A vida em um deserto de ausências

Jaqueline viveu em 21 anos um assombroso histórico de perdas: o pai assassinado, a mãe entregue ao crack, a tia que a criou morrendo de um ataque cardíaco. Aprendeu a usar os livros como escudo e meio de transporte para uma existência livre de areia movediça

O pequeno jardim da foto não existe mais. Mas Jaqueline diz que a criança de quatro anos, sua idade na época, está dentro dela - Foto Igo Bione/JC Imagem

(Pra que sonhar/A vida é tão desconhecida e mágica/Que dorme às vezes do teu lado/Calada)

A menina e a avó ficaram nuas. Depois se agacharam na frente da policial que fazia a revista. Não encontraram nada. Pediram para abrir a carta que a criança levava para o pai. Ficou triste: queria que ele fosse o primeiro a rasgar o envelope. Estava preso por tráfico de drogas e porte ilegal de arma. O nome da menina é Jaqueline e nessa época ela tinha seis anos. Ficava com ciúmes quando chegava até o pai (chamava-se Jamesson, foi assassinado em 2007) e já encontrava os quatro irmãos e irmãs mais velhos ao redor dele. Morava mais longe, com a avó, no Jordão Alto, Zona Sul da cidade, enquanto eles viviam no Coque, no Centro. Saiu do último bairro quando tinha nove meses de nascida. Acharam melhor tirá-la da casa na qual a mãe, Luiza, estava frequentemente drogada e sem condições de criar os filhos, principalmente um bebê. Eram os vizinhos que iam alimentando e amparando aqueles primeiros meses de vida. O pai, já vimos, estava no presídio.

(Pra que buscar o paraíso/Se até o poeta fecha o livro?)

A distância entre a casa dos avós e a casa dos pais não acontecia apenas no plano geográfico. Os níveis de pobreza e de afeto eram enormemente diferentes entre as duas, sendo a última uma espécie de deserto de ausências. Faltava conforto, dignidade, carinho, limpeza. Mas, depois que o pai foi solto, Jaqueline sentiu-se extremamente feliz em poder voltar para lá, ainda que por curtos períodos, e reencontrar os pais e os irmãos. Acontecia principalmente durante as férias. No começo, se assustou com a casa de madeira construída perto do rio. Dormia em um beliche destinado a quatro crianças, perto do buraco feito no chão, por onde a família urinava e defecava. Enquanto estava ali, via os caranguejos subindo pelas frestas das tábuas. Da cama, via os pais usando drogas, fazendo sexo. “Em um ambiente como aquele, quase nada era escondido.” Não havia água encanada: iam até uma escola pública buscar aquela usada para beber, tomar banho e cozinhar. A falta de estrutura, porém, não era nada frente aos ganhos valorizados por qualquer criança: ao lado dos irmãos e outras crianças, passava o dia na rua, descalça, ia a bingos com a sua avó materna, que geralmente voltava bêbada, tarde da noite. Nesses dias, também costumava dormir na casa de uma prostituta que desenvolveu extremo carinho pela menina. Jaqueline se lembra da mulher e do seu afeto, mas não do seu nome. Ela morreu assassinada.

