Ave Maria

Maria Aparecida
Preta tinha a mesma cor da imagem da Nossa Senhora encontrada no fundo de um rio no século 18. Morreu esfaqueada tentando fugir de Paulo Manoel, seu marido, com quem vivia há dez anos. Maria Janete, mãe de Aparecida, casada com o irmão do assassino, estava em casa quando a imagem da Padroeira chegou. Naquele dia, chorando, reencontrou a filha e a abraçou

Eram quase 2h da madrugada de uma segunda, 28 de novembro de 2011, quando acharam Maria Aparecida. O corpo jazia no chão, no meio da rua. Vestia não um glorioso manto azul, mas uma camiseta de listras brancas e roxas. Foram catorze facadas. Estava suja de terra, semelhante à imagem da Aparecida encontrada há trezentos anos no fundo de um rio, em São Paulo. Feita de terracota e escurecida pela lama, a estátua se multiplicou por todo o País naquela mesma cor. Tornou-se a padroeira de milhões de brasileiros, que passaram a reverenciar uma Nossa Senhora de pele ineditamente preta.
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Preta era o apelido de Maria Aparecida, assassinada aos 24 anos em Camaragibe, Pernambuco. A moça cor de terracota, a que não vestia um glorioso manto azul, foi morta pelo marido, Paulo Manoel dos Santos, 31. Estavam juntos há dez anos e tinham duas filhas.
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Eram 17h10 do dia 21 de maio de 1987 quando Preta, Maria, Aparecida, nasceu. Veio ao mundo através de uma Maria (Janete, a mãe) que foi parida por outra Maria (do Carmo, a avó). Era a primeira filha da garota que começou a ser mãe aos 16 anos e ainda engravidaria de Maria Cristiane, Maria das Dores e Maria Eduarda. Rafaela e Rafael, filhos do segundo casamento de Janete, foram os derradeiros. A última filha, que não recebeu o nome de textura divina das irmãs, é a que mais demonstra raiva pela perda brutal de Preta. Não foi ao enterro. Ficou em casa, a casa de esquina que contrasta uma pobreza exuberante com um azul glorioso, cor de manto. Sentada no sofá vermelho, Rafaela lembra a última vez que encontrou a irmã, na rua.

"Tu vai pra onde?" "Buscar as meninas." "Tu vai lá em casa domingo?" "Sei não, diz a mãe que eu ligo." Preta não apareceu. Ficou em casa com as filhas, Paula Maria e Poliana, hoje com 10 e 8 anos. Moravam no Conjunto do Sapo, apartamento 103, bloco 1, sala, banheiro, cozinha e dois quartos, popular, dado pelo governo, mas bom, arrumadinho. Naquele domingo, Paulo Manoel é que resolveu aparecer na casa da sogra. Foi rápido, passou só para falar com o irmão, Ednaldo, que é justamente o segundo marido de Maria Janete e pai de Rafaela e Rafael. A menina de 13 anos não se conforma com o fato de seu próprio tio ter matado sua irmã. "Eu não considero ninguém da família de meu pai", diz ela, enquanto Ednaldo observa a conversa encostado na parede da cozinha. Ele interrompe: "Mas quando eles estavam bem, era só alegria. Ele só ficava violento quando bebia", diz tentando de alguma maneira suavizar a dor da filha. Rafaela não faz concessões. "Ele vivia batendo nela. Chutava, dava murro. Depois pedia desculpa, começava a chorar. "

Eram quase 4h da manhã do mesmo 28 de novembro de 2011 quando alguém chegou naquela casa azul cor de manto avisando que Preta, Aparecida, Maria, estava morta na rua, perto do apartamento arrumadinho onde vivia com a família. O corpo estava virado, sujo de barro. Disseram que Paulo começou a bater nela dentro de casa, pegou a faca lá na cozinha, que tinha sangue nas paredes, no chão, na escada, em todo o caminho feito pela moça enquanto tentava fugir do pai de suas duas meninas. Maria Janete lembrou que ele disse "hoje vai ter festa" quando saiu de sua casa, mais cedo. Soube que os dois haviam tomando algumas cervejas em um bar ali perto, que brigaram, que Preta tinha sido espancada um dia antes, no mesmo domingo em que não foi visitar a mãe. Se tivesse ido, talvez as coisas terminassem diferentes. Mas provavelmente não. Rafaela olha para a mãe, que chora silenciosamente enquanto a fotografam segurando a Padroeira. Continua sem suavizar o rosto ou a voz. "Ele sempre bateu nela. Sempre bateu. No Dia das Mães, jogou Preta em uma vala lá perto da casa deles, ela quebrou o pé, foi uma amiga que tirou ela de lá. Outra vez jogou ela da escada. Queimou as roupas dela. Ele batia por qualquer coisa, ela vinha se esconder aqui, ia para baixo da cama. Ele não queria se separar, dizia que matava ela se ela deixasse ele, batia nela, batia por qualquer coisa." Ednaldo interrompe de novo: "Era só quando ele bebia".

