Na sombra do pai

Tímido, Aroldo Loureiro entra no gramado da Ilha do Retiro. Com o uniforme do Sport, que pela genética lhe cai bem, o garoto de 12 anos fica mais à vontade quando solta a bola no tapete verde, onde Cléber Santana fez história. Na sombra do pai. O filho quer seguir a luz e o caminho do craque que se foi, mas permanece ali. Na fértil grama das melhores lembranças rubro-negras.

Há poucos meses Aroldinho está treinando nas categorias de base do Leão. Em meio a tantos outros garotos, ele é mais um a sonhar com uma carreira de sucesso no futebol como Cléber teve. O fato do jogador ter começado ali na base do Sport é mais um motivo de inspiração para a meninada. Sobretudo para o filho.

Mesmo um ano após a tragédia da Chapecoense, Aroldinho ainda não se sente bem em falar sobre a perda do pai. Compreensível. Assim como a emoção dele ao pisar no gramado que consagrou Cléber Santana. Um sentimento traduzido pelo amigo da família Daniel Bitelo, que acompanhou o garoto na Ilha do Retiro e também na vida, sendo quase como um segundo pai. Daniel conheceu Cléber e os filhos em Chapecó. A amizade foi tão forte que após a morte do jogador ele continuou ajudando a tomar conta dos garotos.

“Falar de Aroldinho é fácil! É um menino dedicado, muito dedicado. Se der uma bola pra ele, fica jogando o dia inteiro. Deixa de fazer qualquer coisa pra jogar. Na escolinha de futebol, em Chapecó mesmo, quando o treino acabava umas 10h, ele ficava até perto do meio-dia batendo falta e pênaltis. Isso direto, todo dia. Eu falava pra gente ir embora almoçar e ir pro colégio, mas era difícil tirar ele de dentro de campo”, contou Daniel, abraçado com o garoto.

Aroldinho está seguindo os passos do pai, mas em alguns contextos quer caminhar diferente. A posição em que pretende jogar é um bom exemplo. Apesar do pai ter sido um meia habilidoso de toque refinado e tendo como marca a elegância, o filho diz que quer atuar mais recuado como volante. As inspirações? “Felipe Melo no futebol brasileiro e Tony Kross no internacional”, respondeu Aroldinho, em uma das raras palavras ditas para a equipe de reportagem.

Com o talento e a dedicação vistos todos os dias, Daniel não tem dúvidas de que o menino vai conseguir realizar o seu sonho de seguir carreira no futebol. Fala isso com um orgulho digno de pai. “Rapaz, eu fico até sem palavras…é difícil de falar porque eu fico muito, muito contente. É um orgulho como se fosse meu filho. Sei que vai dar tudo certo e no futuro ele ainda vai dar muita alegria para a torcida do Sport”, disse.

Mas apesar de falar em alegria é inegável a tristeza da falta de Cléber. “É difícil porque tudo lembra. Na rua, em casa, em todo lugar vem as lembranças. Se pra mim é difícil pra os filhos é muito pior. Mas são coisas que a gente tem que superar, né?”, disse Daniel, com Aroldinho cabisbaixo ao lado.

Pra finalizar a reportagem foram feitas imagens de Aroldinho andando pelo gramado, voltado para as arquibancadas, agradecendo o apoio que a torcida sempre deu a ao pai, antes e depois da morte. “Cara, quando eu vi essa cena, só me veio à cabeça o pai dele fazendo aqueles gestos de agradecimento. Eu vi o Cléber no lugar do Aroldinho. É como se fosse um filme e eu vendo tudo outra vez. Só que dessa vez terá um final feliz”, projetou Daniel, com o estádio vazio ao fundo, retribuindo o agradecimento em silêncio.

Clebinho tenta seguir em frente

“É difícil! Cada vez que passa mais tempo a pessoa sente mais falta”. O desabafo é de Clebinho, de 15 anos, que ao contrário do irmão, quis falar sobre o que houve com o pai. Três anos mais velho que Aroldinho, ele se mostra forte para encarar a missão de dar prosseguimento à vida sem o ídolo, amigo e referência Cléber Santana.

Na praia de Boa Viagem, em frente ao prédio onde mora, o garoto se abriu. “Pior é ver minha mãe e meu irmão, eles são bem sentimentais. Eu sou um pouco mais fechado, mas ainda assim é bem difícil. Mas pra aguentar eu me sinto mais forte do que eles”, contou Clebinho, com olhar e postura já de adulto. Afinal, ele está mesmo que tendo que fazer as vezes de um adulto para ser a nova base da família, agora como o homem mais velho.

Tão firme quanto o pai, com quem aliás se parece muito física e emocionalmente. “No porte físico falam que eu sou igual, que ele era igual a mim quando era da minha idade. Dentro de campo falaram que meu pai era muito calmo e sou assim também quando estou jogando”, disse Clebinho. Sim, igual ao irmão, ele também já está tentando seguir o caminho do pai nos campos e treina em uma escolinha de futebol no Recife.

“Eu queria ser jogador por conta do meu pai. Antes mesmo desse acidente eu já queria isso porque quando eu era pequeno ele me levava nos estádios e via ele jogar. Quero ser jogador, jogar em time grande, fora do Brasil”, projetou o garoto, já fazendo planos a curto prazo: “Eu acho que vou começar no Avaí, talvez no próximo ano eu vá para os juniores de lá e depois pra base. Pretendo começar lá e seguir a carreira”, disse.

