Dionísia e a prática do comunismo acidental

O burburinho dos agricultores que chegavam em caminhões na feira livre, as notícias trágicas que Lica Preta gritava no meio da rua, os livros e panfletos políticos que a avó paterna escondia pela casa. Foi assim que Graça, lá em Palmares, se aproximou do sangrento Golpe de 1964

A neta escolheu a foto da avó ainda jovem, tempos antes de ela costurar calções para os meninos esfarrapados que circulavam pelas ruas - Foto Igo Bione/JC Imagem

As coisas andavam estranhas na cidade de Palmares, e Graça, menina de olho claro e cabelo castanho, não conseguia entender a razão. A mãe a proibia de sair. O pai lia o jornal e ficava tenso. Na escola, as freiras assustadas avisavam: “se a campainha do recreio tocar na hora da aula, é porque os comunistas estão nos invadindo.

Tudo aquilo e ainda tinha a vó Dionísia chegando em casa com uns panfletos que ela catava nos balaios da feira. Também achava uns livros por lá, quase todos com as capas arrancadas. Ninguém sabia muito bem o que tinha escrito ali. Um deles era o Manifesto Comunista. Tinha uma biografia em papel cuchê. Era de Lenin. Um comunista.

Comunistas. De novo.

Ficava olhando a vó. Tinha olhos verdes brilhantes, cor de palha de cana quando bate o sol. Tinha também um tacho grande no qual fazia doce. Colocava em potinhos e distribuía para gente que conhecia, para gente que nunca tinha visto. No terraço com grade em X, tinha um banquinho. O senhor Cesário, o senhor Mirata e o que chamavam de Rambudo (era o mesmo que “esfarrapado”) ficavam sentados lá. Eram muito pobres. Dionísia trazia a comida. Eles comiam e voltavam no outro dia. A vó costurava mal, bem mal, mas quando o pai, dono da Loja Excelsior, a maior da cidade, trazia amostra de panos, ela tratava de fazer uns calções. Dava a roupa para os meninos magros que circulavam por ali. Eram muitos os esfarrapados, como o senhor aguardando o almoço no terraço.

O pai não se importava com aquela movimentação. Na verdade, apesar de não performar aquela bondade traduzida em doces e roupas mal-ajambradas, tinha suas tantas parcelas de delicadeza. Algumas muito específicas. Por exemplo: chegavam lá na loja e pediam: “Ô, seu Ivanildo, o senhor tem jornal com foto do Pai Arraes pra fazer um chá?” Graça lembra bem: os mais esquálidos levando recorte com o rosto do homem que foi governador do Estado para logo ser deposto em 1964. Botavam a imagem no copo, jogavam água quente, esperavam e bebiam. “Arraia”, como chamavam, era considerado tão santo que conseguia fazer aquilo. Os muito pobres acreditavam que beber a água do jornal podia melhorar a vida, acabar com o reumatismo e diminuir a esqualidez.

Lá na casa de cores suaves, diferente das de agora, que têm fachadas com cores que falam bem alto, Graça continuava observando Dionísia. Mantinha no quarto uma pequena biblioteca, guardava os folhetos de cordel, os postais lindos, enviados pela amiga Guiomar. Também ficavam escondidos em uma gaveta vários papéis, além de vidros e caixas miúdas, potinhos com pomada de algaroba que serviam para curar as feridas dos netos. Com os cabelos rentes ao ombro e presos por duas fivelas marrons, Dionísia não perdoava invasões: colocava a neta para fora aos gritos. Dizia que aquilo era proibido para crianças. A curiosidade da menina triplicava, quadruplicava. Não: cinco vezes isso. Tinha 8, 9, 12 anos, e já gostava dos livros de oração da mãe, das anotações com receitas de comidas, copiava tudo, mas nunca fazia. A vó sentava com ela e lia almanaques que geralmente encontrava na Farmácia do Povo. Aí Graça ia rememorando tudo depois daquelas leituras: o Santo do dia, a hortaliça da época, como fazer uma massa caseira para colar os brinquedos quebrados. Lia os rótulos dos remédios, as folhinhas de publicidade. Nunca esqueceu um todo gasto e amassado com a propaganda do Biotônico Fontoura, tinha a figura do Jeca Tatu de Lobato. Ficou fascinada pelas ilustrações da galinha e dos porcos usando botinhas para evitar doenças.

“O senhor tem jornal com foto do Pai Arraes pra gente fazer um chá?”

Somava tudo isso ao que ouvia dos trabalhadores das usinas que chegavam nos caminhões carregados em dia de feira. Estacionavam ao lado de sua casa, traziam melancias, batatas, cebolas e sofrimento. Somava tudo isso ao que ouvia do folhetinista, que em praça pública lia o cordel com as notícias da semana. A maioria tratava de política. Ficava cercado pela população de Palmares, uma das cidades da Mata Sul pernambucana mais importantes para os integrantes das Ligas Camponesas. Uns diziam que eram gente do bem. Outros diziam que eram comunistas.

Comunistas. De novo.

Afinal, por que precisava sair correndo deles? Se eram pessoas para se ter medo, por que Dionísia os trazia constantemente, naqueles papéis, para dentro de casa? Mostravam o que acontecia nos campos e usinas ao redor de sua casa. Não via pessoas más retratadas nas imagens. Via pessoas esquálidas e esfarrapadas, como o homem rambudo que esperava por comida, quase todos os dias, na varanda de sua casa. Dionísia, em sua avassaladora generosidade, não podia ser uma pessoa má. Ela procurava ajudar.

