Sonho interrompido

“Eu queria que ele chegasse até o Santa Cruz. É o time do meu coração”. A frase que abre este texto é um misto de tristeza e frustração com o destino. É de Amaro Gonçalves, 63 anos, pai do atacante pernambucano Everton Kempes, uma das 71 vítimas da queda do avião da Chapecoense no ano passado. Natural de Barreiros, Zona da Mata do Estado, e radicado no Rio de Janeiro há 22 anos, Seu Amaro, como é conhecido, alimentava o sonho de ver o filho do meio (são três ao todo) vestir a camisa da Cobra Coral.

Natural de Carpina, também na zona da Mata, Kempes deixou a cidade natal ainda aos 2 anos com destino ao Recife. Aqui, ficou até os 5, quando rumou para a Bahia em 1987. Foi ganhar o mundo, mas sem esquecer dos parentes que ficaram no Estado natal. Vinha visitar tios, primos e avós sempre que dava. A última vez em que esteve em Pernambuco a passeio foi em 2000. “Ele gostava muito de ir à praia. Tínhamos um tio, o Manoel, que trabalhava em Boa Viagem. Então vivíamos no mar”, relembra Eric Kempes, também pernambucano, irmão caçula de Everton. As outras visitas aconteciam apenas em dias de jogos na capital.

Um dos últimos encontros entre Seu Amaro e Everton foi no dia 16 de novembro de 2016. Exatos 13 dias antes do avião cair no Cerro El Gordo, nos arredores de Medellín, local da primeira partida da final da Copa Sul-America, contra o Atlético Nacional. Everton foi ao Rio de Janeiro para jogar contra o Botafogo. Levou consigo uma camisa do Santa Cruz. Queria fazer uma surpresa ao pai.
“A gente se encontrou em um hotel em Copacabana e ele me disse: ‘Pai, tenho um presente que você vai adorar’. Era uma camisa do Santa Cruz. Eu guardei como lembrança”, recorda o pai, com a voz embargada ao telefone.

A última vez em que o atacante esteve no Recife foi no dia 7 de setembro do ano passado, quando a Chapecoense enfrentou o Santa Cruz na Arena de Pernambuco. E uma história curiosa entre pai e filho surgiu a partir daí. “Estava falando com ele antes do jogo e disse: ‘Joga bem, faz gol, mas não é para ganhar do meu Santa’. Aí ele fez o gol e foi um dos gols mais bonitos da rodada. A gente teve uma felicidade muito grande”, relembra. A partida terminou em 2×2.

O segundo nome de Everton e dos dois irmãos (Cleber e Eric) exemplificam a paixão do barreirense pelo esporte. Todos carregam o sobrenome de Mario Kempes, ídolo do futebol argentino e artilheiro da Copa do Mundo de 1978 com seis gols. “Na época em que eles nasceram, coloquei Kempes no nome de todos para que um dia eles viessem a ser jogadores. Prometi que iria colocar o nome do artilheiro da Copa de 78, por isso acabou sendo esse o escolhido. E ele, como foi o mais persistente, acabou seguindo na carreira”, explica.



Após a queda do avião, o psicológico ficou abalado. Maria das Graças, mãe de Everton, é uma das que mais sofre até hoje. Não assiste mais futebol, sequer liga a TV, com medo de ver algo que lembre o filho. Eric alterna os dias de novembro entre internações no hospital e a casa, por conta da proximidade com a data do acidente. Em um dos vários contatos com a reportagem do JC, o professor de 32 anos chegou a falar enquanto estava internado. “O meu irmão sempre foi um cara muito determinado para chegar nos objetivos. Isso é um legado que nunca vai sair da gente”, diz Eric.

A dor foi tanta, que fez até Seu Amaro se afastar do futebol. Parou de acompanhar partidas. Perdeu o sentimento. Se afastou até do próprio Santa Cruz, algo que nunca havia acontecido em todos esses anos fora. Mas depois voltou. Voltou por Everton Kempes. “Era o que meu filho queria”, justifica.
E é na imagem de Nossa Senhora Aparecida que a família busca refúgio. Católicos fervorosos, os Santos Gonçalves seguram na mão de Maria para superar a dor que parece ser eterna. Agradecem toda forma de homenagem prestada. “Ele era católico e nós também. Temos muita fé e estamos pedindo muito a Deus para ele nos confortar e curar esse trauma que é muito grande”, conclui Amaro.

Parentes do Recife tentam lidar com a saudade

Everton Kempes, uma das 71 vítimas na queda do avião da Chapecoense no ano passado, era pouco conhecido em Carpina, município da Zona da Mata de Pernambuco. Deixou a cidade natal ainda aos 2 anos com destino ao Recife, onde morou até os 5 anos. Os parentes do pernambucano moram hoje no bairro do Jordão Baixo, na zona Sul da capital. Tios, avó, primos… Todos relembram com saudosismo do ex-atacante.

