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Retomada necessária

Suape é enorme. Dentro de seu território de 13.500 hectares – a 50km do Recife, no Litoral Sul de Pernambuco –, cabem três cidades do tamanho de Olinda. A dimensão geográfica é correspondente à dimensão econômica. Estimativas da Agência Estadual de Planejamento e Pesquisas de Pernambuco (Condepe/Fidem) indicam que o Complexo Industrial e Portuário teve um impacto de 7% a 8% no Produto Interno Bruto (PIB) de todo o Estado em 2012, quase o triplo de todo o setor agropecuário. Um percentual que confirma avaliações de diversos especialistas ouvidos pelo Jornal do Commercio: a posição estratégica do porto e o acertado modelo de união do terminal com o distrito industrial fazem de Suape, uma estatal pernambucana, um ás no jogo econômico.

Esses fatores marcantes – aliados a decisões políticas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e à ascensão do Nordeste como mercado consumidor – fizeram do maior equipamento logístico de Pernambuco o lugar ideal para três grandes empreendimentos ligados direta ou indiretamente à Petrobras: a Refinaria Abreu e Lima, a PetroquímicaSuape e o Estaleiro Atlântico Sul. Na primeira década dos anos 2000, eles alavancaram o complexo a níveis inéditos dentro do mapa industrial e logístico brasileiro, fazendo brotar ao seu redor dezenas de outras grandes, médias e pequenas empresas. Aqui entra outra correspondência ao tamanho físico de Suape: o desafio de gerir seus próprios efeitos.

Tecon

Tecon, único terminal de contêineres que funciona atualmente no porto – Foto: Fernando da Hora/JC Imagem

 

Em 2011, o JC publicou a primeira edição do Documento Suape – Redenção e Contradição, mostrando como Pernambuco tinha entrado em um promissor novo ciclo econômico, mas, ao mesmo tempo, tinha monumentais problemas sociais e ambientais a serem tratados. Hoje, pouco mais de um ano depois do início da Operação Lava Jato, que começou a expor um extenso esquema de corrupção na Petrobras, seus desdobramentos abalaram Suape, com histórias de pessoas e empresas que ficaram pelo caminho.

Esse choque não poderia ter vindo em momento pior: no meio da desmobilização das quase 50 mil pessoas que trabalhavam nas obras de construção e quando o País está às voltas com a primeira retração econômica significativa desde a estabilidade alcançada com o Plano Real.

Ao menos uma notícia recente teve peso o bastante para contrastar com essas adversidades: no mês passado, o porto foi incluído na nova fase do Programa de Investimento em Logística (PIL), do governo federal. Com isso, cinco novos terminais vão entrar em licitação para concessão à iniciativa privada até 2016. Desde a implantação da Lei dos Portos, em 2013, Suape perdeu a autonomia desse processo, que agora é administrado de forma burocrática pela Secretaria de Portos (SEP) e pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq).

Esse cenário fez o JC voltar ao complexo e revisitar as questões levantadas em 2011. Desta vez, o projeto é reforçado com a parceria com a TV Jornal, que exibe uma série sobre o assunto desta terça-feira (7/7) até esta sexta-feira (9/7), Notícias da Manhã e no TV Jornal Meio Dia.


CRESCIMENTO ESBARRA EM PONTOS CRUCIAIS

Um ponto comum nas avaliações sobre Suape é quanto às deficiências de infraestrutura e aos custos altos. Pesquisa realizada pela professora de logística e mestranda em gestão empresarial Fabiane Veras mostra que a sugestão com maior grau de prioridade dada pelos usuários do terminal foi a melhora no acesso multimodal (21,4%), mais especificamente o acesso ferroviário (39,6%), seguido do rodoviário (35,4%). Em sua análise, a pesquisadora comenta que as vias terrestres para se chegar ao complexo têm sérios entraves, gerando congestionamentos e atrasando a movimentação de carga e pessoal. “Para a circulação de pessoas, uma linha do metrô, com destino ao porto, desafogaria parte da movimentação de veículos nas vias de acesso. No acesso ferroviário faltam rotas ativas que interliguem Suape aos outros estados, como por exemplo, à Bahia e ao Ceará”, acrescenta.

Refinaria Abreu e Lima

Principal empreendimento do Polo Petroquímico, Refinaria Abreu e Lima só terá obras retomadas em 2017 – Foto: Fernando da Hora/JC Imagem

Quanto aos custos, os problemas apontados com maior importância são preços altos, pouca concorrência entre os operadores e baixa produtividade. A pesquisa reforça avaliações de empresas como a Aliança, subsidiária da Hamburg Süd, um dos principais armadores que atuam em Suape. “Com os atuais índices de produtividade, custo e restrições operacionais, infelizmente não contemplamos a entrada de novos serviços e navios maiores no porto”, diz o diretor-executivo de Operações e Logística da Aliança, José Roberto Salgado. Na avaliação dele, o Porto de Suape é o “mais caro da América do Sul, com custos que chegam acima de 100% de valores pagos no Sul do Brasil”.

Presidente de Suape e titular da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico, Thiago Norões não concorda com as queixas relacionadas à infraestrutura, mas sim com as que dizem respeito às operações. “Realmente temos deficiência na operação. Temos que reconhecer isso”. Para ele, o ajuste necessário virá com a abertura de um novo terminal, que será viabilizado através das novas licitações previstas para 2016.

Ouça o áudio completo da entrevista com Thiago Norões

Quanto à infraestrutura, a administração de Suape acrescenta que, nos últimos oito anos, o complexo já recebeu mais de R$ 2,2 bilhões em investimentos públicos para obras de infraestrutura viária, portuária e industrial. O governo também assinou convênios com empresas privadas para recuperar três trechos da BR-101 Sul e da PE-08, em Jaboatão dos Guararapes. As obras, que representarão R$ 12,4 milhões em investimentos (abatidos do ICMS das companhias), já começaram.

 

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FUTURO DEPENDE DE NOVOS DIRECIONAMENTOS

Os grandes empreendimentos ligados à Petrobras foram responsáveis pelo maior impulso econômico da história de Suape, mas não representam a totalidade do complexo, que tem na diversidade uma das suas vantagens competitivas. A economista e sócia da Ceplan Consultoria Tânia Bacelar diz que a situação da Petrobras é delicada, mas a estatal “tem uma riqueza muito grande” e vai se recuperar. Tânia lembra ainda da importância dos outros diversos segmentos – alimentos, logística, energia, materiais de construção, automóveis, etc – que sustentam o vigor econômico fluente do complexo. “A maioria dos investimentos em Suape tem consistência. Além disso, temos um porto moderno e bem localizado. É um ativo muito importante”, pontua.

Para a economista, a continuidade dessa capacidade do complexo em contribuir com a economia pernambucana depende de escolhas de direcionamento. Ela defende que novas empresas sejam instaladas em áreas próximas à BR-101 e mais distantes do mar. Na visão de Tânia, as belezas naturais próximas a Suape devem ser aproveitadas para o turismo.

Diretor da consultoria Macroplan, Cláudio Porto ressalta que esse tipo de planejamento é indispensável. “Suape é um bom exemplo de projeto de Estado e não de um governo. Por isso deu certo. A visão de longo prazo foi um dos acertos do complexo”, diz Porto, que defende a atração de serviços especializados como um indutor importante para o avanço do nível tecnológico das empresas instaladas aqui. “Um recurso seria um inventário da demanda das indústrias por serviços especializados para começar a buscá-los”, sugere. O especialista inclui essa sondagem em um esforço de melhoria do ambiente de negócios, que engloba também melhoria da infraestrutura e de produtividade.

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Depois da euforia, contam-se os prejuízos

Foto: Igo Bione/JC Imagem

Trabalhadores de todo o Brasil vieram no rastro das obras de Suape – Foto: Igo Bione/Acervo JC Imagem

Os homens da obra invadiram as cidades. Durante oito anos foi impossível não saber deles. Fardas estendidas nos varais, cerveja e cachaça na praia, sacolas cheias no comércio, vaivém nos ônibus das empresas, dominó na praça, restaurantes abarrotados, pelada nos campinhos, filas nos bancos nos dias de pagamento. Vieram construir a Refinaria Abreu e Lima (Rnest), no Complexo de Suape. Quarenta e cinco mil pessoas trabalhando para levantar a 15ª unidade de refino da Petrobras no País e a primeira depois de um intervalo de três décadas. Os pernambucanos comemorando a materialização de um sonho acalentado desde os anos 1950 e os “trecheiros” fazendo pouso em mais uma grande obra, na sua trajetória de lida itinerante.

Em 2014, as cidades começaram a sentir a ausência dos operários. O primeiro trem da refinaria começaria a funcionar no final do ano e acabaria a primeira etapa da construção. “Todo mundo sabia que a obra ia acabar, mas nem nos nossos piores pesadelos imaginávamos que seria desse jeito. Além de perder seus empregos, muitos trabalhadores levaram calote. Vários consórcios demitiram sem pagar salários nem verbas rescisórias. Hoje temos ações individuais e coletivas na Justiça representando 18 mil ex-funcionários”, afirma o presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Construção Pesada em Pernambuco (Sintepav-PE), Aldo Amaral.

