“Se quiser saber sobre sua mãe, saia de casa.”

Foi ao hospital no qual nasceu, a programas de rádio, procurou parentes. Questionou, algumas vezes, o pai, que sempre ameaçava mandá-la embora. Nunca conseguiu entender porque, há mais de 40 anos, a mãe partiu sem deixar qualquer vestígio. O dia em que ela foi embora ficou registrado na fotografia na qual duas das três filhas olham, tristes, donas da maior solidão do mundo, ela se afastar. Nilza, Teo ainda procura por você.

Não tem certeza, mas acha que foi o pai o autor do registro. Naquele mesmo dia, ele também apresentou uma nova mãe para as meninas - Foto Ricardo Labastier/JC Imagem

Nilza tinha 24 anos, usava um vestido rodado, estampado, além de sapatos brancos, no dia em que viu suas três filhas pela última vez. A menor, ainda bebê, estava dormindo. As maiores, Teogilza e Telma, cinco e três anos, olhavam para ela sem entender o que estava acontecendo. Por que a mãe chorava tanto? Por que dizia que voltaria para buscá-las? E o pai, Teógenes, por que observava toda cena ali parado, calado? Antes de partir(se), Nilza apresentou outra moça às meninas. Se chamava Maria Hermínia. “De hoje em diante, ela será a mãe de vocês.”

Teo, a filha mais velha, soube depois que foi seu pai quem obrigou Nilza a cumprir aquele doloroso ritual de despedida e a devastadora transferência de seu papel materno. Assim, ele também presenteou a menina com uma inominável e surreal realidade: lembrar-se para sempre das lágrimas da mãe, mas nunca de seu rosto. Na casa existente em 1960, ficava atrás do Hospital da Aeronáutica, em Piedade, todas as fotografias nas quais Nilza surgia desapareceram.

Ao tentar destruir a memória da esposa – porque não bastava afastá-la das meninas –, Teógenes na verdade a amplificou e transformou Nilza em mais que uma mulher de carne e osso: desde aquele dia, ela se tornou um mito. É ela que, mesmo sem aparecer, ocupa toda a fotografia na qual estão as duas primeiras filhas, ambas usando sapatinhos pretos e vestidos claros. Lassie, o cachorro que recebeu o nome do cão famoso do cinema, também está lá. Era uma das presenças suaves naquela casa de enorme controle e tensão. A expressão imensamente triste da filha mais velha nos dá a dimensão do que acontecia ali, naquele momento de separação. Ela não tem certeza, mas acha que foi o próprio pai quem as fotografou. Como suportou o olhar profundamente melancólico daquela menina o mirando através da lente?

Como não havia outra coisa a fazer senão obedecer, Maria se tornou a mãe. As meninas, as filhas. Todas foram proibidas de perguntar sobre aquela moça de vestido rodado, a que partiu(se). Assim, além de mito, ela se tornou fantasma. Quando qualquer menção a respeito dela surgia, Teógenes falava: “sua mãe morreu e, mesmo se ela estivesse viva, lembrem-se que foi ela quem as abandonou”. A foto que traz o registro da tristeza de Teo e o rosto inocente e espantado de Telma permaneceu escondida durante décadas com a filha mais velha. Aquela imagem é a única âncora material que a manteve perto da mãe, do mito, do fantasma. Sempre repetiam: “você é a cara dela”.

Das garotas, foi a que teve mais contato, a que teve mais sorte, de se aproximar da mãe. Ficavam juntas na rede. Conversavam, brincavam. Passeavam. Se pudessem. Às vezes Teógenes trancava a mulher e as meninas em casa. Teo lembra uma vez. Estavam arrumadas, prontas para sair, quando Nilza observou o cadeado. Não tinha a chave. “Seu pai trancou a gente, filha.” A casa seguiu repleta de regras também para Maria. Ali, ela só existia dentro do regime dele. Por exemplo: tinha que aceitar ver as meninas ficarem de castigo ajoelhadas no milho. Por exemplo: tinha que aceitar outra mulher ir buscá-lo, em casa, com frequência. Era sua amante. Por exemplo: teve que aceitar que Teógenes a informasse, como quem atira: “eu não a amo mais. Só a respeito” . Teo percebeu o sofrimento de Maria, juntou com o seu e o de suas irmãs e teve uma ideia: ir embora dali. Chamou a mãe que a assumiu para ir embora. Mas ela não aceitou. Maria ficou com Teógenes até morrer, dez anos depois, no início dos anos 70.

