Usamos o tablet, acendemos a luz, trocamos recados pelo Whatsapp e até movimentamos poderosas máquinas sem pensar a respeito dela. Jovens e adultos, empresas e governos, todos temos a energia como base de nossas vidas. É uma área em plena revolução e em que o Brasil, lamentavelmente, enfrenta uma nova crise. Justamente nesse momento difícil o JC traz este especial, uma produção iniciada há dois meses, nos Estados Unidos, e aprofundada no Brasil. Os textos, do repórter Giovanni Sandes, enfatizam o poder da inovação e criatividade, sempre diante da realidade brasileira. São duas versões do especial. No JC Online é um passeio pelo tema, com apoio de material em vídeo, fotos e documentos. No Jornal do Commercio estão as análises aprofundadas, mostrando como o Brasil segue espremido entre distorções e oportunidades.

O lento caminho da inovação

Entenda porque fontes alternativas de energia limpa demoram a decolar no Brasil

A pernambucana Eólica Tecnologia, apesar do nome, tem prontos projetos para 100 megawatts (MW) em usinas de energia solar. Instalada no Bairro do Recife, vizinhança de negócios criativos, ela é capitaneada pelo recifense Everaldo Feitosa, de 57 anos, um pesquisador que virou empresário. A iminente diversificação dos negócios e o passado de obstáculos de Everaldo encarna o desafio das energias limpas alternativas no Brasil. É uma história de uma lenta mudança de mercado.

Muito antes de se falar em risco de racionamento, Everaldo era um entusiasta da energia eólica. Ph.D em engenharia aeronáutica, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e participante da primeira geração de pesquisadores da eólica, desde o final dos anos 80 ele já queria trazer para o Brasil essa tecnologia limpa. Mesmo com seu conhecimento técnico, ele chegou a ser ridicularizado e gastou muita saliva até conseguir, em 1992, recursos federais para as duas primeiras turbinas eólicas do Brasil, para pesquisa. Uma é conhecida de quem mora no Grande Recife: fica no Complexo de Salgadinho, em Olinda, onde até hoje chama atenção de quem passa na área. A outra ficou na Ilha de Fernando de Noronha. Ambas tinham 15 metros de altura.

Na fase de descobertas, o mapeamento mostrou o Nordeste com até 80% do potencial brasileiro e ventos complementares às hidrelétricas, porque os melhores estão justamente na estação seca. A qualidade desses ventos também é acima da média mundial. Anos mais tarde, Everaldo seria vice-presidente da Associação Mundial de Energia Eólica. E o Brasil só acordaria para essa fonte após o racionamento de 2001/2002.

Com o Pró-Infra, o governo deu subsídios para testar comercialmente e desenvolver a eólica e outras duas fontes alternativas no País, as térmicas a biomassa (que produzem a partir da queima de bagaço de cana, por exemplo) e pequenas centrais hidrelétricas (PCHs). O Pró-Infra deu a senha para Everaldo empreender com um parque eólico em Gravatá, dentro da primeira leva de 1.200 MW nas turbinas comerciais do Brasil.

Elbia Melo, presidente executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica, diz que, em preços corrigidos pela inflação, a energia dos ventos custou R$ 320 o megawatt-hora (MWh), contra de R$ 150 a R$ 180 da biomassa e PCHs. O preço da hidrelétrica era R$ 120 o MWh. Um esperado Pró-Infra II nunca veio e as turbinas esperaram até 2009 para voltarem aos leilões, quando a tarifa caiu para R$ 180 o MWh. Na terceira onda, em 2011, a tarifa caiu abaixo de R$ 100 o MWh, tão competitiva quanto as hidrelétricas.

  • EÓLICA Setor vai ampliar a participação de 2% para 9,5% da capacidade instalada brasileira. – Heudes Régis/ JC Imagem

  • PIONEIRO Everaldo implantou as primeiras turbinas do Brasil em 1992 e só após a crise de 2001 viu a eólica decolar. Crédito – Dani Neves/ JC Imagem

  • ENTUSIASTA Bosco gastou R$ 20 mil para gerar energia solar em casa. Retorno do gasto só em 15 anos. – Heudes Régis/ JC Imagem

  • ARENA Usina solar na Copa não tem uso comercial. Apesar de avanço lá fora, objetivo é pesquisa. – Heudes Régis/ JC Imagem

As torres cresceram e viraram as maiores máquinas rotativas do planeta. Gigantes de 250 metros de altura e 150 metros de diâmetro, com 400 toneladas de peso, já são viáveis. “É como girar em uma torre o Airbus A-380, o maior avião comercial do mundo”, conta Everaldo, hoje sócio e operador de R$ 1 bilhão em parques já funcionando, mais R$ 1,2 bilhão em obras. Ainda há 1.500 megawatts prontos no papel. Até 2022, projeta o governo federal, essa energia vai saltar de 2% da capacidade de geração brasileira para 9,5%.

