Ave Maria

Maria da Conceição
A moça que nasceu poucos minutos antes do dia consagrado à Virgem nunca tocada pelo mundano foi estuprada e assassinada após chegar de um baile funk. Os pais até hoje não sabem precisar o que aconteceu com a jovem que riscava as paredes da casa, o que levou o mundo a torná-la uma triste e Maculada Conceição

Maria nasceu cinco minutos antes de alcançar o 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição. Estava perto, muito perto, de ter sua inauguração no mundo para sempre associada à Imaculada, à Pura, mulher livre de qualquer mancha do pecado original. Era um espaço de tempo muito curto para ignorar todo o simbolismo ausente naquele dia 7, mas real e palpável no 8 seguinte. Trezentos segundos que separavam o cotidiano do maravilhoso. Maria Sebastiana, a mãe, resolveu driblar o calendário e concedeu à menina uma graça: batizou-a com o nome da santa. Assim, sua primeira e única filha estava para sempre unida àquela cujo corpo e vida nunca foram tocados pelo mundano.

Maria da Conceição, tinha 18 anos, havia chegado de um baile funk na noite em que morreu. Estava com Amanda Micaela dos Santos, 16, amiga com quem dividia há apenas três dias uma casa cor-de-rosa, a sua primeira e última experiência de existência longe dos pais. Gostava de usar jeans, camiseta de bloco carnavalesco, bebia cerveja e fazia um V (significando vitória) com os dedos na hora de posar para fotos. Não ficou nada disso, nem roupa, nem fotografia, nem diversão, nem Maria, na casa que foi incendiada por Ítalo Diego Santos, 21. Foi ele que, em uma mesma noite, matou com várias foiçadas a moça com nome de santa, além de Felipe da Silva Cavalcante, 17. Também feriu Amanda, sua ex-namorada, e Rodrigo Roberto Silva, 17. Antes, estuprou as duas meninas. Maria Sebastiana não teve tempo de visitar a filha. "Só fui lá buscar o que sobrou dela."

A mãe da jovem que morreu marcada pela naturalização do machismo e da violência no País vive no centro de Vitória de Santo Antão, bairro do Livramento, em uma casa cujas portas vivem fechadas. As paredes estão descascando, mostrando camadas de tintas usadas tempos atrás. Elas nos informam que aquela família profundamente ferida já se vestiu, tomou café, brigou e fez as pazes envolta em amarelo, verde, azul. Atualmente convivem com o rosa, de novo o rosa, a última cor que Conceição viu. Nas paredes, ela escreveu com lápis, a letra redonda, "a família", seguido pelo próprio nome, o da mãe e o do pai, os nomes dos irmãos, Carlos Eduardo e Carlos Augusto. Depois, riscou por cima. Ficou um borrão que, mais tarde, soaria extremamente simbólico após as perdas trágicas daquele lar.

Augusto, 75, pai da Maculada Conceição, passa quase todo o dia sentado em uma cadeira de balanço, perto da parede rabiscada. Teve um acidente vascular cerebral no mesmo período da morte da filha. Quase não fala. Gasta boa parte de seu tempo olhando a porta fechada, há nela duas janelinhas abertas, a luz da rua entra forte e banha os óculos, a roupa meio formal, a cabeça branca. Quando aponta para as letras pretas e redondas da adolescente morta, Sebastiana, 49, parece se incomodar. "Vou mudar, pintar tudo de branco-gelo." Quer, tardiamente, imacular aquela casa.

Conceição resolveu deixar os pais para morar no loteamento Mário Bezerra, área que apareceu na TV, na época do crime, como "um dos lugares mais perigosos da cidade". No número 64, ela e Amanda, amigas há um mês, colocaram uma TV, uma pequena estante, uma cama e um colchão. Chegaram na sexta. Começava um novo tempo para as duas, no qual não havia lugar para o olhar reprovador dos pais ou o colorido fracasso familiar impresso nas paredes descascadas. No domingo, 3 de abril de 2011, voltaram de um baile com Felipe e Rodrigo. Estavam bebendo, se divertindo, os rapazes resolveram sair, já madrugada, para comprar cigarro. Quando abriram a porta, Ítalo estava lá. Tinha uma foice em uma mão, um revólver na outra. "Duas mulheres solteiras morando juntas, tu acha que isso ia dar certo?", pergunta Sebastiana, que atribui unicamente ao mundo a culpa pelas dores de sua Conceição.

