História do Central

CENTRAL: 100 ANOS E MUITA HISTÓRIA NO FUTEBOL DO INTERIOR

Foi por volta das 13h do dia 15 de junho de 1919, num domingo, após um almoço ocorrido na Sociedade Musical Comercial Caruaruense, que nascia o Central Sport Club. Naquele início de século, algumas equipes já se arriscavam na prática do ‘esporte bretão’ que aos poucos tomava conta de todo o País, conquistando novos adeptos a cada ano. Em Caruaru os poucos times até então existentes, na ausência de torneios oficiais, no máximo disputavam partidas amistosas, as famosas ‘matchs’, como eram chamadas à época, contra as equipes locais. Nascia assim a Patativa do Agreste, que ao longo desses 100 anos, assim como o forró e a arte Mestre Vitalino, ajudou a divulgar o nome da Capital do Agreste fora dos limites do ‘País de Caruaru’.

O novo time teve o nome foi inspirado na ferrovia que rasgou a cidade, administrada pela companhia inglesa The Great Western of Brazil Railway Company, a Estrada de Ferro Central, como era mais conhecida, cujo trecho até Caruaru havia sido inaugurado em 1896, com a missão de rasgar todo o Estado de Pernambuco, levando o desenvolvimento e fazendo a integração entre o litoral e o Sertão. Já as cores alvinegras retratam o pássaro que predominava a época na região e que anos depois acabou adotado como mascote.

Em sua ‘Ata de Fundação’ ficou registrado o nome da primeira diretoria formada por José Faustino Vila Nova (Presidente), João Batista de Oliveira (Vice-presidente), Severino de Sales Tiné (1º secretário), Arlindo de Vasconcelos Limeira (2º secretario), Artur Leandro Sales (Tesoureiro), Ângelo Emídio de Lira (Vice-tesoureiro), Francisco Porto de Oliveira (Orador) e Severino José Bezerra (Diretor de esportes), responsável pela escolha do nome da agremiação. Sua sede inicial funcionava na Rua XV de Novembro, a antiga Rua do Comércio, onde nasceu a cidade, passando depois para a Av. Rio Branco, somente mudando para o atual endereço, a Av. Agamenon Magalhães, no bairro Maurício de Nassau, na construção do Estádio Pedro Víctor de Albuquerque, o temido ‘PV’, anos mais tarde denominado Estádio Luiz José de Lacerda, o ‘Lacerdão’, como é conhecido atualmente o famoso ‘alçapão Patativa’.

Seguindo os passos das demais equipes amadoras da Caruaru do início do século passado, no princípio o Central disputava apenas partidas amistosas, até mesmo pela falta de torneios oficiais. Mas isso não impediu que sua fama se expandisse além dos limites do município, até mesmo por ter revelado bons atletas, a exemplo de Zuza, Tutu e Machadinho. Em 1936, o Vasco da Gama/RJ, um dos principais times do Brasil à época, conheceu de perto a força da Patativa. O time cruzmaltino, que estava fazendo uma excursão pelo Nordeste, subiu a Serra das Russas e suou para vencer o Central por 1×0. Segundo a imprensa da época, o correto seria 1×1, pois a arbitragem anulou um gol legítimo assinalado por Tutu para o time caruaruense, o que teria modificado o resultado da histórica partida.

O fato é que a força da Patativa chamou a atenção de todo o Estado, tanto que no ano seguinte, em 1937, o Central foi convidado pela Federação Pernambucana de Desportos, como era chamada à época a Federação Pernambucana de Futebol (FPF), para disputar o campeonato estadual, o que foi aceito de imediato, fazendo com que a Patativa entrasse para a história como o primeiro time do interior a participar da competição. Para reforçar o time, a diretoria alvinegra contratou o zagueiro paulista Luíz Zago, vindo do Atlético/MG, sendo o primeiro jogador profissional a atuar em Pernambuco. Mesmo assim, sua presença não foi suficiente evitar que a diretoria alvinegra questionasse supostos erros de arbitragem ocorridos contra a Patativa, principalmente diante do chamado ‘trio de ferro’ de ferro da capital. Apesar do time ter terminado na 5ª colocação dentre os nove participantes, os cartolas alvinegros decidiram por sair não mais disputar a competição no ano seguinte.

Sem participar do estadual, a diretoria do Central decidiu filiar-se à Liga Desportiva Caruaruense (LDC), criada em 28 de fevereiro de 1941, tendo como clubes fundadores o Comércio, Vera Cruz, São Paulo e Rosarense. Em seu primeiro ano de participação no campeonato promovido pela entidade em 1942, a Patativa ganhou logo o título de campeão, desbancando o Comércio, vencedor da primeira edição do torneio.

