Ave Maria

Making Off
“Conheci as torres e os cemitérios, conheci os homens e os seus velórios.” Não era a primeira vez que eu ouvia aquela canção, mas, naquele momento, voltando da casa de mais uma Maria assassinada, ela ganhava outros significados. De dentro do carro, a paisagem na janela era quase sempre a mesma: o sol indo embora, o céu amplo e azul (depois laranja, depois rosa, depois vermelho), a estrada cruzando Agreste, Litoral, Sertão. De repente, passávamos por uma Virgem Maria. Ela surgia em forma de estátua gigante (como a Nossa Senhora na entrada de Pesqueira, como a Pietá na entrada de Sanharó), em cartaz de festa e novena, em placa indicando povoados (como o de Imaculada, em Lajedo). Era uma espécie de materialização da onipresença daquela Divina Senhora, a Divina Senhora que batizava as mulheres sem vida que tentávamos de alguma maneira conhecer. Elas de certa maneira estavam ali, naquelas aparições, na contínua repetição dos seus nomes. Eram, assim, representadas de maneira mais suave, sem o corpo ferido, sem cortes, sem dor, sem os sinais da brutalidade que as levou. São as mulheres cuja partida também matou um pouco de seus pais, irmãos, filhos, amigos. Nas conversas com todos eles, havia sempre um certo espanto causado pela enormidade de suas dores e aquilo o que encontravam em processos e decisões de juízes, delegados e promotores. Tentavam entender por que tantos homens estavam soltos após matar barbaramente tantas mulheres, soltos após causar um mal sem precedentes às vidas dos próprios filhos (as duas meninas de Maria José, netas de Maria da Penha, ambas assassinadas, até hoje vivem em um abrigo em Jaboatão. Ninguém da família tem condições financeiras de criá-las). Espantosamente, essas mesmas famílias não percebiam como haviam sido testemunhas da pré-morte de suas Marias, invariavelmente deixando apenas para as vítimas a tarefa de defenderem-se. Dependendo emocionalmente e financeiramente do marido e, mais forte ainda, mães de crianças nascidas do relacionamento com o agressor, muitas delas têm enormes dificuldades em romper a relação. Outras vezes, quando tentam findar a união, são perseguidas – e às vezes mortas. As campanhas que tentam coibir a violência doméstica ainda não são suficientes para quebrar essa realidade cristalizada, em que a família, muitas vezes também sendo agredida (como no caso de Maria Madalena), assume uma relação passiva que expõe ainda mais a mulher e privilegia o criminoso. Voltar dessas casas-altares manchadas de sangue era sempre doloroso: diversas vezes, ficava claro que, ao falar do que viveram, mães, filhos, pais, irmãos e amigos percebiam que poderiam de alguma maneira ter mudado o destino de suas Marias. Para isso, no entanto, precisavam contar com a ajuda efetiva da polícia, o que, como vemos nas histórias aqui contadas, nem sempre acontece. Nem mesmo após a morte das mulheres. Esse é talvez o maior problema da violência doméstica feminina no País: sabendo que a naturalização presente nos lares encontra eco nas instituições públicas responsáveis pela defesa da sociedade, a própria família desiste de lutar.
Resignam-se. Perdem suas Marias de carne e osso e se voltam para as Nossas Senhoras de gesso que guardam em algum lugar da casa. Passam a ver aquelas que se foram violentamente caminhado pelos corredores, surgindo sob árvores, aparecendo com um bebê no colo (como é o caso de Maria das Dores e Maria do Carmo, cujos familiares afirmam tê-las visto pós-morte). Passam, ainda, a enxergá-las nas Marias que pontuam as ruas e estradas. Nas placas e cartazes. Nos calendários marianos distribuídos em dezembro. Aconteceu o mesmo conosco: ao evocar aqui cada Maria, ao vê-las em fotos de aniversários e casamentos, ao vê-las mortas em fotos anexadas nos processos, passamos, ali, agora e para sempre, a conviver com suas dolorosas aparições. (…) A música termina, mas deixa sublinhado: “Quando eu falava dessas cores mórbidas, quando eu falava desses homens sórdidos”

Texto e fotos: Fabiana Moraes. A música citada é Paisagem da janela, de Lô Borges