Os problemas de gestão na obra já eram conhecidos, mas a situação se agravou com as denúncias de corrupção na Petrobras e as investigações da Operação Lava Jato, iniciadas em março de 2014. O envolvimento de empreiteiras e consórcios da Rnest no petrolão resultou em problemas de caixa e na suspensão de pagamentos a fornecedores e funcionários. “As primeiras a deixar o trabalhador na mão foram Jaraguá e Alusa. Depois de muita briga na Justiça, a Alusa pagou 55% do que devia, mas ainda ficou um débito de R$ 130 milhões sem data para liberação, porque a empresa está em recuperação judicial”, observa Amaral. Pelas contas do Sintepav, a dívida dos consórcios com os empregados chega a R$ 200 milhões.

O imbróglio do petrolão também suspendeu as obras do segundo trem da Abreu e Lima. No Plano de Negócios e Gestão 2015-2019, divulgado no último dia 29, a Petrobras prevê um investimento de US$ 1,4 bilhão para a conclusão da obra da Rnest. As obras do segundo trem só serão retomadas em 2017, com previsão de partida para o final de 2018. Com mais esse aporte, a refinaria vai custar US$ 20 bilhões, valor quase dez vezes acima do orçamento inicial de US$ 2,5 bilhões. Durante as investigações da Lava Jato, a petrolífera reconheceu uma perda de R$ 6,2 bilhões no caixa da empresa, decorrente da corrupção.

 

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Antes que as denúncias do petrolão fossem intensificadas, a Petrobras anunciava para maio deste ano o início da operação do segundo trem da Abreu e Lima. “Esse problema de corrupção precipitou o fim da obra. A gente ainda apostava em pelo menos mais 18 meses de construção e na manutenção de 15 mil a 18 mil empregos”, calcula Amaral. Sem a continuação da segunda etapa, a desmobilização da Rnest foi mais dramática e ficou na história como a segunda maior do Brasil, atrás apenas da construção de Brasília, que empregou 60 mil pessoas.

No canteiro de obras da refinaria, que chegou a ter 45 mil trabalhadores, hoje sobram 3 mil remanescentes. Os alojamentos, que fervilhavam como minicidades, estão desocupados. Os municípios vizinhos ao empreendimento convivem com uma brusca desaceleração econômica. A baixa começou com a desmobilização e o calote aos operários. Os desligamentos também resvalaram em outros empreendimentos da petrolífera, a exemplo da PetroquímicaSuape (PQS) – complexo integrado por unidades de PTA (matéria-prima da resina PET), PET e filamentos têxteis.

“Muitas pessoas com curso superior e pós-graduação embarcaram na ilusão de trabalhar numa fábrica da Petrobras, mesmo que o concurso exigisse ensino médio ou fundamental. A Citepe (fábrica têxtil da PQS) não chegou a funcionar na capacidade para a qual foi planejada. Agora estão demitindo as pessoas alegando problemas da Lava Jato e dificuldades financeiras. Nosso sonho durou pouco tempo. Passei três anos na empresa e agora decidi entrar no programa de demissão voluntário que pouco oferece a quem quer sair”, afirma Rebeka Gomes, 23, junto com o marido José Soares, 32, também demitido.

O economista e sócio-diretor da Ceplan Consultoria, Valdeci Monteiro, alerta para a reversão de uma tendência que se confirmou nos últimos anos em Pernambuco: a expansão do emprego formal e o aumento da renda. “Depois da desmobilização, há uma expectativa de volta à informalidade e dificuldade em obter emprego com o mesmo patamar salarial”, analisa.

A chegada da refinaria e dos estaleiros Atlântico Sul (EAS) e Vard Promar obrigou os sindicatos locais a encampar novos padrões de reivindicação. Na construção pesada, desde 2008, as correções salariais nunca ficaram abaixo de 9%, alcançando pico de 11% na campanha 2011/2012. Quando acabou a obra, o menor salário da categoria era de R$ 963,60 para um servente e de R$ 5.040,20 para um encarregado de solda ou de tubulação. O valor da cesta básica saltou de R$ 25 em 2009/2010 para R$ 350 no ano passado. “Além disso, também conquistamos o adicional de periculosidade de 30% sobre o valor do salário e a equiparação de valores para as mesmas funções nos diferentes consórcios da obra”, comemora Amaral.

Foto: Fernando da Hora/JC Imagem

Rebeka Gomes e José Soares foram demitidos da PetroquímicaSuape – Foto: Fernando da Hora/JC Imagem

Agora a situação é outra. A soldadora Josenilda Maria da Silva, 36 anos, conta que enfrenta dificuldade para encontrar emprego com salário semelhante ao que ela recebia. “Deixei mais de 30 currículos nas empresas. Pro lado de Goiana, onde está funcionando a fábrica da Jeep, querem pagar R$ 1.200 a um soldador. Não compensa a distância de sair daqui de Ipojuca pra lá”, diz, lembrando que recebia R$ 3.580 por mês do consórcio Ipojuca Interligações, na obra da refinaria.

Neka, como é conhecida pelos colegas, foi madrinha do João Cândido (em 2010), o primeiro navio construído pelo EAS em Pernambuco. “Não pensava que em tão pouco tempo as coisas por aqui estariam ruins. Andei pelo estaleiro de braços dados com o presidente Lula e tínhamos esperança de que a indústria naval renasceria com sucesso”, lamenta a soldadora, que está desempregada desde dezembro de 2014.

No setor metalmecânico, o cenário também é desalentador. O Estaleiro Atlântico Sul reclama uma dívida de US$ 1 bilhão da Sete Brasil, empresa investigada na Lava Jato. Desde outubro do ano passado, o EAS demitiu 2 mil funcionários, alegando problemas de caixa para manter o pessoal. Hoje o empreendimento tem 3.700 colaboradores. Enquanto escrevíamos esta reportagem, foi necessário alterar os dados sobre trabalhadores várias vezes, em função das constantes levas de demissões. “E não para só no EAS. Outras empresas que forneciam para os estaleiros e a refinaria também demitiram. Calculamos um total de 3.800 desligamentos na categoria até agora”, diz o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos (Sindmetal), Henrique Gomes.

 

DESAFIO DA RETOMADA

Empresários pernambucanos perderam as contas de quantas vezes participaram de reuniões para discutir a possibilidade de fornecimento local nos setores de petróleo e gás, naval e offshore, que se instalavam no Estado, ancorados pela Petrobras. Muitos não conseguiram sequer passar na porta dos empreendimentos. Várias empresas viraram terceirizadas, quarteirizadas. Depois de um período de euforia, veio a crise na petrolífera, que deixou seu rastro de prejuízo. A conta exata ainda está sendo formulada, mas um grupo que acompanha a crise arrisca que o valor está na casa dos R$ 500 milhões, juntando os setores de metalmecânica, fretamento, alojamento, alimentação, aluguéis, vigilância, fardamento, logística, cimenteiro e siderúrgico.

“Se os problemas não forem corrigidos, periga essa nova retomada da indústria naval deixar uma caveira ainda maior”, diz o presidente do Sindicato da Indústria Metalmecânica de Pernambuco (Simmepe), Alexandre Valença, referindo-se ao naufrágio do setor nos anos 1980. Dez empresas foram prejudicadas pela inadimplência dos consórcios da Refinaria Abreu e Lima (Rnest) e pela redução das demandas dos estaleiros Atlântico Sul e Vard Promar. Tradicional no Estado, a Máquinas Piratininga está em processo de recuperação judicial. Além dela, a Norship e Jaraguá paralisaram atividades e estão em processo de fechamento. Baseado em informações das empresas associadas, o Simmepe projeta em R$ 50 milhões o prejuízo do setor, com demissões de 3.800 trabalhadores. “As perspectivas, neste momento, não são promissoras. No curto prazo, o que mais se teme é que mais empresas fechem as portas, caso perdure esse estado de inadimplência dos consórcios. Como as integrantes estão mergulhadas no processo da Lava Jato, as esperanças são remotas”, observa Valença.

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Empresa MKS, em Sirinhaém, sofre com falta de encomendas dos estaleiros e com a inadimplência dos consórcios da Refinaria Abreu e Lima – Foto: Fernando da Hora/JC Imagem

Na avaliação dos empresários, os problemas são estruturais e antecedem o Petrolão. “Está faltando uma política mais consistente de conteúdo nacional. Viemos para Pernambuco com a perspectiva de ter um negócio sustentável num horizonte de 25 anos, a partir das demandas dos estaleiros, mas isso não está acontecendo. O empreendimento está comprando de empresas de fora até do País”, reclama Glaidson Camacho, coordenador da MKS, empresa baiana de caldeiraria que se instalou em Sirinhaém (a 65 km do Recife), em 2011.

