Polo de confecções

A empresária Rosemary Santos da Silva começou a vender roupa na feira de Caruaru há três décadas, quando sequer tinha um banco de feira. Ela chegava cedo para colocar as peças de roupas nos espaços que os donos ainda não tinham chegado. “Quando a feira começava, já tinha vendido tudo. Aqui, se a gente desistir, desiste todo dia”, conta, lembrando que nesse tempo, num mesmo dia, as suas peças passaram por 16 bancos diferentes até encerrar as vendas. Hoje, a empreendedora tem uma fábrica que emprega cerca de 270 pessoas, uma loja em Caruaru e outra em Santa Cruz do Capibaribe. Grande parte da sua produção – 60 mil peças por mês – é vendida principalmente para clientes do Sul e Sudeste do País.

“Não tive qualquer apoio governamental. Inspirei-me muito na minha mãe que, naquela época, ia dirigindo para vender as peças nas feiras. A gente saía de casa meia-noite e voltava às 14 horas. Era muito trabalho”, resume. Quando completou 15 anos, o pai a presenteou com um banco na feira de Caruaru. Foi a partir daí que implantou pelo menos duas empresas, uma que fechou, e a atual, a Cavalheiro Camisaria, no mercado há dez anos e especializada em camisas masculinas. As peças produzidas pela grife de Rosemary, às vezes, não chegam às lojas porque toda produção já foi comprada. “Fiz algumas consultorias com o Sebrae e o Sesi. Aos pouquinhos, fomos melhorando a qualidade do produto. Meus filhos foram crescendo, passaram a atuar na empresa e vieram novas ideias”. A empresária concluiu o antigo magistério, em Caruaru, onde nasceu. Dos três filhos, dois concluíram uma graduação e um está fazendo faculdade. Os três fizeram intercâmbio fora do País para aprender uma segunda língua.

Quando a feira começava, já tinha vendido tudo. Aqui, se a gente desistir, desiste todo dia”, Rosemary Santos

A ascensão de Rosemary como empresária já entrou para as estatísticas do Agreste que está mais rico. Mesmo com infraestrutura precária e escassez de água, é a região que mais cresceu em Pernambuco entre 2004 e 2014, com uma taxa média de crescimento de 5,2% ao ano. No mesmo período, o Estado teve incremento médio anual de 4,1% do seu Produto Interno Bruto (PIB) e a Região Metropolitana do Recife (RMR) um acréscimo de 3,9%, embora continue sendo a área pernambucana mais rica e industrializada.

O Agreste foi o que mais aumentou a participação no PIB estadual, comparando a década que se encerrou em 2014, ano dos últimos números consolidados pelo IBGE. A região representava 14,1% do PIB de Pernambuco, com uma produção de R$ 14,6 bilhões em 2004. Dez anos depois, passou a responder por 15,7% da economia pernambucana, com uma produção de R$ 24,3 bilhões. Ou seja, a produção de bens e serviços do Agreste cresceu 66,5% em uma década. Ainda em 2014, Caruaru passou a representar 4% do PIB do Estado. O mais impressionante: não foi inaugurado qualquer empreendimento estruturador, como uma refinaria de petróleo ou fábrica de automóveis. Na década citada ocorreram estiagens severas, incluindo a maior seca do último século que começou em 2011 e ainda não acabou.

O crescimento da economia do Agreste foi puxado, principalmente, por seis cidades que concentram 50,8% do seu PIB: Caruaru, Santa Cruz do Capibaribe, São Bento do Una, Garanhuns, Belo Jardim e Gravatá. Nas quatro primeiras, a força motriz foi o empreendedorismo. Pessoas que tiveram persistência, aproveitaram oportunidades e perceberam um mercado que precisava consumir também no entorno. Muitos desses negócios começaram na década de 1990 e foram crescendo junto a população dessas cidades. Em Belo Jardim, a economia continuou aquecida em função da fábrica da Baterias Moura; Gravatá passou a ter uma economia mais pujante por causa do turismo de segunda residência.