Na época do amadorismo, Central, Comércio e Vera Cruz estabeleceram uma rivalidade e jogos memoráveis, até hoje lembrados pelos torcedores mais antigos de Caruaru, sejam no Central Park, posteriormente mudado para Estádio Pedro Víctor de Albuquerque, ou no Antônio Inácio de Souza, o famoso ‘campo da Rua Preta’, que depois passou a sediar os jogos do extinto Atlético de Caruaru e do Porto, no Campeonato Pernambucano. Ao longo de sua participação no campeonato promovido pela LDC, o Central manteve a hegemonia no futebol caruaruense, tendo conquistado nove títulos (1942/1945, 1948, 1951/1952, 1954 e 1958). Mais do que isso, revelou nomes de destaque como Afonsinho, Zezinho, Binana, Pernambuco, Pelado e Moacir.

Em meados da década de 50 tiveram início as obras de construção do Estádio Pedro Víctor de Albuquer, o ‘PV’, cuja inauguração ocorreu em 1956, num amistoso entre Central e Sport Club do Recife. Finalmente, após um hiato de 23 anos, em 1961, na gestão do presidente Luiz José de Lacerda, o Central voltava a disputar um Campeonato Pernambucano, graças principalmente à insistência do então diretor Alcides Lima, atendendo pedido do presidente da FPF, Rubem Moreira, com o apoio do presidente da LDC, Gercino Pereira Tabosa, também diretor alvinegro.

Logo o Central consolidou-se como a quarta força do futebol pernambucano, assumindo o lugar que até então pertencia ao América. Dos nove campeonatos que o time disputou na década de 60, em oito deles terminou na 4ª colocação. Em 1964 desbancou o Santa Cruz e chegou à 3ª colocação. Em seu primeiro amistoso internacional, no dia 4 de fevereiro de 1968, o Central derrotou a Seleção de Novos da Argentina por 2×1, em jogo realizado no ‘PV’. No elenco alvinegro constavam nomes até hoje lembrados pelos torcedores mais velhos, como o goleiro Dudinha, o zagueiro Jucélio, o volante Pissica e o meia-esquerda Vadinho, considerado o maior jogador da Patativa de todos os tempos.

Elenco do Central em 1964.

Nos anos 70, o Central acabou na 4ª colocação em sete dos dez campeonato estaduais disputados. A década marcou também a estreia do alvinegro no Campeonato Brasileiro, fato ocorrido em 1972, quando disputou a Taça de Prata, como era chamada a 2ª divisão nacional à época. Já nos anos 80 não teve para nenhuma outra equipe do interior, com o Central terminando todos os estaduais na 4ª colocação. Em 1981 o time chegou a decidir um turno contra o Sport, repetindo a dose contra o rubro-negro no ano seguinte. Em 1985 foi a vez de decidir um turno contra o Náutico, repetindo a dose contra o Timbu em 1989.

A década de 80 marcou também a conclusão da obra de ampliação do estádio. Em sua reinauguração, em 19 de outubro de 1980, em novo amistoso internacional, o Central derrotou a Seleção da Nigéria por 3×1. Coube a Gil Mineiro assinalar o primeiro gol do estádio após a reforma. No plano nacional, o Central tornou-se o primeiro time pernambucano a conquistar um título brasileiro ao dividir a Taça de Prata de 1986 com o Treze/PB, Criciúma/SC e Internacional de Limeira/SP. Como o regulamento da competição determinava que os primeiros colocados da Taça de Prata entrassem na disputa da Taça de Ouro no mesmo ano, a fase seguinte marca também uma das maiores façanhas alvinegra, ou seja, a inesquecível vitória por 2×1 sobre o poderoso Flamengo/RJ, quando o ‘PV’ registrou o maior público de sua história.

Público se preparando para mais uma partida da Patativa na década de 60.

Já os anos 90 e os primeiros anos do novo século marcaram o início de uma fase nada agradável da história alvinegra, resultado de algumas administrações desastrosas, tanto que o clube começou a amargurar o declínio nas participações do Campeonato Brasileiro, através de constantes quedas de divisões nacionais, culminando também com dois rebaixamentos no campeonato estadual. Como se isso não bastasse, o surgimento em alto estilo do Porto, com inéditas conquistas de vice-campeonato estadual, participações no Campeonato Brasileiro e revelações de novos valores para o futebol nacional, deixaram um gosto amargo na torcida alvinegra, que passou a cobrar a volta dos anos áureos da Patativa do Agreste.

