AS MAZELAS DO BRT

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O sistema BRT tem sua mazelas. Elas são três: assaltos, invasões e comércio ambulante nas estações e veículos. Estão por toda parte e ninguém consegue controlá-las. Nem o governo de Pernambuco, gestor da segurança e do sistema, muito menos os operadores do BRT. Problemas que não só provocam reações que descaracterizam o sistema – como as catracas-monstro que têm sido instaladas em diversas estações –, mas também afastam passageiros e aterrorizam quem trabalha no setor. Em Pernambuco, os dois corredores sofrem, mas o Norte-Sul pena mais por cortar áreas menos urbanizadas e adensadas. O Leste-Oeste, pelo menos por enquanto, não tem registro de assaltos. Nacionalmente, as invasões são o mais comum. No Rio de Janeiro, por exemplo, são 72 mil passageiros que diariamente andam no sistema sem pagar. No BRT pernambucano, a evasão é maior do que no ônibus convencional. Chega a 12%. É como se 20 mil pessoas entrassem de graça no sistema diariamente.

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Assaltos com facas são diários. Com armas, frequentes. Como se não bastasse a confusão que é a estatística da violência no transporte na Região Metropolitana do Recife, com o Sindicato dos Rodoviários divulgando números três vezes maiores do que os da Secretaria de Defesa Social (SDS), as duas instituições se negam a informar um recorte apenas do BRT. Alegam que faz parte de uma rede única. No caso dos Rodoviários, temem que a segurança seja prioridade em um e, não, no outro sistema. Mas, na visão de quem vivencia a operação, o BRT é mais vulnerável e, por isso, precisaria de uma atenção redobrada. Não só de polícia, mas operacional, já que a evasão contribui para a violência e vice-versa.

“Os ladrões acessam as estações e os BRTs de fora para dentro. Às vezes, entram pela estação mesmo. As novas catracas, que são mais altas, ajudaram um pouco, mas como não há a presença de segurança armada nas estações, os funcionários são intimidados. É difícil reagir sozinho quando você está naquele lugar todos os dias. Vemos os assaltos e não podemos fazer nada. Infelizmente”, afirma um operador do BRT Norte-Sul. A facilidade é tanta que todos sabem os horários e as estações mais perigosas. Sempre depois do horário de pico da manhã e da noite – assaltos em coletivos cheios são mais arriscados – quem anda de ônibus sabe disso – e nas estações instaladas em Olinda, no trecho entre o Complexo de Salgadinho e a Cidade Tabajara, no limite com o município de Paulista. No trecho final do corredor, chegando em Igarassu, a evasão de receita é o mais frequente. Não há quase registro de assaltos.

Vejo dois, três assaltos por dia no Corredor Norte-Sul. Não falo de assaltos com armas, mas com facas. Os ladrões ficam do lado de fora das estações e escolhem a vítima, de preferência estudantes e mulheres. Quando o BRT se aproxima, eles entram nos veículos e roubam os passageiros. A ousadia e a certeza de impunidade são tão grandes que muitas vezes eles pegam as pessoas dentro das estações mesmo. E quem reage é espancado, como eu já vi acontecer algumas vezes. É tão absurdo que damos as costas para fingir que não vemos porque, se algo for feito, no outro dia sabemos que eles estarão lá, ao nosso lado, e podemos ser identificados e punidos. Sem que ninguém faça nada

Paulo (nome fictício de um passageiro diário do BRT)

A escuridão predominante no Corredor Norte-Sul é outro aspecto assustador e que o difere totalmente do Leste-Oeste. Só quem já andou por lá sabe disso. Os passageiros desembarcam e embarcam no escuro. A vulnerabilidade não só das estações, mas de todo o sistema, fica ainda mais evidente. São feitas blitzes, mas não é suficiente. A segurança precisa estar presente nas estações – ensinam usuários e operadores.

