Ave Maria

Maria Madalena
Aquela menina era especial. Entre os dezesseis irmãos, foi a única que aprendeu a ler. Seguiu os próprios códigos e acreditou que seria finalmente feliz com o terceiro marido, treze anos mais novo. Foi morar com ele, levando os quatro filhos de relações anteriores. Tempos depois, eles corriam até a casa da avó gritando: "corre que Rato tá matando mainha"

Mil novecentos e setenta e seis: o rezador olhou a barriga de Regina e falou: "Chame de Maria Madalena. Não mude a sina dela não". A mãe ainda não sabia o sexo do bebê, mas, quando uma menina nasceu, três meses depois, não teve dúvida sobre o batismo. Agregou então a nova filha ao seu próprio santuário familiar: já era mãe de Maria do Carmo, Maria da Glória, Maria Aparecida e Maria da Conceição, entre outras crianças. Mas a sua Madalena, aquela cujo nome sempre provoca algum espanto, dúvida ou atração, tinha algo diferente das outras. Dos dezesseis filhos que Regina Maria pariu em Angelim, agreste de Pernambuco, foi a única que aprendeu a ler. Dos dezesseis filhos de Regina, foi aquela que mais arriscou-se, deixando de lado algumas regras, conselhos e evidências para fazer o que achava melhor para si. O último desses riscos foi Eduardo Francisco da Silva, servente de pedreiro pelo qual Madalena se apaixonou. Ela tinha quatro filhos de duas uniões anteriores e treze anos anos de idade a mais. Não se incomodou com os comentários. Tempos depois, Eduardo deixou de ser risco e transformou-se em sina.

O rapaz era uma aresta naquela família cuja forma foi talhada a partir do zelo da mãe, hoje com 93 anos, e as normas pouco suaves do pai, Antônio Amâncio, já falecido. Este não deixou nenhum dos filhos ir para a escola – apenas Madalena conseguiu frequentar uma sala de aula, durante cerca de três anos. A proibição tinha, a princípio, motivos econômicos: filhos educados, dizia Antônio, não produziam boas colheitas. Melhor mantê-los na roça, onde feijão, milho, batata e outros alimentos eram cultivados e usados para consumo próprio. Saíam de manhã e passavam o dia na plantação. Ao meio-dia, o almoço era dividido entre todos. "Era feijão com ovo ou um pedaço de peixe velho", conta Regina, a luz do Sol iluminando uma extraordinária pele que conta, por si, a história de sua vida.

Quando os meninos começaram a crescer, ganharam o passe livre para exercer o direito de ser homens, a liberdade sendo o maior bem oferecido. Ainda precisavam trabalhar, mas a rua, o amor e o sexo eram algo com que podiam contar após um dia de suor. Quando as mulheres começaram a crescer, ganharam o direito de sair uma vez por semana. Havia uma condição: não podiam se maquiar. Assim, as Marias de Regina precisavam tirar o batom todas as vezes que voltavam para o santuário familiar. Os casamentos começaram a esvaziar a casa – Madalena, ainda adolescente, foi para São Paulo trabalhar como babá. Ficou para trás o Engenho Gravatá e o sítio Papamel, locais onde a família viveu. Foram para zona urbana da cidade. Antônio Amâncio havia morrido e já era possível movimentar-se no mundo sem a necessidade de encolher os ombros.

Quando Maria Madalena voltou, trouxe consigo sua primeira filha, Michele, 16, fruto de sua relação com um homem chamado Agenor. Não passaram muito tempo juntos, nem demorou para ela constituir uma nova família: foi morar com Heleno e com ele teve Micaela (13), Micaiane (10) e Micael (9). Madalena alugou uma casa perto da mãe, que passou a ser uma espectadora, para o bem e para o mal, da vida da filha e dos netos. Viu Heleno ir embora e, tempos depois, Eduardo, a aresta, chegar. Na cidade, era conhecido como Rato. Achou o rapaz muito novo, mas não criticou a escolha da filha. Na verdade, a partir daquele momento, passou a questionar se realmente conhecia sua Madalena: a união com o servente de pedreiro era barulhenta, e, da sua casa, ouvia quando os dois começavam a brigar. Madalena também passou a acompanhar Rato na bebida. O álcool, algo tão comum quanto destruidor, potencializava a agressividade e o ciúme dos dois. Ele passou a agredir a mulher fisicamente. Não demorou e as crianças passaram a chegar na casa de Regina gritando a mesma frase. "Corre, vó. Corre que Rato tá matando mamãe."

Ela correu várias vezes. Maria Aparecida, a irmã que hoje cuida de Michele e Micaele, também. Não se assustavam: apartavam as brigas, defendiam Madalena. Aparecida o enfrentava: "Cabra safado, por que você está judiando dela desse jeito? Não judia não, que ela tem família".