Em 1990 a Patativa terminou o estadual na 5ª colocação, atrás do extinto Paulistano, repetindo a posição no ano seguinte, dessa vez ficando atrás da Desportiva Vitória. Em 1992 e 1993 foi o 4º colocado do estadual. Em 1994, ano que marcou a estreia do Porto na 1ª divisão estadual, a Patativa terminou na 5ª colocação, justamente uma colocação atrás do novo rival. Em 1995, o Central terminou o estadual na 7ª colocação, tendo ainda de ver o Porto e o Ypiranga de Santa Cruz do Capibaribe, cada qual decidir um turno da competição. No ano seguinte a Patativa até fez bonito, retomando a 4ª colocação estadual, porém em 1997 teve o desprazer de ver o maior rival, pela primeira vez na história do estadual, conquistar um vice-campeonato para o interior. Porém, como nada é tão ruim que não possa piorar, no ano seguinte, enquanto o Porto repetia a dose, conquistando mais um vice-campeonato estadual, o Central amargava a queda para a série A2 estadual, fazendo de 1998 um ano a ser esquecido pela torcida alvinegra.

Campeão da segundona estadual em 1999, o Central iniciou a primeira década no novo século de volta à elite estadual, reconquistando também a 4ª colocação na competição, feito repetido nos campeonatos de 2001 e 2002. A fraca campanha de 2003, quando terminou na 6ª colocação, ano em que viu a AGA ser a 3ª colocada, foi apenas um aviso de que o pior poderia acontecer mais uma vez. E não deu outra, pois em 2004, ano em que o Porto voltou à série A1 estadual, teve de amargar sua 2ª queda para a segundona estadual. Mas a Patativa não estava morta. Tudo bem que voltou a dar um surto na torcida quando retornou à elite estadual em 2006 e escapou do rebaixamento por apenas um ponto. Porém os bons ventos voltavam a soprar no Lacerdão, ajudando a Patativa a dar voos maiores.

O ano de 2007 foi inesquecível para a torcida alvinegra, pois o time conquistou o primeiro vice-campeonato estadual de sua história e a tão sonhada vaga para a Copa do Brasil. Em 2008 o time conquistou a 3ª colocação no estadual e nova presença na Copa do Brasil de 2009. Ainda em 2008, na Copa do Brasil o Central caiu na 2ª fase, ao ser goleado por 5×1 pelo Palmeiras/SP no Lacerdão. No estadual de 2009 o time terminou na 6ª colocação e na Copa do Brasil de 2009, assim como na participação do ano anterior, acabou eliminado na 2ª fase da competição, mais uma vez no Lacerdão, ao ser derrotado dessa vez pelo Vasco/RJ pelo placar de 2×0.

Jogo Central x Palmeiras pela Copa do Brasil, em 2008.

A década atual começou com o Central sendo o 4º colocado no estadual de 2010 e 5º colocado no ano seguinte, atrás do Porto. Em 2012 a campanha não foi tão boa, terminando na 10ª colocação, sendo o 5º colocado nos dois anos seguintes, atrás respectivamente do Ypiranga e do Salgueio. Em 2015, mesmo sendo o 4º colocado, viu o Salgueiro igualar sua marca, conseguindo também seu primeiro vice-campeonato estadual. Em 2016 o Central terminava na 6ª colocação, atrás do América (5º) e Salgueiro (4º) e no ano seguinte, em 2017, via o Salgueiro igualar a marca do Porto, levando para o Sertão seu segundo vice-campeonato, ano em que a Patativa terminou na 6ª colocação, atrás do Belo Jardim (5º). Mas a Patativa ferida é um perigo, tanto que no ano seguinte, em 2018, conquistou seu segundo vice-campeonato na história, igualando-se assim aos rivais caruaruense e sertanejo, além de carimbar mais uma participação na Copa do Brasil.

Agora, no ano do centenário, o Central não passou de uma 6ª colocação no estadual, enquanto que na Copa do Brasil não conseguiu avançar à 2ª fase, como havia ocorrido nas participações anteriores, sendo eliminado da competição após o empate no Lacerdão por 1×1 diante do Ceará, em partida realizada no último dia 06 de fevereiro. Que venham então mais cem anos, o tão sonhado título estadual, o retorno às divisões principais do futebol brasileiro e principalmente as novas gerações de torcedores alvinegros, pois certamente herdarão dos pais e avós a ‘eterna paixão’ pela Patativa do Agreste.

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