Enquanto que a família acompanhou as notícias sobre o acidente de longe, no Recife, a avó de Kempes, Tereza Maria, visitava Florianópolis, capital de Santa Catarina, a apenas 553km de Chapecó. Estava em uma excursão com a igreja que faz parte. Por conta dos 81 anos, os amigos buscaram blindar a idosa. Segundo ela, a sua intenção era seguir para a cidade do Oeste catarinense em busca de notícias. Impedida, ficou grudada na frente da televisão, esperando alguma notícia positiva quanto a vida do neto.

“Eu não fiz nada. Eu não gritei, eu não chorei… Eu fiquei ali, só pedindo misericórdia a Deus. E aquela agonia toda. Só dava choque. Quando eu começava a dar choque, todo mundo me cercava. E suportei, resisti… Resisti. Mas não foi fácil, até hoje não é fácil”, relembra de maneira cabisbaixa.

Dona Tereza costumava cantar para o neto quando o encontrava. A última vez em que ela fez isso foi no dia 7 de setembro de 2016, quando Kempes veio com a Chapecoense jogar contra o Santa Cruz, na Arena de Pernambuco. Foi ao hotel aonde o time estava hospedado e, a pedido do próprio neto, cantou para parte da delegação catarinense. “Meu filho, me desculpe a intimidade, mas ali foi um chamado de Deus e ele tinha que ir. A gente pode desobedecer a esse chamado não”, responde a avó, quando questionada se haveria algum porquê para a morte do neto.

Outro parente de Everton Kempes no Recife é Edinaldo Araújo, de 38 anos. Cresceu ao lado do ex-atacante e o viu dar os seus primeiros chutes na bola nas ruas do bairro. No dia do acidente, ele confessa que ficou incrédulo com a notícia. Criou esperança quando foi noticiado que haviam sobreviventes. O baque veio quando viu que o nome de Everton não estava entre os que haviam se salvado.

“Eu estava em casa, me preparando para ir trabalhar, quando eu me deparei com os meus pais na sala, assistindo TV. Minha mãe estava bem abalada com o que estava acontecendo. A gente ficou um tempo acompanhando para ver o desenrolar das informações e ter pelo menos uma ideia do que havia acontecido com ele”, relembra.

Quando questionado sobre como era a infância nas ruas do Jordão, Edinho, como é chamado pelos primos, deu risadas. Por um momento pareceu esquecer a dor causada ao relembrar do acidente. As histórias não envolvem apenas a fissura pelo futebol. “Perto da casa da minha avó tinham vacas. A gente brincava com elas na rua e, às vezes, levávamos algumas carreiras. Essas histórias servem para a gente estar revivendo momentos bons”, conta, esbanjando um tímido sorriso.

Cleide Maria, mãe de Edinaldo e irmã de Maria das Graças (mãe de Kempes), viajou para São Gonçalo, no Rio de Janeiro, para passar uma semana com os pais do ex-jogador. Voltou do Sudeste com uma foto do sobrinho, exposta na sala da casa ao lado de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Aliás, era na residência dela que Everton ficava quando vinha ao Recife. Na última vez, recebeu um calção da Chapecoense como presente.

“Ele era católico, tinha devoção a Nossa Senhora Aparecida. O trabalho que eu tenho na minha comunidade é justamente com Nossa Senhora Aparecida. Ele vai estar sempre presente entre nós. Para mim, ele vai continuar sendo a pessoa que era. E a presença dele vai estar sempre com a gente”, afirma.

Mesmo com a distância, a relação entre Everton Kempes e a família em Pernambuco era de proximidade. Era de carinho, de afeto. Hoje, o que restou no imaginário dos parentes é a saudade. Exposta no semblante de cada um quando o acidente volta a ser relembrado.

Henzel aprendeu a viver como se estivesse de partida

Igual ao pernambucano Kempes, Rafael Henzel também estava naquele voo que caiu na Colômbia. Diferente foi seu destino. O jornalista foi um dos seis sobreviventes da tragédia e um ano depois do ocorrido leva a mensagem resumida pelo título do livro que escreveu sobre o assunto: “Viva Como se Estivesse de Partida”.

Henzel esteve na capital pernambucana em julho deste ano para lançar a publicação e foi convidado do programa Ponto de Entrevista, da TV JC. Na ocasião, ele classificou como milagre o fato de estar ali na redação do Jornal do Commercio dando entrevista. “Isso pode até soar presunçoso, eu costumo fazer essa ressalva antes, mas eu sou um milagre de Deus. Aconteceu algo muito forte lá para seis pessoas (sobreviventes). Você cair com um avião a 240 quilômetros por hora, ficar no frio, ter pneumonia, costelas quebradas, esperar um resgate, diversos fatores que te levariam a morte. Mas eu recebi um milagre de Deus e hoje estou aqui por conta disso”, disse.

