Degradação histórica

Estradas no Brasil são sinônimo de má qualidade. Em Pernambuco não é diferente. Quando se fala em rodovias, um dos primeiros questionamentos feitos pela população é sobre a durabilidade das construções. Elas parecem sempre agonizar. Por que o pavimento não dura o tempo que deveria? Por que esburacam ou adquirem aparência de velhas pouco tempo depois de concluídas? Essas são algumas das indagações cotidianas, não importa qual seja a rodovia ou o Estado brasileiros. Elas sempre são feitas pelos motoristas. Engenheiros acostumados a construir e a estudar a construção de pavimentos apontam a sobrecarga do transporte rodoviário, que circula com excessos de peso impressionantes, como o grande vilão da precoce degradação.

Há outros fatores encadeados que contribuem para a agonia das estradas pernambucanas, mas a sobrecarga seria o principal deles. Um sobrepeso de 10%, por exemplo, eleva em 50% o dano provocado no pavimento de uma rodovia. “O maior problema é que esse dano não é linear. O efeito é exponencial. São resultados apontados por conceituadas instituições americanas, como o corpo de engenheiros do Exército Norte-americano (USACE) e a American Association of State and Highway Transportion Officials (AASHTO). E, mesmo diante dessas consequências, não fiscalizamos o excesso de carga nas nossas estradas, no Brasil e muito menos em Pernambuco”, critica o engenheiro civil Maurício Pina, professor do departamento de engenharia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em pavimentação.

Pina exemplifica os abusos cometidos por muitos caminhoneiros relembrando um flagrante feito durante uma pesquisa realizada na BR-101, no início de 2013. Um caminhão de eixo simples, com roda dupla, que pela legislação teria capacidade para transportar até dez toneladas, estava com uma carga de 22 toneladas, ou seja, mais que o dobro. “Além do dano ao pavimento, que já citamos, existe outra consequência séria: os acidentes. Com sobrepeso, são muitas as chances de perda de controle e de dificuldades na freagem. É o equivalente a um acidente com trem, por exemplo. O Tribunal de Contas da União já determinou que as balanças fossem retomadas no País, mas o programa não avança. Ao contrário. Em Pernambuco temos um posto de pesagem localizado na BR-232, em Moreno, ocupado há mais de dez anos por desabrigados. Por muito tempo foram os sem-terra e agora uma família reside no local”, lembra o professor.

Dos 238 postos de pesagem fixos ou móveis previstos para serem implantados pelo governo federal no País, segundo o Plano Diretor Nacional Estratégico de Pesagem (PDNEP), elaborado em 2005, apenas 77 viraram realidade - um terço do programado. A água é outro vilão na qualidade dos pavimentos. “Além da execução da drenagem, a manutenção desse sistema é fundamental. Mantê-lo desobstruído de vegetação e lixo é princípio básico. Quando a drenagem é insuficiente, compromete a segurança de uma rodovia e provoca o desgaste precoce do pavimento. O problema é grande”, alerta Maurício Pina, citando o caso da BR-232, que possui comprovadas falhas no sistema de drenagem.

Mas, se os critérios para proporcionar qualidade ao pavimento são mundiais, por que todas as estradas concessionadas apresentam condições infinitamente melhores do que as públicas? A reposta é simples: manutenção adequada. Sempre. “As regras contratuais das concessões são muito rígidas em relação à manutenção das rodovias. Para se ter ideia, temos um prazo de 24h para reparar um buraco na via, por exemplo. Além disso, nos programas de concessão rodoviária a lógica é outra. Como está sendo feito um grande investimento na implantação ou ampliação da malha, procura-se fazer o melhor pavimento possível para que ele dure mais tempo. Assim, o custo com a manutenção será menor”, explica Ivan Moraes, superintendente operacional da Rota do Atlântico, a segunda rodovia pedagiada de Pernambuco.