Ave Maria

Maria das Dores
Das Dores precisava tomar três diferentes remédios para ver se sua agonia passava. O marido, João Fernando Ferreira dos Santos, não entendia o que acontecia com ela. Na casa onde moravam com o filho Rodrigo, as coisas iam bem até que a depressão foi somada ao álcool e à violência. As brigas tornaram-se frequentes até que um dia o casal viu-se com uma faca no quarto de dormir. Depois do enterro da mãe, Rodrigo levou uma pequena imagem da Sagrada Família para a casa da tia. Estava, simbolicamente, quebrada

O Clonazepam servia como tranquilizante e provocava alguma sedação. A Sertralina, para curar a depressão, a insônia e a ansiedade. O Bromazepam tratava o pânico e a fobia. Eram três drogas por dia para aliviar a agonia que Maria das Dores, o nome parecia destino, sentia. Chorava, e toda vez que chorava alguém lhe dizia "Isso passa". Chorava porque doía, porque de alguma maneira seu nome havia se materializado na sua própria existência. "João não gosta mais de mim." Chorava porque talvez sentisse falta da moça bonita casando de jeans e blusa branca, segurando um buquê. Naquele tempo, naquela foto, João sorria e a abraçava. No dia em que ele anunciou que iria novamente para São Paulo trabalhar no corte da cana, Maria emudeceu. Virou lágrima. Foi quando o médico passou o Clonazepam, a Sertralina, o Bromazepam, os remédios que a ajudariam a doer menos. Foi quando começou a ouvir: "Isso passa".

Não passou. A família procurava entender o que estava acontecendo com Bezinha, é assim que ainda chamam Maria das Dores Pereira Tenório dos Santos, que morreu aos 29 anos. Era feliz com João. Namoravam desde a adolescência, casaram e foram para o Sudeste, ele trabalhando no campo, ela cozinhando. Foi lá que ela ficou grávida e foi lá que Rodrigo nasceu. Quando voltaram para Jericó, um distrito pequenino de Triunfo, no Sertão de Pernambuco, sintetizavam a família ideal, aquela que tem todos os dias pela frente, a que toma café da manhã junta, que faz crediário para comprar sofá e pinta a casa com duas cores perto do Natal. Anos depois, enquanto se agrediam na sala, Maria e João se estapeando e gritando, Rodrigo chorando abraçado às pernas da mãe, eram o contrário deles mesmos.

"João não gosta mais de mim", Bezinha falou para Francinaldo, 43, um dos seus onze irmãos (quatro mulheres, sete homens). Ficou na casa dele quando o marido foi para os canaviais. Passou três meses, e é verdade que naqueles dias ela mudou. "Quando eu venho para tua casa parece que tudo passa, tudo se abre", disse das Dores a Luiza, 42, esposa de Francinaldo. Os remédios começaram a fazer efeito e ela levantou-se outra vez. Rodrigo, faz dez anos este mês, tinha a companhia dos primos (Jackson, João e Maria Cláudia). Na casa grande, há um bonito campo verde na frente e uma estrada de barro ao lado, sentiu-se feliz outra vez. Gostava de cozinhar, de chamar todo mundo para se reunir. Conversava com Luiza, com as vizinhas, comprava roupa para o filho. Maria das Dores era Clonazepam, Sertralina, Bromazepam. Mas era ela de novo. E agora ela não doía.

Um dia, João voltou. Bezinha estava em casa com Rodrigo e ficou feliz em ver o marido – tinha medo de que ele ficasse lá, achou que ia ser abandonada ( "João não gosta mais de mim"). Mas ele estava ali. Sua presença, ao mesmo tempo, era tensa. Não entendia as variações no humor da mulher. Não conseguia vê-la como doente. Repetia: "Isso passa". Bezinha estava insegura: tinha ganhado muito peso. Os remédios nem sempre davam conta da ansiedade e a comida era um conforto. Três meses após o retorno do marido, ela começou a doer de novo. Se os remédios não bastavam, a bebida talvez ajudasse. Passou a misturar os dois. "Vou beber pra ver se essa mágoa passa", disse uma vez a Luiza.

Foi aí que Rodrigo passou a presenciar brigas mais frequentes. O pai e a mãe consumiam álcool, quase sempre separados. A discussão mais séria foi quando João chegou em casa e viu das Dores com uma garrafa de aguardente. Passaram a se agredir fisicamente. A família morava ao lado dos pais de João, que ouviam as constantes reclamações do filho sobre a esposa. "Ela mudou muito." Falava o mesmo para os irmãos da esposa. Um dia, Maria, a mãe de das Dores, conversou com João. Intercedeu. "Tenha paciência com ela. Eu vou levá-la no doutor. Ela vai melhorar. Tenha paciência, vá." Sabia que a filha estava doente.

No dia 30 de setembro de 2012, das Dores decidiu ir a uma novena, era oportunidade para sair um pouco de casa e usar a roupa nova que tinha comprado. Bebeu naquele dia. O marido também. Separados. Haviam se estranhado mais cedo e cada um foi para um lado. Rodrigo estava na casa de Luiza e Francinaldo, foi passar o domingo. João chegou por volta das 18h, a mulher já estava em casa. Não foi buscar Rodrigo, como prometido. O que acontece depois disso é baseado naquilo o que João contou na delegacia. Matou Bezinha com uma facada no pescoço. Naquela noite, não permitiu que sua esposa fosse para a novena ou vestisse roupa nova. Não permitiu que ela voltasse a ver o filho ou cozinhasse as comidas que gostava. Não permitiu que ela conversasse com Luiza. Não havia mais Clonazepam, Sertralina e Bromazepam.

