O drama de um peregrino

Mover-se no interior exige muito mais persistência do que exigiria em qualquer centro urbano. A ausência de acessos limita a oferta do transporte público e maltrata o homem na hora de ganhar a vida. O querer precisa ser conjugado com muito mais vontade. Ir e vir quase sempre são um desafio. Trabalhar se movendo, então, exige muito mais. Alguns encaram. José Carlos da Silva, um jovem de 22 anos e sorriso largo, é um deles. Ventríloquo, ganha a vida andando pelas cidades do interior, apresentando-se nas feiras livres.

Peregrina. Muitas vezes, gasta mais para se mover, andando em veículos deteriorados pelas estradas degradadas de Pernambuco, do que arrecada com seu suor. São muitas as suas histórias. Por isso, escolhemos o jovem para simbolizar a peregrinação por transporte num Estado que ainda não tem ligações viárias que fortaleçam o serviço público.

É preciso vontade para o ir e vir. Querer trabalhar torna-se uma difícil missão nessas condições. No dia em que o JC o acompanhou, José Carlos precisou pegar quatro lotações. Gastou R$ 12,50 para chegar a Surubim. Caso decidisse ir um pouco mais longe, o custo chegaria a R$ 20. Um desestímulo para quem sabe que gastaria o mesmo valor na volta, sem ter certeza de quanto arrecadaria a mais nas apresentações como ventríloquo. Nas feiras, ele fatura R$ 20 ou R$ 30, com muita sorte e boa vontade do público. Mas já houve dias de conseguir R$ 10, até R$ 5, diz. É uma renda incerta.

“É difícil. Tem que precisar muito para sair de casa. O trabalhador já chega cansado para trabalhar. Dá vontade de desistir. Mas na cidade também não temos trabalho e é o que eu gosto de fazer. Ser um artista. Eu e o Neguinho. A pista não deixa a gente descansar. Se fosse boa, tudo ficaria mais fácil”, José Carlos.

“Mas vamos em frente. A vida continua. A luta do dia a dia é essa. Não temos opção. Fazer o quê?”, José Carlos.