Ave Maria

Maria da Penha
Era uma manhã de maio, mês de Maria, quando Lucilene parou de fazer o café para receber a visita de Marleide, sua sogra. Ouviu dela que Maria José, sua irmã, grávida de três meses, havia sido morta pelo marido, José Roberto. Ouviu que ele também assassinou a facadas sua mãe, Maria da Penha, que dormia quando morreu. Lucilene lembrou da última vez em que visitou as duas. A irmã descascava uma laranja. Aí José, tinha duas filhas com Maria, falou: "Guarde essa faca. Você sabe para o que ela serve"

Maria da Penha catava caranguejo. Bebia muito. Às vezes, era vista dormindo na rua, em alguma calçada. Virava a noite ali. Acordava suja, confundindo-se com os bichos que pegava no mangue. O lugar onde Maria viveu até morrer, com 51 anos, tem um cheiro forte de lama e é composto basicamente por bares e igrejas evangélicas. Ambos garantem algum conforto a uma população que só conhece o "bem-estar social" através do outdoor e da TV. São provedores de álcool e de fé, dois famosos substitutos de bens como transporte, saneamento, moradia, emprego, lazer, posto de saúde.

Maria, como muitos, ia mais ao bar que à igreja. De lá, podia voltar para casa com a mente afagada pelo álcool e simplesmente dormir. Aquele era um estado de consciência que a mantinha, ainda que momentaneamente, distante de uma miséria que durante toda a vida lhe foi apresentada. Que a ensinaram ser natural. Que lhe disseram que era destino. Que era assim. Mas não era. Se fosse, por que não se acostumava?

Talvez porque Maria da Penha levasse uma vida que era a antítese de uma lei que leva o seu próprio nome (número 11.340/06). Talvez porque representasse especialmente o contrário daquilo o que diz um dos artigos, o três . Ele declara, orgulhoso, que serão asseguradas às mulheres "as condições para o exercício efetivo dos direitos à vida, à segurança, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, à moradia, ao acesso à justiça, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária". Mas o único acesso garantido que Maria teve foi ao mangue e ao bar. No primeiro trabalhava, no segundo, onde podia fazer um pequeno fiado, transformava a lama em outra coisa. Pode-se chamar, com boa vontade, de ilusão.

Morava muito perto do trabalho, na Rua Pau Brasil, Barra de Jangada, em Jaboatão dos Guararapes. A casa ficava perto de um alagado, de onde sai aquele cheiro forte que impregna o lugar e leva você a associá-lo, erroneamente, a espaços da pobreza. Na verdade, a pobreza é que alcançou o cheiro daquele local, tomou emprestado o odor. Estava escondendo-se, como sempre, dos olhos do mundo, estava distante de quem passa em direção ao litoral. Antes de chegar ali, Maria da Penha passou por outros mangues: Tamandaré, Nossa Senhora do Ó. Criou suas duas primeiras filhas, Maria José (21) e Maria Lucilene (23), sempre naqueles cenários. As meninas, que brigavam muito quando eram pequenas, ajudavam a mãe a pegar, lavar e amarrar os siris. Também catavam marisco, vendiam manga, passa de caju. O pai das duas, José Vítor, morreu cedo. Maria da Penha casou com outro homem. Na última vez em que ele bateu nela, no dia que foi embora, abriu um corte profundo em sua cabeça. Lucilene tinha doze anos e lembra da história que hoje só ela pode contar.

As filhas Marias casaram. Penha foi morar na casa de Barra de Jangada. Lucilene, que teve no ano passado o seu quarto filho, já vivia lá. Gostou de ter a mãe por perto. Maria José ficou em Nossa Senhora do Ó, casou com José Roberto da Silva, 27. Com ele, teve duas meninas. Um dia, ela chegou na casa da mãe com as crianças: foi morar lá fugindo de José, que, Maria contou a Penha, batia muito nela. Outro dia ele chegou: encontrou a família, pediu para entrar, disse que não aconteceria mais. Ficou.

Lucilene não estabeleceu uma relação mais próxima com aquela casa agora habitada por José Roberto: certa vez, ele criticou as roupas mais curtas e justas da jovem ("se fosse minha mulher, não usava"), que revidou verbalmente. Deixaram de se falar. Mas ela sempre via a mãe passando pela rua, às vezes trabalhando, às vezes, depois do bar, muito debilitada. Sentia vergonha, pena e, com o passar dos anos, certa resignação em vê-la nas calçadas. Dona Marleide, 61, sogra e vizinha de Lucilene, sentia quase o mesmo. Fazia parte do outro grupo que habita a Pau Brasil, aquele que busca o afago diário não na cachaça, mas na igreja que enche aos domingos. Vão com uma roupa mais bonita, comprida, colorida. Vão perfumados. Marleide conseguiu convencer Penha a se arrumar assim, a ficar cheirosa e a acompanhá-la algumas vezes. A catadora de caranguejo ia, rezava, chorava, dizia para si que as coisas iriam melhorar.