Eram 15h30 do mesmo 28 de novembro quando o médico legista Valderi Siqueira de Miranda começou a necroscopia de Maria Aparecida, que aparece como sendo "parda clara", e não preta, no laudo tanatoscópico número 5796/11. Causa da morte: "hemorragia interna e externa decorrente de ferimentos penetrantes na cabeça e tronco". Os pulmões e o fígado foram atingidos. Enquanto o exame era realizado, quando o corpo de Maria era aberto e finalmente fechado, suas filhas eram levadas para a casa da avó, onde vivem até hoje. O pai, que era ajudante de pedreiro, fugiu. Depois apareceu pelo bairro, ameaçou algumas das testemunhas que estiveram na polícia. Chegou a ser visto bebendo nos bares que frequentara com a esposa. Em um deles, certa vez, bateu em Preta. Rafaela: "O pessoal que estava lá ficou com raiva, se juntou e deu uma surra nele. Todo mundo sabia que ele fazia isso, que era ruim".

Eram 15h17 do dia 28 de setembro de 2012, quase um ano após o assassinato, quando a juíza substituta Roberta Vasconcelos Franco Rafael Nogueira, da Primeira Vara Criminal da Comarca de Camaragibe, recebeu a denúncia contra Paulo, que teve sua prisão finalmente decretada. "Delito doloso e de elevadíssima gravidade, porquanto praticado com extrema violência contra indefesa vítima", diz o processo. Foi detido quase dois meses depois, em novembro. Naquele mesmo mês, dia de Finados, Paula e Poliana, o pai preso e a mãe morta, acompanharam Maria Janete até o cemitério para colocar flores no túmulo da mãe. Estavam na escola no momento em que a avó, usa aplique de tranças e faz faxina para ajudar o marido jardineiro, encontra uma foto de Preta. "Era calma. Amorosa. Fez até a quarta série." No retrato, a filha usa óculos escuros e veste a mesma camiseta de listras roxas e brancas que lhe serviu de manto no dia em que morreu. Passa a foto para Rafaela e segura novamente a imagem da santa, levada até a ela naquele dia quando, sem esperar, sentou-se no sofá vermelho para lembrar sua primeira Maria.

Lá dentro da casa cor de manto, de chão de barro coberto por tapetes que se confundem com a poeira, do quadro envelhecido onde está escrito "Mamãe", Janete passa alguns minutos segurando Aparecida enquanto é fotografada. Olha para a porta, olha para o lado, olha com olhos de dor e de desculpas para a imagem. No final, agradece e tenta devolver a santa. É quando escuta que é sua, que a Padroeira não vai ser levada de volta, que agora pertence a ela. No mesmo instante, fecha os olhos e abraça forte a estátua, encosta o rosto na imagem e começa a chorar. Embala, suavemente, Preta, Maria, Aparecida.
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Eram 12h38, 6 de março de 2013, quando Maria Janete, no meio daquele azul, colocou novamente sua filha para dormir.

galeria de fotos

  1. Naquele dia, envolta por um azul cor de manto, Aparecida sentou-se ao lado da família

  2. Maria Aparecida com a camiseta que usava no dia em que foi assassinada

  3. Naquele dia, envolta por um azul cor de manto, Aparecida sentou-se ao lado da família

  4. Naquele dia, envolta por um azul cor de manto, Aparecida sentou-se ao lado da família

  5. Naquele dia, envolta por um azul cor de manto, Aparecida sentou-se ao lado da família

  6. Naquele dia, envolta por um azul cor de manto, Aparecida sentou-se ao lado da família

  7. Maria Cristiane, ou Cuca, irmã de Preta: testemunha das agressões

  8. Gracielly, filha de Cuca

  9. Gracielly, Rafaela, Maria Janete e Cuca ao lado da Padroeira

  10. Gracielly e Rafael observam a imagem

  11. O altar de Preta, Maria, Aparecida