A empresa investiu R$ 15 milhões para se instalar no Estado com expectativa de vender à Rnest, aos estaleiros e às refinarias Premium I e II, no Ceará e no Maranhão. Da experiência com a refinaria, ficou uma dívida de R$ 1,1 milhão dos consórcios Alusa (R$ 900 mil) e Jaraguá (R$ 234 mil). Isso sem falar do Conest (Odebrecht e OAS), que pediu desconto e ofereceu equipamentos para abater a dívida. “As encomendas dos estaleiros também não se concretizaram. Este ano não fechamos nenhum contrato com o setor naval pernambucano. Se a situação continuar desse jeito, a fábrica poderá fechar”, adianta o diretor da MKS, Gustavo Snoeck. A empresa já chegou a ter um quadro de 330 funcionários, que atualmente diminuiu para 220. Quando chegou, a perspectiva da empresa era a de funcionar em três turnos, com 400 funcionários cada um.

A Norship Metal, no Cabo de Santo Agostinho, enfrenta situação mais grave que a da MKS. A empresa sofreu com um misto de gestão ineficiente e crise no setor metalmecânico. Inaugurada em 2012, a companhia também estava focada nos setores naval e de petróleo. Hoje, no terreno onde o mato cresce, estão dutos de ventilação construídos para o consórcio ABE-Alusa, que ficaram retidos por falta de pagamento. O equipamento está avaliado em R$ 1,5 milhão. Quando a reportagem visitou a unidade, não encontrou mais nenhum profissional de gerência.

“Nós é que estamos tomando conta da empresa, para que o restante do patrimônio não seja roubado e depredado. Este mês (em junho), dois homens encapuzados e usando armas de fogo entraram na empresa com um caminhão e levaram equipamentos. Provavelmente são ex-funcionários, porque disseram que só queriam levar o que era deles por direito”, conta o chefe de manutenção, Amaro Rodrigues. “Levaram R$ 80 mil em equipamentos que eram da minha empresa”, diz o pequeno empresário Marcos Paulo Nery da Costa, fornecedor da Norship.

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Na empresa My Bus, 120 ônibus estão parados na garagem. Hélder Clodoaldo espera dias melhores – Foto: Fernando da Hora/JC Imagem

FRETAMENTO

Responsáveis pelo transporte dos funcionários da Rnest durante anos, as empresas de fretamento de ônibus calculam um calote de R$ 35 milhões, além da imobilização do patrimônio com a perda dos contratos com os consórcios. As empresas fizeram pesados investimentos e se endividaram para dar conta da demanda da refinaria. Os empregos saltaram de 2,8 mil para 8 mil no pico da obra e a frota saiu de 700 para 3 mil ônibus. Hoje, 1.040 estão parados por falta de contrato e o quadro de funcionários foi reduzido em 60%”, calcula o executivo do Sindicato das Empresas de Fretamento de Pernambuco (Sinfrepe).

Diretor executivo da empresa TBS, Joselito Pereira conta que as empresas de Suape chegaram a representar 90% do faturamento da companhia. A frota de 38 ônibus em 2010 disparou para 300 em 2014, com investimento de R$ 100 milhões. “Nossa aposta foi alta porque, além da Rnest, havia a promessa de atender as refinarias Premium I e II. A tendência era de que os mesmos consórcios estivessem nessas obras e nos contratassem”, diz.

A TBS estima uma perda mensal de R$ 3,5 milhões e tem um crédito de R$ 7,5 milhões a receber dos consórcios. A empresa demitiu 230 motoristas. “Estamos tentando novos contratos para os ônibus parados, mas o mercado está desaquecido”, reforça. Empresa com maior número de ônibus na obra da Abreu e Lima, a My Bus convive com uma garagem cheia de veículos no Cabo de Santo Agostinho. São 120 ônibus parados num pátio. “Além de R$ 12 milhões a receber dos consórcios, encarei o prejuízo de ter que desmobilizar a frota de uma vez só e de demitir vários funcionários numa leva”, lembra o empresário Gervásio Tassi. Muitas das empresas tentam recuperar os prejuízos na Justiça, mas sabem que não será fácil.

Com 8 anos de empresa, o encarregado de unidade da My Bus Hélder Clodoaldo diz que acreditava na manutenção do transporte dos trabalhadores até 2016, com a continuação das obras do segundo trem da Abreu e Lima. “Comecei na empresa aos 22 anos como motorista e depois fui promovido a encarregado. Se não fosse essa crise poderia até virar gerente”, acredita, apostando em tempos melhores.

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Adversidades que se acumulam

Se a palavra “tsunami” pode ser usada como metáfora para o impacto econômico trazido por Suape, a onda quebrou em cima dos municípios do Cabo de Santo Agostinho e de Ipojuca. Em 2012, os dois juntos representavam 15% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado, o dobro do que era registrado historicamente. Apesar de crescimentos formidáveis na arrecadação, a maioria das pessoas é pobre, de modo inversamente proporcional ao PIB per capita, de incríveis R$ 138 mil. Em ambas as cidades, as demandas sociais e os gastos para atendê-las inflaram. Os cenários microeconômicos, por sua vez, desconjuntaram-se – pequenos negócios enfrentam dificuldades e a informalidade aumenta.

“O que vai doer na sua vista é placa de ‘vende-se’ e ‘aluga-se’”, disse um aposentado morador de Gaibu, praia do Cabo de Santo Agostinho, que investe em imóveis, mas não quis ser identificado. Ele é um dos 18 entrevistados para esta matéria, todos pequenos e microempreendedores que trabalham nos setores de comércio e serviços nas duas cidades. O sentimento de incerteza sobre quando e como essa crise vai passar permeia todas as conversas. “Todo mês eu batia as metas, agora pra chegar perto delas é uma tristeza”, diz o gerente da loja de roupas Abreus, no Centro de Ipojuca, Claudemir Fonseca. O estabelecimento foi aberto há três anos e agora está parado. “O comércio está todo assim, mas aqui também tinha muita gente de Suape comprando”, lembra o gerente, referindo-se à massa de trabalhadores que movimentava principalmente a venda de itens focados no público masculino.

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O comentário de Claudemir é complementado pelo diretor administrativo da Ceplan Consultoria, Aldemir do Vale. Ele lembra que os danos às economias das cidades não vêm atrelados apenas à desmobilização e aos efeitos locais da Operação Lava Jato. O aperto econômico nacional também pressiona o cotidiano dessas comunidades. Aldemir analisa que os empreendedores, por mais que tenham se planejado, assumiram um risco – como se assume em qualquer iniciativa econômica – e agora estão vivendo os resultados. Na visão do economista, o que deveria ter ocorrido antes era uma orientação institucional por parte dos entes públicos, para guiar esses pequenos investimentos.

 

TURISMO AFETADO

Quando se isolam os efeitos de Suape, percebe-se que as atividades turística e imobiliária foram fortemente afetadas. Praias como Gaibu, que antes eram locais de veraneio de pernambucanos e ainda participavam um pouco do turismo regional, se descaracterizaram para virar verdadeiras repúblicas de operários. O empresário Múcio Bezerra da Silva, 49 anos, se prepara para entrar no ramo da alimentação em Gaibu. A estratégia é dar novo destino à parte da área dos três imóveis que ele alugava no formato de pousada para operários das empresas do complexo. “A gente sabia que ia ter a desmobilização, mas tudo devia estar funcionando bem, a refinaria, a petroquímica… Mas eu estou correndo atrás, porque se parar pra pensar, a gente endoida”.

Em Porto de Galinhas, praia de Ipojuca, o empresário Claudemir Santos, 56 anos, tem duas pousadas e, entre 2002 e 2013, chegava a ocupar metade dos 32 quartos com prestadores de serviços para as empresas. Com a queda dessa demanda, o número de funcionários caiu de 15 para seis.

Em Porto de Galinhas, muitos condomínios exibem placas de "vende-se" e "aluga-se" - Foto: Fernando da Hora/JC Imagem

Em Porto de Galinhas, muitos condomínios exibem placas de “vende-se” e “aluga-se” – Foto: Fernando da Hora/JC Imagem

A procura por moradia daquele período também fez muitos investidores de Porto de Galinhas apostarem em pequenos condomínios para esse público. Tiago Siedler, 29 anos, construiu 36 apartamentos – com um quarto, banheiro, sala, área de serviço e cozinha –, que ficavam locados a R$ 1.000 por mês. Atualmente, apenas seis estão ocupados, com preços máximos de R$ 700. “Meus inquilinos hoje são pessoas que trabalham com turismo”, diz Siedler.

Quem também sente a queda é Enrique Del Cesare, 47 anos. Ele construiu 24 habitações entre 19 m² e 56 m², de um e dois quartos, que recebiam executivos com contratos de até dois anos. A retração o fez amargar uma queda de quase 20% nos preços e uma vacância de 50%. Mas Del Cesare acredita na tradição turística da praia, para que, aos poucos, haja uma compensação: “As perspectivas são as melhores. A natureza se mantém”.

