O menino que fez a mãe flutuar

Morava em um lar magro, ossudo, mantido pelo esforço de Maria, que limpava mato e lavava pratos para criar os filhos. Quando ela trabalhou em uma casa na qual a comida e os brinquedos eram abundantes, José quis entrar. Mas ficou lá fora, sozinho, separado por um muro que ia até o céu

A carteira de estudante traz o rosto entristecido do garoto, que, às escondidas, levava o leite da merenda para alimentar o irmão mais novo - Foto Igo Bione/JC Imagem

Eram três irmãos: um maior e que se julgava grande demais para brincar com José, outro menor que José julgava pequeno demais para brincar com ele. Aí o menino do meio ficava ao redor da casa, criando um mundo sozinho. Tinha um pé de abacate no quintal. Ele pegava a fruta, enfiava uns palitos na casca e aí elas viravam animais. Construía uma fazendinha de abacates que na verdade eram bois e vacas e bezerros. Tinha 9 anos.

José morava em Carpina, Zona da Mata Norte pernambucana. Era segunda metade dos anos 1960 e ele convivia intimamente com a pobreza. A casa na Rua Nunes Machado, atrás de onde hoje está a Igreja Matriz, era decorada assim: uma cadeira de balanço para o pai, um sofá que a mãe tinha achado no lixo e colocado pés de tijolos, camas com colchões recheados de capim, um armário quase vazio, um pote de barro para guardar a água. Televisão e geladeira, naquele mundo modesto, eram ficção científica. O pai, ex-contínuo da Prefeitura do Recife, havia se aposentado. O dinheiro não dava para muita coisa, como percebemos em nosso passeio imaginário pela casa tão magra, tão ossuda. Aí Maria Josefa pegava a enxada e ia para rua tentar arrumar algum trabalho, limpar alguma roça, alguma granja. Quando não conseguia, tirava qualquer capim, conseguia dinheiro pouco e voltava pro lar.

Mandava os filhos para o Instituto Domingos Sávio, a escola-mãe que também ajudava a sobreviver. José até hoje se lembra dos copos de plástico azul usados para beber leite. Ficava atento ao sinal da merenda, batia às 9h da manhã. Ele corria bem rápido para ser o primeiro da fila. Pegava um copo, bem cheio, e ia até o muro. Subia pelo combogó e via sua mãe, que o esperava lá fora, segurando o filho menor no colo. O menino bebia o leite. Ás vezes, queria mais. José corria de volta para a fila. Só depois de saciar o irmão é que ia buscar encher o copo para ele mesmo.

Pegava um abacate e, com alguns palitos, transformava ele em boi, vaca, garrote

Uma época, a mãe, analfabeta, tinha seus 30 anos, arrumou emprego de doméstica na casa de uma família de classe média alta. A casa ficava a três quilômetros de onde morava. Lá viviam quatro pessoas, eram duas empregadas, uma delas Maria Josefa. Ela fazia o percurso a pé, ida e volta. Saía muito cedo, porque a família queria o café da manhã posto à mesa quando acordava. Saía muito tarde, porque a família queria o jantar posto à mesa antes de ir dormir. Só depois de lavar os pratos da última refeição diária é que ela era liberada. O pai aposentado ficava no lar ossudo cuidando dos garotos. Depois de voltar da escola, de comer e de brincar com sua fazenda de abacates que na verdade eram bois, vacas e bezerros, José começou a se dar conta de que a mãe estava passando muito tempo fora. Sentia falta dela. Assim, decidiu caminhar aqueles três quilômetros até a residência da família rica. O muro era alto, o portão de madeira também. Sentou à beira da calçada e ficou esperando a mãe sair.

Fez da visita, que era uma busca, um hábito. Dependendo da saudade, chegava muitas horas antes de Maria Josefa ser dispensada. Naquelas longas esperas, podia ouvir as duas crianças da família brincando, uma tinha seis anos, a outra, uns quatro. Riam, empurravam carrinho, corriam, gritavam. Faziam aquilo o que José, sentado lá fora, também gostaria muito de fazer. Mas o muro era alto e chegava até o céu. Conseguiu transpô-lo uma vez, somente uma, mas nada aconteceu como imaginava: com dor de dente, precisava ir ao médico. A mãe o acordou de madrugada e com ele seguiu até a casa dos patrões. Antes de cuidar do menino, precisava fazer o café, colocar o pão, os ovos, o queijo, o suco, as frutas, tudo aquilo que ela não tinha em casa, na mesa. Enquanto isso, José ficou esperando, no quarto de empregada. Novamente, podia ouvir os ruídos, os pratos, os talheres, a vida sem tanta dor que ele apenas podia imaginar.

