Elizabete, você vai ficar bem

Estava entre os 37 passageiros presentes no ônibus que despencaria de uma ponte no interior de Minas Gerais. Doze pessoas morreram. Dias depois, encontrou sob o travesseiro do hospital um pequeno e inesquecível tesouro produzido pelo carinho e pela solidariedade

O recorte do jornal que mostra o ônibus destruído no leito do rio seco faz parte da história não só de Bete, mas de outras 11 universitárias envolvidas no acidente - Foto Ricardo Labastier/JC Imagem

A notícia chegou através do rádio amador do Padre Abrantes: um ônibus havia caído de uma ponte na divisa entre Minas Gerais e Goiás, matando 10 das 37 pessoas a bordo. Outras duas morreriam dias depois. Um grupo de 12 universitárias saídas do Recife viajava no coletivo que se chocou contra o leito quase seco do Rio São Marcos, perto de Paracatu (MG). Elizabete Santos estava entre elas. Se formaria ao lado das outras 11 colegas naquele ano, 1967, no curso de História Natural da então Faculdade de Ciências Humanas do Recife (Fafire). Aproveitaram o final do Primeiro Congresso Nacional de Estudantes de História Natural, Ciências Biológicas e Geologia e foram passear. Embarcaram às 18h, dia 6 de julho, depois de brigarem porque uma delas comprou os assentos das últimas filas, e não na frente do ônibus. Horas depois, José Maria dos Santos, o motorista, exausto após cumprir uma jornada dupla de trabalho, adormeceria na direção. Morreu no local do acidente, assim como todos que viajavam nas primeiras cadeiras. Com nove fraturas na costela direita, perfuração da pleura, afundamento do pulmão e clavícula e uma omoplata quebrada, Elizabeth foi colocada em uma ambulância. De longe, escutava quando lhe perguntavam “onde está a sua fé?”

A milhares de quilômetros de distância, estava Edelomar, O Noivo. Namoravam há oito anos. Ligaram para ele avisando: “Ela está entre a vida e a morte” . Até hoje não sabe como localizaram seu número. Só que chegaram até ele através do citado padre Abrantes, que por sua vez entrou em contato com a faculdade. É incrível pensar na forma com a qual a notícia do desastre surgiu no rádio amador do religioso. Foi assim: com o ônibus ainda espatifado no rio, duas das universitárias menos feridas saíram pela estrada. Vários carros paravam, os condutores socorrendo os envolvidos no acidente. O motorista de um jipe ofereceu ajuda. Disse que conhecia o dono de um rádio amador. Os três seguiram até o local, no meio da noite. De lá mandaram a mensagem e, a tantos quilômetros de distância quanto O Noivo, estava o padre, sintonizado.

A notícia o acidente chegou através de um rádio amador

A Edelomar coube a triste tarefa de anunciar o desastre a Julio e Maria Graciana, pai e mãe de Elizabete. Sabendo da gravidade do acidente, Julio se resignou e enviou o genro a Brasília, onde a filha foi internada. “Vá e traga o corpo dela.” Mas, é preciso lembrar, estamos agora em 1967, sem os celulares ao redor, sem a internet, o orelhão por perto e ainda sem voos comerciais facilmente disponíveis. Avião para Brasília só no domingo à noite, 24 horas depois de a família saber que Bete estava ferida. Era quase uma eternidade. Procuraram e conseguiram localizar um conhecido cujo pai trabalhava em uma empresa de aviação. Solidário, ele deu conta das passagens. Del, como O Noivo é até hoje chamado, enviou um telegrama para a noiva em Brasília. Caso ele não chegasse a tempo de encontrá-la viva, queria garantir sua voz materializada em letra no papel. Finalmente embarcou, mas, na escala em Salvador, o avião quebrou. Passou a noite na capital da Bahia. Naquele momento, naquela impotência, Elizabete nunca estivera tão longe. Foi outra eternidade.