A energia eólica instalada e em operação no Brasil nem chegou a 3 mil MW, enquanto a Alemanha, líder mundial quando o País dava seus primeiros passos hoje tem mais de 32 mil MW – e ainda se tornou referência nas energias alternativas em geral, com destaque também em solar. O modelo alemão impulsionou as fontes limpas com a mini e microgeração distribuída, fazendo turbinas eólicas em pequenas propriedades, e placas solares em telhados e fazendas virarem comuns na paisagem alem. Foram subsídios, cortados no pós-crise global. No Brasil, as regras para geração distribuída em mini e microescala já têm quase 2 anos e apenas 106 autorizações. De um lado a regra não permite lucros para esses nanicos da energia. Do outro, o custo é proibitivo.

O secretário de Infraestrutura de Pernambuco, João Bosco de Almeida, gastou R$ 20 mil para produzir energia solar e calcula que, por causa de distorções tributárias, só terá retorno em 15 anos. O modelo brasileiro é de compensação da energia – um encontro de contas entre o que você gera e consome. Se você produzir mais do que compra da rede, ganha descontos no futuro. Se for o contrário, você paga uma fatura. Mas João Bosco diz que os impostos incidem mesmo sobre os créditos da energia que ele gerou em casa. “Hoje o financeiro não fecha”, afirma.

Atualmente o Brasil só conta com energia solar na escala de pesquisa. Não tem nenhuma usina em funcionamento comercial. Somente 12 anos após o primeiro leilão de energia eólica, o governo federal vai promover, até o fim do ano, a primeira concorrência exclusiva para a fonte solar. Pernambuco, de forma pioneira, teve a primeira iniciativa do País em 27 de dezembro passado, o que resultou em R$ 597 milhões em investimentos de seis grupos internacionais. Minas Gerais também planeja um leilão próprio de solar.

É por isso que só agora Everaldo Feitosa, o pioneiro da eólica, planeja diversificar seus negócios, aproveitando área ociosa nos mesmos terrenos onde já instalou turbinas. “A energia solar deve seguir o mesmo da eólica no Brasil. Mas com leilões exclusivos, sem Pró-Infra”, avalia Elbia Melo. “Já temos 100 MW em projetos de energia solar”, conta Everaldo. “Estamos só esperando o leilão”, completa.


Incentivo à criatividade

Apesar de poluente, EUA se destacam em fontes alternativas com subsídios federais e estaduais

Existem diferentes formas de os governos incentivarem o desenvolvimento de tecnologia nova na área de energia. As experiência mais bem-sucedidas e que resultam em mais debates misturam subsídios a concorrência de mercado, fazendo nascerem cadeias inteiras de produção, conhecimento, pesquisa e inovação.

Enquanto a Alemanha há anos é referência global em tecnologias limpas, os Estados Unidos têm se destacado no esforço de reduzir sua poluição – tanto que no mês passado o presidente Barack Obama anunciou o projeto de fazer os EUA virarem líder mundial em solar, até 2020. O país norte-americano tem no carvão a fonte de 37% de sua eletricidade e apenas 14% de fontes renováveis.

  • CONHECIMENTO Raleigh, capital da Carolina do Norte, virou polo de economia criativa na energia. – Giovanni Sandes/ Especial para o JC

  • MODELO Fuquay, uma das 56 fazendas de energia solar da Strata, fica em uma região árida a 40 minutos de Raleigh. Crédito – Giovanni Sandes/ Especial para o JC

  • FLUTUAÇÃO Produção solar varia, como energia eólica. Na Fuquay, as 26.640 produzem mesmo sob neve. – Divulgação

  • APOIO Michael Brower diz que subsídios são importantes para desenvolver novas tecnologias. – Giovanni Sandes/ Especial para o JC

Por isso o poder federal dos EUA montou uma série de incentivos para estimular a diversificação dessa produção, bem como para reduzir sua dependência energética. Na Carolina do Norte, a legislação estadual ampliou os benefícios e fez da capital Raleigh um polo de economia criativa.