Foi aí que surgiu na vida de Graça uma nova palavra: oprimido.

Aquilo ficou na cabeça. Foi em busca do significado. Descobriu que existiam pessoas que faziam algo de bom por outras com menos chances de existir. Que o mundo atuava em separado: de um lado Uns, do outro, os esfarrapados. Ela e a vó serviam a comida. Então, estavam enquadradas entre os Uns. Cavou mais seu cotidiano, leu mais, memorizou. Ia para a casa de um vizinho muito pobre, Manoel Bispo. Era dono de uma das casas mais humildes da Rua Coronel Izácio e tinha cinco filhos. Lá havia uma biblioteca feita com prateleiras de madeira e suporte de tijolos. Organizados em fileiras, livros didáticos e de arte. Graça sentava no chão frio e ficava lendo ao lado de Javanci, filho de Manoel. Na residência humilde, a biblioteca era o bem mais valorizado. Em uma manhã ouviram-se da casa de Graça e Dionísia os gritos de Lica Preta, que atuava como rádio humano da região. Era a primeira a dar as notícias, e elas nunca eram boas.

“Ai, meu Deus! Mataram Ivanzinho, o filho de seu Severino!”. Começava uma Revolução Verbal entre os vizinhos.

Era dois de abril de 1964. Um dia após o militares arrancarem Miguel Arraes, o homem que virava chá contra esqualidez, do Palácio do Governo. Um dia após a polícia assassinar Jonas Augusto, 19 anos, e Ivan Aguiar, 23. O primeiro era estudante secundarista do Ginásio Pernambucano. O segundo cursava engenharia civil. Pediam o fim da intervenção militar que duraria 21 anos.

O Jornal do Commercio que chegava na banca de Seu Enoque e ia todos os dias para a Loja Excelsior trouxe a notícia:

“Na esquina Dantas Barreto - Marquês do Recife, os soldados pararam. Os estudantes continuavam a gritar. Os soldados tomaram posição. Um disparo para o ar foi feito. Os estudantes continuavam a gritar. Novos disparos, agora já em todas as direções. Os gritos aumentaram e dois caíram, mortos. No solo, ainda, alguns feridos”

Mais duas pessoas morreriam: uma moça - conta-se que era funcionária das Lojas Remilet - e um rapaz. Nunca foram identificados. Cantavam o hino nacional e seguravam a bandeira do Brasil quando foram atingidos pelas balas. Naquele mesmo dia, prenderam Francisco Julião, um nome que surgia a todo momento na casa de cores suaves através dos jornais e da boca da vó Dionísia. Era o advogado que fazia parte das Ligas Camponesas. Também foi naquele dia que Gregório Bezerra foi amarrado com uma corda no pescoço e arrastado pelas ruas de Casa Forte. Gregório era o comunista que se escondia na casa de Dona Júlia, sua irmã. Era por causa de Gregório que Graça não ia brincar com a amiga Zoraide.

Das frestas da janela, a menina viu camburões e carros blindados em busca dos que faziam parte das Ligas Camponesas. Soldados iguais nas roupas e nas ideias passavam arrastando pedaços de uma escultura presente no Palácio do Bambu, como a Prefeitura de Palmares era conhecida. O pai Ivanildo, tenso como nunca, falava que haviam encontrado fuzis nos sacos de feijão e farinha escondidos nos sindicatos rurais. Viu o professor Brivaldo Leão, que ia à missa todos os domingos, ser levado para interrogatório. Diziam que era comunista (comunistas, de novo), incitador das massas. O que todo mundo sabia era que Brivaldo era um ótimo professor. Alfabetizava adultos esfarrapados, que com ele aprendiam a ler. Graça e Dionísia passaram a apagar o que havia de vermelho na casa. A primeira escondeu livros sob o colchão e rasgou panfletos. A segunda entregou seus livros, coletados no balaio da feira, no caminhão de lixo da Prefeitura. Cobriu com palha de milho, cascas de abacaxi e recortes da revista Realidade que Ivanildo colecionava. Da revista, ele recortou e guardou a imagem de um trabalhador da cana-de-açúcar, uma foice no ombro, enegrecido pela tisna de cana queimada. Abaixo da foto, a legenda: “Nós somos a vida da nossa gente e morte de nossas vidas.

Acima, a dedicatória que Francisco Julião fez para Graça. O ex-advogado das Ligas Camponesas não imaginava que aquela mulher, quando menina, brincava na mesma casa na qual ele se reunia com o amigo Gregório Bezerra. Ambos foram presos no dia do golpe

Quase 20 anos depois, através do pai, soube que Julião iria até Palmares lançar um livro. Já morava no Recife, mas decidiu ir. Dionísia havia partido, levou com ela os olhos verdes cor de palha de cana quando bate o sol. Mas continuava viva em Graça. Foram acompanhadas ao local do lançamento, tinha pouca gente para ver o advogado dos camponeses divulgar Carta para Isabela, testamento/testemunho feito para sua filha.

A neta de Dionísia entregou seu exemplar. Ele escreveu:

Não teve oportunidade de falar com ele. Outras pessoas na fila. Foi embora, feliz, com seu livro que para muitos era considerado vermelho. Comunista. Não importava. Graça já havia entendido o que significava ser oprimido.

Graça lembra dos olhos verdes da avó, eram da cor da palha de cana quando bate o sol, o cabelo médio, presos por fivelas marrons - Foto Igo Bione/JC Imagem