Poucos dias depois, procurava a consciência alterada (R$ 0,70 custa a dose de pinga no bar da Índia). Quando encontrava Marleide pela calçada que era às vezes sua cama, sempre pedia: "Ô, irmã, tome conta da minha filha." Hoje a evangélica faz isso. Alugou uma casinha para seu filho, Alexsandro, e Lucilene. Moram lá com os quatro filhos. O rapaz trabalha como entregador de água mineral, ganha R$ 150 por semana. Os filhos estudam, dois em tempo integral. Sorte, porque almoçam na escola. Encostada na janela da casa de Lucilene, Marleide lembra de Penha. Que uma vez ela chegou com uma santinha de Nossa Senhora Aparecida. Que disse que gostava dela, que tinha fé e pedia. Talvez nem soubesse que ela era, também, divina. "Ela era uma boa pessoa. O problema era só a cachaça. Não sei por que pedia tanto para cuidar da filha dela. Parece que já sabia."

Um dia, a catadora de caranguejo foi até a casa de Lucilene e pediu algo para comer. Mais tarde, preocupada, a jovem foi levar mais alguma comida na casa de Penha. José Roberto não gostou. "Aqui ninguém está passando fome." "Mas eu vou deixar, ela é minha mãe." Maria José descascava uma laranja com uma faca peixeira. "Guarde essa faca", disse o marido, "Você sabe para o que ela serve." Lucilene ouviu. Saiu de lá com raiva. Dias depois, soube que ele proibiu tanto Penha quanto Maria José de passarem em sua casa.

Maria infringiu a regra do marido apenas uma vez: foi até a irmã para informar que estava novamente grávida. "Tomara que seja um menino desta vez", falou. Lucilene também esperava um bebê. Teriam filhos no mesmo período. Já não havia tempo e proximidade para as brigas de antes. A vida continuou: o cheiro do alagado, a igreja, o bar da Índia, o bem-estar social mediado por TV e propagandas, Maria da Penha passando com os caranguejos, Maria da Penha bêbada sentada na calçada, as barrigas de suas filhas crescendo.

Era cedo, uma segunda-feira de um mês de maio, quando Marleide chegou à casa de Lucilene. Ficou preocupada sobre como contar a notícia para a moça, que estava perto de ter o bebê. Mas tinha que falar. Começou: naquela madrugada, poucas horas antes, José Roberto matou Maria José, não se importando se ela esperava um terceiro filho seu. Depois, assassinou Maria da Penha. As crianças, uma com dois anos, outra com apenas um, viram tudo. Ele usou a faca com a qual a esposa descascava laranjas. Parece que antes brigou com Penha, que o teria provocado dizendo (foi o que José contou na delegacia) que sua filha não o amava mais. Que estava envolvida com outro homem.

Quando Lucilene soube, as filhas de Maria José já haviam sido levadas para a casa de uma vizinha, que encontrou as duas na rua, de madrugada, gritando. Perguntou o que tinha acontecido. Fizeram então com as mãos os mesmos movimentos que o pai fez enquanto esfaqueava as duas mulheres.

José Roberto andou pelas ruas até encontrar um mototáxi. Pediu para ir até a delegacia. Não tinha nenhum dinheiro para pagar o motorista, que depois foi até a Rua Pau Brasil à procura do assassino – mais especificamente do seu pagamento. José confessou o crime, o que fez o juiz Hauler dos Santos Fonseca atenuar em menos dois anos (um para cada assassinato) sua sentença: 17 anos pela morte de Maria José, 13 anos pela morte de Maria da Penha.

É espantoso observar que, justamente no processo daquela que batiza a lei que procura coibir a violência doméstica contra a mulher, a Defesa Técnica postulou o reconhecimento da tese de homicídio privilegiado, quando o criminoso age "sob o domínio de violenta emoção", após uma provocação da vítima. Ou seja: Maria da Penha, que estava bêbada e dormindo no momento em que foi assassinada, seria em parte responsável por sua própria morte. É apenas uma das interpretações assombrosas e possíveis da Lei, que se utiliza de recursos técnicos para casos imensamente distintos, para vidas, situações e vulnerabilidades só percebidas, só levadas em consideração, quando se entra em algumas ruas escondidas, quando se sente o cheiro do mangue, quando se ouve a música que toca alto no bar da Índia. O pedido, felizmente, foi negado.

Lucilene não guardou nada da mãe, não guardou nada da irmã. Nem foto. Sabe que as filhas de Maria José estão em um abrigo, mas não tem condições financeiras de criá-las. Não sabe como será a vida das meninas. Não sabe como crescerão sem pai, sem mãe, sem avó, sem tia, sem bolo de aniversário. "Não falta amor para criá-las. Mas me faltam condições." Marleide, que continua na janela, conta que foi até a casa de Maria da Penha após o crime. Também tinha um cheiro forte, agora de sangue. Lá dentro, nada que pudesse levar para Lucilene, para as crianças, para lembrar as duas Marias que viveram e morreram ali. "Ela não tinha nada na vida, minha filha. Nada. Sua vida era uma lástima."

galeria de fotos

  1. A jovem que perdeu a mãe e a irmã grávida em uma única noite sabe que Penha gostava de Nossa Senhora Aparecida. Tinha um papel impresso com a santa. Talvez não soubesse que ela também era divina

  2. Lucilene – ou Lucinha, como a mãe chamava – vivia perto de Penha

  3. A jovem é apresentada a imagem da Nossa Senhora

  4. A jovem é apresentada a imagem da Nossa Senhora

  5. Ao lado do filho menor, Lucinha observa a Penha de gesso

  6. Conta que não gostava do marido da irmã, que foi preso

  7. Conta que não gostava do marido da irmã, que foi preso

  8. Com a sogra, Marleide, que tentava ajudar Penha

  9. Ao lado da imagem, Lucinha lamenta a perda da mãe e da irmã