Enquanto isso, o segmento tenta se recuperar. Este ano, a Secretaria de Turismo de Ipojuca tem um orçamento 31,63% maior do que em 2014, chegando a R$ 13,4 milhões. De acordo com o titular da pasta, Rui Xavier, os planos para fortalecer a atividade e contornar essas crises são focados em “qualificar cada vez mais mão de obra”. Por outro lado, o empresariado de Porto de Galinhas, principal foco turístico do município, se organiza. Em junho deste ano, eles criaram o Porto de Galinhas Convention & Visitors Bureau, voltado à atração de eventos para o local. Segundo estimativas da instituição, cerca de 20 mil pessoas estão envolvidas com a atividade turística em Ipojuca.

ONDE ESTÁ O DINHEIRO?

Dados levantados pela equipe de Aldemir do Vale mostram que os cofres públicos das cidades também deveriam ter se preparado, apesar do encantamento com os saltos de arrecadação. Um deles diz respeito ao número de empregos em Ipojuca, a cidade que recebeu o maior fluxo financeiro do entorno, por sediar o Complexo Industrial Portuário de Suape e diversas empresas de grande porte, como a Refinaria Abreu e Lima. A cidade chegou a um pico de 75 mil postos de trabalho formais em 2012, número que tombou para 36 mil no primeiro trimestre deste ano. O economista comenta que parte desses desempregados volta para suas cidades de origem, parte segue para outras obras e muitos ficam e migram para a informalidade.

Outros números expõem a disparidade entre o ganho médio da população e o dinheiro que circula através das transações das empresas e da arrecadação oficial nas três esferas.

Cálculos feitos pela Ceplan mostram que, entre 2010 e 2014, a receita total de Ipojuca teve um crescimento médio real (já descontada a inflação do período) de 7,6% ao ano. No Cabo, o percentual foi de 7,2%, enquanto nos demais municípios do entorno (Jaboatão, Escada, Moreno, Ribeirão, Rio Formoso e Sirinhaém), esse número ficou entre 1,8% e 4,9%.

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A secretária de Planejamento e Gestão de Ipojuca, Danielle Barbosa, ressalta que as necessidades sociais também crescem, obrigando o município a aplicar mais dinheiro em investimentos e custeio (em que estão inclusas obras como reformas de escolas). Valores repassados pela Prefeitura de Ipojuca apontam que a soma desses desembolsos em 2014 foi de R$ 327,7 milhões – em despesas pagas. A cifra é 103% maior do que foi aplicado em 2010 e representa 56,26% do total da receita de 2014, maior índice da série iniciada em 2009.

Para ela, 2015 será um ano difícil mesmo para Ipojuca. A arrecadação do Imposto Sobre Serviço (ISS) dá os primeiros sinais de cansaço, como há seis anos não fazia: no 1º quadrimestre deste ano, foram recolhidos R$ 45 milhões, 7,6% a menos do que no mesmo período de 2014.

 

MUITOS DESEMPREGADOS

O futuro dos desempregados que ficaram nas cidades de Ipojuca e Cabo de Santo Agostinho é coberto de incertezas. Não apenas porque em parte depende da história de vida de cada um, mas também está ligado a como instituições e governos vão lidar com a situação. “Para os desempregados, não existe uma saída do ponto de vista do Município. Nós apenas incentivamos. Temos buscado parcerias, procurado empresas para se instalarem. Mas o momento econômico que o País vive não ajuda muito. E aí temos que enfrentar toda essa demanda num momento de queda da receita”, diz o secretário de Governo do Cabo de Santo Agostinho, Luiz Pereira.

Segundo Pereira, um dos caminhos é o fomento à formalização via Micro Empreendedor Individual (MEI), sistema tributário simplificado gerido pela Receita Federal que permite a autônomos ter um CNPJ e serem cobertos pelo INSS. Pereira diz que o número de inscrições no Cabo saiu de 1.700 em 2012 para cerca de 4.000 atualmente. O volume já é mais da metade da quantidade de empresas sediadas no Município, que são 7.500.

 

 

FOCO NA GESTÃO

Tanto Tania Bacelar quanto Aldemir do Vale, ambos economistas da Ceplan Consultoria, acreditam que, de modo geral, as prefeituras devem se voltar para melhorar sua gestão como único caminho para enfrentar a situação atual. Mas ambos fazem ponderações. “Não é só um problema de gestão, mas a saída que tem é racionalizar e reduzir custos, além de ser mais eficiente na busca de recursos em outras fontes”, aconselha Ademir. “O governo federal e o governo estadual precisam estar mais próximos. Faltou uma articulação dos atores que estavam ali”, diz Tania, ao orientar que as estruturas do poder público municipal precisam ser qualificadas, especialmente as de controle. “Mesmo tendo mais recursos, são muito frágeis diante das necessidades. Quando olha a demanda que a população ainda tem e o que eles são capazes de oferecer ainda tem um hiato grande”.

Os administradores das duas cidades dizem que já estão atuando nesse sentido, conversando com representantes dos governos estadual e federal para mobilizar recursos e cortando custos internos. Luiz Pereira diz que o Cabo passa por de gastos de despesas como energia, telefone, água e combustível. “O prefeito determinou um corte de 20% nesses gastos, para não ter que demitir. Austeridade total”. A secretária de Planejamento de Ipojuca, Danielle Barbosa assegura que o ajuste vem sendo feito desde o primeiro ano desta gestão: o volume de despesas em 2013, de R$ 67,6 milhões, foi 30% menor do que o registrado no ano anterior.

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Avançam aids, gravidez na adolescência e violência

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Palafitas se espalharam pela comunidade de Socó, em Porto de Galinhas, no município de Ipojuca – Foto: Fernando da Hora/JC Imagem

 

Gente empoleirada nos morros, se equilibrando em palafitas, se espremendo em puxadinhos, invadindo áreas de preservação ambiental. Casas erguidas em mutirões nas madrugadas para driblar a fiscalização. Falta moradia. Os terrenos escassearam e encareceram. Pelas contas das prefeituras do Cabo de Santo Agostinho e de Ipojuca, o déficit habitacional nas duas cidades beira 25 mil unidades. Essa carência se agravou com a invasão de uma população flutuante de 45 mil pessoas, que chegaram junto com as obras de Suape. Especulação imobiliária e pouca oferta fizeram o preço do aluguel disparar e aceleraram um movimento de favelização. Com esse legado, Pernambuco repete experiências negativas de vizinhança a polos industriais, como aconteceu em Macaé, no Rio, e em Camaçari, na Bahia.

“Habitação é um dos principais problemas do município hoje. Temos um déficit de 15 mil casas e 1,5 mil famílias ocupando áreas públicas. Para resolver uma demanda mais imediata por habitação popular, seria necessário investir R$ 350 milhões e dispor de uma área de 80 hectares”, calcula o secretário de Governo do Cabo, Luiz Pereira. Hoje a área pública está comprimida entre as terras da Usina Bom Jesus e os galpões logísticos da Cone Suape, empresa do Grupo Moura Dubeux. “Temos um empresário interessado em construir cinco mil moradias pelo programa Minha Casa Minha Vida (MCMV), mas não tem terreno pra comprar. Os usineiros querem vender um hectare por R$ 500 mil. É um completo absurdo”, avalia.

Em Ipojuca, a favela inchou na vizinhança das praias. O balneário de Porto de Galinhas, principal destino turístico de Pernambuco, está a poucos quilômetros das comunidades de Socó, Salinas e Pantanal. “Quando vim morar aqui eram só sete casas no meio dos coqueiros. Depois virou essa favela que não para de aumentar. Aí pra dentro é só palafita e muita violência”, diz o aposentado Amarino Maurício da Silva, 79 anos. Morador de Socó há 41 anos, ele reclama que a movimentação em Suape inflacionou os imóveis. “O aluguel de uma casa pequena passou de R$ 400 para R$ 700. Um quartinho aqui na comunidade custa R$ 300. A população local não aguentou pagar isso e foi parar na favela”, afirma.

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O aposentado Amarino da Silva diz que os aluguéis caros empurraram a população para as favelas – Foto: Fernando da Hora/JC Imagem

Mesmo com um déficit alarmante, alguns projetos habitacionais com recursos disponíveis para execução não avançaram. O Habitacional Miguel Arraes, no distrito ipojucano de Camela, ficou pela metade. O condomínio de 525 casas e orçamento de R$ 24 milhões teve convênio assinado em 2007 entre o governo de Pernambuco, Caixa Econômica Federal e Ministério das Cidades. Do total previsto, apenas 220 residências ficaram prontas. As obras foram paralisadas desde 2012 e as casas foram invadidas. Alguns ocupantes moram nas casas, outros alugam e vendem os imóveis mesmo sem ter qualquer documentação.

