Ele fugiu para casar com ela

Estava saindo do cinema São Luiz quando a viu pela primeira vez. Sete anos depois, quando preparava-se para trocar as alianças com ela, descobriu que um decreto impedia a união. Corria o risco de ser preso, mas foi em frente

O registro que marcou Paulo traz ele, no dia da sua formatura, segurando a mão da esposa que precisou deixar dois dias após o casamento - Foto Ricardo Labastier/JC Imagem

No início de 1976, enquanto os nomes de presos políticos como Umberto Trigueiro (vulgo Daniel ou Mazine), Nielse Fernandes (vulgo Ivan) e Iná Medeiros (vulgo Lúcia) repousavam nos arquivos do Centro de Informações da Marinha (Cenimar), que abastecia o governo militar a respeito de atividades consideradas ilegais, o estudante Paulo Paiva marcava a data de seu casamento. Em setembro, se tornaria o marido de Solânea, a moça de olhos claros que ele conheceu na saída do cinema São Luiz. Paulo também havia se candidatado a uma das 15 vagas para ingressar no Corpo de Saúde da Marinha, no Rio de Janeiro. Não tinha muita certeza de que passaria: era um concurso nacional e concorridíssimo. Em junho, soube que ficara em 12º lugar. Assim, enquanto 1976 ia seguindo como um inferno em terra para aqueles que discordavam do governo militar (como o operário Manuel Fiel Filho, morto em janeiro nas celas do DOI-CODI do II Exército, em São Paulo), Paulo comemorava aqueles meses como os mais importantes de sua vida amorosa e profissional. Em julho viajou para o Rio e iniciou o curso. Tudo, enfim, estava dando certo.

Quando ia embarcar às escondidas para o Recife, ouviu a voz do superior para o qual havia mentido

O problema era que entre o agora guarda-marinha (o equivalente a aspirante no Exército e Aeronáutica) e o casamento com a moça de olhos claros havia o Decreto-Lei n.º 3.864, publicado no dia 24 de novembro de 1941. Paulo tomou conhecimento dele no dia em que foi comunicar a administração que precisaria se ausentar para casar. Faltava pouco tempo para a cerimônia. Foi informado então sobre o artigo 114 do tal decreto: “Não podem casar os aspirantes do Exército e da Aeronáutica, os guardas marinha e os alunos das Escolas de Formação de Oficiais das Forças Armadas ativas”.

Foi um baque. Estava tudo certo: padre, vestido, madrinha, padrinho. O casamento aconteceria na sexta-feira, em exatamente uma semana. Ele viajaria na quinta e voltaria para o Rio no domingo – Solânea só iria ao seu encontro dois meses depois, quando também terminasse a faculdade. Ela ficaria profundamente magoada se aquela cerimônia fosse cancelada. Enquanto Paulo tentava achar uma solução para seu problema, 1976 ia misturando King Kong, Taxi Driver e Mazzaropi no cinema; o País tentava esquecer a morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek, ocorrida em 22 de agosto; na TV e nas rádios fazia sucesso o enredo e a trilha da novela Anjo Mau. Em São Paulo, Pedro Pomar e Ângelo Arroyo, este um dos comandantes da guerrilha do Araguaia, combinavam com João Batista Drummond a próxima reunião em uma casa na Rua Pio XI, n.º 767, do bairro da Lapa, São Paulo. Aconteceria em 16 de dezembro. Aconteceria, mas a Polícia Militar invadiu a casa e matou ali mesmo tanto Pedro quanto Ângelo. Drummond morreria torturado no dia seguinte. Todos faziam parte do núcleo duro do Partido Comunista do Brasil.

No Rio de Janeiro, Paulo procurava achar a melhor forma para resolver o impasse. Não podia abrir mão do curso que já estava perto de finalizar, e, menos ainda, do casamento. Esperava por Solânea há sete anos, desde o dia em que decidiu seguir a jovem após uma sessão de cinema. Ela tinha somente 16 anos. Escreveu sobre o encontro em um livro: “Os cabelos longos, lisos e claros cobriam-lhe o rosto. Ao mover a cabeça, eles balançaram tal qual uma onda antes de se quebrar na arrebentação. Então ela sorriu e iluminou a calçada”. Era o final de 1968, quando o poder, ao menos o simbólico, era todo da juventude e da modernidade. Se apaixonar à primeira vista não combinava com a minissaia, a pílula e o sexo livre. Mas foi o que aconteceu com Paulo. Pegou o mesmo ônibus para descobrir onde ela morava. Deu sorte: o Várzea ia em direção ao Cordeiro, onde ele morava, e, para sua surpresa, ela também. Desceu algumas paradas depois. Só se viram novamente cinco meses depois, em uma festa. Chegou perto e pouco tempo depois ela anunciou: “para namorar comigo, tem que ser em casa”.

Agora, estava entre a cruz (o casamento) e a espada (o quartel). Se fosse pego burlando o decreto, seria preso. Se cancelasse o casamento, magoaria o seu amor. Resolveu mentir. Contou com a ajuda de um amigo: esse diria ao instrutor que Paulo havia batido o carro e por isso não estava no local da prova. Assim, faria o teste na segunda-feira. O noivo seguiu para o aeroporto do Galeão, onde pegaria o voo para Recife. No aeroporto, que estava em reforma, o embarque e o desembarque aconteciam no mesmo local. No momento em que Paulo fazia o check-in, ouviu uma voz familiar: era justamente o instrutor de seu curso que, perto dele, conversava animadamente com uma moça. As orelhas arderam, ficou desnorteado. Se descoberto, não havia prova nem casamento. Achou que tinha colocado tudo a perder, mas, percebendo que não havia sido reconhecido, decidiu ir para um extremo no saguão, onde passou quase uma hora se escondendo. Finalmente seu voo foi chamado. No outro dia, 24 de setembro, casava com Solânea em uma igrejinha no Poço da Panela. Ela flutuava em um vestido plissado na barra, com uma capa, a gola e os punhos tinham pedras e brocados. Eram os únicos enfeites do traje limpo feito por Guilherme Caldas, estilista amigo da família.

Naquela igreja, nem mesmo a noiva sabia que Paulo havia fugido para casar.

Ele voltou para o Rio de Janeiro no domingo à noite, enquanto Solânea seguiu para casa. Notou-se a perplexidade – e o fuxico – dos vizinhos. Como assim a moça casa e volta para o lar dos pais? Só voltaram a se ver dois meses depois, quando ela concluiu o curso na faculdade. Ele foi buscá-la na rodoviária: agora, recebia não mais a sua namorada, e sim sua mulher. À tarde, estavam juntos na cerimônia da formatura de Paulo. Solânea vestia um vestido azul claro e sapatos azul-marinho que achava bonitos, mas eram extremamente apertados. Paulo, com o uniforme, não escondia o orgulho de ter recebido as platinas de oficial e, com ele, de posar ao lado da moça pela qual se apaixonou à primeira vista. Trinta e sete anos depois, se emociona quando olha a imagem.

No dia em que escreveu sua história para o jornal, se emocionou. No fim da carta, prometeu: “Hoje, à tardinha, vou levá-la de surpresa até à praia. Lá, renovarei o pedido que fiz há muito tempo.”

Enquando Solânea vê as fotos do casamento com maior carinho, ele elege a imagem da formatura como aquela que sintetiza a união de décadas - Foto Ricardo Labastier/JC Imagem