Um dia, quando ele chegou da escola, soube que o irmão menor tinha seguido com a mãe para aquela casa encantada. A patroa havia perguntado se Maria tinha filhos para brincar com suas crianças e, ao saber que eram três, um de 5, outro de 9, o último de 13, escolheu o primeiro. José se esqueceu dos abacates e correu para o trabalho da mãe. Os três quilômetros foram curtos para a ansiedade: acreditava que, como o irmão, também poderia entrar e empurrar carrinho, correr, gritar, jogar bola e se esconder. Mas quando chegou lá, os portões fechados, o muro tão alto que chegava até o céu, só ouvia as risadas e correrias. Não podia entrar. Não teve coragem de chamar. Tentou olhar pela fechadura do portão, mas não era possível enxergar nada. Não havia outra saída a não ser sentar no meio-fio e esperar, como fazia todos os dias. José ficou ali e se contentou em escutar o irmão e os filhos da patroa brincarem a tarde toda, até se calarem. Era hora do banho. Depois, o jantar. Maria Josefa e o caçula saíram após as 19h, depois de limpar os pratos na pia. Quando viu o garoto sentado à frente da casa, reclamou, como fazia quase todas as vezes. Onde já se viu, criança na rua, naquele sereno. José mentiu, disse que tinha chegado há pouco tempo. Aconteceu há mais de 40 anos. “Foi um dos dias mais tristes da minha vida.” Ela o abraçou, como também era comum, e os três seguiram juntos para casa.

A mãe saiu daquele lar abastado – mas ele nunca saiu da cabeça do menino. Maria foi trabalhar em uma granja, onde também assegurava com seu trabalho duro o privilégio de poucos. Limpava, cuidava no quintal, fazia queijo e manteiga com o leite que tirava das vacas, matava dez galinhas para a família consumir lá mesmo e levar para a capital, onde morava. Na casa ossuda da empregada, o armário continuava vazio. Ela não se esquecia disso, e, como toda mãe que não dá conta de ver a fome espreitando suas crias, separava as vísceras das galinhas para alimentar as crianças. Pegava uma por uma e, com uma vareta longa extraída de uma folha de coqueiro, limpava o interior das tripas, lavava bem. Levava para casa (o patrão não reclamava, aquilo ele não comia), fritava e servia com cuscuz ou com farofa, botava sal e água quente na farinha para dar sabor. Enquanto isso, José, quando não estava na escola ou com sua fazendinha de abacates, ia ao cinema ver Bruce Lee. Nessa época, tinha cinema em Carpina. Sem dinheiro para as entradas, catava o lixo e pegava papelão, vidro, ferro. Vendia o apurado e comprava o bilhete.

José cresceu. Entrou na Marinha. Conheceu a África, foi para os Estados Unidos. Um dia, voltou para casa e parecia muito distante do menino que catava lixo para ir ao cinema, o menino que fazia fazendas com abacates e palitos, o menino que aguardava a mãe sair do trabalho durante horas enquanto ouvia as risadas das crianças que ela cuidava. Juntou dinheiro. Pegou Maria Josefa pela mão e a levou até uma loja de móveis. Voltaram para casa com geladeira, sofá, cama, colchão, estante, fogão, beliche para os irmãos que estavam bem e continuavam lá. Anos depois, fez concurso e virou oficial da Polícia Militar. Comprou uma chácara ali mesmo. Às vezes tem saudade daquela comida, da tripa com bolo de farinha. Pede para Maria Josefa, agora 75 anos, 13 netos e quatro bisnetos, fazer. Só contou sobre sua dor e as longas esperas em frente à casa de portão alto e muros que iam até o céu um dia desses, depois que mandou sua história para o jornal. “Mãe, aquilo me trouxe um sofrimento tão grande.” Maria Josefa sorriu. “E era, meu filho?” Ficou surpresa, nunca tinha reparado.

Tudo isso ficou pra trás, mas volta e meia ele é o menino que corria pela escola com o copo azul cheio de leite para alimentar o irmão. Esse menino, hoje pai de cinco filhos, fica no terraço do lar que ele construiu lá em Carpina, tem árvore, rede, terraço. A mãe sempre vai visitá-lo. De longe, ele olha para ela nadando na piscina de água morna e generosa, lembra-se de tudo o que aconteceu e sente-se feliz, como se estivessem voltando para casa, abraçados, após um dia de trabalho. É bom ver a mãe da gente flutuar.

Às vezes, vai para a cama de Babá, como chama a mãe. Deita no colo dela e volta a ter 9 anos - Foto Igo Bione/JC Imagem