Uma vizinha, prostituta, se afeiçoou da garota. Com ela se sentiu amada

Tantas histórias de um grande amor perdido/Terras perdidas, precipícios

Mas aí um dia um irmão, que morreria afogado anos mais tarde, pediu para brincar. Brincaram. Várias vezes. Em uma delas a garota percebeu que aquilo não era exatamente uma brincadeira. Quando demonstrou aversão, ele forçou. Jaqueline tinha dez anos e escreveu: “aquilo não machucou só meu corpo”. A mãe soube, mas não acreditou. Por conta das investidas sexuais do irmão – sofreria outra, de um homem, dentro de um ônibus – parou de ir ao Coque. O pai foi preso pela segunda vez. Jaqueline tinha 12 anos e um coração de 80. Nele, o amor pelos homens estava quase apagado. Sandra, a tia que a recebeu quando foi morar com os avós, era seu bálsamo. Era o contrário da desatenção dos pais. Era o antideserto de ausências. Foi ao lado dela que, aos 14 anos, começou a trabalhar. Vendiam galetos, passavam a noite preparando, o dia vendendo. Era pesado, e tinha que unir o cansaço de estudar durante a semana a trabalhar aos sábados e domingos. Mas era bom: estava ao lado da mulher que chamava de mãe, ganhava dinheiro e ia ao cinema. Quando essa felicidade começou a ser desenhada, soube: o pai foi assassinado. Na frente de sua mãe, na frente dos irmãos. Era o único homem em quem confiava. Nunca pensou nele como o homem preso que, liberto, ia morar em uma casa de parca dignidade, e sim como um herói que concederia a ela, um dia, um quarto reluzente e repleto de coisas queridas. Esse quarto nunca aconteceu. Na verdade, o quarto que Jaqueline possuía na casa da avó foi tomado por apenas uma pessoa querida: o próprio Jamesson, visto em dezenas de fotografias que a filha colou na parede. O cômodo-altar durou cinco anos, tempo em que ela começou a escrever, a beber e a fumar. Um dia, chegou em casa e os próprios avós haviam sumido com todas aquelas fotografias.

O amor, na prática, é sempre ao contrário

Conheceu um menino e gostou dele. Estava estudando no centro da cidade, continuava a trabalhar (telefonista), fazia curso para passar no vestibular. Tinha descoberto outro amor: o livro. Ia até a Biblioteca Pública do Estado e passava muito tempo ali. Era uma vida muito parecida com aquela que os outros tinham e que ela admirava, uma vida em que se podia respirar, rir, gostar. Mas aí veio uma tapa, depois outra, outra, mais outra. O pior era quando o namorado a agredia verbalmente. “Ele não sabia quanto eu era apegada às palavras.” Resolveu que seria mais confortável morrer. Tomou veneno. Começou a morrer no quarto que antes era o altar do pai morto. Enquanto o corpo tremia, seu avô a encontrou. Levaram a menina, na foto ela brinca no antigo jardim da casa na qual vive até hoje, para um hospital. Quando abriu os olhos, dias depois, viu Sandra sentada à sua frente. “Ela disse que não queria saber o que tinha me levado a fazer aquilo. Apenas que me amava e que queria que eu ficasse boa. Que estava ao meu lado.” Foram dois anos de depressão forte. Até que conheceu Luciana.

Pra que chorar/A vida é bela e cruel, despida/Tão desprevenida e exata/Que um dia acaba

Amar outra menina provocou um cisma dentro do lar dos avós, que, classicamente, perguntavam-se: onde haviam errado? A neta, agora com 19 anos, estava apaixonada e decidida a não esconder a relação – até que seu amor encontrou outro amor. A matemática comum das relações, nas quais somas e subtrações são constantes, era nova para Jaqueline, que se desmantelou. Em meio à perda, veio outra, mais devastadora: Sandra, com apenas 45 anos de idade, sofreu um ataque cardíaco e morreu, faz um ano. Está agora tatuada, ao lado de um trevo, perto do pulso da menina que criou. Foi essa morte que mudou tudo. Foi essa morte que serviu de trampolim. Foi essa morte que Jaqueline decidiu vingar. Faz isso escrevendo. Conseguiu um emprego em uma livraria grande, passa o dia entre paredões de livros, os livros-travesseiros, os livros-bálsamos, que usa para pular no sonho e na vida. No dia que Sandra morreu, devolveu a menina para ela mesma.

Jaqueline tem 21 anos, o coração da mesma idade. É também a mesma menina da foto que enviou.

Quando entra na biblioteca pública ali perto do Parque 13 de Maio, os funcionários a cumprimentam. Sabem que ali é sua segunda casa - Foto Igo Bione/JC Imagem