Os excluídos

Sem estradas, sem transporte. Exclusão de tudo. Da saúde, da educação, do trabalho, do lazer, da qualidade de vida. Não ter estradas significa estar longe dos acessos. Ser um excluído. E são muitos os excluídos do transporte pelo interior de Pernambuco. As dificuldades provocadas pela ausência ou péssima qualidade das ligações rodoviárias do Estado são muitas e pesadas. Difíceis de vencer. Os problemas cotidianos da mobilidade urbana dos centros metropolitanos tornam-se insignificantes perto do vazio que é o transporte público de passageiros quando saímos da Região Metropolitana do Recife. Um sofrimento alimentado, ainda, por algo mais excludente: o alto custo das passagens - pouco transporte significa tarifas altas e veículos velhos, perigosos. Esse é o preço.

As dificuldades resignam o homem do interior. As pessoas peregrinam para viver, para ir e vir. Não nos centros urbanos das cidades - esses já sofrem com os problemas comuns da imobilidade. Mas sair de um município para outro e, principalmente, de localidades afastadas, é provação. Diária e sacrificante. Caminhões pau-de-arara são a melhor opção para levar e trazer estudantes, mesmo crianças pequenas, de 3, 4, 5 anos; homens são transportados em meio a cabras e bodes; passageiros viajam espremidos em veículos quentes, velhos, sem painel e apoiados sobre restos de pneus. Para aguentar o chão de terra, só veículos velhos. Sem uma demanda de passageiros suficiente, não há condições de investir em qualidade e, consequentemente, em segurança. É um ciclo vicioso. E perigoso. Os passageiros usam, muitos sabendo do perigo, mas não lhes é dada a opção da recusa. E pagam caro por isso.

A AUSÊNCIA OFICIALIZADA

A falta de transporte devido à ausência de ligações rodoviárias se confirma nos números do próprio governo de Pernambuco. São apenas 120 linhas intermunicipais no Estado, operadas por 14 empresas que oferecem gratuidade somente ao idoso e, mesmo assim, apenas duas vagas por viagem. É muito pouco para a dimensão das regiões sob gestão da Secretaria Estadual de Transporte e do Departamento de Estradas de Rodagem (DER). Dados do próprio governo indicam que mais da metade (52%) das linhas que operavam na rede intermunicipal de transporte deixaram de existir, prejudicadas pela invasão do transporte clandestino.

"Acordo às 3h, saio às 4h para pegar o carro que passa às 5h. Se perder, não há opção. Infelizmente é assim. Se a estrada existisse, tudo seria diferente, mais fácil. Mas vamos fazer o quê?”, Creuza Maria Costa, agricultora, moradora de Conceição das Crioulas, em Salgueiro.