“Encontramos esse problema quando assumimos a gestão municipal. Estivemos várias vezes em Brasília para articular uma solução com a Caixa e o Ministério. Nossa proposta é concluir a infraestrutura incompleta das 220 casas e incluir as demais (305) no MCMV. Mas tudo isso é muito complicado porque teremos que tirar as pessoas das casas. Hoje, Ipojuca tem um dos maiores valores de auxílio-moradia entre os municípios do Estado (R$ 200). Mas sabemos que isso vai criar um problema social porque o recurso não é suficiente para pagar um aluguel”, reconhece a secretária de Infraestrutura de Ipojuca, Erika Luna.

Iniciativas do setor privado também falharam. Em 2008, o Estaleiro Atlântico Sul (EAS) anunciou a construção de uma vila operária com 2 mil casas (com financiamento da Caixa), mas só concluiu 648. A permanência nas casas estava condicionada ao vínculo com o empreendimento, que, envolvido no petrolão, aumentou as demissões. Operários então ficaram sem emprego e sem casa. O residencial foi alvo de invasões.

DROGAS E VIOLÊNCIA

Moradia é só um dos problemas no Litoral Sul pernambucano. Por causa do boom em Suape, aumentou a circulação de dinheiro na região. E o dinheiro turbinou o tráfico de drogas. A alta demanda chegou a inflacionar os preços nos municípios do Cabo e de Ipojuca, onde a pedra de crack era vendida pelo dobro do valor médio no Estado. Pesquisa do Observatório do Crack, realizada pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM), mostra que as duas cidades integram o ranking com alto nível de circulação da droga. O consumo cresce, mas a Secretaria de Defesa Social (SDS) de Pernambuco não consegue coibir o tráfico na mesma velocidade. Pelos números da pasta, entre 2010 e 2014, as apreensões de crack caíram 63%, em descompasso com o crescente avanço do indicador de uso.

Desde que aumentou a população flutuante na região, Cabo e Ipojuca apresentam índices de apreensão de drogas bem acima da média pernambucana. No intervalo de 2010 a 2014, enquanto a interceptação de cocaína cresceu 193,79% no Estado, na área de Suape o avanço foi de 3.251%. “A situação é tão preocupante que decidimos fazer um diagnóstico nas escolas e estamos preparando um levantamento também nas empresas”, adianta o secretário de Combate às Drogas do Cabo, Ronaldo Santos. O levantamento na rede de ensino apontou que 100% dos alunos em anos finais consomem drogas lícitas e ilícitas e que é alto o índice de venda dentro das escolas.

O Cabo também aparece nas estatísticas alarmantes da violência. O município é o segundo do Estado (atrás apenas de Itapissuma) em número de homicídios por armas de fogo. O Mapa da Violência 2015 aponta 65,5 mortes por grupo de 100 mil habitantes, colocando a cidade em 31º lugar no Brasil. “Segurança é um dos maiores problemas que enfrentamos. O governo do Estado consolidou Suape, mas não considerou o legado que esse tipo de desenvolvimento deixa. Equipamentos prometidos, como um Batalhão de Polícia e uma Unidade Integrada de Segurança (UIS), não saíram do papel. Fizemos parceria com um empresário local e doamos um terreno, mas o projeto não evoluiu”, afirma o secretário de Governo do Cabo, Luiz Pereira.

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Pesquisa realizada no Cabo, mostra que 100% dos alunos em idades finais usam drogas lícitas ou ilícitas – Foto: Fernando da Hora/JC Imagem

A SDS prometeu a implantação de outra UIS dentro da área do Complexo de Suape, mas que também não se concretizou. “A SDS já possui os locais para a construção dos referidos equipamentos de segurança (Cabo e Suape), mas, em virtude da quantidade de demandas, das dificuldades do momento econômico e por decisão estratégica, considerando o volume e as variedades de ações a serem adotadas na segurança pública do Estado, ainda não foi possível atender essas solicitações”, justifica. As unidades foram prometidas pelo então governador Eduardo Campos, em 2011, numa conjuntura bem diferente da atual.

PROSTITUIÇÃO

A TV de 72 polegadas, tomando uma parede inteira na sala da casa da travesti Jake Ferraz, é herança dos “homens de Suape”. Durante quatro anos, a clientela operária da Refinaria Abreu e Lima movimentou o mercado do sexo em Ipojuca e no Cabo. Jake não esquece a expressão de espanto do vendedor da loja quando ela avisou que ia levar, à vista, o aparelho LG de R$ 4.600. “Pode mandar embrulhar, moço, estou com o dinheiro aqui”, disse, sem dar ouvidos às opções de parcelamento no cartão de crédito ou naqueles carnês infindáveis. Era 2011. O número de trabalhadores na obra crescia e a prostituição aproveitava a explosão da demanda. Com a ascensão econômica, veio a multiplicação das estatísticas de gravidez, aids e outras doenças sexualmente transmissíveis.

“Foram anos muito bons. Vieram prostitutas e travestis de todo o Brasil atrás desses homens. O dinheiro correu solto aqui no Cabo. A gente chegava a fazer até oito programas por noite. Nem dava tempo de ir pro motel, senão demorava e perdia cliente. Minha vida mudou muito: construí casa, tive celular de conta, TV a cabo com gravador digital e dinheiro pra fazer R$ 800 de feira por quinzena”, lembra Jake, 31. “Hoje, depois que os trabalhadores foram embora, quem vive de programa está morrendo de fome”, assevera.

No período de efervescência, os profissionais do sexo se distribuíam em diversos pontos espalhados pelas duas cidades. Hoje, no Cabo, a prostituição se concentra no Centro, nas proximidades da linha do trem. No local, barracas de espetinho se juntam a dois prostíbulos, que alternam o horário de funcionamento para evitar a concorrência pela escassa clientela. “Mulher já foi luxo por aqui, quando até 45 mil homens trabalhavam na obra. Agora a situação está tão ruim que elas ficam se oferecendo nas mesas dos bares: ‘buc… quentinha, vamos? Olha o programa…’”, diz Jake, rindo do escracho, mas lamentando a crise na atividade, que ajudou a pacificar a tensão sexual dos operários, vivendo a quilômetros de distância de suas famílias.

Dono do bordel Recanto Feliz, que funciona há oito anos no Cabo, Fernando Oliveira diz que vai fechar o estabelecimento. “O movimento aqui era de dois mil homens por mês. Hoje não tem 10% disso. Das 40 mulheres que atendiam os clientes, restam apenas quatro. Pra completar, o Ministério Público fechou os 12 quartos de que dispúnhamos para realizar os programas”, diz, avaliando mudar de ramo.

“Ninguém tem dinheiro na cidade. O programa que custava R$ 50 caiu pra R$ 20 e olhe lá. Aceitei um completo por R$ 6 pra garantir pelo menos o dinheiro do pão”, resigna-se a travesti Bianca Ferraz, 36. “Emprego também está difícil. Trabalhava como cozinheira numa empresa que servia refeição para os operários, mas fechou por conta dos problemas da Petrobras”, conta a travesti Blenda Brasil, 28, dizendo que agora depende da cesta básica distribuída pela Secretaria de Programas Sociais do Cabo.

O titular da pasta, Ronaldo Santos, calcula que seria necessário dobrar o atual orçamento de R$ 22 milhões da secretaria para atender às solicitações. “Desde que a desmobilização na refinaria se intensificou, em 2014, as demandas explodiram. A distribuição de cestas básicas saltou de mil para 2 mil por mês. Temos 40 mil beneficiários no Bolsa Família e outros 20 mil se cadastraram numa lista de espera. Além disso, pagamos Bolsa Cidadã no valor de R$ 250 para 1.400 pessoas”, detalha. A secretaria também está qualificando pessoal para atuar nesse momento pós-obra da refinaria, com 700 pessoas capacitadas e há previsão de abrir outras 700 vagas.

 

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FILHOS DE SUAPE

“Uma das nossas bandeiras aqui no Cabo foi orientar os profissionais do sexo sobre o uso da camisinha. Muitas vezes perdíamos programas porque os trabalhadores queriam transar sem preservativo”, relata Jake, lembrando que chegava a pegar seis caixas por mês com a Secretaria Municipal de Saúde para distribuir com as colegas.

A coordenadora de DST/Aids do município, Lucia Cristina Buarque, diz que a cidade ocupa o 5º lugar em casos de aids no Estado. Entre 2009 e 2014, a incidência aumentou 23% no Cabo e 364% em Ipojuca. A situação crítica levou a Prefeitura do Cabo a elevar de 15% para 23% os investimentos em saúde. Outra preocupação das gestões municipais que se confirmou com o fim da megaobra foi o surto geral de gravidez, sobretudo na adolescência, com pico de nascimentos em 2011.

“Os filhos de Suape se tornaram uma realidade. O Cabo já tinha um alto índice de gravidez na adolescência, que foi agravado pela presença dessa população masculina flutuante”, avalia a coordenadora municipal de Saúde da Mulher, Giselle Paiva. A presença dos homens de farda e de sotaque diferente seduziu jovens e adultas. Muitas delas enxergavam nos crachás a possibilidade de ascensão econômica. Em Ipojuca, quase um terço da população (27%) é pobre (com renda familiar inferior a R$ 140/mês), enquanto no Cabo esse recorte é de 20%.

