Um campo e um Estado órfãos

Um campinho cheio de vida e alegria que ficou órfão. Assim como Pernambuco. A terra batida de Caetés III, em Abreu e Lima, viu os primeiros chutes daquele moleque franzino que agora só se vê gravado em forma de grafite nos muros do local. Eternizado. Cléber Santana não morreu. Permanece ali. Olhando outros garotos de pés empoeirados jogar, como outrora também fazia, e dar asas ao sonho de ser jogador de futebol. O menino do muro realizou. Todavia, por ironia, voou tanto na carreira que perdeu a vida assim.

Uma trajetória meteórica como a da própria Chapecoense, cujo escudo também aparece grafitado no local. Uma imagem manchada na madrugada daquela terça, dia 29 de novembro de 2016, quando houve o acidente aéreo com a delegação do time, em Medellín, na Colômbia. Entre as 71 vítimas dois pernambucanos: Cléber Santana e Kempes. Um ano de saudade é o que ficou.


Retornamos ao campinho de Caetés III quase um ano após a tragédia. O que antes fora regado por lágrimas já dava frutos. Dezenas deles. Mais precisamente 160 crianças de 6 a 16 anos participando de uma escolinha de futebol em um projeto em parceria com a prefeitura de Abreu e Lima e o clube Decisão. A referência de todos é o garoto magrelo que começou bem ali. “Todo mundo está aqui por conta do Cléber Santana. Ele foi um grande jogador que batia muito bem de fora da área. É a nossa inspiração”, afirmou Lucas Emanoel Rodrigues de Melo, de 10 anos, que chamou atenção pela semelhança física com o ídolo.

Semelhanças técnicas quem busca é o ex-jogador Roberto Pedro da Silva, conhecido como Café, que é um dos professores da escolinha e viu Cléber moleque jogando no mesmo campinho. “Quem trabalha com a meninada sabe logo quando se depara com um alguém diferenciado. Você percebe pelo domínio da bola, pela forma que toca nela. Cléber sempre foi diferente. Ele recebia a bola, corria de cabeça erguida e batia muito bem nela. Desde cedo a gente já percebia que Cléber ia ser um grande craque”, afirmou Café.

O coordenador do projeto da escolinha não só acompanhou os passos de Cléber, como também deu muitos passes para o craque fazer gols no campinho de Caetés III. Se procurar Evandro Marcolino da Silva ninguém conhece, mas se chamar pelo apelido de Urá todo mundo sabe quem era o amigo inseparável do meia. “Eu morava numa rua e ele na de trás. Como antigamente não tinha muito muro, o acesso era fácil e a gente vivia junto. Tinha aquelas peladas de uma rua contra a outra e sempre ficávamos no mesmo time”, contou Urá.

Juntos eles defenderam muitos times amadores do bairro. Um deles, por ironia, se chamava Torino, equipe italiana que ficou mundialmente conhecida após um acidente aéreo que deixou 31 mortos em 1949, até então uma das maiores tragédias mundiais do esporte. Até então. Mas os amigos não se contentaram apenas em jogar em  alguns times e também criaram um com um nome curioso. “Bora formar o nosso próprio time? Bora! Eita, mas e aí, qual o nome? A gente pensou, pensou e como na época nós éramos bem técnicos e tinhamos uma certa habilidade decidimos: Elegância Futebol Clube!”, recordou Urá, aos entre risadas.


Cléber nunca esqueceu a elegância. Nem os amigos. Todo fim de ano voltava as suas origens para fazer o que mais gostava. Jogar com os amigos no bom e velho campinho do bairro. “Cléber rodou o mundo, mas independentemente onde estivesse jogando, sempre fazia questão de voltar pra cá. Organizávamos uma pelada e era aquela festa. Ele revia o pessoal, trazia presentes e distribuia chuteiras para a meninada”, rememorou, saudoso.

O olhar ao longe só é interrompido por uma dor bem perto. Que vem de dentro. Quando questionado sobre como se sente um ano sem o velho amigo, emudece. As lágrimas vem instantaneamente. “Peço desculpas, mas é que pra mim ainda é difícil falar sobre isso”, se justifica Urá. Nem precisava. Enquanto caminhava para a saída se mostrou mais resignado. “O que a gente pode fazer agora é guardar os bons momentos que a gente teve junto”, disse Urá. Os momentos ficaram lá no campinho, sob o olhar de Cléber no muro.

