Ave Maria

Maria Madalena
Saiu de casa aos 14 anos. Foi morar com a irmã, também menor de idade. Ambas se afastavam do lar violento que a mãe dividia com o segundo marido, Luiz Carlos. Também eram agredidas. “Tive que dormir no mato, em cima de árvore, para fugir dele”, conta Elizângela, que, dois anos após ver Maria de Lourdes assassinada a foiçadas, recebeu a notícia de que o júri havia absolvido o padrasto

Bernadette Soubirous vivia, na segunda metade dos 1800, em uma espécie de limbo. Muito pequena, teve cólera. Seu pai, paupérrimo, foi acusado injustamente de roubar farinha. Sem casa, sua família viveu em uma cadeia pública abandonada e insalubre. Não tinham nada. Mas Bernadette, adolescente, encontrou um dia um bálsamo divino para suavizar a vida: buscava madeira para servir como lenha, perto do Rio Gave, em Lourdes, França, quando viu, dentro de uma gruta, uma senhora. Apresentou-se à garota: seu nome era Imaculada Conceição.

Elizângela Farias vivia, no Brasil de 2010, em uma espécie de inferno. Rezou por qualquer tipo de conforto quando subiu em uma árvore, à noite, para dormir ali. Escondia-se do segundo marido da mãe, Luiz Carlos Gomes. Moravam no sítio Lagoa do Félix, em Poção, Agreste de Pernambuco. Não era a primeira vez que ia para o meio do mato, noite escura, para garantir a própria integridade física. Ficava ali até que as coisas se acalmassem em sua casa. Naquele dia, não houve qualquer aparição, Maria, bálsamo, companhia, algo que ao menos sugerisse que as coisas iriam melhorar. Só medo e solidão. Percebeu que, em terra, só podia contar com ela mesma.

Um dia, na casa em que Elizângela hoje vive com o marido e a filha, em Pesqueira, apareceu a imagem da mesma Nossa Senhora que Bernadette encontrou perto do rio. Mas, ao contrário da adolescente francesa, Elizângela, 23 anos, não se maravilhou. Olhou com certa distância aquela estátua de gesso que tem o mesmo nome de sua mãe, assassinada no dia 20 de março de 2010. É evangélica e não nutre, como os outros parentes que perderam suas Marias presentes neste especial, um sentimento de devoção às representações materiais da Imaculada.

No entanto, apesar das distâncias geográficas, temporais e religiosas, Bernadette e Elizângela guardam algo em comum: no final, foi o divino que as salvou. A primeira virou santa. A segunda virou mãe. A primeira enfrentou a desconfiança da própria igreja a respeito de sua proximidade com Maria. A segunda enfrentou a própria Maria que a gerou. Salvou-se quando saiu de casa e teve Yasmin, 4 anos, que a ensinou uma outra concepção da maternidade. Passou a frequentar a igreja evangélica. “A religião me ajudou a perdoar.”

Esse perdão pode ser entendido como um milagre que Elizângela concedeu a si mesma. Deixou de ver a mãe como aquela que não protegia a família para vê-la, antes de tudo, como uma mulher doente. “Ela bebia muito. Dormia na estrada. Precisávamos arrastar ela de lá para o carro não passar por cima.” Ao seu lado, Eliane, a irmã que se salvou indo morar em São Paulo, também sofria. O pai das duas morreu quando Elizângela tinha apenas três anos. Quando a mãe foi morar com Luiz Carlos, ficaram felizes: durante um ano, era uma relação estruturada pelo amor e o respeito. Maria de Lourdes trabalhava como empregada doméstica e recebia a pensão do pai das garotas. Ele passava o dia no campo, plantando. Após doze meses, as meninas entrando na adolescência, as brigas começaram. Maria começou a acompanhar Luiz na bebida. Parou de trabalhar. O inferno: as irmãs viam a mãe ser espancada pelo agricultor. Observavam-na acordar com o corpo repleto de manchas roxas. “A cabeça dela era cheia de cicatrizes.” A violência do padrasto não era dirigida apenas a Maria de Lourdes: várias vezes, ele correu atrás das meninas portando uma faca. Torceu o braço de Elizângela. Um tio foi até a casa defender as três mulheres, o que acalmou os ânimos apenas por alguns dias. “Nos matriculamos em uma escola no horário noturno. Era um jeito de não ficar em casa quando ele estava. Porque durante o dia a gente podia sair.” Outra maneira de manter-se longe era alternar as semanas vivendo entre a casa da mãe e a casa do tio. Mas estavam sempre à mercê da bebida e da brutalidade. Aos 14 anos, Elizângela foi embora de casa. Eliane tinha saído antes. Foram trabalhar como domésticas, uma maneira de se manter à parte do horror e da instabilidade, de conseguir algum dinheiro. “Minha mãe não defendia a gente. Ele nos batia, nos chamava de prostitutas... eu tinha apenas doze anos.”

