Adeus, menina. Bem-vinda, querida Simone

Desde muito pequena aprendeu a gritar bem alto. Foi assim no dia em que a mãe tentou vendê-la na feira livre de Bom Conselho, foi assim dez anos depois, quando a mesma mãe a ofereceu em um bar. Foi com o amor só aparentemente seco de uma tia e uma avó que ela aprendeu: era mais do que um substantivo, era alguém que merecia abraço e festa

A imagem escolhida está deteriorada pelo tempo. Mas permanecerá nítida, emocionante e colorida para sempre - Foto Igo Bione/JC Imagem

Era dia de feira em Bom Conselho, agreste pernambucano. João e Otacília saíram do sítio, ele carregando o milho e feijão que plantava, ela segurando a mão da filha. Chegando lá, ele depositou os produtos no chão e ficou à espera dos compradores. Otacília entrou com A Menina (era assim que ela a chamava) em uma casa laranja, cujas portas estavam sempre abertas. “Quanto é?”, perguntou um homem que se aproximou das duas. Otacília começou a conversar com ele e só aí a Menina entendeu: quem estava à venda, além do milho e do feijão, era ela.

Agarrou-se às pernas da mãe e começou a gritar. A confusão chamou atenção e afastou o interessado em levar a garota como quem leva um cabrito. Otacília ficou irritada com a situação e passou a bater na filha. Voltaram para a casa. Ali não havia vizinhos próximos, assim o espetáculo quase diário de violência entre pai e mãe era assistido apenas pelas crianças: Simone (A Menina), Dinho (o mais velho) e Marcos (o mais novo).

É difícil escrever – e principalmente descrever – o que acontecia naquele lar. Por isso, é melhor recorrer ao quase conforto da síntese:

- Um dia Otacília segurou o gato das crianças pelas patas e o lançou a uma pedra enorme. Matou o animal, arrancou o couro e o cozinhou. Bateu na filha porque ela não quis comer.

- Outro dia tentou que A Menina a ajudasse a jogar água fervida no pai. Ela gritou para acordá-lo e foi difícil: estava muito bêbado. A mãe também.

- Mais um dia: o pai tentava colocar a cabeça da mãe sobre as chamas do fogão a lenha.

- E outro: o pai tentou incendiar a casa, iniciando uma briga enorme. Os filhos correram para tentar parar. João segurou um pedaço de madeira para bater em Otacília. Terminou acertando a cabeça da Menina que ele só chamava de Lôra. Aí ficou tudo preto e ela se não lembra de mais nada. Quer dizer, lembra quando acordou. Estava com a mesma roupa, um vestido branco com alguns bordados, a gola dura de tanto sangue. Algumas velas a cercavam e, disso lembra bem, os pais a olhavam. Estavam singularmente sóbrios. Passaram tempos sem brigar depois daquele episódio. Até pareciam uma família normal.

Foi com Olívia, que não sabia ler, ver Inferno na Torre no Veneza. “Preste atenção para depois contar o filme pra mim”

Só depois Simone soube que a quietude tinha um porquê: medo. A sua quase morte poderia render a prisão do pai. Por isso ela passou três dias desacordada sem que ninguém a levasse ao hospital. Trataram o ferimento na cabeça com pó de caramujo queimado. Carrega a cicatriz até hoje.

A avó Olindina e a tia Olívia moravam na capital. Às vezes a família saía de Bom Conselho e ia para lá. Na última vez, colocaram Simone para dormir. Quando ela acordou, a mãe não estava por perto. Procurou e a viu saindo pelo portão. Gritou (gritar era algo que tinha aprendido bem naqueles cinco anos de vida) e chamou por ela, que não olhou para trás. Entendeu: dali por diante, eram aquelas duas mulheres as suas mães. O cotidiano era completamente diferente daquele vivenciado no sítio: escola, vacinas, tratamento para retirada de piolhos (eram muitos), costureira, missas. Tudo isso substituía carinho, beijo e abraços, também parcos naquela nova casa. “Eu era um bicho do mato e sei que dei trabalho para ser educada.” Exigiam notas excelentes. Ela conseguia. Tinha vestidos muito bonitos, cada um acompanhado por seu devido laço de fita e um sapato.

Quando fez oito anos, viveu o dia mais especial naquele novo mundo e um dos mais especiais da vida que vive até hoje: ganhou uma festa de Primeira Comunhão. Uma festa só para ela. Só para ela. Estavam lá a prima Maria, Tio Zezo, Dona Amélia, a vizinha de nome singular: Argentina. Dona Lúcia fez o bolo e os enfeites. Simone foi para a igreja de carro – e andar de carro foi durante muito tempo a coisa mais distintiva que lhe aconteceu. “Minha avó estava tão feliz. Nunca esqueci o rosto dela naquela noite.” Abraçaram-se as três neste dia, depois da missa na Igreja de São Lucas. “Você está feliz, Simone?”, perguntou a tia. “Muito.” “De que tamanho é a sua felicidade?” “É do começo da rua até eu correr, correr, correr e ir atéééééé o fim. É desse tamanho.”