Minha vida se resume em saudade

ENTREVISTA

Rosângela Loureiro, esposa de Cléber Santana

Jornal do Commercio – Como vocês se conheceram?

Rosângela Loureiro – “Na verdade eu e Cléber éramos vizinhos desde pequenininho. E aí toda vez que eu ia comprar pão ele tava jogando pelada na rua com dois tijolos de um lado e do outro. Eu tinha uns 14 anos e toda vez que eu passava ele ficava me paquerando. ‘Morena, me dá um pão!’. Aí toda vez eu parava e dava um pão a ele. Toda vez eu levava uma bronca da minha mãe que chegava com um a menos. Aí depois ele me pediu em namoro e a gente começou a namorar. Quando ele subiu para o profissional no Sport ele me pediu em casamento. Eu tinha só 17 anos! Meu pai e minha mãe tiveram que assinar no cartório e tudo porque eu era muito nova né? Aí eu chorava tanto que ele dizia pro meu pai e minha mãe que ia me devolver e eles rindo diziam que não aceitavam devolução”

JC – Os amigos brincam dizendo que ela era muito magro…

RL – “Parecia dois palitos de dente as pernas dele, gente! Depois eu olhando as fotos dizia: ‘Cléber, como eu namorei contigo?’ Era muito magrelo, parecia só osso”

JC – Um ano depois do acidente como está sua vida?

RL – “Minha vida se resume em saudade, muita saudade. E vai ser pro resto da vida assim. A gente hoje é obrigado a seguir, a viver. E eu pretendo continuar a viver intensamente, assim como eu vivia com o Cléber. Não quero deixar nada a desejar nem pra mim nem para os meus filhos”

JC – Como você se sente quando vai chegando o dia 29?

RL – “Na verdade todo mês quando chega a data, parece que o corpo já sabe e fica de luto. Eu fico depressiva, tento não chorar, me distrair, mas parece que uma coisa me pega e me prende. Eu tento me enganar, não lembrar da data, mas é automático”

JC – Mas e o 29 de novembro?

RL – “Eu vou dizer nem eu sei. Eu falei para a minha família: me leva para uma ilha deserta, me esconde de todo o mundo. Sei que na TV e todo mundo só vai falar nisso porque foi uma coisa que abalou o mundo inteiro. Eu quero na verdade proteger os meus filhos e me proteger. Por que é impossível pra gente não lembrar e não sofrer porque isso vai fazer parte da gente na vida inteira”

JC – Você carrega no ombro a tatuagem da viagem que iriam fazer…

RL – “Todo ano a gente viajava, ano retrasado a gente foi pra Cancún e no passado a gente iria pra Punta Cana. E eram nove casais. Veio a ideia de fazer uma tatuagem para marcar a nossa viagem. As nove mulheres escolheram o desenho e fizeram a tatuagem. E depois que aconteceu a tragédia a gente se deu conta que Deus é tão perfeito. Eu paro pra pensar no desenho da tatuagem que tem um avião que não chega no destino e um coração incompleto, assim como o da gente ficou hoje. Meu Deus, até a tatuagem que a gente escolheu significa algo que só no futuro a gente ia entender o que”

JC – Você acredita em destino?

RL – “Hoje eu acredito em tanta coisa que eu não acreditava antes. Eu nunca acreditei em espírito, sempre fui evangélica da Assembléia de Deus, cresci nesse meio. Mas depois que aconteceu o acidente teve coisas na minha casa que eu falo e todo mundo se impressiona. A gente tem um cachorro chamado Maradona que era muito ligado ao Cléber. Se eu começo a chorar parece que o Cléber chega porque o cachorro do nada olha para a parede e começa a latir correndo de ré desesperado. E quando eu pergunto ‘É papai, Maradona? É o Cléber?” ele vai cheirando com os olhos cheio de lágrimas e vai se acalmando, ficando perto do local. Depois disso o cachorro fica triste o dia inteiro. Ou seja, depois dessas coisas, comecei a acreditar até em espíritos. Como se Cléber quisesse dizer que não me quer mal, não quer me ver chorando”

JC – Qual a sua relação com a Chapecoense depois do que houve?