Teo fez o convite, mas a verdade é que não saberia fugir. A experiência mais próxima do mundo lá fora foram as idas até o centro da cidade, aos quatro anos, ao lado da mãe biológica. Iam de ônibus. Ficavam paradas em frente a um prédio no qual funcionava a TV Jornal, nele havia um programa de televisão. Quando acabava, saía mais gente do edifício, entre eles um rapaz de jaqueta preta. Ele atravessava a rua e chegava perto de uma lambreta vermelha. Sua mãe ia até ele e ali os dois começavam a conversar, baixinho. Ela cochichava algo no ouvido dele, que respondia: “eu não posso fazer nada por você e por suas filhas” . Às vezes o rapaz, os modos com ecos de James Dean, passava a mão na cabeça da garota. “Não fique assim, galeguinha.” Passavam 20, 30 minutos ali. Teo não se lembra de muitos detalhes, mas se recorda de um pipoqueiro na frente do prédio. E dos modos aflitos da mãe.

A filha mais velha – como você e eu – já pensou em várias explicações para aqueles encontros, aquela conversa em tom baixo, o tom desencorajador dele e a ansiedade dela. Sua mãe estaria apaixonada? Sua mãe queria fugir? Sua mãe estava pedindo ajuda, contando sobre a vida que levava, na qual cabia um cadeado a impedindo de abrir a porta? Estava falando sobre a violência da qual ela e as meninas eram vítimas? Algum tempo depois, no dia em que foi embora usando seus sapatos brancos, ela, chorando muito e abraçando as garotas, repetia: “não posso levar vocês” . Era isso o que aquele rosto imensamente triste de Teo, visto através da lente, olhando para o pai, olhando para nós, havia acabado de ouvir.

“Se você quiser saber de sua mãe, saia de casa.” Ignorou várias vezes a ameaça e, com a foto escondida, passou a perguntar por ela. Foi até a tia, irmã do seu pai. Devia saber alguma coisa. Negou-se a dar qualquer informação: tinha medo do irmão. Teo procurou uma senhora que lavava roupa para sua avó. Ela disse que não podia contar nada: tinha medo de sua tia. Não havia ninguém da família da mãe que ela conhecesse, qualquer amiga. Restava a esperança de que um dia ela voltasse para a casa. Teógenes, no entanto, pensou nisso: mesmo tendo moradia garantida por ser militar, ele passou a mudar de lar anualmente, de maneira a não ser encontrado.

Também era hábil em afastar as pessoas. Quando Telma, a filha do meio, fez 16 anos, ele a expulsou de casa. Ao crescer, ela havia deixado de atender ao rígido e intransigente comando do pai. Começou a namorar, fumava, fugia para ir a festas. Tinha estabelecido para si uma separação dele – e da mãe que há muito se afastara. “Se ela quisesse, encontrava a gente”, dizia para Teo, que àquela altura havia visto partir (se) a mãe, Maria, e, finalmente, a irmã.

No hospital no qual nasceu, conseguiu um documento. Lá estão os nomes dos pais, seguidos pelas datas de nascimento. Faz os cálculos e diz: “sei que ela está idosa, mas pode sim estar viva. Quem sabe essa matéria no jornal não ajuda ela a me encontrar?”

Assim, ficou sem Nilza, sem Maria Hermínia e sem Telma. Assim, partiu-se várias vezes. Como a boneca grande, de porcelana, que tinha seu tamanho aos quatro anos. Depois de brincar com o presente no sofá, colocou alguns travesseiros sobre o brinquedo. Alguém sentou em cima e o rosto espatifou-se. A menina chorou muito, tanto que exasperou a mãe, naquele momento ela ainda morava ali. Irritada, sacudiu a filha. “Pare de chorar! Já basta aguentar o seu pai!” Do rosto, Teo não lembra, mas essa frase ficou na memória. Tenta achar Nilza: foi a programas de rádio, redes sociais, hospital, cartórios. As décadas se passaram e ela sempre perguntando. Não tem nenhuma pista. Quando o pai estava muito doente, teve coragem e perguntou. “Ela morreu mesmo? Ou morreu apenas para você?” Ele continuou sem responder e foi assim que morreu. Deixou a filha, que ficou no vácuo, olhando para a única foto na qual sua mãe, sem estar lá, aparece.

(...)

Teo ainda não percebeu, mas essa foto é antes de tudo um espelho. Ele traz a imagem da menina, agora mulher, triste e na expectativa de alguma notícia. Ele também reflete, no papel em preto e branco, o rosto esquecido de Nilza. Ali, é a mãe das meninas que nos observa, triste, no momento de partir(se).

Esperança é algo que leva consigo, esperança é quase o nome que deu à relação estabelecida com a mãe cujo rosto a filha não lembra - Foto Ricardo Labastier/JC Imagem