No clube catarinense, inclusive, Cléber também foi ídolo. “Não quero necessariamente passar pelos mesmos clubes dele não, mas eu quero ter a história que ele teve”, afirmou. Igual a Aroldinho que quer ser volante, Clebinho também não escolheu a mesma posição do pai. “Meu pai era meia, mas eu não vou trabalhar muito a bola igual a ele porque quero ser atacante, fazer gol”, disse.

Todavia, o gol que o adolescente precisa fazer agora é contra a saudade. “Isso aí não tem muito o que falar! Quando eu jogo, eu penso nele. Fico lembrando dele jogando, a forma como ele atuava. Sinto ele presente sim, nos lugares, em casa, essas coisas. Sei que ele sempre vai estar me ajudando”, contou o garoto.

No dia em que a tragédia completa exatamente um ano, Clebinho não quer pensar em morte e sim em vida. Nos bons momentos vividos com Cléber. “Prefiro pensar nas coisas boas, em vez das ruins como o acidente. Melhor lembrar dele me levando ao estádio, me segurando”, disse Clebinho, com a certeza de que permanece nos braços do pai.

Vítimas deixaram sementes

Mesmo estando entre as 71 vítimas fatais na queda do avião da Chapecoense no ano passado, o ex-atacante Tiaguinho e o jornalista Guilherme van der Laars continuaram deixando suas sementes no mundo em 2017. Ambos faleceram justamente no período em que suas esposas estavam grávidas. Agora, Tiago e Gabriel chegam ao mundo com a missão de carregar o sobrenome e as histórias dos pais.

O primeiro a nascer foi o filho do jornalista, em janeiro deste ano, no Rio de Janeiro. Ele foi o terceiro do casamento entre Guilherme e Carol Rossato. Sem o pai, quem acompanhou o parto do caçula foi o tio, Henrique, irmão do ex-produtor do Esporte Espetacular, da Rede Globo, e que tinha 43 anos.

Seis meses depois, foi a vez de Tiago, filho de Tiaguinho, vir ao mundo. O nome foi escolhido pela mãe, Graziele Aquino, como uma forma de homenagear o marido falecido. A nova mãe comemorou a chegada do pequeno com uma foto publicada nas redes sociais, acompanhada de um texto destinado ao companheiro. “Seja bem-vindo, meu amor! Que tenhas muita saúde, porque amor é o que não vai faltar em tua vida! Obrigada por nos proporcionar tanta felicidade, tenho certeza que teu pai está muito orgulhoso lá de cima, e que jamais vai deixar de te acompanhar! Família abençoada”, escreveu.

No mesmo dia do acidente, a família do ex-jogador publicou um vídeo do momento exato em que Tiaguinho descobriu que seria pai pela primeira vez. Ele tinha 22 anos. Nas imagens, ele aparece lendo um bilhete, em que dava a notícia da paternidade. É possível ver também o jovem gesticulando balançando as mãos, como se estivesse embalando o filho. A euforia e os sorrisos tomaram conta da cena. O vídeo foi gravado uma semana antes da queda do avião na Colômbia.

“Chegou o dia tão esperado por todos nós, o nascimento do pequeno Tiago! Hoje um anjo chega à Terra, e enviado de seu próprio pai, que também é um anjo e hoje você no céu…”, completou a jovem que, na época do acidente, tinha 18 anos.

Homenagens pelo mundo

A maioria das homenagens às vítimas do acidente aéreo feitas até agora teve um fio condutor: o simbolismo. Seja com um minuto de silêncio antes de cada partida feita ao redor do mundo ou simplesmente o uso de flores para representar as 71 pessoas que morreram. Agora, com o aniversário de um ano da tragédia, isso se intensificou. Houve inauguração de placa de em Medellín, cidade próxima a La Union, local da queda do avião, com o nome de todas as vítimas, como também a produção de um documentário, feito pela Fifa, com os sobreviventes.


As homenagens na Colômbia não ficaram restritas apenas a essa placa, feita de concreto. O Atlético Nacional, adversário da Chapecoense na Copa Sul-Americana do ano passado, também criou uma capsula do tempo com o escudo do clube catarinense. Entre os diversos objetos guardados nele, há uma camisa do time colombiano. O cilindro só será aberto em 40 anos.


Por determinação da Fifa, todas as partidas disputadas nos dias 28 e 29 (dia do acidente) devem respeitar um minuto de silêncio em homenagem às vítimas. O gesto será repetido na última rodada da Série A do Campeonato Brasileiro.
O Torino, da Itália, que também passou por uma tragédia semelhante a da Chapecoense, vestirá verde contra o Atalanta, pelo Campeonato Italiano. O avião que transportava o clube de Turim após partida contra o Benfica, em 1949, se chocou contra o campanário da Basílica de Superga, na própria cidade, matando todos os 42 passageiros.

Buscando homenagear ainda mais as 71 vítimas do acidente aéreo, a Chapecoense lançou neste mês de novembro o portal “Pra Sempre Chape”, onde qualquer pessoa poderá publicar imagens, vídeos e textos em forma de tributo aos mortos. A plataforma fica hospedada no próprio site do clube e está disponível em três idiomas: português, espanhol e inglês. Segundo o comunicado, o objetivo do serviço é eternizar lembranças dos que se foram.


Todo material passará por uma moderação interna e, em seguida, será publicado. Segundo Darlan Segalin, diretor de tecnologia e marketing digital do clube, o portal é desenvolvido com o que há de mais moderno em tecnologia. Os vídeos poderão ser carregados no Youtube e o link compartilhado no espaço. O endereço eletrônico irá funcionar tanto em computadores quanto em smartphones.

Expediente

26 de novembro de 2017

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