(***)

Tinha dez anos quando alguém a chamou na porta. “Simone?” “Sim, sou eu.” “Sou sua mãe. Abre. Vim visitar sua avó.” Olindina estava internada no Hospital Dom Pedro II, região central do Recife. Foram as duas, mãe e filha, para lá. No meio do caminho, na Rua Sete de Setembro, Otacília parou em um bar. Começou a beber e de repente chamou. “Ei, Menina.” Queria que ela sentasse no colo de um dos homens que a acompanhavam na aguardente. Um até pegou o braço da garota, que saiu rapidamente do local. Conhecia relativamente bem a área: a tia costumava ensinar pontos importantes do centro, prédios que serviam de referência. Sabia como chegar até Olívia.

A mãe passou a segui-la, mas, embriagada, não conseguia acompanhar o ritmo. Quando Simone chegou ao hospital, encontrou a tia, que trabalhava ali. Agarrou-se a ela e começou a chorar. “Mãe, mãe.” A tia não entendeu nada até ver, de longe, a irmã. Deixou a menina de lado e foi até ela. Simone ouviu a tapa.

Olindina morreu tempos depois. Estava sozinha com a neta quando caiu e não levantou. Simone saiu correndo pedindo ajuda. Os vizinhos chegaram e pela expressão de todos percebeu logo que não iria mais passear pelo bairro com a avó. Dali por diante, a casa ficou quase vazia. Olívia passava o dia todo fora, trabalhando e só chegava à noite. Simone ia continuando seu exuberante curso sobre também cuidar de si mesma. Às vezes ela e a tia saíam, se divertiam. Foram juntas ao cine Veneza, no centro, ver Inferno da Torre, em 1974. Olívia não sabia ler, então avisou: “preste bem atenção para depois você me contar tudo o que aconteceu.” Voltaram para casa de ônibus, com a sobrinha reproduzindo Hollywood em língua local.

Casou aos 18 e passou um tempo morando em Garanhuns. Um dia o pai apareceu em sua casa. Estava tentando se recuperar do alcoolismo. Ela cuidou dele durante alguns meses, até o momento em que Dinho, o irmão mais velho, também apareceu por lá. Simone foi trabalhar e, na volta, encontrou os dois bêbados em sua casa, outras pessoas os acompanhavam. A cena trouxe a sua antiga casa de paredes e chão de barro, um umbuzeiro no quintal, de volta. Colocou ambos na rua. Não podia aceitar, nunca mais, ser a Menina, a Lôra. Também viu a mãe mais uma vez, ainda era adolescente. Ela estava morando com outro homem. Foi um encontro sem emoção, ou melhor, sem uma boa emoção. “Saí de lá dizendo ‘aparece um dia.’” Sabia que ela estava viva até o ano 2000, quando um conhecido via seu nome entre os beneficiários da Previdência. Depois, o nome sumiu do sistema. Assim foi a morte de Otacília para a Menina. O pai, diabético, estava morando em Caetés. Havia amputado uma perna e vivia nos fundos da casa de conhecidos. Um dia, ligaram para Simone para avisar que ele havia falecido e já estava enterrado. “Chorei tanto quando ele morreu. Me dava algum carinho, me chamando... 'Lôra, ô Lôra..'”

Dona Lúcia fez o bolo e os enfeites, os vizinhos chegaram, bateram parabéns, mesmo sendo dia da primeira comunhão. Era inacreditável que aquela festa estivesse acontecendo só para ela. Quando voltou da igreja de São Lucas, a avó e a tia a abraçaram. “De que tamanho é a sua felicidade?” perguntou a segunda. “É do começo dessa rua até correr, correr, correr atééééééééé o fim.”

Simone tem hoje 49 anos, um filho e uma filha. Dia desses, ele estava com febre e ela deu remédio, depois foi buscar um cobertor. Quando ia se afastando, ele disse: “você deveria ser eterna.”

Agora, é ela quem cuida da tia-mãe Olívia, 89 anos, os últimos deles com Alzheimer.

A história de Simone nos revolta e por fim nos ilumina.

A foto na qual a vemos cortando o bolo, no dia da Primeira Comunhão, no dia da felicidade no tamanho de uma grande rua, está manchada pelo tempo, as cores esmaecidas. Mas ela é fresca, viva, colorida, para sempre.

É uma felicidade conversar com ela, que possui algo especial, próprio daqueles que são constituídos de ferro e flor - Foto Igo Bione/JC Imagem