O carro-chefe da economia do Agreste continua sendo o Polo de Confecções que emprega mais de 100 mil pessoas, concentrado em dez municípios. É o segundo maior da área têxtil do País. Caruaru, Toritama e Santa Cruz do Capibaribe são responsáveis por 75% do polo, segundo o Sebrae-PE. “Abrir um negócio próprio no polo se torna uma fonte de renda imediata”, afirma o economista da Consultoria Ceplan, Osmil Galindo. A atividade também se consolidou por causa das sucessivas estiagens que inviabilizaram a agricultura de sequeiro na região. E as feiras de Caruaru, Santa Cruz do Capibaribe e Toritama tornaram o ato de empreender democrático, porque muitas pessoas começaram – quase sem recursos próprios – apenas revendendo peças de terceiros –, outros venderam algum bem para entrar no ramo de confecções e alguns compraram tecidos com o pouco dinheiro que tinham no bolso.




Uma visita as feiras de Caruaru e de Santa Cruz do Capibaribe destoa do que ocorre no comércio em consequência da atual crise econômica. Os corredores são cheios de gente que enche sacolas de todos os tamanhos. “A nossa percepção é de que o poder de compra está menor, mas essa crise trouxe novos compradores, pessoas que ficaram desempregadas e decidiram revender roupa”, revela o síndico do Moda Center de Santa Cruz do Capibaribe, Allan Carneiro. Atuam no local mais de dez mil vendedores, escoando a produção de 5 mil confecções.

“A filosofia daqui é vender barato e muito, ganhando com o aumento da produtividade. O preço do produto é justo e competitivo e isso faz parte da cultura da região. É a China do Brasil para confecções”, diz o empresário paraibano José Gomes Filho, que era bancário, estava de férias na cidade em que morava, em São Bento (na Paraíba e a 360 km de Santa Cruz do Capibaribe), quando acompanhou uma parente que veio comprar roupa em Santa Cruz do Capibaribe em 1986. “Depois disso, decidi que ia fazer roupa. Vendi um fusca usado, comprei duas máquinas de costura e contratei um funcionário”, relembra.

Foto de um dia de feira no Moda Center em Santa Cruz do Capibaribe

A agitação do Moda Center, em Santa Cruz do Capibaribe, no dia de feira.

A primeira empresa de confecção de José Gomes foi implantada em São Bento. “Em 1997, vim para Santa Cruz, porque percebi que o futuro na área de confecções está aqui”, revela. A empresa dele é a Joggofi, que emprega 60 funcionários e contrata 70 terceirizados, produzindo cerca de 100 mil peças por mês, distribuídas para todo o País. Para ampliar a produção, ele está construindo uma nova fábrica com investimento de R$ 2,5 milhões, sendo uma parte emprestada pelo Fundo Constitucional do Nordeste (FNE). A nova planta deve começar a funcionar no próximo mês e estar 100% em operação no fim de 2018. Com o segundo grau completo, José Gomes quer concluir um curso técnico em moda e depois uma graduação.

As histórias de José Gomes e Rosemary comprovam que o Polo de Confecções gerou gradações de uma classe média que produz, consome e gera empregos. E foi isso, definitivamente, que fez a região crescer. E está só no começo porque os filhos dos atuais empreendedores concluíram as suas graduações, fizeram intercâmbio no exterior e estão voltando para administrar os negócios familiares.

Ela começou um negócio com R$ 20

O que você faria se tivesse R$ 20 no bolso e sem emprego? A hoje empresária sergipana Ednete Cordeiro começou um negócio com esse montante na Feira de Caruaru, em 1997. Essa quantia corresponderia a R$ 68 atualmente, corrigidos pela inflação oficial do Brasil (o IPCA), e representava pouco menos que 20% de um salário mínimo, fixado em R$ 120, na época. “Já vendia roupa na feira e ganhava R$ 0,50 por cada peça comercializada. Mas percebi que ganharia mais se confeccionasse o produto”, lembra. Ela “desmanchou” uma blusa para tirar o molde. Depois disso, comprou os R$ 20 de devorê, o tecido mais barato que encontrou.