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Número de adolescentes grávidas disparou em 2011, ano de muito movimento na obra da refinaria – Foto: Fernando da Hora/JC Imagem

Uma adolescente de 17 anos conta que o namorado mineiro nunca mencionou filhos e mulher na terra natal. “Só soube depois que acabou a obra e ele foi embora. Hoje crio minha filha com a ajuda da minha mãe.” “Os gestores deveriam estabelecer cláusulas nos contratos obrigando as empresas a investir em mitigação dos impactos sociais, como acontece com o meio ambiente”, defende Felipe Rios, coordenador do Programa Diálogos Suape, realizado em parceria pela UFPE e Petrobras. A iniciativa investiu R$ 3,9 milhões em sete projetos educativos e de saúde para minimizar os efeitos negativos na região.

Uma das principais dificuldades do programa foi a adesão de empresas, que participassem disponibilizando recursos. A previsão inicial era aplicar R$ 5,8 milhões, mas o investimento caiu por falta de parceiros. O programa foi tocado com recursos da Refinaria Abreu e Lima e PetroquímicaSuape, além dos consórcios Alusa, Conest e EIT/Engevix. Sem a participação necessária o plano encolheu. Apesar das dificuldades, o programa conseguiu atingir um público de 1,2 milhão de pessoas.  “Consideramos o resultado positivo. O trabalho resultou em onze dissertações de mestrado, além de dois livros prontos e outros quatro no prelo”, comemora Rios.

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Planejamento urbano chegou atrasado

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Até 2035, o Complexo de Suape vai reflorestar 200 hectares por ano para reduzir passivo ambiental – Foto: Fernando da Hora/JC Imagem

A construção do Estaleiro Atlântico Sul (EAS) devastou uma área de mangue comparada a 27 campos de futebol (27 hectares), na Ilha de Tatuoca, no Complexo de Suape. Habitado por pescadores há quatro gerações, o local foi desapropriado para abrigar o Polo Naval de Pernambuco. Em 2008, o empreendimento assinou Termo de Compromisso (TC) com a Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH) para reflorestar uma área equivalente à que foi destruída. Sete anos depois, o EAS ainda não cumpriu integralmente suas obrigações ambientais. O mau exemplo do estaleiro não é um caso particular. É rotina na CPRH encaminhar autos de infração às empresas de Suape (na mesma medida em que elas tentam postergá-los, interpondo recursos). Na avaliação de especialistas, o cobiçado desenvolvimento com sustentabilidade na região é um apelo distante, com ações ainda principiando. Para além das demandas ambientais, a discussão também é social. Dentro da área de 13,5 mil hectares do complexo, estão enraizados 25 engenhos, com sete mil famílias fazendo vizinhança ao porto e às indústrias.

Em seu território gigante, Suape está dividido em zonas industrial, portuária, residencial e de serviços, além de preservação cultural e ambiental. Esta última ocupa 59% da área total do complexo. Mas não quer dizer que os desmatamentos não tenham ocorrido nem estejam acontecendo nesse território. Além das supressões para atender às indústrias e à infraestrutura portuária, a Zpec também sofreu degradação por extração ilegal de madeira, cultivo de lavouras e construção de moradias. Serão necessários 24 anos para reduzir esse passivo. Em 2010, a diretoria de Suape assinou um Termo de Compromisso com a CPRH para restaurar a Zona de Preservação Ecológica (Zpec). Entre 2011 e 2035, a administração portuária terá que restaurar 200 hectares de mata atlântica por ano, totalizando 4.800 hectares. O diretor de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Suape, Jorge Araújo, diz que foram restaurados os mil hectares exigidos entre 2010 e 2014.

“Existe uma cultura de prorrogação do cumprimento dos TACs no Brasil e uma estrutura de fiscalização ambiental ineficiente. Mas é preciso se levar em consideração que estamos falando do meio ambiente e da vida das pessoas. Estudos sobre o entorno de polos petroquímicos mostram que a incidência de doenças é grande. Em Suape, poderão ocorrer os mesmos problemas. Visitei a região do complexo duas vezes e fiquei impressionado com os problemas. O discurso do progresso é muito diferente do que acontece na vida das pessoas”, afirma o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Sebastião Raulino, que escreveu a tese Construções sociais de vizinhança: temor e consentimento nas representações dos efeitos de proximidade entre grandes empreendimentos industriais e populações residentes. O especialista esteve no Estado a convite do Fórum Suape – Espaço Socioambiental, entidade criada pela sociedade civil para discutir o complexo.

“A Refinaria Abreu e Lima (Rnest) não concluiu a construção de equipamentos que reduzem a população ambiental, e isso poderá se reverter em problemas para a população local”, defende Raulino. Na concessão da licença de operação para a Rnest, a CPRH só autorizou o processamento de 73,6 mil barris de petróleo por dia, porque a Petrobras não finalizou a obra da Unidade de Abatimento de Emissões Atmosféricas (SNOX). Isso significa que o empreendimento só está rodando com 64% da capacidade do primeiro trem e 32% do total. A CPRH informa que está fiscalizando os índices de emissões de poluentes atmosféricos e que a empresa poderá ser penalizada com advertência, multa ou suspensão (total ou parcial) das atividades, caso ultrapasse os limites estabelecidos.

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Pescador Gilson Onório diz que preferia continuar na Ilha de Tatuoca, de onde foi retirado com a família para dar lugar à implantação do Estaleiro Atlântico Sul, em Suape – Foto: Fernando da Hora/JC Imagem

POSSEIROS

A convivência da população local com os empreendimentos é outra demanda complexa em Suape. “Esses deslocamentos forçados dos nativos deixam as pessoas empobrecidas não só economicamente, mas no seu viver. É uma violência muito grande, porque os governos costumam oferecer soluções pobres quando se fala de gente simples”, defende Raulino. Um caso que ganhou dimensão foi o dos moradores da Ilha de Tatuoca. Desde 2007 se discutia com a histórica comunidade de pescadores e agricultores a transferência deles para um condomínio na Praia de Suape, no Cabo de Santo Agostinho. Em março do ano passado, aconteceu a mudança. Dois moradores resistiram e continuam na ilha.

A diretoria de Suape investiu R$ 8,7 milhões na construção do Habitacional Vila Nova Tatuoca e pagou R$ 2,4 milhões pelas indenizações das benfeitorias feitas pelas famílias. São 75 casas distribuídas por quadras, um parque infantil, um galpão e dois campos de futebol. “Se você fizer uma pesquisa aqui, vai ouvir de 97% das pessoas que prefeririam ter continuado na ilha. As pessoas foram retiradas das suas atividades e hoje estão desempregadas. Só seis famílias têm alguém empregado aqui. Não se confirmaram as promessas de que uma pessoa em cada família do condomínio teria emprego em Suape”, critica o presidente da Associação dos Moradores da Nova Tatuoca, Edson Antônio dos Santos.

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Municípios, como Ipojuca, terão que lidar com os impactos pós-obra da refinaria. Faltaram planejamento e controle urbano na vizinhança de Suape – Foto: Fernando da Hora/JC Imagem

Outra reclamação da comunidade é a de que ainda não receberam as escrituras das casas. A diretoria de Suape explica que as escrituras estão sendo preparadas, mas esbarram na burocracia para a abertura das matrículas das novas moradias em cartório. “Dependemos disso para que o condomínio passe a ser inscrito no IPTU e a gente possa fazer demandas à prefeitura. Tem esgoto a céu aberto aqui e quando chove as barreiras descem, enchendo as casas de barro e lama”, afirma Edson. Os moradores esperam, ainda, a liberação do galpão multiuso. A ideia é utilizar o espaço para comercialização de pescados, artesanato e doces produzidos pelos nativos.

Entre 2007 e junho deste ano, a administração de Suape indenizou 1.406 famílias e pagou R$ 79,6 milhões por benfeitorias (uma média de R$ 56 mil por posseiro). A reclamação dos baixos valores pagos resultou em muitas ações na Justiça. As invasões são recorrentes, inclusive em áreas ambientais: uma média de 100 tentativas por mês. O maior projeto habitacional de Suape será o Conjunto Governador Miguel Arraes, no Cabo, com 2.620 casas e investimento de R$ 190 milhões, em parceria com a Caixa Econômica Federal. As obras começaram em 2014, e a previsão é de entregar um primeiro lote de 540 casas em março de 2016 e o restante ao longo do mesmo ano.

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REMEDIAR AO INVÉS DE PREVENIR

O planejamento não aconteceu. A prevenção chegou atrasada e virou remediação. Forjadas na cultura da cana-de-açúcar, as cidades do Cabo de Santo Agostinho e de Ipojuca passaram por um rápido processo de transição econômica. De susto, precisaram atender à explosão das demandas sociais e de infraestrutura trazidas pelas obras no vizinho Complexo Industrial e Portuário de Suape. Vieram os empregos. Um avanço de 206% só em Ipojuca. Multiplicaram-se os problemas, sobretudo de ordenamento urbano. Com o fim das obras, as gestões municipais avaliam os “legados”.