Ítalo mandou as meninas para o quarto e os rapazes para a cozinha. Revezou sua violência, originada pelo ciúme, entre os dois espaços. Espancou Felipe e Rodrigo com chutes e feriu os dois com a foice. Foi para o quarto e estuprou Amanda e Conceição. Golpeou as duas várias vezes na cabeça, no tronco, nos braços. Depois, voltou para a cozinha e continuou a ferir Felipe, que estava se relacionando com Amanda. Esquartejou o rapaz. Lá do quarto, Amanda ouviu Rodrigo gritar "moço, faz isso comigo não". Fingiu-se de morta e viu quando Ítalo jogou gasolina no sofá e ateou fogo. Conceição, sangrando, estava agonizando quando a amiga conseguiu pular a janela. Rodrigo fez o mesmo. Até hoje, a polícia não confirmou a participação de uma segunda pessoa no crime – na época, um rapaz de 17 anos foi levado para depor, suspeito de ter ajudado Ítalo. Seria um ex-namorado de Conceição. No dia 4 de abril de 2012, um ano após o espetáculo de bestialidade promovido no interior da casa rosa, Amanda informou, em audiência na Primeira Vara Criminal de Vitória de Santo Antão, que Conceição havia saído para conversar, por volta da meia-noite, com um ex-namorado. Voltou quase duas horas depois. Na sequência, perto das 2h da madrugada, Ítalo chegou. Horas depois do crime, Maria Sebastiana estava preparando o café da manhã, o irmão de Amanda bateu à porta. Falou que a jovem estava em um hospital, falou da foice, do revólver, da casa queimada e do fim da vida de Conceição. Maria, as paredes descascadas ao seu redor, ligou para o filho Carlos Augusto, 27. "Aconteceu uma tragédia com Conceição. Mataram ela." Carlos cuidou de tudo: polícia, reconhecimento de corpo, funerária, cemitério, audiência. Os pais apenas o seguiam. Não entendiam que mundo era aquele. Não entendiam o que fazia parte do novo cotidiano da garota. Não sabiam quem era Felipe, Ítalo, Rodrigo. Conheciam apenas Amanda.

Um dia antes de morrer, Conceição foi com ela até a casa dos pais. Almoçaram lá. Foi o último encontro entre a jovem e a casa que ela rabiscou e resolveu deixar para trás. Amanda, hoje com 18 anos e uma grande cicatriz na orelha e no pescoço, foi ao enterro. Sentiu que não era bem-vinda ali. Ainda sofre com o estigma de ter sido uma das protagonistas daquele horror. Trabalhando em um bar do mercado público da cidade, ela pede para não ser fotografada. "Depois daquilo, nunca mais arrumei um namorado."

Sebastiana não perdoa ninguém que naquele momento se relacionava com sua filha. Lembra dela pela cozinha, lembra do almoço no sábado, lembra da comida no fogão. Talvez aquele fosse um dos motivos para Conceição voltar. Um dos poucos motivos que a fazia tolerar as paredes descascadas. Quando ela foi embora com Amanda, o pai estava sentado frente à porta, a luz sobre seus óculos, a roupa meio formal, a cabeça branca. Deu tchau e foi ao encontro do absurdo. É daquele lugar iluminado que Augusto observa Sebastiana colocar a imagem de Nossa Senhora da Conceição na estante da sala, onde duas molduras mostram a filha morta exibindo a alegria de que a mãe diz sentir falta. Em uma foto, ela sorri, usa uma tiara com duas pequenas sombrinhas de frevo. Na outra, preto e branco, está de costas, usa calça jeans e biquíni, sorri, segura uma lata de cerveja. Era bonita. Também há uma foto de Carlos Augusto, mas de Carlos Eduardo, o filho mais novo, não. O rapaz foi assassinado aos 17 anos, no Recife. A mãe prefere não comentar o assunto. Continua dizendo que foi o mundo lá fora, o mundo atrás daquela porta que pouco se abre, o grande culpado pelas mortes de Carlos Eduardo e Conceição. "É assim. Depois que crescem, a gente não tem como prender em casa."

Entre a tristeza e a resignação, a apatia e o assombro, Sebastiana procura ser econômica ao falar sobre Conceição. Não lembra até que série a jovem estudou. Não foi depor após o crime. Não conhecia os amigos da adolescente. Não tem outras fotos dela guardadas. Mora com Augusto e Carlos, agora seu único filho vivo. Sai de casa três vezes por semana para acompanhar o marido na fisioterapia. Cuida da casa. Diz que está sempre ocupada e cansada. Assim, não precisa pensar tanto no que está após a sua porta, no ambiente ameaçador que cerca aquele lar onde, nas velhas paredes cor-de-rosa, ainda vive o nome da Maculada Conceição.

galeria de fotos

  1. A jovem deixou seu nome escrito pelas paredes da casa

  2. A jovem deixou seu nome escrito pelas paredes da casa

  3. Augusto, pai de Conceição, sofreu um derrame na época do crime

  4. O pai passa seus dias sentado à frente da porta, geralmente fechada

  5. Sebastiana e a Imaculada

  6. Sebastiana e a Imaculada

  7. Sebastiana e Augusto permanecem, entre paredes descascadas e as letras da menina, assombrados com um mundo que maculou sua única filha

  8. Sebastiana e Augusto permanecem, entre paredes descascadas e as letras da menina, assombrados com um mundo que maculou sua única filha

  9. Sebastiana e Augusto permanecem, entre paredes descascadas e as letras da menina, assombrados com um mundo que maculou sua única filha

  10. Sebastiana e Augusto permanecem, entre paredes descascadas e as letras da menina, assombrados com um mundo que maculou sua única filha