No caminho da privatização

Estamos no limite. A incapacidade financeira, política, e às vezes até moral dos gestores públicos de ampliar e, essencialmente, manter conservadas as estradas pernambucanas tem aproximado o Estado cada vez mais do programa brasileiro de concessões rodoviárias. Pernambuco ainda é um grãozinho de areia perto da malha concessionada do Brasil. São apenas 50,5 quilômetros em 15 mil quilômetros de estradas operadas por empresas no País. Mas está se rendendo ao pedágio. Ruma em direção à privatização, um caminho que, acreditam técnicos e investidores do setor, hoje parece não ter volta. É o futuro. E a estratégia para trilhar esse percurso é simples e ao mesmo tempo extremamente viciante: depois de experimentar estradas de qualidade, com segurança e serviços eficientes agregados, será difícil ao pernambucano reacostumar-se com o ruim. Muito menos com o péssimo.

Dois anos e meio atrás, Pernambuco não tinha sequer uma rodovia concessionada em suas divisas. Agora são duas. Uma a pleno vapor, a Rota dos Coqueiros, conhecida como a Estrada do Paiva, com 6,5 quilômetros ligando Jaboatão dos Guararapes ao Cabo de Santo Agostinho pela costa. E a segunda, a Rota do Atlântico, maior e, de fato, a primeira do Estado projetada para o tráfego pesado e intenso, com 43 quilômetros que formam o Complexo Viário e Logístico de Porto de Suape, e que será um acesso rápido para as praias do Litoral Sul, especialmente Porto de Galinhas, em Ipojuca. Representa um prolongamento da PE-09 e deve iniciar a operação ainda em 2013. A Rota dos Coqueiros, primeira Parceria Pública Privada (PPP) viária do Brasil, recebeu nota 9,6 dos usuários da concessão. A frequência da rodovia, inclusive, tem se mantido inalterada - dez mil veículos por dia.

A transformação de Pernambuco numa razoável praça de pedágio, embora o Nordeste tenha uma ínfima participação no Brasil, é vista com empolgação pela Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR). “A sociedade pernambucana tem um perfil favorável à concessão. E a operação da Rota do Atlântico irá favorecer esse pensamento porque a concessão, de fato, vai mostrar ao usuário o princípio básico do programa: que o benefício é maior ou pelo menos igual ao que ele está pagando para usar aquela rodovia. Com menos desgaste da via, menos buracos e menos acidentes. O Porto de Suape está se modernizando e precisa de um acesso voltado para o transporte de cargas, com rodovias resistentes. É exatamente o perfil da Rota do Atlântico. O pernambucano vai experimentar e gostar”, aposta o presidente da ABCR, Moacyr Duarte. Elias Lages, presidente da Rota dos Coqueiros e do Atlântico, confirma a expectativa de expansão.

Ivan Moraes, superintendente de operações da Rota do Atlântico, com passagem pela Rota dos Coqueiros e outras praças de pedágio do País, defende que só a utilização frequente das rodovias concessionadas vai conquistar os pernambucanos. “Não acredito em resistência por parte da sociedade. O que existe é a falta de conhecimento sobre o benefício. No caso da Rota do Atlântico estaremos lidando com um público já acostumado a pagar pedágio. Suape é uma zona industrial. Empresas, operadores e transportadores sabem disso. Agora, é claro, tudo também passa pela decisão política do governo do Estado de acreditar no benefício das concessões rodoviárias”, analisa.

“A sociedade pernambucana tem um perfil favorável à concessão”, Moacyr Duarte, presidente da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR).

Na verdade, a tarifa dos pedágios sempre desagrada aos motoristas. Não é de hoje. O que ameniza a insatisfação são os benefícios de retorno: a qualidade do pavimento, a quantidade e a agilidade dos serviços de infraestrutura oferecidos, como socorro médico e reboques. E não é por acaso. Números da ABCR mostram a dimensão dos investimentos: em 2013 as 52 concessionárias associadas à ABCR investiram R$ 2,2 bilhões na malha pedagiada. É claro que as empresas lucraram muito - a receita com as tarifas foi de R$ 5,8 bilhões. Mas também houve despesas financeiras (R$ 1 bilhão), pagamento de tributos (R$ 1,2 bilhão) e gastos operacionais das praças (R$ 1,6 bilhão). Em Pernambuco, pelo menos por enquanto, serão aproximadamente 30 mil veículos utilizando as duas rodovias concessionadas diariamente. No restante do País, somente em 2012, 1,6 bilhão de veículos pagaram pedágios. Há 17 anos, eram apenas 20 mil.

“Não acredito em resistência por parte da sociedade. O que existe é a falta de conhecimento sobre o benefício”, Ivan Moraes, superintendente de operações da Rota do Atlântico.