“A tentativa era de que Pernambuco não repetisse as experiências negativas em vizinhanças de polos com grande dinamismo industrial, a exemplo de Santos (SP), Camaçari (BA) e Macaé (RJ). Ou mesmo de regiões mundiais, como Taronto, na Itália, e Map ta Phut, na Tailândia. Os municípios do Território Estratégico de Suape (Cabo, Ipojuca, Jaboatão dos Guararapes, Moreno, Escada, Sirinhaém, Ribeirão e Rio Formoso) já tinham um histórico de indicadores sociais inaceitáveis. As chances de agravamento a partir da pressão das demandas eram grandes”, observa o economista da Ceplan Consultoria, Valdeci Monteiro. De fato, a tendência se confirmou com favelização, aumento da incidência de aids, gravidez na adolescência, consumo de drogas e altas taxas de homicídio.

Tentativas de planejamento existiram, mas não acompanharam a velocidade da instalação das empresas. Numa iniciativa pioneira no Brasil, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) financiou R$ 11 milhões (não reembolsáveis) para preparar as gestões municipais para lidar com os desafios trazidos pelos empreendimentos.

O projeto do Território Estratégico de Suape (TES) começou em 2006, mas só teve efetividade a partir de 2010. Foram vários entraves burocráticos. A impossibilidade de os municípios (muitos deles inadimplentes) captarem os recursos foi o principal deles. A Agência de Planejamento e Pesquisas (Condepe/Fidem) – vinculada à Secretaria de Planejamento de Pernambuco – precisou assumir a gestão do programa.

“O plano busca o equilíbrio entre o desenvolvimento, a ocupação e a conservação ambiental, por meio de uma ação integrada entre os municípios”, explica o presidente do Condepe/Fidem, Flávio Figueiredo. O programa deveria ter sido concluído desde 2013, mas, como as ações atrasaram, o BNDES foi concedendo aditivos de prazo. A nova data é o final deste ano. Até agora foram aplicados R$ 7,8 milhões.

Uma das principais ações do plano é o Programa Especial de Controle Urbano e Ambiental. A meta é estruturar entidades municipais e estaduais para evitar o desordenamento urbano. Só nas terras do Complexo de Suape, ocorrem pelo menos 100 tentativas de invasão por mês. Para realizar o trabalho preventivo, cinco prefeituras criaram Unidades de Controle Urbano e Ambiental, que foram equipadas com veículos e computadores. Os espaços só ficaram prontos depois que a favelização e a degradação ambiental já tinham avançado nas cidades.

“Sabemos que a aplicação do programa se torna mais difícil porque perdeu o caráter preventivo. Mas essas estruturas que ficarão nos municípios serão essenciais para fazer uma remediação. É fato que as prefeituras estão em situação difícil e que será necessário investir mais recursos, mas elas contarão com essas unidades de controle urbano”, defende Figueiredo.

Outra tentativa de enfrentar os impactos socioambientais nas cercanias dos empreendimentos é o programa Suape Sustentável, criado em 2011. O diretor de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Complexo de Suape, Jorge Araújo, diz que a meta é “implantar o melhor modelo de desenvolvimento socioeconômico do País, criando um ambiente mais favorável para fazer negócios, melhorando a qualidade de vida das pessoas e tratando o meio ambiente de forma diferenciada”. Uma proposta quase idílica, pelo menos a curto e médio prazo, diante da inadequação do planejamento para a região ao longo dos últimos anos.

Mesmo com o desordenamento e as altas taxas de desemprego, o presidente do Condepe/Fidem acredita que os municípios alcançaram um novo patamar de desenvolvimento. “Essas cidades enfrentavam realidade mais dura quando dependiam da cana-de-açúcar. A crise será momentânea”, aposta. A opinião é compartilhada pelo secretário de Governo do Cabo, Luiz Pereira. “Houve mais bônus do que ônus. Temos experiências reais de vidas que melhoraram, mesmo para os desempregados. Antes você não tinha perspectiva de vida. A realidade é outra, mas é preciso acabar com uma visão mercantilista e pensar também no desenvolvimento social. Esses legados devem servir de lição para novos empreendimentos que virão. Os Estados e os municípios não vão parar”, afirma, apostando que a crise é passageira.

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Suape e Eu


  • Neka é popular nas redes sociais. Qualquer postagem rende mais de uma centena de curtidas. Ficou famosa no bairro onde mora, no município de Ipojuca, como a soldadora que desfilou de braços dados com o presidente Lula, no Estaleiro Atlântico Sul (EAS), em Suape. Foi madrinha do primeiro navio construído em Pernambuco: o João Cândido, em 2010. “Ganhei do presidente um colar com pingente de âncora, que não sai do meu pescoço até hoje. Tenho orgulho de ser soldadora”, diz Josenilda Maria da Silva (nome pouco usado pelos colegas, que a conhecem como a morena Neka).

    Depois da experiência no estaleiro, Neka trabalhou na Refinaria Abreu e Lima (Rnest). Hoje está desempregada. Espera que o petrolão não postergue por muito tempo a retomada da obra da Rnest e que o País saia da crise e as empresas voltem a contratar pessoal.

  • “Quem depender de fazer programa aqui no Cabo (de Santo Agostinho) vai morrer de fome.” A frase é dita em coro pelas travestis Jake Ferraz, Blenda Brasil e Bianca Ferraz. Elas lembram com saudosismo os anos de “farra” no mercado do sexo, provocada pela explosão demográfica masculina nos municípios vizinhos ao Complexo de Suape. “A gente achava que a obra ainda ia durar até 2016, mas essas denúncias de roubo (na Petrobras) acabaram com tudo antes da hora”, afirma Jake.

    As travestis exercem liderança entre os profissionais do sexo no município. São articuladas com as secretarias municipais e participaram do programa Diálogos para o Desenvolvimento de Suape, realizado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Bianca conta que está vivendo de iniciativas da Secretaria de Programas Sociais do Cabo. “Cheguei a aceitar um programa completo por R$ 6, pelo menos para garantir o dinheiro do pão”, lastima, lembrando dos tempos quando atendiam até oito clientes por noite.

  • O encanador industrial Inaldo Barbosa Filho nasceu na cidade de Cumaru, no Agreste de Pernambuco, mas também se considera cabense. Foi morar no município quando tinha 8 anos. Não imaginava que assistiria (e participaria) da construção de uma refinaria no Estado. Antes da chegada dos grandes empreendimentos, trabalhava numa empresa de porcelanato.

    “Não faltou emprego nos últimos 5 anos. Passei por vários consórcios da refinaria e o último em que trabalhei foi o Ipojuca (Interligações). Graças a Deus esse pagou tudo direitinho, diferente do que aconteceu com colegas nossos de outras empresas. Por enquanto a gente vai se virando com o seguro-desemprego e o que sobrou da rescisão, mas uma hora vai acabar. Comecei a construir uma casa na Praia de Serrambi, mas não sei se vai dar pra terminar. Está tudo muito incerto”, diz.

  • O nissei Carlos Alberto Hisashi, 40 anos, não conhecia Pernambuco. Filho de pai japonês e mãe brasileira, nasceu em Votuporanga (no interior de São Paulo) e foi morar no Japão quando tinha 16 anos.

    Em terras japonesas, ele ganhou uma profissão: aprendeu a ser soldador e trabalhou na indústria naval nipônica. Em fevereiro de 2010, recebeu uma ligação do Brasil. Era um convite para ajudar no “renascimento” da construção de navios no País, ocupando uma vaga no Estaleiro Atlântico Sul (EAS), em Suape (distante 50 km do Recife).

     

  • Há cinco anos, Denerval Santos desembarcava em Pernambuco para trabalhar nas empresas de Suape. O baiano de 34 anos viveu, de dentro, todo o brilho e esmaecimento da economia da região. “Era muito bom. Ninguém ficava desempregado”, rememora, ao falar sobre como “os baianos” eram bem tratados por todos os benefícios que o emprego lhes agregava, do salário ao plano de saúde, da farda à perspectiva de se fixar em uma das companhias do complexo.

    A realidade virou 180 graus. “É muito triste. Vi ex-colegas pedindo dinheiro na porta da refinaria porque as empresas não pagaram o que deviam”. Além disso, ser “baiano” não lhe garante mais respeito. “Aumentou a rixa entre pernambucanos e baianos”, revela Denerval, que se sente em um ambiente mais hostil. Os planos são juntar dinheiro para voltar a Salvador e montar uma academia.

  • Investir em pequenos imóveis para aluguel é o negócio principal de José Nascimento, 53 anos, morador de Gaibu, praia de Ipojuca. Há cinco anos, no auge da explosão demográfica e econômica da região, ele investiu R$ 150 mil para construir três casinhas, que lhe rendiam entre R$ 500 e R$ 600 mensais. “Hoje nem por R$ 100 eu consigo”, lamenta.

