O mundo mudou na hora do recreio

“Você não pode brincar com a gente, você é preta.” O primeiro dia de aula de Brenda foi também o primeiro dia em que ela foi informada: havia um defeito de cor em sua pele. Passou anos sendo preterida pelas colegas por conta disso, também por causa do cabelo crespo. Só às vezes sua presença era permitida entre as colegas brancas. Naqueles dias, os intervalos para o lanche e a brincadeira eram longos e cheios de dor

O pai fotografou a filha e as colegas em um Sete de Setembro. Não sabia que aquela proximidade era rara - Foto Igo Bione/JC Imagem

Brenda saiu do Quilombo do Ambrósio, em Minas Gerais, em 1759, e foi estudar em Itabuna, na Bahia, em 1985. Tinha cinco anos. No primeiro dia de aula na escolinha Carrossel, foi o pai, preto dos olhos verdes também vindo lá do Ambrósio, quem a seguiu até a porta da escola. Dirigia uma Variant branca, a carruagem de ferro e lata que levava a menina vestida com camisetinha branca e saia verde plissada. A roupa cheirava a amaciante. A mãe ainda passou um pouco de brilho sabor tutti-frutti em seus lábios e lavanda no pescoço. Na lancheira, levava leite sabor morango, sanduíche de queijo e uma maçã que a menina mais tarde trocaria por um chocolate.

O primeiro dia de aula era quase o primeiro dia no mundo.

Brenda entrou na escola. Naquele momento, não percebia que era uma das poucas descendentes dos pretos africanos que povoaram o Brasil e tão exuberantemente a sua Minas natal. Hoje recorda: ali, pele escura só se via nos serviços gerais. No entanto, bem mais importante para a menina de cinco anos era a música do crocodilo, acompanhada por uma coreografia que a professora ensinou logo no primeiro horário. Meninos para cá, meninas para lá. Não tinham lhe avisado que a escola era um lugar tão divertido. Pensava em cantar a música que havia acabado de decorar para o pai e a mãe e contou o plano para Débora, a primeira colega.

A garota olhou desconfiada para os pés de Brenda, que usava botas ortopédicas. Perguntou o que era e soube que serviam para desentortar pernas. Que moça bonita não podia ter perna torta. Os motivos práticos não convenceram: aqueles sapatos povoavam um mundo bem diferente das suas sandálias Hello Kitty cor-de-rosa. Manteve o olhar meio incrédulo, mas calou-se.

Pouco tempo depois, o sinal do recreio. O primeiro recreio era quase o primeiro dia no mundo.

Havia uma árvore enorme no pátio e foi para lá que as meninas correram com suas lancheiras. Brenda seguiu naturalmente aquele caminho e, ao aproximar-se, ouviu:

- Você não. Não pode ficar com a gente no recreio.

Parou. Obedeceu. Mas se manteve no mesmo lugar. As outras meninas vieram:

- É, não pode mesmo.

- Você é preta!

- E tem cabelo feio.

Cresceu odiando a foto que confirmava: não era como as meninas de sandálias rosa

Brenda continuou parada, mas agora sentia o choro vir. Veio imediatamente um enorme sentimento de indignidade, de estar dentro dela mesma, de habitar aquela pele escura, de ser coroada por cabelos crespos. Enquanto se afastava, ouviu:

- E essa bota horrorosa, credo. Não precisou olhar para trás para saber quem zombava dela. Era Débora.

Foi sentar em um canto e ali começou a olhar o seu ao redor: todas as peles, menos a sua, eram alvas. Os cabelos das meninas voavam com o vento. E elas não usavam botas. Nem faziam xixi nas botas, quando estavam nervosas. Decidiu ali, e isso durou muito tempo, que era muito feia. Que jamais conseguiria ser como aquelas meninas que lanchavam juntas sob a copa da árvore. Eram meninas que se repetiriam na sua adolescência, que faziam parte do universo de colégios mais caros, pagos com o salário do seu pai, diretor de uma multinacional. O salário do pai que, se falassem em racismo, dizia sempre “deixa isso pra lá”.

O sinal que avisava o fim do intervalo tocou. Era sua primeira volta para sala de aula após o recreio. Era seu primeiro dia no mundo.

(...)

Permanecia naquele local de exceção quando seu pai a fotografou, junto às outras colegas, em uma festa de Sete de Setembro na escola. Não há felicidade em seu rosto. Ali, continuava a ser evitada pelas colegas, que só às vezes a deixavam participar das brincadeiras no recreio. Também só às vezes Débora, por conta dos cabelos crespos, podia brincar. Nessas horas, as duas meninas se uniam. Débora só conseguia ser solidária quando a generosidade também a incluía. Brenda odiava aquela foto, odiava o cabelo, odiava parecer com os irmãos mais velhos, pois todos eram pretos. Foi um deles que, quando a família mudou-se para São Paulo, foi percebido como um menino infrator prestes a assaltar a mulher que caminhava logo à sua frente. Essa mulher era Marízia, própria mãe de Brenda e Artur. Ela caminhava um pouco mais à frente, segurando a mão da filha.

Aquele foi mais um dia de Artur no mundo.

* O Segundo Quilombo do Ambrósio, localizado entre Campo Grande e Ibiá, foi destruído em 1759. Antes dele, houve o Primeiro Quilombo, destruído em 1746 e localizado entre Formiga, Cristais e Aguanil. Foram as mais importantes povoações de pretos de Minas Gerais naquele período. Foram os negros sobreviventes dos ataques do último que fundaram aquele disposto perto de Ibiá, cidade onde parte da família de Brenda nasceu.

Vai ter um bebê e hoje briga diariamente e alegremente para que ele ou ela não seja repudiado na hora do intervalo escolar - nem nunca - Foto Igo Bione/JC Imagem