A Carolina do Norte junta 30% em créditos tributários federais a 35% estaduais, mais uma cota de compra compulsória de energia limpa pela distribuidora local, no mínimo de 20,2% do total. Eram 15%, diz Betsy McCorkle, diretora de Relações Governamentais da Associação de Energia Sustentável da Carolina do Norte. “Queremos que todos tenham acesso a energia verde e limpa”, afirma Ivan Urlaub, presidente da entidade.

Como resultado, os negócios da energia passaram a envolver pequenas, médias e grandes empresas, trabalhando também para negócios de todos os portes, além de residências. Os segmentos envolvem de tudo – da produção de energia solar, eólica, hidrelétrica, biomassa e até geotérmica a empresas que trabalham com redes inteligentes, eficiência energética, armazenamento de energia e combustíveis alternativos.

A associação montou um “censo da indústria da energia limpa” para traduzir o resultado econômico dos subsídios. Na edição 2013, 570 empresas do setor de renováveis responderam à pesquisa, declarando 18.404 funcionários e um faturamento global de US$ 3,584 bilhões. Por fonte de energia, o líder é a energia solar, com 30% do faturamento, seguida por negócios de eficiência energética (28%) e redes inteligentes.

Muito dessa produção envolve geração distribuída, aquela em micro e pequena escala feita pelos pequenos. Maria Kingery é cofundadora da SoutherEnergy Management, que trabalha com eficiência energética e energia solar. A empresa já alcança 17 mil casas, fora os pequenos e médios comércios. “Muitos deles produzem hoje mais energia do que precisam”, comemora Maria. Ela ressalta, os clientes e as companhias trabalham juntos. “Temos retorno dos clientes. Eles nos ajudam a melhorar, dizendo o que funciona e não funciona”, explica.

Enquanto Maria Kingery desenvolveu um modelo urbano de negócio, a Strata Solar partiu para a área rural e já implantou 56 fazendas de energia solar, as menores pequeninas, de 1 megawatt (MW), as maiores como a Fuquay, com capacidade instalada de 6,4 MW – e 26.640 placas solares.

A explosão das energias alternativas nos EUA pode ganhar novos formatos. “Atualmente há um debate intenso sobre a produção de energia eólica offshore na costa da Carolina do Norte”, afirma

Betsy. A discussão não é sobre a viabilidade técnica, pois a tecnologia para instalar as turbinas até em alto mar já existe. O debate envolve questões mais complexas, pois a costa é considerada estratégica para a defesa americana. “A Carolina do Norte é realmente líder nesse espaço e é isso que tentamos mostrar a nossos legisladores”, defende Betsy.

Negócios inovadores na área de energia não se resumem a Raleigh. Em Pittsburgh, Pensilvânia, onde o gás e petróleo de xisto trazem polêmica na área ambiental, a GTech busca unir o apelo verde e responsabilidade social aos negócios. Andrew Butcher, presidente da GTech, atua justamente com negócios com foco no desenvolvimento social e desenvolve soluções específicas para cada demanda. Por exemplo, ele mapeou 30 mil terrenos ociosos no centro de Pittsburgh que poderiam ser usados para gerar energia. “O processo de investir em comunidades é o que dirige o desenvolvimento. Agora mesmo estamos coletando óleo de cozinha para gerar energia”, comenta.

O presidente do Conselho Americano de Energia Renovável (Acore), Michael Brower, diz que o pagamento de subsídio hoje é mais aceito pela população jovem, especialmente pela maior consciência ambiental de novas gerações de renda mais alta. De uma forma geral, o presidente da Acore considera o Brasil bem posicionado com relação às energias renováveis, tendo em vista que a maior parte da produção é hidráulica – cerca de 70%, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE). “Se considerar toda a economia, o Brasil está bem em renováveis”, afirma Brower. Ele elogia o histórico dos leilões “A” federais brasileiros, em que usinas disputam entre si contratos de fornecimento de energia.

Brower acredita que o governo deve buscar o incentivo contínuo às fontes limpas alternativas. “Eu sou um dinossauro. Nasci muito tempo atrás. Agora, as pessoas jovens nos Estados Unidos respeitam a energia renovável, a reciclagem, o equilíbrio ambiental. Isso vem com mais segurança econômica e tem relação com aumento da classe média nos outros países também”, afirma Brower.