O jornalista contou que apesar da gravidade da situação em que se encontrava não pensou na morte. “Lá tive uma segurança tão forte que não pensei em morrer. Mas não foi só o Rafael, mas uma força muito maior que me tranquilizou. Descobri que estava vivo e consciente, e isso foi me ajudando muito. A fé ajuda, mas é a nossa disposição de acreditar de perseverar. O livro é um relato daquilo que é possível, independentemente do tamanho do seu problema”, afirmou.

E foi assim, sem focar em problemas, que Henzel deu a volta por cima justamente voltando à rotina de antes. “Minha maior mudança foi não mudar, eu não pensei em ficar na minha casa sem trabalhar, não pensei em deixar de fazer o que gosto. Quarenta dias depois do acidente voltei a narrar jogos e tocar a minha vida como fazia antes”, contou.

Voltou a não só narrar, como também jogar futebol. E na pelada com os amigos já conseguiu até fazer piada sobre o que sofreu. “Quando eu voltei a jogar bola, até brinquei com os colegas. Eu tive sete costelas quebradas, o pulmão perfurado, aí ainda vem um amigo de pé torto dar um chute pra eu ter que desviar a bola com o peito”, brincou Henzel.

A nova vida de quem deveria ter embarcado

“Era pra eu estar naquele avião”. A afirmação é do empresário Julião Konrad, dono da rede de restaurantes Spettus, que tem uma íntima ligação com Chapecó, em Santa Catarina, e por consequência com o time da Chapecoense. “Só de lembrar fico todo arrepiado”, disse, apontando para os pelos do braço, ao relembrar que fora convidado a fazer parte daquele voo da tragédia com a equipe.

A ligação com Chapecó não está no sangue. E sim na alma. Ele nasceu em Lajeado, no Rio Grande do Sul, e aos 18 anos se mudou para a cidade onde viveu os 12 “melhores” anos de sua vida, segundo o mesmo, para depois se estabelecer no Recife. Apaixonado por futebol, acompanhou de perto toda a trajetória meteórica da Chape. Seu restaurante, inclusive, era ponto de encontro oficial do time após as conquistas. E foi em uma comemoração na tarde do dia 26 de novembro do ano passado, três dias depois do time ter conquistado a inédita vaga para a final da Copa Sul-Americana, que houve o convite tentador do vice-presidente do clube: “Julião, vamos juntos!”.


A viagem para a Colômbia seria dois depois, mas Julião agradeceu e declinou da proposta. O motivo? “Sou casado há 49 anos. Minha mulher ia fazer aniversário no dia 29 de novembro. A viagem seria exatamente um dia antes. Não tinha como me programar, o maior peso para eu não aceitar foi mesmo o aniversário da minha esposa”, contou o empresário.

Às quatro horas da madrugada daquela data especial, Julião é acordado com várias mensagens e ligações no celular. A notícia da tragédia. Na qual poderia estar incluído. “Liguei a televisão, vi aquela tragédia e me acabei. Sinceramente não tinha mais força pra nada. Foi uma dor muito grande. Fiquei três dias em casa, sem sair, sem atender telefone. Isso me deixou arrasado. Perdi muitos amigos”, disse, com a voz embargada.

Claro que não teve como não recordar do convite dos amigos para integrar o voo. “Evidente que veio na cabeça o convite. Outros amigos estavam para ir também e não viajaram. Não embarcaram por detalhes. Mas acho que quando não é pra ser, não é. Eu acredito muito em destino, eu sou supersticioso. Acho que tudo está traçado. Eu acredito no fator sorte, de estar no lugar certo, na hora certa. Eu acho que você nasce e tem uma missão”, disse Julião, que acredita ainda ter algo a cumprir.

REENCONTRO COM HENZEL

Em julho deste ano o JC promoveu o encontro de Julião com o amigo e jornalista Rafael Henzel que veio ao Recife narrar o jogo entre Sport e Chape. Foi a primeira vez que se viram depois do acidente e como não podia ser diferente sobrou emoção. Afinal é uma amizade que resistiu a tudo. Ao tempo, a distância e até a uma tragédia. A vida os uniu. Nem a quase morte conseguiu separá-los.

No restaurante, Henzel rememorou a última vez que esteve no local e agradeceu por poder voltar. “Há um ano eu estava nesta mesma mesa em que estou hoje com a minha família e como é bom poder voltar. Como é bom compartilhar com amigos a alegria de viver. É bom estar aqui com com um amigo de longa data de todo o povo da Chapecoense”, contou Henzel.

Os amigos, mais do que nunca, agora querem celebrar a vida e tudo o que ela ainda há de trazer. “O importante é que estamos aqui, continuamos vivos e está tudo certo. A vida continua. Com certeza ainda temos muita coisa pra viver. A vida começou do zero agora”, brincou Julião.

 

Expediente

26 de novembro de 2017

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