Ele disse que começaram a brigar na sala. "Você não gosta mais de mim, é ruim pra mim", repetia Bezinha. João foi para o banheiro tomar banho, ela foi para a cama. Quando ele entrou no quarto, a faca já estava lá. Começaram uma nova briga, e João, "um homem calmo e trabalhador", como defendeu sua irmã Adalva no depoimento, esfaqueou a mulher. Diz que não lembra, que não sabe quantas vezes foi. Quando a viu desacordada, saiu correndo da casa. Assustado, procurou seu pai, José Ferreira, os dois tinham bebido juntos mais cedo. Passou meia hora com ele. Falou trivialidades. Não conseguiu dizer o que fez. Na hora de ir embora, quando o pai lhe deu a bênção, começou a chorar. Foi na casa de José Severino, seu amigo, e lá quase confessou: "Rapaz, eu dei uma surra grande na minha mulher." Era algo que ele podia compartilhar, afinal a surra ainda estava, para ele e para muitos, dentro daquilo o que um homem pode socialmente fazer com uma mulher.

Severino ficou preocupado. Percebeu que o amigo tinha bebido e que Bezinha poderia estar precisando de ajuda. Foi até a casa do casal. Chamou José Ferreira, o pai de João, para entrar com ele. Encontraram a moça de 29 anos morta na cama de madeira do casal, o colchão encharcado de sangue, o corpo cheio de arranhões. Só tiveram coragem de ir contar a Francinaldo e Luiza no outro dia, às 5h da manhã. Rodrigo, dormia lá, acordou com a notícia de que não voltaria para casa. "Tua mãe tá no hospital." Quando viu a quantidade de gente chorando, quando viu a movimentação na casa, o desespero da avó, o desespero dos tios, procurou Luiza. "Tia, cadê minha mãe?" Contaram que ela havia morrido. Mas não disseram como. O menino, acreditando que a morte de das Dores estava relacionada à doença que a entristecia, falou: "É por isso que ela vivia tomando remédio." Dias depois, começou a questionar a ausência do pai. João ainda não havia se apresentado à polícia, nem foi mais visto em Jericó. Decidiram contar a verdade para o menino, que naquele momento também ficou sem pai. Após algumas semanas, Rodrigo pediu para ir até a antiga moradia, onde viveu com o pai e a mãe felizes e depois antítese. Quis buscar as coisas de Bezinha: as panelas, os santos, as fotografias. Em uma das imagens ele aparece segurando a mão de das Dores no dia do aniversário de 5 anos. Está na estante de seu novo lar, assim como uma Nossa Senhora Aparecida, bem pequenininha, que pertencia a ela. Perto, está uma estátua de gesso representando a Sagrada Família. Ficava na parede do antigo lar. Hoje, está, simbolicamente, partida ao meio.

João está solto. Dias após o crime, foi até a polícia, já livre do flagrante. Seu depoimento está entre o de várias outras pessoas, entre eles o do próprio filho, Rodrigo. A delegada Andreza Gregório de Lima pediu a prisão preventiva de João: a gravidade do crime era inegável. Mas o promotor de Justiça Felipe Akel Pereira de Araújo, ao ler o inquérito policial, não entendeu que o agricultor, réu primário, fosse perigoso, nem que ele havia alterado a ordem pública, tampouco que sua liberdade fosse ofensiva. Recomendou que o agricultor continuasse em liberdade. "A mera comoção social não justifica a prisão preventiva, mesmo no caso de uma barbárie", alegou, quando questionado sobre o motivo de sua recomendação. Como não há pedido de prisão preventiva para João, ele não é tecnicamente um fugitivo caso saia da cidade, do Estado ou mesmo do País.

Conhecidos dizem que ele está em Flores, cidade vizinha a Triunfo. Já ligou algumas vezes para o filho, pedindo perdão. Rodrigo não quer falar com ele. Após a morte da mãe, passou um tempo acordando à noite, aos gritos. Francinaldo e Cosmo, irmãos de Bezinha, precisaram se tratar de uma depressão após a morte da irmã. Tomaram os remédios que antes das Dores usava. Precisam se manter vivos para cuidar do sobrinho e dos filhos. Precisam de ajuda, qualquer que seja, para viver em um ambiente onde a barbárie é permitida por lei.

galeria de fotos

  1. Foto do dia do casamento de Maria das Dores e João

  2. Francinaldo, que hoje cuida de Rodrigo, filho da irmã assassinada

  3. Francinaldo, que hoje cuida de Rodrigo, filho da irmã assassinada

  4. A Nossa Senhora das Dores que ficou na casa, em Triunfo

  5. Francinaldo precisou tomar antidepressivos para atenuar a dor

  6. Agora guardam parte daquilo o que das Dores deixou: retratos, santas e as panelas onde cozinhava para depois reunir a família

  7. Agora guardam parte daquilo o que das Dores deixou: retratos, santas e as panelas onde cozinhava para depois reunir a família

  8. Agora guardam parte daquilo o que das Dores deixou: retratos, santas e as panelas onde cozinhava para depois reunir a família