Ao meio-dia da segunda, chegou a Brasília. Na cabeça, a lembrança do sonho que teve antes de Bete partir para o congresso em Belo Horizonte. Nele, viu um acidente. Não era supersticioso, preferiu não falar nada. Agora, estava indo ao provável encontro do corpo sem vida da namorada. Sonho-realidade-pesadelo.

O acidente havia causado comoção no Distrito Federal: todos sabiam sobre os mortos e feridos, especialmente o grupo de jovens universitárias vindas do Recife. Os jornais manchetavam. As duas pessoas que morreram após chegar ao Hospital Distrital de Base estavam na mesma UTI que Elizabete. Quando Del entrou no corredor e procurou pela filha de Julio e Maria, os funcionários e familiares dos feridos começaram a gritar: “O Noivo chegou! O Noivo está aqui!” Sem entender muito bem o que acontecia, também ouviu: “Ela está viva! Que felicidade, Elizabete está viva!”. Acompanhado por gritos e exclamações, dois estandartes da alegria, Del seguiu até a entrada da UTI. Elizabete estava lá, consciente. Fazia pouco tempo que havia sido liberada pelo médico para seguir para um enorme quarto presidencial (sintomas da ditadura militar), onde mais duas pernambucanas também se recuperavam. Quando ele levantou a cabeça da noiva para ajudá-la a ir para a maca, sentiu algo colocado sob o travesseiro. Encontrou uma pequena pilha de bilhetes escondida. Diziam:

“Elizabete, você vai ficar bem.”

“Elizabete, passei para lhe ver. Acorde e fique bem.”

“Elizabete, vou trabalhar, volto na hora do almoço. Você não está só.”

“Elizabete, continuo vindo aqui. Volto mais tarde.”

Eram cerca de oito mensagens, todas assinadas por Adélia. Mas quem era Adélia? Elizabete não sabia. No hospital, tampouco. A única certeza era de que essa mulher havia passado várias vezes ali durante aqueles dias de dor para visitar a moça recifense que ela não conhecia. Entrava lá e deixava seus bilhetes de apoio e encorajamento. Na pressa da transferência para o outro quarto, na emoção de tanta vida e tanta coisa acontecendo, os bilhetes foram deixados de lado. Os dias seguintes foram de recuperação: por conta do afundamento no pulmão, Elizabete não podia ser engessada. Tinha que se submeter a dolorosas drenagens para tirar água do órgão. “Era a única coisa ruim, a única coisa que doía” .

Cerca de duas semanas depois, ainda internada e acompanhada por Del, um casal se aproximou. A mulher morena, magra, sorriu para ela. “Elizabete, você sobreviveu! Voltei à UTI e soube que você tinha saído de lá e seu Noivo já estava aqui. Eu sou Adélia.”

“É a moça dos bilhetes!”, começaram a comemorar outros pacientes que se recuperavam do acidente. Foi quando Adélia explicou: soube do desastre pela TV. Foi para o hospital pensando nas moças de Pernambuco. Sabia que eram de fora, que não tinha ninguém com elas. Quando viu o estado de Elizabete, decidiu olhar por ela. Passava no quarto duas vezes ao dia. Pedia, rezava. Conversaram mais um pouco.

Um dia antes da viagem de volta ao Recife, Adélia voltou. Trazia um buquê de flores secas, do cerrado. Se despediu de Bete e do Noivo, que, na imaturidade da idade, terminaram não guardando os contatos daquela espécie de anjo moreno e magro. Perderam os bilhetes também. O buquê sobreviveu até a enchente de 1975, quando se foram quase todos os bens materiais que possuíam. Ao lado de Del, Bete conta a história. Nunca vai esquecer a delicadeza e o amor de Adélia, nem dos bilhetes, nem daquele buquê.

“Tinha um perfume que ainda me invade a alma.”

Está ao lado de Del, O Noivo, até hoje. Criaram três filhos que também são resultado de um destino que a poupou e acariciou - Foto Ricardo Labastier/JC Imagem