Xisto e a corrida do ouro

Gás e petróleo não convencionais revolucionam economia, sob críticas ambientais

“Quantos de vocês foram a Las Vegas recentemente? Estive lá duas semanas atrás. Você senta à mesa, para jogar Blackjack, e há garotos jovens – acima de 21 anos, claro. Eles estão jogando com o dinheiro do papai. Você vê gente da Dacota do Norte que, você sabe, não teria esse dinheiro cinco anos atrás. E o dinheiro está fluindo, com todos os aspectos clássicos de uma corrida do ouro”. O relato, feito por Duncan Wood, diretor do Instituto do México, do Wilson Center, mostra uma das facetas da polêmica revolução do xisto, que está gerando muita riqueza nos Estados Unidos. Porém muita oposição também, na área ambiental.

Chamados em inglês de shale gas e tight oil, esses combustíveis são fontes não convencionais de petróleo e gás. Eles se concentram a grandes profundidades em terra firme, incrustados em rochas porosas. Apresentados pelos EUA ao mundo, provocaram uma forte queda de preço da energia naquele país, a partir de 2008, e alavancaram bilhões de dólares em investimentos na cadeia petrolífera e petroquímica.

  • FORÇA Bill Flanagan mostra como o gás e petróleo de xisto fez de Pittsburgh um novo centro de energia no País – Giovanni Sandes/ Especial para o JC

  • CONHECIMENTO Universidades da região, como a Carnegie-Mellon, ajudam a pesquisar fontes não convencionais – Giovanni Sandes/ Especial para o JC

  • COMBUSTÍVEL Consol Energy, produtora de carvão e gás de xisto, usa carro híbrido para ilustrar seu papel na economia dos EUA – Giovanni Sandes/ Especial para o JC

  • CRÍTICAS Dufalla questiona qualidade da água na região, que estaria contaminada pelo processo de extração do xisto – Giovanni Sandes/ Especial para o JC

  • EQUILÍBRIO Suzan Legross trabalha para conciliar os interesses de proteção ambiental e da produção da indústria – Giovanni Sandes/ Especial para o JC

Diferentemente do Brasil, onde a Petrobras domina o setor, nos EUA são mais de 8 mil pequenas e médias empresas só em Houston. Elas estão na origem desse “boom” do xisto, que combina duas tecnologias diferentes na extração. A perfuração horizontal (em que depois de milhares de metros de profundidade o poço faz uma “curva” e segue quase em paralelo à superfície) e a fratura hidráulica (com a injeção de toneladas de água a alta pressão, misturada a químicos, para quebrar as rochas e liberar o gás e óleo incrustados nelas).

Há muitos relatos, críticas e dúvidas sobre a contaminação de lençóis freáticos por vazamentos de água com químicos, em especial por causa do metano, inodoro, incolor e insípido. Ken Dufalla, presidente da Izaak Walton League, diz que a acidez da água aumentou em áreas rurais da Pensilvânia e ela não serve para a agricultura. Ele descreve um cenário similiar ao do filme A Terra Prometida (Promised Land, EUA, 2012). Como nos Estados Unidos os direitos de perfuração do subsolo podem ser vendidos em separado da propriedade da superfície, a exploração subterrânea e a contaminação fazem, no filme, a água das torneiras pegar fogo.

Raina Rippel dirige um projeto conhecido pela sigla SWP–EHP e pesquisa outros riscos do xisto. “Há casos de estresse, insônia. Parece pouco. Mas tem gente que não dorme (direito) um ano inteiro. Parece um problema de saúde pública para mim. A perfuração é 24 horas por dia, sete dias por semana”, afirma. “Tudo começa com uma definição de caso. Se vamos chamar de Síndrome do Xisto ou não, é outra questão”, diz.

Suzan LeGross, do Centro de Desenvolvimento Sustentável do Xisto (CSSD, em inglês), militou por quase toda a vida na área ambiental. Ela defende a implantação de uma “licença social para operar”, com a certificação de uma terceira parte independente. Quatro companhias estão em fase de teste da certificação, que custa até US$ 70 mil no total. Segundo Suzan, essa ideia já foi usada em outras áreas, mas não no xisto.