Dependendo da quantidade de álcool ingerida, Rato não se constrangia em continuar a bater em Madalena ou mesmo em ferir sua família. Em uma das vezes, preparou-se para jogar um móvel em Regina. Madalena impediu, agarrando-o por trás. Outra vez, enfiou um garfo na esposa em frente aos filhos, irmãs, mãe. Regina aproveitava os momentos de alguma calmaria para questionar Madalena. "A gente dava conselho, mas ela não queria. Não sei o que era aquilo. Aconteceu o que tinha que acontecer", diz ela, que chora falando sobre a sina da filha enquanto Micael, o mais novo dos filhos de Madalena, sorri encantado com a presença de desconhecidos portando perguntas e câmeras fotográficas. Ainda está blindado pela delicadeza da idade. Não prestava atenção no que a avó e a tia contavam sobre sua mãe, nem precisava: é um dos que mais está inteirado sobre a violência que a levou.

O que não devia acontecer, mas aconteceu, o que não deveria ser sina, mas é visto como destino, foi o fim da vida de Madalena pelas mãos do companheiro. A exemplo de todas as histórias contadas neste caderno – e a exemplo das milhares de histórias não trazidas aqui –, foi mais uma morte cuja família e vizinhos serviram como espectadores, alguns mais silenciosos, outros não. Todos, no entanto, envolvidos na naturalização da violência doméstica. No dia 19 de dezembro de 2010, outro dos domingos em que o entrecruzamento entre bebida, machismo e impunidade termina com alguma Maria morta com uma arma branca, os dois estavam bebendo com diferentes pessoas. No fim da tarde, se encontraram na rua e passaram a trocar ofensas, hábito que se tornara comum entre a mulher de 36 e o rapaz de 23. Eduardo foi para casa dos dois, onde continuou a beber na companhia de um amigo. Pegou uma faca e colocou na cintura. Mais tarde, viu Maria Madalena na esquina, a poucos metros da casa de Regina. Estava bêbada, sozinha, quando o companheiro se aproximou por trás. Não deu chance de fuga ou de defesa: enfiou a faca nas costas da mulher. Estava tão bêbado que caiu, segurando a arma, sobre o corpo de Madalena. Adormeceu sobre a esposa enquanto ela agonizava. O grito de Madalena atraiu os vizinhos, entre eles sua mãe, que correu até a filha. Aparecida também foi socorrer a irmã. Quando se aproximou, percebeu que ela ainda estava viva, suspirando. "Segurei sua cabeça. Madalena pegou na minha mão e pouco depois morreu", lembra. Aparecida despediu-se da irmã, o coração sentindo imensa dificuldade em entender a continuidade daquela relação. Também sofreu violência doméstica em seu primeiro casamento. O marido bateu nela apenas uma vez. "Me separei. Se eu continuasse com ele, tinha acabado como ela."

Depois da mãe e da tia, mais gente foi se aproximando do corpo de Madalena, inclusive seus quatro filhos, que nunca mais correriam tentando salvar a mãe. Quando a polícia chegou, Eduardo continuava desacordado sobre o corpo da mulher. Foi preso em flagrante. Na delegacia, disse que não lembrava o que havia acontecido, um depoimento também relativamente comum entre os assassinos (foi assim com João, que matou Maria das Dores, foi assim com José Roberto, que matou Maria da Penha e Maria José).

Eduardo está preso. Na cadeia, passou a receber a visita de uma vizinha há tempos conhecida, tinha proximidade com o casal e sabia as histórias de violência entre os dois. Mas também apaixonou-se por Rato, a despeito da sina, que não era sina, de Madalena. Da relação dos dois, nasceu um bebê, hoje com seis meses. A nova esposa diz que em pouco tempo o marido será solto. Que vão iniciar uma nova família em uma nova casa ali mesmo, em Angelim. Regina e Aparecida acompanham tudo de longe e preferem não comentar nada: ambas têm medo de ver o ex-genro e para sempre assassino de Madalena pelas ruas novamente. Medo pela segurança delas, medo pela segurança dos quatro filhos que aquela mulher deixou. Ele será para sempre uma incômoda e vermelha aresta no santuário de Marias que Regina gerou.

galeria de fotos

  1. Regina é mãe de Maria da Glória, Aparecida, Conceição. Perdeu Madalena. Ficou a lacuna em seu santuário familiar

  2. “Eu nunca tinha visto a imagem dela”, disse Regina sobre a Santa Madalena

  3. Madalena em uma comemoração com as amigas

  4. Regina também foi agredida pelo marido da filha

  5. A casa religiosa da mãe de Madalena

  6. Regina com Maicon, filho mais novo de Madalena

  7. Regina e a nova santa de seu altar

  8. Regina com Maicon, filho mais novo de Madalena

  9. Ainda chora a morte da filha

  10. Com vizinhos e o neto, a mulher de 93 anos teme que assassino seja solto