Ave Maria

Maria de Fátima
Era perto da hora do Ângelus e do louvor a Nossa Senhora quando o agricultor José Rodrigo, 77 anos, foi para o terraço da casa que construiu no engenho Gurjaú, zona rural de Cortês. Viu o genro, Izaque Marques, passar pela estradinha de barro. Atrás dele, Fátima, sua filha. Ela sorriu e acenou para o pai. Pouco depois, quando ele correu para ajudá-la, ela agonizava em uma poça de sangue

Em novembro de 2012, três mulheres foram mortas a pedradas em Pernambuco. Outras duas foram assassinadas com arma de fogo - uma delas, Ingrid Milena, tinha só 14 anos. Outra, era bailarina, foi estrangulada pelo namorado. Em Agrestina, uma morreu após ser atropelada por um carro e arrastada em uma rodovia. Das nove mulheres que morreram violentamente naquele mês, sete se chamavam Maria. Estava tudo dentro da "normalidade", mas, na Relação Nominal das Vítimas de Crimes Letais Intencionais da Secretaria de Defesa Social, dois fatores chamam atenção: a morte de uma adolescente atingida por um raio (e que consta como homicídio) e o assassinato de Maria de Fátima Santos de Oliveira, 38 anos, notavelmente a única mulher daquela lista de um total de 252 mortos a ser atingida por uma "arma branca". Dentro do extermínio doméstico brasileiro, os objetos cortantes – punhais, facas, tesouras - são sem dúvida os mais presentes e, constantemente, fazem parte do cotidiano familiar.

É o caso de Maria de Fátima: morreu golpeada várias vezes com o mesmo facão usado por ela na roça e no corte da cana, com o mesmo facão que ajudava o enxuto orçamento familiar da merendeira casada com o agricultor Izaque Marques da Silva, 49. Quando foi assassinada, estava juntando o dinheiro conseguido no sol a sol do canavial para comprar roupa de Natal e Ano Novo para suas filhas, Izaquiele, 17, e Maria Eduarda, 10. Tinha quase R$ 300. O marido pediu emprestado, pagaria assim que pudesse. Combinava com Fátima ceias e festas que, ele sabia, jamais iriam se realizar: no dia 21, por volta das 17h, Izaque chamou a esposa até um terreno baldio, muito perto da casa onde viviam, e ressignificou para sempre o facão que naquele dia ele levava na mão. Matou Fátima. Maria Eduarda, a filha mais nova, viu o pai assassinar a mãe: brincava no açude próximo ao terreno. Dias depois, disse chorando ao avô: "A culpa é minha, eu não consegui correr para ajudar mainha".

Com uma Nossa Senhora de Fátima no colo e algumas flores amarelas na mão, o agricultor José Rodrigo Oliveira, 77, pai da Maria assassinada, chora quando fala do sofrimento da neta. Está sentado no terraço da casa verde onde vivia até o início do ano, no Engenho Gurjaú, zona rural de Cortês, e observa o caminho de barro que leva até o local da morte da filha. Passa exatamente em frente ao seu antigo lar. Saiu de lá para morar em Bonito cerca de um mês após o crime. Não aguentava a lembrança de ver Maria de Fátima caminhando em direção à própria morte. Estava com ela e Izaque, moravam muito perto, momentos antes de o marido chamá-la para ir até a plantação de banana que cultivavam. Seu Rodrigo viu quando o genro passou, depois a filha. Maria, que ele chama de Nenem, sorriu e acenou para ele. Nunca mais a veria viva. O agricultor não percebeu nada diferente em Izaque, há 17 anos casado com sua filha. "Mas naquela hora ele já estava com maldade no coração."

Pouco tempo depois, dois vizinhos passaram em uma moto. Gritaram: "Corre que Izaque tá matando Nenem". José não acreditou: conhecia o genro há anos, foi acolhido como um filho naquele assentamento onde a família Oliveira construiu suas casas. Eram parceiros de churrascos, de trabalho, de festas de casamento, de aniversários, de almoços de domingo. "Deixem de conversa, vocês querem falar mal da vida dos outros", respondeu. Mas continuaram a gritar. Só aí ele se alarmou. Correu até o terreno e já viu Maria no chão, cercada por uma poça de sangue. Ainda estava viva quando o pai se aproximou. Ela procurou se defender: tinha vários cortes nos ombros e nas mãos. Izaque tinha desferido um golpe tão violento em seu pescoço que por pouco não a degolou. Depois, fugiu em uma motocicleta que estava escondida, já ligada, atrás de algumas árvores. Premeditou o assassinato da mulher e não se constrangeu em matá-la ali mesmo, quase em frente ao seu pai e à filha caçula. O crime provocou comoção do engenho e na cidade: centenas de pessoas foram ao enterro, a maioria mulheres perplexas com a violência que levou Maria de Fátima. Algumas também com o fato de que a agressão que sofriam em casa poderia se materializar em morte.