“Começamos a ver essa corrida do ouro do xisto e foi tudo muito rápido”, explica. “Quanto à preocupação das comunidades, o tráfego intenso de caminhões é uma realidade, assim como o transporte intenso de água, bem como luzes, barulho e a questão dos lençóis freáticos”, reconhece. “Mas não é uma situação em que você tem certo ou errado. Há interesses dos dois lados”, completa.

A militância ambiental trocada pela postura de diálogo rende problemas dos dois lados. Em uma frente, as empresas são reticentes quanto à adoção da “licença social”. Do outro, ela é considerada desertora. Ela considera a alternativa a mais racional, diante da realidade da extração do xisto.

Enquanto as críticas se desenrola, o xisto faz de Pittsburgh um dos novos centros de produção de energia dos Estados Unidos, revolucionando preços até da eletricidade, em regiões distantes das áreas de produção. “A América do Norte, há alguns anos, estava entre os maiores preços de gás no mundo e agora está entre os preços mais baixos do planeta”, enfatiza Duncan Wood.

A extração foi viabilizada primeiramente nos Estados Unidos, mas essa fonte existe por todo o mundo: México, Canadá, Argentina, Venezuela e China, entre outros. Segundo a Agência Internacional de Energia, dos EUA, o Brasil tem a décima reserva mundial do gás, mas assim como outros países ainda não extrai essa riqueza. Pelo menos não ainda. Em novembro, o 12º leilão da Agência Nacional de Petróleo (ANP) trouxe campos com potencial de xisto, mas áreas como a bacia do São Francisco, não foram arrematadas.

Por enquanto, ao menos oficialmente, o Brasil não coloca o xisto na projeção oficial de crescimento da oferta de gás natural no País, um combustível estratégico para os próximos anos.


Segurança, base invisível da inovação

País precisa recuperar credibilidade para ter ambiente saudável a investimento e inovação

Enquanto a energia avança rumo ao futuro, o Brasil precisa recuperar a base invisível do setor elétrico: um ambiente propício a investimentos e inovação. É a estabilidade de leis e regras, o necessário para a credibilidade e confiança. A regulação virou uma confusão no País, por decisões arbitrárias do governo federal. Os abalos trouxeram prejuízos para grandes empresas e o cidadão comum, uma discussão necessária e urgente, porém difícil de conduzir em ano eleitoral.

Em um evento sobre o setor elétrico, na Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe), a plateia era de empresários e especialistas. Assim que um dos palestrantes, no palco, falou que a Lei 12.783/2013 reduziu o preço da energia no Brasil, no público pessoas balançaram a cabeça em desaprovação. É que a legislação surgiu com a Medida Provisória (MP) 579, com objetivo de cumprir uma promessa de campanha da presidente Dilma Rousseff (PT), de reduzir em 20% a conta de luz dos brasileiros. De fato, a MP trouxe uma queda no custo da eletricidade. Mas foi passageira. Seus resultados efetivos fizeram o contrário. Misturados aos efeitos da grave seca que prejudica a produção de energia, vieram aumentos na conta de luz que devem se propagar até 2019. Só em Pernambuco a conta já subiu 17,5% nas residências e até 25% nas grandes indústrias.

  • SÍMBOLO Chesf incorpora o desafio de reerguer a área elétrica após ingerência federal provocar instabilidade no setor – Heudes Régis/ JC Imagem

  • EXPANSÃO Paulo César garante não haver risco de desabastecimento e ampliação da rede de transmissão – Heudes Régis/ JC Imagem

  • PREJUÍZOS Conceição reclama de prejuízos de empresas que ficaram sem opções para comprar energia barata – Heudes Régis/ JC Imagem

  • “BURROCRACIA” Para Walfrido, regras incompreensíveis e exigências desproporcionais dificultam compra e venda – Heudes Régis/ JC Imagem

Por isso a reação negativa ante a afirmação do palestrante Paulo César Domingues, diretor de Planejamento Energético do Ministério de Minas e Energia. Ele explicava que a política energética brasileira se baseia no tripé segurança de abastecimento, modicidade tarifária (custo baixo) e universalização do atendimento, quando disse que, motivado por campanhas pela redução do custo da energia, realizadas pelas federações da indústria em São Paulo e no Rio de Janeiro (Fiesp e Firjan), o ministério criou a Lei 12.783. A medida teria sido bem-sucedida.

