Entregues ao abandono

Abandono. Com pouquíssimas exceções, esse é o sentimento predominante de quem depende das estradas pernambucanas. O poder público raramente está presente, aumentando a sensação de isolamento, de solidão. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) pouco se mostra. Sem efetivo suficiente, com raros postos de policiamento, não tem fôlego para impor presença. A Polícia Rodoviária Estadual (BPRv) sequer é vista na maior parte de Pernambuco. Desestruturada, não consegue ultrapassar os limites da Zona da Mata pernambucana e, mesmo onde alcança, deixa várias lacunas. Soma-se a essa ausência a degradação de algumas estradas, e o que se obtém é um estímulo aos assaltos, à violência. É mais um lado cruel da carência de boas rodovias. Sem asfalto, surgem os assaltos e, com eles, os dramas.

A história de César Alexandre Pereira da Silva, 35 anos, cobrador de lotação desde os 18, retrata bem esse sentimento de abandono. César Alexandre foi assaltado na estrada e, no desespero de evitar que outros motoristas passassem pela mesma agonia vivida por ele momentos antes, terminou confundido com um assaltante. Só queria fazer o bem. Mas levou um tiro e por pouco não morreu. Ele acredita que o fato de ser negro também pesou. Alexandre foi ferido por um tiro na perna direita, disparado pelo motorista de um carro ainda em movimento que nem ao menos reduziu a velocidade. O JC encontrou o cobrador com a perna imobilizada, cheia de pinos, e apoiado em muletas. Nos olhos dele, o sentimento de impotência de quem foi vítima da ausência de segurança e da falta de conservação da estrada - a rodovia PE-04, que está destruída, interliga Goiana, Condado e Itaquitinga, cidades da Mata Norte pernambucana.

“Nós já estávamos voltando para casa, em Itaquitinga, realizando a última viagem na Kombi. Vimos dois homens na estrada, um de cada lado, exatamente no trecho que está totalmente esburacado e onde precisamos reduzir a velocidade. De imediato, percebi que seria assaltado. Um deles queria atirar, mas, por sorte, surgiu um terceiro do meio do canavial e o impediu. Parecia ser o chefe”, relata o cobrador. “Momentos depois, quando ainda estávamos nos recuperando do susto, eu e o motorista vimos dois carros se aproximando. Sabíamos que eles também seriam assaltados se passassem no trecho onde o grupo estava. Resolvi avisá-los. O primeiro motorista parou, falou comigo e fez o retorno. O segundo nem reduziu. Já passou atirando, sem qualquer explicação. Foi muita ironia do destino escapar dos ladrões para quase ser morto por uma pessoa, na teoria, do bem”, contou, desolado.

“O péssimo estado da rodovia provocou tudo isso. As pessoas que moram na região e precisam passar por ela vivem com medo dos assaltos”, César Alexandre Pereira, cobrador de lotação.




São tantos os buracos na PE-04 que muitas pessoas sobrevivem de fechá-los, mesmo que precariamente. Até o prefeito de Itaquitinga, Pablo Moraes (PDT), topou ajudar a cobri-los quando viu a reportagem no local. Parou para lamentar a situação da rodovia.

“A dificuldade é muito grande por causa das condições da PE-04 e também da PE-52, que liga Itaquitinga a Tracunhaém. Estão acontecendo muitos assaltos. A população não acredita mais que as viagens são seguras. Sofremos com essas estradas há pelo menos dois anos”, Pablo Moraes, prefeito de Itaquitinga.


AUSÊNCIA DE TUDO

Não são apenas os buracos que potencializam o sentimento de abandono das estradas pernambucanas. A ausência do poder público incomoda muito mais quem percorre a malha rodoviária de Pernambuco. Sem fiscalização, predomina a liberdade para desrespeitar as regras de trânsito e segurança viária. As polícias rodoviárias, seja federal ou estadual, raramente são vistas pelas estradas de Pernambuco. A ausência se comprova nos números. A PRF tem uma carência real de efetivo, assumida publicamente pela instituição. São 445 policiais para todo o Estado. É muito pouco. Somente a Delegacia Metropolitana, responsável pelo policiamento nas duas principais BRs pernambucanas, a BR-101 e a BR-232 (entre o Recife e Bezerros, no Agreste), além da BR-408, absorve 30% do efetivo. Há 19 anos, existiam 700 PRFs em Pernambuco. E naquela época eles já eram poucos. Hoje, seriam necessários mais mil policiais.

Nesse período, o número de postos de policiamento espalhados pela malha federal de Pernambuco caiu de 21 para 17. Foram fechados o da BR-101 em Ribeirão, na Mata Sul, o da BR-408, em Carpina, na Mata Norte, o da BR-104 em Quipapá, no Agreste, e o da BR-428 da Serra Santa, próximo a Petrolina. A situação é pior na malha rodoviária estadual. Enquanto a PRF é responsável por cuidar de 2.000 quilômetros de BRs, o BPRv precisa dar conta de 142 PEs e uma malha pavimentada de quase 5.000 quilômetros. Não há fôlego para tanto. São apenas 300 policiais e seis postos.