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O vandalismo é outra consequência da falta de segurança no sistema BRT. A manutenção das 46 estações custa R$ 1,3 milhão por mês, dinheiro que, inclusive, é pago pelo contribuinte, seja na tarifa dos ônibus ou no subsídio do sistema. São mais de cem ocorrências por mês de quebra e danos a portas, catracas e vidros. Segundo o Grande Recife Consórcio de Transporte (GRCT), é como se duas portas e uma catraca fossem danificadas por dia nas estações do BRT. As ocorrências relacionadas aos vidros chegam a 14 por mês. O valor cobre também a reposição de equipamentos pelo desgaste normal. Para quem não sabe, as estações do sistema metropolitano têm vidros temperados e são as únicas refrigeradas do Brasil. No mundo, além do Recife, apenas Dubai, nos Emirados Árabes, refrigerou as unidades do BRT.

As portas e catracas são os mais danificados. Segundo o GRCT, geralmente o dano acontece durante o dia e são provocados, em sua maioria, pelos vendedores ambulantes. No caso dos vidros, ocorre em qualquer horário, mas há uma concentração da depredação em dias de jogos dos principais times da capital e nas prévias de Carnaval, em Olinda. E mais uma vez o Corredor Norte-Sul leva a pior. Segundo o GRCT, os danos são basicamente os mesmos nos dois corredores, mas o Norte-Sul pena mais com os vidros. Nele, são utilizados quase 2/3 do vidro contratado. E isso se repete desde que o BRT entrou em operação.

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Sem adensamento urbano, Norte-Sul sofre ainda mais

A fragilidade do Norte-Sul em relação às mazelas se explica no estudo do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP)). Em 2017, os corredores do BRT pernambucano foram estudados pelo instituto, referência na análise dos sistemas de Bus Rapid Transit. O estudo olhou o sistema além da operação. Analisou-o sob a ótica do planejamento urbano orientado pelo transporte coletivo de média e alta capacidade, uma das premissas dos sistemas de BRT. E o resultado não foi dos melhores. Mostrou que ainda é difícil acessar os dois corredores metropolitanos – Leste-Oeste e Norte-Sul (especialmente este último) – e que, por isso, a demanda de passageiros não cresce como deveria. Também destacou que falta conexão ao sistema, seja na integração entre os corredores ou na ligação com o metrô do Recife.

O adensamento urbano no entorno das estações também foi analisado. E ele é péssimo. Mais um fator que contribui para a baixa demanda de passageiros – cada corredor de BRT tinha uma estimativa de transportar de 140 mil a 160 mil pessoas por dia, mas até hoje transportam, cada um, uma média de 80 mil usuários. A falta de adensamento urbano é menos ruim nas áreas no entorno do Corredor Leste-Oeste, que apresentam características de territórios mais consolidados, com maior patamar de densidade e desenvolvimento urbano. E tudo isso contribui diretamente para a violência e a evasão nas estações.

"A violência no BRT fugiu ao controle do Estado"

O sentimento ao ouvir as declarações de Paulo (nome fictício para um passageiro diário) sobre a violência nos equipamentos do BRT vai além da revolta. É pura indignação. A frequência e a malemolência com que são praticados os assaltos – às vezes diários, segundo quem vivencia o sistema – refletem o que todos, passageiros, motoristas e auxiliares de operação, gritam aos quatro cantos diariamente: a fragilidade do modelo BRT e a inoperância do Estado na garantia da segurança pública. E expõem mais uma vez que gestores e operadores do BRT nunca utilizam o sistema, muito menos à noite e nos fins de semana. É o velho problema das cidades – quem planeja e opera o transporte público, em geral, não faz uso dele.

JC – A violência no BRT fugiu ao controle do Estado?

Paulo – Sem dúvida. Pelo menos no Corredor Norte-Sul. No Leste-Oeste é diferente. Não há assaltos. Ele sofre com as invasões e ambulantes. Mas mesmo assim, é mais contido. No Norte-Sul é o contrário. E não é de hoje. Mas aumentou muito. Vejo dois, três assaltos por dia. Não falo de assaltos com armas, mas com facas. Os ladrões ficam do lado de fora das estações e escolhem a vítima, de preferência estudantes e mulheres. Quando o BRT se aproxima, eles entram nos veículos e roubam os passageiros. A ousadia e a certeza de impunidade são tão grandes que muitas vezes eles pegam as pessoas dentro das estações mesmo. E quem reage é espancado, como eu já vi acontecer algumas vezes. É tão absurdo que damos as costas para fingir que não vemos porque, se algo for feito, no outro dia sabemos que eles estarão lá, ao nosso lado, e podemos ser identificados e punidos. Sem que ninguém faça nada.