“Realmente isso foi feito. A lei propiciou uma redução de valores, na média das classes de consumo, de 17,65%. Mas trouxe consequências, a gente sabe, negativas para alguns grupos dentro do setor elétrico.” A última frase, um mea culpa, é dita de um jeito tão baixo e rápido que é preciso escutar a gravação no último volume para entender o que Paulo César fala.

A MP 579 forçou uma queda artificial no custo da energia com o uso político de estatais e fundos de pensão sob o controle federal, como a Chesf, pertencente ao Sistema Eletrobras. De uma forma bem simples, o governo impôs a venda a energia barata em troca da renovação antecipada de contratos com longos prazos de fornecimento da eletricidade. O problema é que as companhias livres da influência política, como a mineira Cemig, disseram não aos planos federais e passaram a vender energia a curto prazo, a preços que variam de acordo com a procura e e oferta. Nesse meio tempo, a seca forçou o acionamento das térmicas do País e reduziu a produção das hidrelétricas.

Por tudo isso, distribuidoras como a Celpe precisaram comprar energia a preços que bateram no teto do mercado de curto prazo, R$ 822 o megawatt-hora (MWh). “O empresário está em uma situação crítica. Com o aumento de preço da energia, o que vem é uma equação cruel, uma alta de custos e redução do consumo”, comenta Ricardo Essinger, vice-presidente da Fiepe. “No setor têxtil teve empresa que suspendeu as atividades por causa do aumento nos custos”, explica.

Conceição Cavalcanti, da C&T Tecnologia, diz que a Chesf passou a vender a parcela de energia antes vendida no curto prazo, como decidiu o governo, no mercado de longo prazo do governo. O problema é que indústrias da região contavam com essa energia, porque no jargão da área estavam "descontratadas", ou seja, sem alternativa para comprar eletricidade barata. "Outras empresas vão ficar descontratadas no segundo semestre", alerta Conceição.

O setor como um todo enfrenta distorções variadas, como atraso crônico de obras, politização partidária excessiva, planejamento falho e problemas de gestão. Walfrido Avila, presidente da Tradener, reclama da "burrocracia": somente as regras do mercado livre preenchem 1.400 páginas. "Se uma empresa quer comprar energia, ela tem que ser um 'agente'. Tem que ir a São Paulo, participar de assembleia", afirma.

São tantas sugestões que o Instituto Acende Brasil sintetizou 27 propostas para reequilibrar o setor. O resumo de distorções e soluções rendeu nada menos que 60 páginas e foi entregue em fevereiro aos principais pré-candidatos à presidência: Dilma, Eduardo Campos (PSB) e Aécio Neves (PSDB).

O presidente do Instituto Acende Brasil, Cláudio Sales, afirma que as recomendações estão distribuídas em três conjuntos, basicamente: adequação da oferta e do planejamento (tratando da organização dos leilões de energia e licenciamento ambiental, por exemplo), modicidade tarifária (tratando da tributação e problemas específicos) e da credibilidade e confiança, justamente o mais atingido pela mudança pouco discutida pelo Planalto.


Rede elétrica 2.0

Mistura de tecnologias vai mudar a gestão da eletricidade, como ocorreu com a internet

A junção das diferentes tecnologias na área energética e computação vai mudar nossas empresas e casas. Teremos não apenas formas high tech de economizar energia, mas uma produção doméstica de eletricidade para compartilhar e até guardar para mais tarde, uma reserva para o horário mais caro da rede. As redes inteligentes, ou smart grid, parecem algo complicado, mas será uma mudança tão natural quanto o gerenciamento que fazemos hoje de fotos e vídeos em celulares e computadores, pela internet ou não.

De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), até 2022 será possível ganhar em conservação de energia 5,8% da produção do sistema nacional. Hoje 17% do que sai das usinas se perde no caminho até os medidores.

Os problemas na demora de ampliar a oferta e o contexto de preços crescentes da energia exige soluções criativas. O polo automotivo de mais de R$ 7 bilhões da Fiat Chrysler, em Goiana, mesclará soluções, informa a companhia. “A planta está prevista para iniciar com o máximo de eficiência energética. Os compressores de ar instalados nas áreas produtivas, por exemplo, têm uma lógica de alto rendimento e só entram em operação somente se for necessário por uma questão de demanda. Se não for necessário, eles ficam em stand by e não haverá consumo de energia”, responde, procurada pela reportagem.

