Mergulho nas imagens-relicários

Fabiana Moraes

Desfocadas, esmaecidas, estragadas pelo Sol e pelas cheias. Várias das fotografias publicadas neste especial carregam defeitos inaceitáveis em tempos de alto controle da imagem, da busca pela perfeição daquilo que é visto. Contudo, são justamente esses defeitos que entregam: as fotografias, assim como nós mesmos, também são maceradas pelo cotidiano, moldadas de acordo com a ordem não inteligível dos fatos, alteradas pelo humor pouco adivinhável das segundas e quartas e sábados. As onze imagens vistas neste A História de Mim são, todas, pedaços de alguém. Fazem parte da arqueologia particular de pessoas que não são comuns – porque, no final, ninguém é. Elas nos contam largos períodos de vida, ou simples instantes, trajetórias repletas de dor e/ou renascimentos inspiradores. Por isso, deixaram de ser carta e e-mail (durante três semanas, quase uma centena foi enviada ao JC para virar reportagem. Sim, reportagem, afinal, elas também procuram reconstruir algo que já aconteceu e não merece ser simplesmente deixado para trás. As narrativas pessoais que trazemos aqui nos mostram que a carne do jornalismo também é feita da memória cotidiana, esse lugar gigante e coletivo povoado pelo amor e pelo espanto. Faz parte dele ainda um dia a dia que só pode ser entendido como besta, ordinário, por quem só mira o mundo construído sob holofotes. É esse o mundo das imagens retocadas, plasticizadas, perfeitas. Aquelas que invariavelmente dizem tão pouco sobre nós.

O tom pessoal e confessional deste projeto está em sua gênese: foi a partir do encontro de antigas (e não tão antigas) fotos da minha família que ele nasceu. Meu pai, José Manoel, fotógrafo, guarda uma centena delas, várias impressas fortemente na minha memória. Ao revê-las, senti enorme necessidade de escrever a respeito, e só na escrita percebi que todas traziam algo que eu nunca tinha observado ou sentido. Publicadas em minhas redes sociais, essas fotos ativaram a fala e as lembranças de várias outras pessoas, o que me fez observar que meu passado era várias vezes também o passado delas. Que tecemos, juntos, a memória das ruas e praças de nossas cidades, dos filmes e das novelas, das comidas e das festas. Reescrevendo algumas das histórias enviadas para este especial – muito obrigada José, Nadiana, Graça, Teo, Paulo e Solânia, Brenda, Jaqueline, Carol, Aretha, Simone e Bete –, também contei, várias vezes, a minha. Provavelmente, a sua também.

O que aconteceu tanto comigo quanto com todos aqueles que abriram gavetas e álbuns para procurar imagens do passado, seja ele mais ou menos distante, foi sintetizado pelo fotógrafo e pesquisador Boris Kossoy (que cunhou o termo imagem-relicário, usado no título deste texto): “Na tentativa de ‘descongelarmos’ o documento, poderemos, talvez, devolver aos cenários e personagens sua anima, ainda que seja por um instante. Poderemos, por fim, intuir sobre seus significados ocultos. O imaterial, que afinal é o que dá sentido à vida que se busca resgatar e compreender, pertence ao domínio da imaginação e dos sentimentos. É a nossa imaginação e conhecimento operando na tarefa da reconstituição daquilo que se foi”.

A foto acima deste texto de abertura é, por sua vez, a síntese da análise de Kossoy. Ao reencontrá-la, eu, a menina que está sentada de pernas cruzadas, consegui perceber pela primeira vez em tantos anos a presença da minha mãe. Ela não está na imagem: somos eu, minha irmã mais velha, Patrícia, e meus irmãos gêmeos, Flávio e Flávia, além do meu pai. Ele e minha mãe, Neusa, estavam separados e, pouco comum, os filhos ficaram com ele. Depois de vários anos sem vê-la, tivemos uma surpresa: ela foi nos visitar e levou os vestidos de cambraia que usamos na foto, registrada em uma noite de Ano Novo. Eu estava extremamente feliz naquele dia. Apesar da ausência física, mainha estava entre nós, mainha se importava conosco e, sim, éramos uma família. O abraço coletivo e sempre orgulhoso do meu pai se repetiria em várias outras fotos. A ausência – apenas física – da minha mãe, também.

A imagem descrita, assim como este A História de Mim pertence justamente ao domínio do imaterial, da imaginação e dos sentimentos. Alguns dos relatos, por sua força e síntese, foram usados exatamente como enviados em alguns trechos dos textos, numa simbiose completa entre personagens e autor, um apagamento de fronteiras que respeita tanto a base, a inspiração, quanto o trabalho criador. É uma forma também de pensar nos tão citados “compartilhamentos” e “convergências”, aqui levados a um nível mais extremo: o da produção mesclada entre quem foi entrevistado e quem entrevistou. A maioria das imagens, como você verá logo mais, traz os autores ainda crianças, meninos e meninas que passaram por situações de beleza, horror e penúria. Mas todos e todas, hoje, capazes de estar conosco falando sobre a alegria de estar no mundo. Há ainda a foto da carteira de estudante de José, que nos anos 1960 estudava em uma Carpina que nunca deixou para trás. Outra imagem também chama atenção: a de um recorte de jornal em que vemos um ônibus destruído após cair de uma ponte. É esse pedaço de papel que conta a quase trágica e por fim tão bonita história de Elizabete, a moça cujo travesseiro de hospital era feito de bilhetes contendo boa fé e esperança. É hora de conhecer todos eles – e, de certa maneira, mergulhar em nós mesmos. Boa leitura.