O pedido de prisão preventiva e a denúncia contra Izaque (filho de Manoel Marques Silva Filho e Maria de Lourdes Alves) foram realizados por Petrônio Benedito, do Ministério Público de Cortês. Mas, apesar da clareza da autoria do crime – confessado pelo próprio Izaque em depoimento, no qual alegou estar sendo traído para se justificar –, o promotor quis que mais pessoas fossem ouvidas pela polícia. O pedido foi feito no dia 6 de janeiro deste ano, quando ele determinou um prazo de 30 dias para receber as novas investigações policiais. Mas, no dia 16 de abril, o delegado da cidade, Wilson de Menezes, afirmou que a polícia esteve duas vezes no engenho à procura de novos depoimentos e ninguém quis falar sobre o caso. Não é difícil entender o porquê: Izaque está foragido e aparece com certa regularidade no antigo endereço, sempre acompanhado por outros homens. No local, todos temem qualquer retaliação caso defendam Maria de Fátima.

Assim, o agricultor continua experimentando uma liberdade garantida pela burocracia, morosidade e conivência da própria Justiça pernambucana, aqui representada pelo Ministério Público e Polícia Civil. Quando ele vai de carro até o engenho, passa pelo terreno onde matou a esposa. O delegado de Cortês está a par das visitas periódicas de Izaque ao Gurjaú. "Mas de lá até a delegacia são 40 minutos, não é tão perto", justifica. A presença periódica ali foi outra forte razão para que a família Oliveira deixasse o local: alugaram as casas, deixaram as roças para trás. Interromperam o projeto de terminar os dias naquela região bonita, onde, parecia, nada de ruim poderia acontecer. Izaque também chegou a ligar para a filha mais velha, que vive, com a irmã, na casa de uma tia em Cortês. Na primeira vez, disse que não estava arrependido. Voltou a telefonar, desta vez chorando, e mostrou-se triste por ter tirado a vida de Maria. A adolescente agora teme quando seu telefone toca e na tela aparece apenas "confidencial". No engenho, fala-se que Izaque trabalhou para alguns políticos da cidade, o que o tornou íntimo do poder local. Isso explica sua blindagem e tranquilidade em voltar ao antigo lar, passar pelos ex-vizinhos, até mesmo os ex-parentes, mesmo com sua prisão preventiva decretada.

No engenho, José Rodrigo caminha cabisbaixo ao redor da casa que ele mesmo construiu. Há pouco da família naquele local que poderia servir de cenário para um filme sobre uma idílica vida nordestina: canaviais, plantações, um açude, casas simples e coloridas. Mas nem a cruz colocada no local da morte de Maria permaneceu no terreno. São mais de 17h, mesmo horário da morte de Maria, perto do momento em que a rádio local toca o Ângelus. Seu Rodrigo, o rosto molhado, diz que precisa ir para seu forçado novo lar, voltar a Bonito para cuidar de Cilene, 63, mãe de Fátima. Toma antidepressivos desde que Izaque matou sua filha. Virou tristeza. É amparada pelo marido, que, ao lado dos filhos Cícero (26) e José (39), tentam não deixar aquela morte invisível. Ligam periodicamente para a polícia ("nenhuma novidade") e vão ao Ministério Público de Cortês ("dependemos da polícia"). Enquanto a conivência governamental com o assassinato de mulheres segue, Cilene reza para a dezena de santos que mantém na sala. Todos eles são íntimos e acompanham há tempos os pedidos feitos por aquela mulher. Já rezou por saúde, por empregos, por curas, por casamentos, por bênçãos, por nascimentos. Agora, reza a dor de uma morte e pede pelas netas sem mãe. Quando José Rodrigo chega, à noite, inclui no altar uma Nossa Senhora de coroa dourada, rosto piedoso e mãos unidas junto ao peito. Apareceu em 1917 para três crianças no interior de Portugal. Nela, está impressa a moça morta covardemente com o mesmo facão que usava para sobreviver.

Na segunda semana de abril, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou um Projeto de Lei no qual determina que policiais que não adotarem medidas de proteção a mulheres vítimas de violência doméstica poderão ser presos (caso a omissão termine em lesão corporal ou morte da vítima). A pena prevista é de seis meses a dois anos de prisão. A proposta está incluída na lei PLS 14/2010, que altera a Lei Maria da Penha (11.340/2006). O documento seguiu para a Câmara dos Deputados. Até o fechamento desta edição, Izaque continuava foragido.

galeria de fotos

  1. "Ele já estava com maldade no coração", diz o agricultor sobre o ex-genro, que está foragido e aparece periodicamente no engenho

  2. O agricultor com os filhos, Cícero e José, que buscam justiça em nome da irmã

  3. A Nossa Senhora de Fátima que hoje integra o altar da família

  4. A Nossa Senhora de Fátima que hoje integra o altar da família

  5. Izaque (camisa listrada) ao lado das filhas e de Fátima (de rosa)

  6. José Rodrigo, que saiu do engenho onde a filha foi morta

  7. José Rodrigo, que saiu do engenho onde a filha foi morta

  8. José Rodrigo, que saiu do engenho onde a filha foi morta

  9. José Rodrigo, que saiu do engenho onde a filha foi morta

  10. José Rodrigo, que saiu do engenho onde a filha foi morta