RL – “A Chapecoense pra minha família não somou em nada depois da morte do meu marido. Na verdade somou pra eles que estão lucrando até hoje. E a gente vai para a Justiça, eu estou esperando passar esse ano, mas com certeza vou atrás dos meus direitos. Não posso esperar nada da Chapecoense. Faltando um mês para a tragédia eles anunciaram que vão ajudar a gente. Por que faltando um mês? Eu achei isso uma coisa bem política, sabe? Parece político quando faz aquele arrumadinho faltando pouco tempo para a eleição só para ganhar voto. A Chapecoense fez isso. Quis tirar o foco. O foco de quem não fez nada durante onze meses, entendeu?”

JC – Vocês até hoje não receberam nada de indenização?

RL – “Nada! Nada, nada mesmo. O Cléber tinha contrato de um ano e eu não recebi. Pelo contrário quando eu estava lá falaram pra mim que iam ajudar a pagar o aluguel que quando Cléber era vivo era metade do valor pago pelo clube e metade por ele. Eles até que cumpriram um tempo, mas depois de três meses chegou uma ordem de despejo pra mim. Eu não saí porque eu tinha dinheiro para pagar, mas se não eu tivesse eu teria saído”.

JC – Vocês acham então que foi uma falta de consideração por parte do clube?

RL – “Com certeza! Os outros falam pra mim a Chapecoense está se erguendo e eu perguntava em que? O avião caiu em cima da Chapecoense? Até onde eu sei não. Que eu saiba quem perdeu as pessoas foi a gente. A Chapecoense com um mês depois já estava com o time montado e com o caixa absolutamente lotado como nunca foi. Então pra mim não tinha isso da Chapecoense se levantar. Ela estava erguida há muito tempo, inclusive bem melhor do que antes. Não tinham as peças que eles tinham antes que eram os nossos maridos. Que morreram com a camisa daquele time”.

JC – Como está a situção financeira de vocês e das outras famílias?

RL – “Eu não falo por mim porque o Cléber rodou o mundo e todos sabem que ele tinha uma condição boa. O futuro da gente já estava de certa forma tranquilo porque Cléber já estava perto de parar, mas eu falo pelas mulheres que não tem essa condição. Tem mulher de massagista e outras vítimas que está passando por necessidade. Mas aí graças a Deus tem a Abravic (Associação Brasileira da Vítimas do Acidente com a Chapecoense) que o Túlio de Melo lançou junto com o Fabiano Porto que está pagando a escola e outras coisas, porque se não…”

JC – Dias antes de completar um ano da tragédia a Chapecoense convidou vocês para uma solenidade reservada só para as famílias das vítimas…

RL – “Quando eu saí daquieu falei, eu vou para representar o meu marido. Eu fui por ele. Não tô indo pelo marketing da Chapecoense, porque pra mim aquilo foi só marketing. Poderia terfeito antes uma homenagem dessas.

JC – Um ano depois se você pudesse mandar uma mensagem para ele, qual mandaria?

RL – “Meu Deus se eu fosse mandar uma mensagem pra ele pediria pra ele voltar…não faz essa pergunta…(emoção)”

JC – Desculpe, mas precisava fazer essa pergunta…

RL – “Se eu visse que to fazendo mal a ele e não tem como ele voltar eu ia pedir pra ele seguir em frente. Ser feliz que nem eu estou tentando aqui. Ele tentar fazer o mesmo que eu estou fazendo aqui. Se não tem jeito, né? Que ele tentasse seguir lá também”

O irmão dá continuidade ao sonho de Cléber

 

“Sonhar, nunca desistir, ter fé, pois fácil não é, nem vai ser”. Os versos da música do MC Gui foram gravados na pele de Cleidson, de 29 anos. Mais ainda. Também estão na mente. Sonhar é o título da canção e o que ele mais faz em relação ao irmão Cléber Santana. Sonhar que quem foi embora volte. Mas há um ano a realidade vem como um pesadelo que nunca passa. É difícil acordar.

 

O trecho da música foi tatuado no braço esquerdo. Mesmo local onde pode ser visto gravado também o rosto de Cléber e uma estrela com o nome dele. As homenagens ao ex-jogador não estão apenas no corpo, mas em cada canto da casa de Cleidson, repleta de fotos do irmão. Que na verdade sempre foi bem mais que isso. “Ele era um pai pra mim. Desde que nosso pai faleceu quando eu tinha uns 12 anos ele cuidou de mim. Tudo que sou e tenho devo a ele. Sempre me orientava dizendo: ‘vai pelo teu irmão que te ama’. Até depois de velho, ele sempre me indicou o caminho a seguir”, lembrou.


