A pequena Inês contra o absurdo

Um mosquito tirou o brilho dos olhos, a força e o sorriso da menina de cinco meses. Saiu de casa e horas depois estava em choque. A mãe viu-se fazendo o enterro, a flor sobre o caixão. Mas decidiu que a filha viveria e que ela era também responsável por isso. Mandou embora da UTI o padre que chegou para dar a extrema unção. “Ela vai viver. Não há necessidade do senhor aqui.”

Esta foto foi enviada para todos aqueles amigos e parentes que ajudaram Carol e o bebê a sobreviver - Foto Igo Bione/JC Imagem

Há sete dias o lar estava vazio. As flores secas, sem café nas xícaras, sem criança no berço, sem água nas plantas. Sem ninguém para ligar o fogo, receber correspondência, desforrar as camas. Naqueles dias, Inês estava em colapso na UTI de um hospital. Tinha cinco meses de nascida e era uma bonita síntese da existência. Era não: é.

Passou uma semana com febre, a mãe – era a primeira vez que havia se tornado uma – levando diariamente para a pediatra avaliar. O corpo quente era insistente. Levou para uma emergência. Nada descoberto, voltou, mamou, dormiu. A febre lá, acompanhando. Carol, a mãe, estava sozinha: o casamento havia terminado quando a menina tinha somente quatro meses. Foi dar um banho no bebê e viu o bumbum arroxeado, a febre lá, ela amolecendo. Vomitou e saiu sangue. Desfaleceu. De volta ao hospital.

Começou a procura por uma veia para medicar a menina, sem sucesso. O roxo foi tomando conta do corpo e aí foi dito: “é dengue hemorrágica” . Não uma dengue hemorrágica das comuns, mas das mais violentas. Uma cepa mais virulenta. Chama a ambulância, vai para a UTI. Carol seguiu dentro do carro, enquanto sua mãe, Tercina, a seguiu. No percurso, outra pessoa ia nascendo dentro da mãe de Inês. Foi ela própria quem escreveu isso na carta que mandou para o jornal. Olhava para a filha tão pequena, que não olhava para nada. Vagava, apenas. Estava ali, mas estava em outro lugar.

Deixou a filha no hospital e foi para casa. Dormiu encolhida entre a mãe e o pai

Entrou na unidade de terapia intensiva e ficou lá. As veias sem aparecer, o jeito foi fazer um pequeno corte na altura da clavícula e ali colocar uma sonda. Inês chegou em estado de choque, com falência múltipla dos órgãos e infecção generalizada. A correria e a agonia da equipe médica diziam para a mãe: o absurdo existe e ele está cercando, agora, você.

Uma médica chegou ao corredor e, com a delicadeza impossível da fala que se segue, informou: “não posso lhe garantir que sua filha vai sobreviver” . Por precaução, colocaram o bebê em coma induzido. A avó Tercina não fumava há dez anos. Consumiu uma carteira inteira em poucas horas. O corredor lotado de amigos, conhecidos, parentes. O tempo passando e a menina não respondia. Disseram que era preciso esperar 72 horas até o corpo dar um sinal. A partir daquela informação, a mãe cravou os olhos no relógio pendurado na parede à frente. Nada. “Vá para casa”, pediram. Carol foi, mas não para a sua. Dormiu na cama dos pais, cercada pelos dois, como quando era pequena. Naquele momento, tinha tantos meses quanto Inês.

Acordou às cinco da manhã, foi o tempo que o remédio conseguiu fazer efeito, olhou o telefone. Nenhuma ligação. Isso era um alento. Voltou para o hospital e, ao entrar na UTI, viu a menina: uma sonda para alimentação, outra para o remédio, outra para a urina. Respirava com ajuda de máquinas. A vida de Inês prolongava-se pelos vários aparelhos. Até então, a mãe acreditava que tudo era um grande engano, que logo ia sair dali levando a filha, não conhecia perda nenhuma na vida. A crueldade da doença, no entanto, fixou um pequeno filme da cabeça de Carol: viu-se enterrando a criança, viu o caixão branco, viu uma flor sobre ele, viu a cova e a procissão silenciosa até ela. Aí tudo isso ficou de cabeça para baixo e ela viu mais: percebeu a filha viva. Aquela pessoa que começou a se anunciar dentro dela, ainda na ambulância, começou a pedir passagem. Nesse exato momento, no quarto, Carol nascia em si mesma.

Foi para a capela do hospital, na qual dezenas de santos e santas trazidos por gente desesperada e esperançosa com ela estavam. Rezou para todos, pediu para todos, pediu para si mesma, pediu. A filha havia nascido ali, e era dali que iria voltar viva para casa. Trocaram todo o sangue de Inês. A enormidade de medicamentos fez a menina inchar. Mas ela estava lá. O sangue não tinha quase plaquetas, o coração batia por conta dos remédios, a respiração saía pela máquina. Era tudo tão pouco vida. Aí chegou um padre. Chamado por alguém da família, sua missão era dar a extrema-unção. Carol não admitiu: expulsou o religioso da UTI, informou que ele estava enganado, que sua filha não iria morrer. Não havia necessidade de sua presença.

Talvez dois dias depois – a dor é sempre imprecisa – Carol entrou no quarto e colocou a menina nos braços. Ela começava a melhorar. O sangue se fortalecia novamente. A confirmação de sua sobrevivência foi a procura pelo peito, a insistência em se alimentar. Começou a mamar, e, ainda muito inchada, abriu os olhos e mirou a mãe. Depois de uma semana, os olhos de Inês anunciavam que ela estava viva. Melhor: anunciaram que ela era, que ela é, a síntese da vida. Em dois dias deixaram o hospital.

Depois que Inês chegou em casa, tinha café nas xícaras, as camas apareceram desforradas, alguém desligou o fogo e apanhou a correspondência. Depois que Inês chegou em casa, um bebê voltou ao berço e as flores começaram a nascer.

A filha ensinou um bocado para a mãe, principalmente que vida é aquilo o que acontece todo dia e deve ser por isso continuamente celebrada - Foto Igo Bione/JC Imagem