Assim, as adolescentes passaram a cuidar de si mesmas, foram morar juntas. Um membro do Conselho Tutelar procurou Maria para falar de suas duas filhas, menores, vivendo sozinhas. Ouviu as meninas. Entendeu o que acontecia. “A senhora prefere ficar com ele ou com elas?”, questionou. Lourdes, sóbria, afirmou que queria estar perto das filhas. Mas não foi o que aconteceu.

Elizângela casou, ficou grávida de Yasmin. Se separou. Ficava sabendo, de longe, da vida da mãe, que continuava a mesma. Um dia se encontraram. A filha pediu para que ela fosse morar mais perto, em Pesqueira. “Eu alugo um quartinho, a senhora fica lá.” Maria não quis. “Só saio morta da minha casa.” Sua vontade foi cumprida. Eliane soube primeiro e foi avisar à irmã. “A gente já esperava. Mas ao mesmo tempo achava que não ia acontecer”, diz a evangélica que convivia com outras histórias de violência contra a mulher no sítio onde vivia. “Mas o exagero era só lá em casa.”

Ouvido pela polícia no mesmo dia do assassinato, Luiz disse que encontrou a mulher morta quando chegou do trabalho. Depois, mudou a versão: confessou que a tinha matado acidentalmente, durante uma briga com um conhecido que estaria bebendo com Maria de Lourdes no interior da casa dos dois. Depois, em juízo, mudou novamente seu depoimento: afirmou que só confessou porque foi torturado na delegacia. O juiz Jorge Eduardo de Melo Sotero desconsiderou a denúncia da tortura: “destaco que não há registro de queixa formal contra os policiais; o acusado não sabe dizer os nomes dos policiais que o teriam agredido”, afirma no processo 0000122-91.2010.8.17.1140. A prisão preventiva de Luiz Carlos Gomes foi decretada. Em 2012, ele foi levado a júri popular. Apesar de todas as evidências, apesar do depoimento de Eliane e Elizângela, apesar da confissão seguida pela negação, o agricultor foi absolvido. O motivo foi a “inexistência de provas suficientes para a formação de um juízo condenatório”. Elizângela sorriu incrédula quando a sentença foi lida para ela. “Até a foice era dele.”

Está grávida novamente. Quer fazer um supletivo para compensar a escolaridade precária (estudou até a quarta série – hoje o quinto ano do ensino fundamental), quer fazer faculdade. Constrói para sua vida aquilo o que desconstrói a vida da sua própria mãe: é carinhosa com a filha e não permite que o novo marido a repreenda. Não aceita nenhum tipo de violência. “Eu tenho orgulho de mim mesma. Eu não entendo as mulheres que permitem isso. Uma pessoa que te bate, te espanca, te humilha. Acho que minha mãe era doente. Só pode ser.” A casa simples é o ponto de partida para uma nova história familiar. Não quis nada do que ficou para trás. Da mãe, não guarda roupa, não guarda fotografia, qualquer objeto. Se quisesse, também não teria. “Ela não tinha nada. Só a vida. E até isso tiraram.” Depois de posar com a Nossa Senhora de Lourdes de gesso, cuja proximidade lhe causa certo desconforto, Elizângela pede para a filha levar a imagem até a casa de uma amiga católica que vive ali perto. Pede desculpa, mas sua religião não permite a permanência daquela Maria na sua casa. Mas, se permitisse, não tem certeza se ficaria. Do terraço, acompanha Yasmin levar a santa até desaparecer no fim da rua. Aliviada, Elizângela afasta-se novamente de Lourdes.

galeria de fotos

  1. Evangélica, mostrou certo desconforto ao posar com a santa. Quando as fotos acabaram, mandou a filha deixar a Lourdes de gesso na casa de uma vizinha. Não a queria, mesmo se a religião permitisse

  2. Evangélica, mostrou certo desconforto ao posar com a santa. Quando as fotos acabaram, mandou a filha deixar a Lourdes de gesso na casa de uma vizinha. Não a queria, mesmo se a religião permitisse

  3. Evangélica, mostrou certo desconforto ao posar com a santa. Quando as fotos acabaram, mandou a filha deixar a Lourdes de gesso na casa de uma vizinha. Não a queria, mesmo se a religião permitisse

  4. Evangélica, mostrou certo desconforto ao posar com a santa. Quando as fotos acabaram, mandou a filha deixar a Lourdes de gesso na casa de uma vizinha. Não a queria, mesmo se a religião permitisse

  5. Evangélica, mostrou certo desconforto ao posar com a santa. Quando as fotos acabaram, mandou a filha deixar a Lourdes de gesso na casa de uma vizinha. Não a queria, mesmo se a religião permitisse

  6. Evangélica, mostrou certo desconforto ao posar com a santa. Quando as fotos acabaram, mandou a filha deixar a Lourdes de gesso na casa de uma vizinha. Não a queria, mesmo se a religião permitisse

  7. Elizângela quer estudar e ser aquilo o que a mãe não conseguiu ser

  8. Elizângela quer estudar e ser aquilo o que a mãe não conseguiu ser