embora?’. E o presidente responde: ‘pior! E se a gente não investir nada e eles ficarem?’”, lembra Heinzelmann.

Os investimentos da Zen incluem desde o pagamento de bolsas de estudo para os funcionários à criação da Academia do Saber, estrutura criada para aulas e treinamentos oferecidos em parceria com o Sesi e o Senai. A empresa com cerca de 1 mil empregados realiza ainda projetos de videoaula e de multiplicação de conhecimento entre eles. Os resultados vieram rápido: em quatro anos, os custos de não qualidade – índice que mede os produtos com defeitos – caíram 69%; a produtividade por colaborador cresceu 24% e a eficiência no uso de equipamentos subiu de 60% para 80%.

Empresários de vários setores se uniram por um objetivo comum: elevar o desempenho da educação em Santa Catarina

RAIO-X SANTA CATARINA

  • Santa Catarina
  • Pernambuco

TERRITÓRIOS

(por mil KM)

NÚMEROS DE MUNICÍPIOS

*(184 mais Fernando de Noronha)

POPULAÇÃO

(em milhões)

PIB 2016

(projeções - em bilhões)

EDUCAÇÃO

Desempenho no Ideb

ESTRUTURA

A iniciativa da indústria causou um efeito cascata, despertando interesse das federações estaduais de comércio e serviços (Fecomércio-SC), da Agricultura (Faesc) e dos Transportes (Fetranscesc). Em março de 2016, o nome do movimento foi mudado para como é conhecido hoje, abraçando quem mais queira participar. A iniciativa recebeu também o reconhecimento de organizações de peso nacional, como o Instituto Ayrton Senna, da qual se tornou parceira. Além da própria cultura catarinense, muito desse sucesso se deve à abrangência do movimento, que incentiva empresas a qualificarem seus funcionários e oferece suporte a escolas públicas, atuando no ensino regular, continuado e técnico.

No topo da pirâmide organizacional do Movimento, está o Conselho de Governança, composto por 25 membros – presidentes das federações, empresários, representantes de ONGs, secretários estadual e municipais de educação e estudantes. A mesma estrutura se ramifica em 16 câmaras regionais espalhadas pelo estado com a ideia de aproximá-las das realidades locais. Nessas há pelo menos 12 assentos. Dois desses lugares são ocupados por jovens embaixadores, um dos pilares de atuação da iniciativa.

Em Blumenau, cidade a 140 quilômetros de Florianópolis, um dos postos pertence a Lucas Rodrigues, 17 anos. “O principal papel do Jovem Embaixador é trazer o olhar do estudante para o Movimento. A educação muda constantemente, ela precisa estar sempre evoluindo com a tecnologia para atrair a atenção do jovem”, diz Lucas. Filho de costureira e de segurança, o adolescente estudou a vida toda em escola pública e faz curso técnico em gestão financeira no Senac.

Durante as reuniões nas câmaras regionais, os representantes dão voz às necessidades sentidas por todos os alunos e, com os demais integrantes, montam planos anuais. O roteiro é desempenhado de forma segmentada (as câmaras) e em nível estadual. Com essa estrutura, o movimento consegue trabalhar pelo objetivo comum de elevação da escolaridade dos trabalhadores e identificar desafios locais ou boas práticas a serem replicadas. Para acompanhar os desempenhos, são realizadas reuniões bimestrais.

ESCOLAS

Parte do monitoramento é destinado ao que acontece dentro das 34 escolas públicas parceiras do Movimento. Uma delas é a Escola Dom Jaime de Barros Câmara, no bairro Ribeirão da Ilha, Zona Sul de Florianópolis. Com pouco mais de 500 alunos e 40 professores, a unidade recebeu uma consultoria para identificar potencialidades e problemas do local. “Eles querem ouvir a gente, nos colocaram para conversar, trocar ideias. Queriam saber o que temos a oferecer. Não é uma coisa simplesmente de nos dizerem como devemos trabalhar”, lembra a professora de sociologia Jaciara Mariano, elogiando o tom colaborativo da proposta. A valorização dos professores é, aliás, o tema atual do Movimento, que desde a sua criação escolhe anualmente um aspecto da educação para desenvolver junto às unidades de ensino. Em 2016, por exemplo, foi criado o Dia da Família na Escola.

Além das escolas parceiras, outras são beneficiadas por projetos específicos, como o Eu Voluntário. Ele atende a 256 instituições públicas através de banco de dados de pessoas dispostas a colaborar com a unidade de ensino mais próxima. Ao se cadastrar no site do Movimento, o voluntário informa turno e dia da semana de preferência, e qual ajuda pretende oferecer – o que pode ir de aula de reforço a manutenção predial.

“A educação pública no Brasil tem um déficit de qualidade. É claro que ninguém é obrigado a ajudar, mas acho que sendo voluntário de certa forma você faz a diferença. Mesmo que seja um grão de areia, mas você está fazendo parte de algo que está ajudando a recuperar o ensino no País”, diz o estudante de engenharia Arthur Fulegraf, 25 anos. Ele dá aulas de reforço de matemática para estudantes do ensino médio na Escola Estadual Jacó Andrade, em Vargem de Fora bairro da Zona Norte de Florianópolis. A iniciativa surgiu porque Arthur tinha um tempo livre à tarde e decidiu ocupá-lo de maneira socialmente útil.

“É claro que ninguém é obrigado a ajudar, mas acho que sendo voluntário de certa forma você faz a diferença” Arthur Fulegraf

PRÊMIOS

Para estimular que as empresas invistam, além de capacitações, na conclusão do ensino básico dos funcionários, criou-se um prêmio anual para reconhecer iniciativas. Em 2015, a produtora de embalagens BN Papéis foi uma das premiadas. Localizada na cidade de Benedito Novo, de apenas 11 mil habitantes e a 200 quilômetros de Florianópolis, a empresa se destacou por montar uma sala de aula dentro das dependências para que os empregados e toda a comunidade completassem o ensino médio.