Ele literalmente seguiu o caminho de Cléber. Tanto que também se tornou jogador de futebol. Inclusive se assemelham muito na fisionomia, porte físico e toque refinado na bola. Por sempre ter acompanhado os passos do irmão ficou ainda mais sem norte após a morte dele. “Pra mim é bem complicado, prefiro pensar como se ele estivesse viajando porque eu só o via de ano em ano. E a dor maior é justamente na época de final de ano que é quando ele vinha pra cá. Ele ficava junto com a gente, fazia churrasco, pagode e futebol”, relembrou Cleidson.

As desilusões com a profissão e depois o impacto da tragédia com Cléber fizeram com que Cleidson passasse dois anos sem jogar. Ele só voltou aos gramados após pedido da cunhada Rosângela. Quando decidiu retomar a carreira, tentou uma chance na Chapecoense, mas foi negada. Depois atuou pelo Olaria e Tigres, ambos do Rio de Janeiro, e este ano chegou a defender a Cabense na Série A2 do Campeonato Pernambucano. “Eu fico imaginando se ele estivesse vivo ele com certeza ficaria feliz por mim pra caramba. A força que eu criei pra voltar a jogar veio dele. O pensamento sempre no meu irmão”, disse.

Além do irmão, Cleidson busca energia e inspiração também nos sobrinhos: Aroldo e Clebinho. “Eles sempre perguntam: ‘Tio, vai jogar quando?’. Só tinha eu e Cléber de irmão. Aí agora só ficou eu, né? Aí eles ficam querendo saber quando vou treinar, onde vou jogar e tal”, contou. Sobre essa responsabilidade de ser a nova referência de futebol para a família, ele se diz pronto. Mas do seu jeito. “Eu vou terminar o que ele deixou. Não ser igual porque seria difícil. Não pretendo ser um novo Cléber Santana, mas ser o Cleidson e concluir essa história do meu jeito”, finalizou.

Um amor recíproco pelo samba

Cléber Santana amava o samba. E esse amor era recíproco. Todos os momentos da vida dele eram embalados pelo ritmo. Até na despedida. No velório e enterro por várias vezes foi cantada uma música muito especial para o cantor e para quem o amava: “A amizade”, do grupo Fundo de Quintal. Presente neste difícil momento, inclusive sendo um dos amigos que levaram o caixão, Luciano Severino da Silva, diz que é difícil descrever o que houve ali.


 

“Não tem como definir um momento tão doloroso. A música é muito marcante, até porque ele cantava para caramba. A dor foi maior que o choro. Não sei se você consegue entender. A gente conseguiu se despedir do cara com muito amor, velho. Foi uma coisa mais forte, uma coisa de elo. Ele não saiu da gente verdadeiramente. Ele deixou a matéria, mas o espírito está aqui com a gente. Está próximo, a gente sente ele sempre”, explicou Luciano.

O amigo conta que os versos do refrão da música já falam por si só. “Quero chorar o teu choro, quero sentir o teu sorriso, valeu por você existir, amigo! Essa frase contempla tudo, ela descreve quem era o cara. Esse momento foi de gratidão, a gente estava se despedindo dele na matéria, mas a gente estava gritando na canção a gratidão que a gente tinha. Cléber tinha projetos sociais, ajudou muita gente e muita coisa ele ainda ia fazer, cara”, garantiu Luciano. Por tanto fazer, tanto está fazendo falta.

Os amigos e parentes mandaram várias fotos e vídeos com Cléber não só tocando, mas também cantando nas rodas de pagode em casa. A paixão fez com que ele naturalmente se aproximasse dos ídolos. Tinha amizade com vários cantores e grupos de samba. Em um dos vídeos enviados pela família, Xande de Pilares (ex-Revelação) faz uma homenagem em um show para o jogador logo depois do acidente. “Quero dedicar esse show de hoje a um amigo, a um irmão. Nós fizemos planos para esse evento de hoje, mas infelizmente Deus não permitiu. Uma salva para Cléber Santana, que Deus o tenha! Ganhar ou perder faz parte, vamos seguir!”, disse o cantor.

A citada letra do Fundo de Quintal ajuda a confortar quem ficou. “A amizade / Nem mesmo a força do tempo irá destruir / Somos verdade / Nem mesmo este samba de amor pode nos resumir / Quero chorar o teu choro / Quero sorrir teu sorriso / Valeu por você existir, amigo”.

Expediente

26 de novembro de 2017

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