  • EXPERIMENTAL Milan Jovanovic, da Delta Power, mostra protótipo rudimentar de carregador sem fio para carros elétricos – Giovanni Sandes/ Especial para o JC

  • ROTINA Rogelio Sullivan pesquisa impacto das redes inteligentes, smart grid, na rede elétrica e até em nossas casas – Giovanni Sandes/ Especial para o JC

  • CONCEITO Thiago estuda, na UFPE, como redes inteligentes vão multiplicar nossa relação doméstica entre tecnologia da informação e energia - Heudes Régis/ JC Imagem

  • FUTURO Para Ismar Kaufmann, setor elétrico do Brasil ainda está na “adolescência” da pesquisa e desenvolvimento - Heudes Régis/ JC Imagem

Nas gigantes, trata-se de um tema já bem conhecido. O desafio é criar a mesma cultura em pequenos negócios, comenta Tatiana Lauria, especialista em Competitividade Industrial e Investimentos do Sistema Firjan. “A grande indústria já faz eficiência energética. Mas a pequena e a média indústria precisam de incentivos para entender que isso traz benefícios”, afirma Tatiana.

É por isso que no Brasil as tecnologias ou são para grandes empresas, ou para companhias do setor elétrico. Novas tecnologias de informática, produção e armazenamento de eletricidade vão auxiliar no monitoramento remoto de áreas, permitindo que regiões estratégicas sejam preservadas de apagões e mesmo fazendo religações à distância. Essa aplicação estritamente no setor elétrico vai melhorar a qualidade da rede.

A pernambucana In Forma surgiu em 2003 com um projeto de uso de mensagens SMS para a comunicação entre equipes de campo, na fiscalização de redes elétricas. A empresa lidera a área de software no setor, no Brasil. Só nas companhias de transmissão ela detém 50% do mercado, sem contar as distribuidoras. Ismar Kaufman, sócio e diretor da In Forma, diz que o investimento em pesquisa e desenvolvimento só este ano será de R$ 2 milhões, um mercado que se expandiu porque a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) criou regras que obrigam as concessionárias a manterem um orçamento para os avanços. Aos poucos, a cultura de pesquisa mudou. As empresas passaram a selecionar mais os projetos, em vez de só cumprirem cotas.

No exterior, o foco já é a eficiência energética para os pequenos. A gestão do próprio usuário final é no que trabalha Rogelio Sullivan, diretor administrativo do Centro de Transmissão e Gestão de Energias Renováveis (Freedm), em Raleigh, na Carolina do Norte. O campus testa seu próprio smart grid, misturando bateria para guardar energia e placas fotovoltaicas para gerar eletricidade, além de pesquisar, por exemplo, novos materiais para o armazenamento. No futuro, acredita Rogelio, as inovações vão misturar as redes inteligentes para aumentar a eficiência em residências e empresas e até no setor de transportes.

“Hoje o foco dos fabricantes é reduzir o custo da bateria dos veículos. Uma bateria custa metade do preço de um carro elétrico atualmente”, comenta Sullivan. É por isso que a maior parte da indústria mantém o foco atualmente em híbridos como o Chevy Volt e o Toyota Prius. Milan Jovanovic, vice-presidente sênior de P&D da Delta Power Eletronics, mostra um protótipo rudimentar de um carregador sem fio para automóveis e diz que até mesmo essa tecnologia inovadora é uma tendência de pesquisa superada: outros laboratórios já estudam como abastecer carros elétricos em movimento.

Essa grande diferença entre o avanço dos estudos no exterior o estágio muito inicial do smart grid no Brasil é o que desanima Thiago Uchôa, 26 anos. Ele estuda as redes inteligentes em seu mestrado em Ciências da Computação, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A empolgação vem quando ele fala sobre os avanços possíveis na área, como a possibilidade de misturar a internet das coisas e redes elétricas inteligentes para trazer a gestão da energia para dentro de casa, por exemplo com uma máquina de lavar que ligue sozinha no horário mais barato. Mas o desânimo bate quando ele pensa no desinteresse do governo em padronizar as redes inteligentes, a base para construir a tecnologia no Brasil, e até da própria universidade, que não integra dos diferentes departamentos. “Os eletrônicos vão ser muito mais conectados”, explica Thiago. “O consumidor vai saber realmente o quanto gasta de energia e em que horários. E vai ser muito mais fácil e natural economizar”, afirma.