Por tratar-se de um município muito pequeno e predominantemente rural, o impacto de uma sala de aula representou uma reviravolta na vida de muitas pessoas. “Todo mundo quer crescer aqui na empresa e o estudo ajuda bastante. O medo de não saber como trabalhar na área me fez começar no setor da faxina. Depois, com o tempo e o estudo, fui sendo promovida até chegar à operação. E eu vou mais longe, sonho em fazer uma faculdade”, garante a operadora de máquinas Célia de Fátima, 28. Ex-agricultora, ela abandonou a escola antes de concluir o ensino médio, o que tornou sua entrada na BN mais que um emprego formal, uma oportunidade de crescimento.

Com 111 funcionários, a empresa conseguiu transformar o investimento em educação em números financeiramente positivos: O faturamento per capita (distribuído pelo número de funcionários) cresceu 31% em cinco anos e as faltas sem justificativa caíram de 5,3% para 0,06%. “Quando se trabalha em comunidade, todo mundo evolui, eleva-se o grau de exigência. A contrapartida não é imediata, mas ela vem”, analisa o superintendente de logística da BN, Max Heinzen.

Ex-agricultora, Célia começou a trabalhar na indústria no setor de limpeza. Depois de estudar, hoje é operadora de máquinas

"SENHOR EDUCAÇÃO": O HOMEM DECIDIU ARREGAÇAR AS MANGAS

De fala mansa e puxando o “r”, pronunciado sempre “ere” – como manda o sotaque local –, Glauco José Côrte, 74 anos, é o grande responsável pela revolução iniciada em Santa Catarina.

Com uma vida ligada à educação, Glauco José Côrte é o líder que o estado precisava

Não bastaria a vontade coletiva dos catarinenses, era preciso alguém para assumir o comando e liderar o movimento. Mais que isso. Para que os resultados viessem tão depressa, havia a necessidade que esse líder não assumisse o posto por interesses pessoais ou políticos. Ex-professor, filho de professor e entusiasta da educação, Côrte, atual presidente da Fiesc, decidiu ser essa pessoa.

“Decidiu” porque ele não precisaria ser. Tem uma carreira estabelecida e tempo de trabalho suficiente para desejar apenas diminuir o ritmo. Foi professor de escola pública antes de concluir o curso de direito na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Paralelamente à carreira de empresário, deu aula no curso de economia da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), de onde acabou se tornando diretor. Com uma relação forte com a educação, ao assumir a presidência da Federação em 2011, poderia apenas ter cumprido o protocolo de suas funções. Mas, ao se deparar com os baixos índices de escolaridade dos trabalhadores da indústria, Glauco se incomodou e resolveu trabalhar para mudar a realidade de um estado inteiro. “O dado me chocou um pouco porque temos uma indústria qualificada em Santa Catarina, mas que precisa se preparar para a revolução 4.0”, lembra.

Usou sua influência, uniu empresários de todo o estado, procurou entidades especializadas em educação e traçou uma meta ambiciosa: que todos os trabalhadores catarineses – de todos os setores – tenham a formação básica completa até 2024. O ritmo de trabalho só se intensificou desde então. Côrte viaja todo o estado, acompanha os lançamentos de projetos, visita empresas e escolas. “É engraçado que, quando chego em uma cidade, os empresários, antes de me perguntarem algo sobre crise ou sobre economia, me perguntam sobre o movimento”, diz, abrindo um sorriso satisfeito. O empenho pessoal para uma mudança efetiva rendeu a Côrte o apelido de “Senhor Educação”.

TODOS PELA EDUCAÇÃO

» Nacionalmente, o movimento Todos pela Educação (TPE) é um bom exemplo de ação da iniciativa privada para melhorar a educação pública brasileira. Foi fundado em 2006, com a missão de engajar o poder público e a sociedade brasileira no compromisso pela efetivação do direito de crianças e jovens a uma educação básica de qualidade.

» O TPE conta com recursos financeiros exclusivamente advindos do setor privado. Tem uma equipe executiva diversa e um conselho de governança composto por pessoas que atuam na educação - seja no terceiro setor, na gestão educacional ou na academia - e representantes das empresas mantenedoras.

» O movimento monitora as políticas públicas educacionais e atua na produção de conhecimento e levantamentos estatísticos e pesquisas, além do trabalho junto à imprensa e meios de comunicação e articulação para fortalecimento de políticas públicas.

SILVIO MEIRA: "COMECE MUDANDO OS PROFESSORES"

Atual presidente do Conselho do Porto Digital, Silvio Meira gosta de ser reconhecido pelo ofício de professor. Excêntrico nas vestes, é também um provocador. E um dos nomes envolvidos em projetos que tornaram o Recife referência na Tecnologia da Informação (TI). Meira pensa à frente do seu tempo. É reconhecido em todo o Brasil pelo trabalho ligado à inovação, o que o tornou uma espécie de “guru” do futuro. Mas não há futuro próspero sem educação. Por isso, o JC entrevistou o professor emérito do Centro de Informática da UFPE e professor associado da Escola de Direito da FGV para entender quais os desafios da educação em um mundo no qual as mudanças acontecem na velocidade da atualização de um app. Além de contestar o formato pouco eficiente da educação no Brasil, ele defende que tudo precisa começar pela qualificação da própria categoria, a do professor.

A EXPERIÊNCIA DE CINGAPURA E COREIA