Ave Maria

Maria Aparecida

DRAMA DE TODOS NÓS

Ivanildo Sampaio
Diretor de Redação

"Ingênuas mulheres grávidas/ o que é que fostes fazer?/ apertai bem os vestidos/ prá família não saber/ que os indiscretos vizinhos/ vos percam também de vista/ saístes do pediatra/ para o ginecologista." Os versos de Mauro Mota já foram lidos como uma denúncia social, uma constatação de que muitas das meninas do Recife, nos inocentes anos 40 do século passado, engravidaram dos pracinhas americanos que fizeram a Segunda Guerra, e que, tão anonimamente quanto chegaram, também se foram, deixando como legado uma paternidade que nunca quiseram ou puderam assumir.

Se da parte deles não houve amor, também não se registra uma única crônica de violência. As meninas de hoje são outras, não apenas no Recife, mas no Estado inteiro. Os companheiros de mesa e cama não desfilam uniformes militares. Para muitas delas sempre esteve distante o dia da redenção: tinham desde cedo a consciência de que navegavam em águas turvas, mas sempre acreditavam que o casamento podia melhorar. Algumas foram alertadas pela família sobre o caráter (ou falta dele) dos companheiros que haviam escolhido, esconderam dos pais que eram humilhadas, agredidas e colocadas no nível mais baixo da dignidade humana – até que foram cruelmente assassinadas, cumprindo um roteiro previsto desde o primeiro dia da infortunada união. São essas Marias, as muitas Marias que só apareceram um dia para engordar as estatísticas da violência, as personagens desse caderno especial, cujas histórias, tristes e trágicas, são agora contadas pela repórter especial Fabiana Moraes, que mergulha fundo nesse estranho mundo de aceitação, violência, subserviência e impunidade. É duro constatar que no País dito "cordial", 91 mil mulheres foram assassinadas num período de apenas 30 anos (1980/2010) e que os assassinos (além de maridos, pessoas próximas das vítimas) não foram presos nem jamais foram importunados pela Justiça. Maria de Fátima, Maria das Dores, Maria do Carmo: eis aí algumas delas, nascidas e criadas em solo pernambucano e nesse mesmo solo sepultadas na sua miséria e seu anonimato. Quase sempre de formação católica, batizadas para louvar os tantos nomes de Nossa Senhora, resta às famílias de cada vítima uma nesga de fé na justiça de Deus – porque na justiça dos homens nenhuma delas mais crê. Aos nossos leitores, deixo claro que o especial Ave Maria mexerá com a consciência de cada um de nós, talvez cúmplices silenciosos de um sistema jurídico arcaico e injusto, que vê indiferente a impunidade que mora em cada esquina. Os talentosos Hélia Scheppa (fotos) e Vladimir Barros (criação gráfica) participam desse projeto que mostra o drama dessas famílias, dos filhos órfãos e de pais sofridos e enlutados – esse drama que é, afinal, de todos nós.