Ave Maria

Maria da Conceição

A violência cala o divino que há em nós

Fabiana Moraes

Maria Aparecida foi morta pelo marido. Maria da Conceição foi estuprada e morta por um colega. Maria do Socorro foi morta pelo marido. Maria da Penha foi morta pelo genro. Maria José (grávida de três meses, filha de Penha) foi morta pelo marido. Maria de Fátima foi morta pelo marido. Maria das Dores foi morta pelo marido. Maria do Carmo foi morta pelo marido. Maria Madalena foi morta pelo marido.

Paulo Manoel dos Santos, Ítalo Diego Santos, Esequias da Silva Soares, José Roberto da Silva, Izaque Marques da Silva, João Fernando Ferreira dos Santos, José Otacílio da Silva e Eduardo Francisco da Silva foram os homens que calaram a divindade que havia em cada uma dessas mulheres – assim como foi calada aquela existente em Maria de Lourdes, cujo marido, acusado de assassiná-la (há anos a espancava, declararam as filhas de Maria), foi absolvido. A Justiça jamais identificou quem teria cometido o crime. Também não se incomodou em procurar. Essa mesma Justiça ainda liberou, após a confissão do assassinato na delegacia, João Fernando, que matou das Dores. O promotor Felipe Akel Pereira de Araújo assinou a recomendação pela manutenção da liberdade do agricultor, como vemos no processo presente na comarca de Triunfo. "O requerimento da prisão preventiva, na minha opinião, não cabia", disse ele. Assim, João voltou para casa. Poderia ir na verdade para onde quisesse: sem privação de liberdade solicitada, ele não era, tecnicamente, um fugitivo. Munido com a razão jurídica, o promotor não sabia que Rodrigo, filho de Maria das Dores e João, só há pouco parou de acordar à noite aos gritos. Esequias, que matou Maria do Socorro com uma faca peixeira sem cabo, há três anos, também aproveita a liberdade: costuma, nos finais de semana, tomar umas cervejas pelas ruas de Tamandaré. Em Cortês, a família de Maria de Fátima saiu do Engenho Gurjaú com medo de que Izaque, assassino confesso da esposa, voltasse. Teve a prisão preventiva decretada, mas fugiu. No entanto, desde novembro, mês do crime, volta ao local onde quase degolou Maria, tendo a filha de dez anos como espectadora. A polícia sabe que ele aparece com regularidade no lugar, mas alega que o sítio fica distante (40 minutos) da delegacia, no centro de Cortês. Como se vê, Izaque tem sorte: está blindado pelo descaso e pela incompetência.

Ao lado do silêncio dos familiares e amigos, ao lado do machismo e da violência naturalizados, ao lado de nosso desinteresse por um assunto que, de tanto aparecer, tornou-se invisível, a Justiça brasileira nos informa, cotidianamente, que o assassinato de uma mulher não importa. É algo que está na ordem do mundo. Afinal, era apenas uma mulher. Já faz parte do que instituímos como normalidade, a normalidade que fazemos questão de transmutar em números (estes sempre caducos: não conseguem precisar a agonia de Rodrigo, o choro de José, pai de Fátima, a ira de Gercina, mãe de Socorro). Aqui, no Brasil do sol e da simpatia, mata-se uma mulher a cada duas horas. Das 91 mil assassinadas entre 1980 e 2010, 40% foram vítimas de crimes cometidos por maridos, pais, filhos, colegas, conhecidos. Pessoas que se aproveitaram da relação íntima com suas parceiras, filhas, mães e amigas para, geralmente com uma arma branca (faca, foice, etc), encerrar brutalmente suas existências.

Os números citados podem ser entendidos fielmente quando se materializam na face das dez Marias presentes neste especial, oito delas batizadas com os vários títulos de Nossa Senhora, mãe de Jesus (a história de Maria de Lourdes pode ser lida exclusivamente na internet: www.jconline.com.br/avemaria). Todas foram encontradas através de uma busca na lista de vítimas de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI/ Secretaria de Defesa Social). O único filtro utilizado para localizá-las foi o nome de raiz santificada. Centenas surgiram na pesquisa. Sintomaticamente, todas aquelas procuradas pela reportagem – nem todas presentes aqui, por questão de espaço – eram vítimas de violência doméstica.

As Marias que vamos conhecer viviam em Angelim, Tamandaré, Cortês, Poção, Triunfo, Jaboatão dos Guararapes, Camaragibe, Vitória de Santo Antão e Belo Jardim. Deixaram filhos, pais, caixinhas de jóias, roupas novas que seriam usadas no próximo Natal, uma tinta de cabelo para parecer mais jovens. Deixaram amigos, empregos, capas de sofá coloridas, imagens de Jesus e da Virgem Maria, panelas reluzentes, receitas de bolos e calças jeans. Deixaram de ser celebradas em vida para virar memória sempre presente. Em maio, mês dedicado a Maria, elas tornam-se, entre suas famílias, ainda mais táteis. São, para sempre, aparições. Neste especial, elas são representadas, nas fotografias, pelas santas católicas que as batizaram (todas as imagens foram deixadas com as famílias). É uma maneira de repensar o vácuo entre a importância social concedida à divina Nossa Senhora e às mulheres que, em terra, são assassinadas de maneira banal. É uma maneira, ainda, de transferir o respeito a essas imagens da Virgem para as Carmos e Socorros e Fátimas e Penhas cujas vidas foram tratadas como desimportantes. A Virgem Maria está presente em todas as mulheres, nos ensina a religião católica. Da mesma maneira, todas aquelas caladas pela violência doméstica estão encarnadas nesta triste procissão de Marias.