As duas faces

As estradas possuem duas faces. Uma boa, outra ruim. Quando a estrada existe, tudo melhora. As cidades crescem, se fortalecem. Os cidadãos passam a almejar, a ter sonhos, projetos, a esperar por uma vida melhor. Sem estradas, não resta nada. Não há desenvolvimento nem sonhos. Só isolamento. Econômico e social. Os municípios perdem força financeira, as dificuldades predominam e a população deixa de acreditar em dias melhores. Pernambuco está repleto de histórias de sonhos e desilusões nutridos pela má conservação ou inexistência das estradas. Caminhos que fortalecem quando traçados, mas que também destroem e minam quando continuam sendo apenas promessas.

O município de Santa Filomena, quase na divisa de Pernambuco com o Piauí, a 631 quilômetros do Recife, no Sertão do Araripe, reflete essas duas faces. Evoluiu com a pavimentação da PE-625, concluída em 2009, já na gestão do governador Eduardo Campos (PSB). Saiu do isolamento, transformou-se como cidade. Antes da estrada, as pessoas só iam ao município quando precisavam de fato chegar até ele. Era um destino forçado, obrigatório. Poucos se aventuravam a percorrer os 39 quilômetros de terra batida que o separava da cidade de Santa Cruz, esta com acessos viários pavimentados. O caminho tinha muitas surpresas, especialmente quando chovia - sob esse aspecto, o sertanejo tem sorte, pelas precipitações não serem comuns na região.

O trajeto também era demorado. Demais, contam os moradores. Quando a estrada era de terra, perdia-se uma hora entre Santa Cruz e Santa Filomena. Percurso feito sob tensão. Hoje, com a rodovia pavimentada, são 20 minutos de viagem. De Ouricuri, uma das maiores cidades do Araripe, até o município, eram duas horas. Agora, são 55 minutos. “Vivíamos completamente isolados antes de o governo de Pernambuco asfaltar a PE-625, um pleito antigo dos moradores. Ficamos mais perto de tudo. A cidade ganhou outra vida. Nossa feira livre recebe muito mais gente. Tudo está melhor”, atesta a secretária de governo da Prefeitura de Santa Filomena, Gildene Coelho de Melo Ray.

Depois da vitória com a PE-625, agora Santa Filomena tem planos maiores. Luta pela pavimentação dos 152 quilômetros da PE-630, rodovia ainda de terra que poderia aproximar Santa Filomena das cidades-polo da região, como Araripina e Ouricuri, e interligá-la com outras menores, como Trindade, Dormentes e Afrânio. Pavimentada, a PE-630 ligaria o Sertão do Araripe ao Sertão do São Francisco.

O município de Bodocó, também localizado no Sertão do Araripe, a 630 quilômetros do Recife, tem a mesma aspiração de Santa Filomena. Sonha alto. Espera a pavimentação da PE-560, considerada a espinha dorsal do município, para ver a cidade integrar o polo gesseiro do Araripe. Não há previsão de quando o pavimento chegará, mas o sonho é antigo. Se virar realidade, permitirá ao município se libertar da dependência econômica exclusiva da bacia leiteira, cuja produção oscila em função das secas históricas. Bodocó chegou a produzir 172 mil litros de leite por dia, mas, com a estiagem dos últimos dois anos, a produção caiu para 70 mil litros/dia.

“No dia em que a PE-560 passar do projeto para a realidade, o polo gesseiro do Araripe vai sair de Ipubi, Trindade, Araripina e se alocar em Bodocó, onde existem jazidas com um gesso especial, próprio para a confecção de próteses dentárias, ideal para uso na área de saúde. Nossa matriz gesseira é grande, mas nunca pudemos desenvolvê-la porque não temos acessos viários”, Danilo Rodrigues, prefeito de Bodocó.


MAIS SONHOS

São muitos os desejos por estradas melhores em Pernambuco. Alguns municípios lutam, política e socialmente, pela qualidade das rodovias, enquanto outros ainda sonham em ver as ligações saírem do papel. O distrito de Guanumbi ou São Domingos, em Buíque, no Agreste pernambucano, distante 258 quilômetros do Recife, é um desses. Oficialmente, encontra-se localizado a 16 quilômetros do Centro de Buíque e a 21 quilômetros do município vizinho de Pedra. Mas, na verdade, está no meio do nada, cercado por estradas de terra ruins e perigosas. Extremamente perigosas. O que deveria ser a PE-250 é hoje uma longa e angustiante estrada de terra. Entre Guanumbi e Pedra, as condições são um pouco melhores, a estrada é mais plana. Mas em direção ao Centro de Buíque, ela possui trechos que dão frio na espinha. Na chuva, então, é uma daquelas pistas que fazem a pessoa desistir de continuar.

A ausência de estradas não só prejudica Guanumbi, mas também isola o Centro de Buíque, cuja única ligação com alguma cidade-polo da região é pela PE-270, que chega a Arcoverde, na entrada do Sertão pernambucano. “Buíque é o segundo produtor de leite de Pernambuco e não tem estradas decentes. O caminho não é pior porque os fazendeiros se reúnem e contratam tratores para acomodar a terra. Levamos 30 minutos de carro até o Centro, se o motorista for bom. De caminhão, gasta-se uma hora, no mínimo. Temos a maior escola municipal de Buíque, com dois mil alunos, e a pavimentação da PE-250 beneficiaria 90 mil pessoas, mas isso não muda nada”, defende o produtor Jarbas Pacheco, 71 anos.


FELICIDADE

Nos Descaminho de Pernambuco, entretanto, nem tudo é tristeza. Quando a estrada chega, de fato, tudo melhora. No Araripe, a pavimentação da PE-615 potencializou o polo gesseiro. José Ronildo Silva, supervisor da Gpser, uma das empresas do setor, sentiu o crescimento econômico depois que a rodovia, antes de terra, passou a ter asfalto. Mesmo sendo uma estrada simples, quase sem acostamento. “Tivemos um grande aumento na produção e nas vendas. A vida ficou mais fácil. Seja para o escoamento do nosso gesso, seja para os trabalhadores e transportadores chegarem e saírem. Antes era muito difícil. Depois que a rodovia foi asfaltada, a energia chegou e diversas empresas passaram a se instalar ao longo da via. Houve uma expansão do polo gesseiro superior a 20%”, certifica.