Atrás da névoa, era vovô

Cresceu carregando uma imagem pouco afável dele, o homem duro e imperativo que, há anos, cultivava certa mágoa da filha que foi embora. Essa filha era a mãe da criança que ia, todo mês de janeiro, até Tacaratu, no Sertão, visitar os avós. Um dia ele chamou a neta para mais perto e tocou seu rosto. Foi com as mãos dele cobrindo seus olhos que ela o enxergou de verdade pela primeira vez

Vários anos antes do dia em que encontrou as lágrimas do quase cego senhor, ela sentaria em seu colo. A mãe os fotografou - Foto Igo Bione/JC Imagem

“Vem cá, menina!”

Ajudava a mãe a preparar o jantar, estavam protegidas pelas paredes amarelas da casa do avô. Tacaratu, Sertão de Pernambuco. Ele lá na cadeira de balanço que se tornou um dos seus símbolos. Via a novena sentado ali, todos os dias, pela televisão preto e branca. Menos na quinta-feira. Era o único momento em que as netas podiam assistir à novela das sete. “Por que o senhor não vê a novena na quinta, vô?” “Porque o padre é preto.”

“Vem cá, menina!”

Descobriu que ele não via a novena na tv às quintas porque o padre era negro

Chamou novamente. Para ir até lá, teria que sair de perto da mãe, a moça que, mais de uma década antes, juntou dinheiro costurando roupa e saiu de casa. O pai nunca se conformou. Mulher, filha dele, saindo, indo para longe. Era absurdo. Instaurou-se mágoa que só começou a ser dissipada quando ela voltou e já era mãe também. Passou a ir todo janeiro para lá, uns 10, 15 dias, aproveitava as férias escolares das meninas e ainda via a festa e as rezas para Nossa Senhora da Saúde, a padroeira. Levava as duas filhas e só às vezes o marido acompanhava. Justamente porque o avô, o dono da cadeira de balanço, não conseguia superar a filha arrumando outra família. Em uma dessas visitas ao sertão, a avó morreu. Mandaram a menina e a irmã menor ficarem no quarto enquanto o corpo era velado na sala. Desobedeceram. Foram até lá na ponta dos pés e viram, da porta, a mãe abraçada ao caixão, o rosto da vó emoldurado por flores. Ficaram com medo e saíram correndo de volta.

“Vem cá, deixa eu te ver!”

Foi se aproximando dele. Tinha medo da voz imperativa, das coisas que sabia, das coisas que ele dizia. Como alguém tão bom podia agir às vezes de maneira tão dura? Manoel, o avô, começou a tatear o corpo da neta. Tocou os braços e foi subindo para o rosto. Estava sentado ali há algum tempo, apenas ouvindo. Recuperava-se de uma cirurgia nos olhos, medida para evitar o já inevitável: era um homem quase cego. Nadiana viu o rosto do avô através dos dedos dele, que cobriam toda sua face. Enxergou suas lágrimas e chorou também. Naquela névoa, desaparecia para a garota o homem temível que fizera sua mãe sofrer.

Ele morreu alguns anos depois e a casa de paredes amarelas transformou-se em um bar. Não voltaram mais lá.

Poucas vezes Nadiana, agora tem 30 anos, sentiu-se tão amada.

A casa amarela dos avós ainda é casa, mas também é bar. Nadiana nunca voltou ali. Distante, Tacaratu está fresca na memória - Foto Igo Bione/JC Imagem