JC – Ou seja, vocês sabem quem são os ladrões?

Paulo – Todo mundo sabe. São os mesmos sempre. E se a polícia atuasse de verdade identificaria rapidamente. Sabemos até o horário em que eles praticam os assaltos. Sempre depois das 8h30/9h, quando o movimento do pico da manhã termina, e à noite, de 20h/21h em diante. Eles preferem o horário de menor movimento porque é mais fácil escapar. Assaltar em ônibus cheios é difícil e arriscado – quem usa o transporte público sabe disso. Roubam, fogem com o que roubaram, escondem em algum lugar e voltar para roubar de novo. Pela manhã, ficam até as 11h fazendo esses roubos. Aos domingos, é o dia inteiro porque o movimento de passageiros é menor e fica mais fácil. Quando acontecem shows no Centro de Convenções ou no Classic Hall, então, é uma festa. Eles começam bem cedo no domingo. Dou plantões a cada quinze dias aos domingos e vejo a facilidade com que agem nesses dias.

JC – Até as estações onde acontecem os assaltos são conhecidas?

Paulo – São. Todo mundo sabe onde os assaltos são mais comuns. E o pior trecho são aquelas que ficam entre o Complexo de Salgadinho, em Olinda, e a Cidade Tabajara, quase no limite com Paulista. Eles brincam de roubar nesse trecho. Vão e voltam com uma liberdade que a gente não acredita. E com facas e facões na cintura. É algo absurdo demais. Roubam em todas as estações no trecho. Entram nos BRTs e nas estações de fora para dentro, roubam e descem no percurso. Somem, escondem o que roubaram e voltam para fazer tudo de novo. Quando por um acaso há algum policiamento ou segurança nas estações, ficam escondidos, observando de longe. Sabem que aquela segurança é passageira. Aí recomeçam.

Todo mundo sabe onde os assaltos são mais comuns. E o pior trecho são aquelas que ficam entre o Complexo de Salgadinho, em Olinda, e a Cidade Tabajara, quase no limite com Paulista. Eles brincam de roubar nesse trecho. Vão e voltam com uma liberdade que a gente não acredita. E com facas e facões na cintura. É algo absurdo demais. Roubam em todas as estações no trecho. Entram nos BRTs e nas estações de fora para dentro, roubam e descem no percurso. Somem, escondem o que roubaram e voltam para fazer tudo de novo

Paulo (nome fictício de um passageiro diário do BRT)

JC – Não existe nenhum tipo de segurança?

Paulo – Muito pouco. Eles roubam nas estações e nos BRTs enquanto a Polícia Militar passa no corredor. Os poucos seguranças privados que as empresas disponibilizam, por não estarem armados, não assustam. Os ladrões esperam eles saírem das estações e voltam a agir. O problema é que a polícia não para e faz abordagens nas estações e nos coletivos. Por isso, é como se o policiamento não existisse.

JC – E a determinação da SDS para que qualquer ocorrência de assalto seja registrada, mesmo que a única vítima seja o passageiro, está sendo cumprida?

Paulo – Não. Houve essa determinação sim, mas os operadores não são liberados para ir prestar a queixa. A orientação é para que o procedimento seja feito no horário de intervalo ou de folga. Pelo menos é o que o pessoal alega, quando perguntamos. Aí ninguém vai. No máximo insistem para que o passageiro procure a polícia. Quem vai querer perder o único dia de folga para prestar queixa de um assalto a um passageiro? Só a SDS acha que isso iria acontecer.

JC – Na sua opinião, o BRT é um alvo mais fácil da violência do que o transporte convencional?

Paulo – Sem dúvida. As estações têm um acesso muito fácil. As pessoas se arriscam quando os BRTs param. Se espremem para entrar e, apesar do risco, conseguem. Nenhum motoristas vai puxar o BRT numa situação dessas. O fato de não circular dinheiro porque não existe cobrador e ser usado apenas os cartões eletrônicos termina sendo pior para os passageiros porque eles viraram o único alvo. A solução é colocar segurança, seja privada ou a Polícia Militar. Não tem outro jeito.

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Publicado em 21 de outubro de 2018

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