    Para ele, Gaibu foi o local de Ipojuca que mais sofreu, porque tinha o atrativo da praia, da oferta de moradia popular e de ser muito próximo a Suape. “Era bom demais, só que acabou”.

  • Jailton Ovídio, 39 anos, já trabalhou com muita coisa: foi bugueiro, garçom, estofador, mecânico… Mas, para ele, era preciso trabalhar em Suape. “Eu quero um dia contar para meus netos que eu estava lá, que eu fiz parte desse desenvolvimento em Pernambuco”, orgulha-se.

    Trabalhou no Coeg, um dos consórcios que eram responsáveis pela construção da Refinaria Abreu e Lima. Saiu sem parte dos direitos trabalhistas, pois a empresa não depositou o FGTS. Mas ele nunca confiou em um cesto só para seus ovos de ouro. Em paralelo a todos os trabalhos, fazia bicos e juntou dinheiro o bastante para comprar um terreno bem localizado em Nossa Senhora do Ó, distrito de Ipojuca, onde construiu um prédio de três andares, com lojas e apartamentos.

  • Uma pequena e simpática petshop chama a atenção em Nossa Senhora do Ó, distrito de Ipojuca. É a Lilás Rações, do mecânico industrial Crispim Santos de Jesus, 33 anos. Ele resolveu montar a loja quando juntou suas economias e o dinheiro da indenização que recebeu quando foi demitido de uma das empresas de Suape que atuavam na obra da refinaria.

    Baiano, Crispim chegou em Pernambuco em 2010 e desde então acalentou o sonho do negócio próprio. “Eu pensei que ia trabalhar com oficina e venda de peças de motos”, conta. “Depois tive uma inspiração de que deveria trabalhar com petshop e animais.” Para ele, o clima ameno e o acolhimento da população da comunidade foram determinantes na decisão de ficar em terras pernambucanas.

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Ciclos que se renovam

Saulo Moreira
Editor de Economia
“Tragam a mim os exaustos, os pobres, as massas confusas ansiando por respirar liberdade.” Entre os anos 2000 e início dos 2010, parecia que o complexo industrial e portuário de Suape, encravado entre os municípios de Ipojuca e Cabo de Santo Agostinho, encarnava em seus 13.500 hectares a mesma filosofia libertária do poema The New Colossus, da americana Emma Lazarus (1849-1887).
Gravado em bronze no pedestal da Estátua da Liberdade, em Nova Iorque, o soneto é uma promessa de esperança para aqueles que buscam uma vida melhor a partir do pouco que têm a oferecer: mão de obra. Joia da coroa pernambucana, Suape viu a esperança nascer, crescer e adormecer em aproximadamente 13 anos.
No auge da expansão pernambucana, trabalhadores de todo o País criaram vínculos com a gente nativa. Cortadores de cana da velha Zona da Mata deixaram as foices de lado e contemplavam seus crachás. Aquele pedaço de plástico com a logomarca da empresa era mais do que o passaporte para o mercado de emprego formal. Pendurado no macacão quase sempre cinza, era uma demonstração de cidadania.
Nas ruas estreitas que circundam o complexo industrial, em casas simples, pequenos bares, esquinas, igrejas, prostíbulos, as relações humanas se tornavam intensas porque as máquinas das indústrias funcionavam a pleno vapor. Navios chegavam e saíam. O sonho de uma refinaria de petróleo era descortinado em frente a olhos os mais incrédulos. Havia um estaleiro sendo erguido. Muitos nem sabiam o que era um estaleiro, mas intuíam ser algo que iria gerar emprego, oportunidades de estudo e tornar a lida mais fácil. Helicópteros com executivos de multinacionais sobrevoavam o local. Descendentes de japoneses vieram morar em Pernambuco. Vez por outra, montava-se um palanque para o presidente da República e o governador discursarem.
A economia pernambucana ia de vento em popa, crescendo a taxas bem superiores às do País. O então governador Eduardo Campos ganhava projeção nacional, era celebrado como um CEO nos grandes centros financeiros do Sudeste. Havia, de fato, um orgulho de saber que nossa hora tinha chegado. E o que amparava todo aquele sentimento de grandeza (em Pernambuco, sabemos, ele é recorrente) era Suape.
Bem, Suape ainda está lá impulsionando a economia pernambucana, gerando empregos e produzindo riqueza. Mas não da mesma maneira. Nossa joia perdeu o brilho. Já não desperta o mesmo orgulho de antes. Não se vê mais disputa pela paternidade de projetos entre políticos, sempre tão ávidos pelos holofotes.
No final de 2013, com a crise financeira se acentuando, começaram as demissões. Era muita gente perdendo emprego porque a produção das indústrias já não era a mesma. E já não era a mesma porque o poder de consumo em todo o País estava (e está) em queda. Um ano depois, o golpe mais doloroso. Com as investigações da Operação Lava Jato, descobrimos que estava em Suape um dos principais esquemas de corrupção entre estatais e empreiteiras. O petrolão paralisou e cancelou obras importantes.
Empresas pararam de pagar seus funcionários. Foi o ano dos protestos. Antes de partirem para seus Estados de origem, operários “estrangeiros” e pernambucanos queimaram pneus nas rodovias, levaram tiros de balas de borracha, choraram, se revoltaram e, solidários, fizeram cotas para ajudar os mais sacrificados.
Este trabalho que o leitor tem em mãos é fruto de dois meses de apuração jornalística e de um planejamento em conjunto com a TV Jornal, que também aborda o tema a partir desta terça-feira (7/6).
Com o olhar atento conferido por 15 anos de experiência no jornalismo diário, a repórter Adriana Guarda acompanhou toda essa ascensão e queda em Suape. Em 2011, assinou o premiado caderno Redenção e Contradição, publicado pelo JC.
Naquela oportunidade, já alertávamos para o risco dos efeitos colaterais do crescimento. O poder público deveria estar mais presente para evitar a desordem urbana e a degradação social que, numa escala inferior à atual, já se verificava.
Neste caderno, Adriana se juntou à colega Emídia Felipe, repórter que valoriza ao máximo um dos grandes pré-requisitos do bom jornalismo, o questionamento permanente. Juntas, Adriana e Emídia sabem que a verdade dificilmente reside na superfície. Com esse sentimento, mergulharam a fundo para expor as várias faces de um assunto tão complexo quanto fascinante: o começo, o meio e o fim de um ciclo econômico.
Juntas, uniram-se aos designers Luciana Lobo, Viviane Macena e Fábio Monteiro, profissionais que, com seu talento, deram leveza ao projeto gráfico no papel e na internet. Para registrar tudo em preciosas e documentais imagens, o repórter fotográfico Fernando da Hora, orientado pelo craque Heudes Régis, não economizou em criatividade e entusiasmo.
O resultado desse trabalho em equipe – de tantas idas e vindas a Suape, tantas entrevistas, leituras de documentos, discussões, checagens e rechecagens – é o que o leitor acabou de apreciar.
E, passadas essas páginas que relatam a desdita de tanta gente, há motivos para esperança? Sem dúvida.
Crises são passageiras e próprias do sistema capitalista, que, felizmente, engendra as próprias soluções. Suape vai continuar alimentando sonhos. Trata-se de um gigante ferido que logo vai se recuperar e até ampliar sua influência econômica e social em Pernambuco e no Brasil. Talvez não haja, é certo, um novo boom como aquele, pleno de ineditismo. Mas sempre haverá naquelas terras, antes tomadas pela cana-de-açúcar, espaço para aqueles que oferecem seu trabalho de forma digna, sempre em nome de uma vida mais próspera.
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Fernando da Hora, Emídia Felipe, Viviane Macena, Luciana Lobo e Adriana Guarda (sentada) – Foto: André Nery/JC Imagem

PROJETO GRÁFICO
O projeto gráfico do jornal impresso, idealizado pelas designers Viviane Macena e Luciana Lobo para este especial, faz referência à imagem de chapas de aço, tão presentes na rotina portuária. Elas estão nos navios atracados no porto, nos blocos que vão se transformando em embarcações nos estaleiros e na refinaria, com seus quilômetros e quilômetros de dutos.  A proposta do metal enferrujado, que emoldura as páginas como se estivesse corroído, é uma tentativa de representar a crise enfrentada pelo maior polo de desenvolvimento de Pernambuco.
A cor marrom-alaranjada da oxidação reforça a ideia da crise, conferindo um tom mais sombrio às páginas. Em contraponto ao peso do metal, foi escolhida uma fonte leve e moderna para os títulos e textos em destaque. Infográficos e textos foram colocados sobre janelas brancas para garantir melhor visualização. Os infográficos trouxeram cores vivas para balancear o projeto e dar destaque às informações. A foto da capa foi produzida em estúdio, com a ajuda do encanador industrial Inaldo Barbosa Filho, um dos  demitidos da obra da refinaria, que se dispôs a fazer o retrato para o Jornal do Commercio.

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