Foto da empresária Ednete Cordeiro

A empresária Ednete Cordeiro começou um negócio com R$ 20

“As primeiras peças foram costuradas na casa de um vizinho, pagamos as costureiras e vendemos quase tudo”, recorda. E acrescenta que os R$ 20 se transformaram ao que seria equivalente a R$ 70. A cada feira, Ednete comprava mais pano, fazia mais peças, pagava o aluguel do banco (da feira) e as costureiras. “Com o tempo, o dinheiro virou fêmea e começou a dar cria. Como era informal, fazia uma peça e, praticamente, ganhava a outra com a venda. Cortava, costurava, limpava a peça (tirar os fiapos) e ia para a feira”, conta. Quando as vendas já estavam maiores, contratou uma costureira.

As vendas continuaram aumentando e isso fez a empresária começar a ter novos sonhos e projetos. Um deles era sair do estágio de produtora de confecções para fabricar moda. “Ainda tem muito preconceito com a roupa feita em Caruaru, mesmo com bastante gente produzindo peças de muita qualidade”, diz. O primeiro critério a ser adotado por Ednete foi “só produzir aquilo que quero vestir”.

Nessa busca por melhorar a qualidade, a empresária foi parar, pela primeira vez, na capital paulista, em 2004. “Comprei tanto que até hoje tenho alguns produtos no meu almoxarifado que trouxe dessa viagem. São Paulo virou caminho da roça. Passei a ir todo mês. Atualmente, vou a cada dois meses por causa da redução de custos. É lá que busco a inovação num aviamento. São novidades que agregam a peça. Não se pode fazer uma coleção sem levar em conta o que está acontecendo no mercado”, afirma.

Ainda na intenção de fabricar moda, a empresa se formalizou, adotando uma gestão mais profissionalizada. “O Sebrae se transformou numa extensão da minha casa”, diz. Hoje, são 40 funcionários mais duas facções (grupos) que produzem as peças, além de profissionais que respondem por marketing e design, entre outras funções específicas, que inclui um estilista que assina as coleções.

A empresa fabrica cerca de mil peças por semana e tem duas lojas, uma próxima à Feira de Caruaru, e a outra no Polo Caruaru. As peças são comercializadas para varejo e atacado dos Estados do Nordeste. No varejo, a peça mais barata da loja custa R$ 29,90 e a mais cara sai por R$ 250. Ednete não revela o faturamento.

Ela saiu do interior de Sergipe e veio morar em Caruaru porque o marido foi contratado para trabalhar numa distribuidora de material de construção. Ednete nem pensa em ir embora e planeja começar um curso superior em moda em 2018. “Tenho um orgulho tremendo de dizer que comecei com R$ 20 na feira e muita vontade de trabalhar”, revela. Ela, até hoje, não conseguiu vender o banco da Feira de Caruaru onde começou sua trajetória empresarial. “Atualmente, está alugado”, conclui.

A força do Polo de Confecções do Agreste está na quantidade de empreendedores. São mais de 15 mil negócios formais com CNPJ ativo na Receita Federal em dez municípios, segundo um estudo feito pelo Sebrae-PE em 2012. Dentro desse total, pelo menos 7,1 mil indústrias de beneficiamento de confecções optaram pelo Simples Nacional no Agreste Central e Meridional, num levantamento também feito pelo Sebrae-PE no ano passado. Isso significa que essas últimas faturaram, no máximo, R$ 3,6 milhões durante 2016.

Feira de Caruaru: o estopim da economia do Agreste

“A feira de Caruaru faz gosto a gente ver. De tudo que há no mundo, nela tem pra vender”, dizia o compositor Onildo Almeida na canção imortalizada por Luiz Gonzaga. Lá, são mais de dez mil vendedores e no entorno se instalaram 500 lojas. “Por feira, recebemos cerca de 30 mil pessoas na baixa temporada e aproximadamente 70 mil visitantes na alta temporada”, diz o presidente da Associação dos Sulanqueiros de Caruaru, Pedro Moura.

Morador de Garanhuns, o comerciante Josenildo Muniz Alves vai a Caruaru geralmente uma vez por mês comprar confecções que revende na sua lojinha. “A feira de Caruaru é a que tem o melhor preço e mais variedade. Compro produto aqui há mais de 20 anos”, conta. No estabelecimento dele, o produto mais barato é a meia por R$ 4; e o mais caro é um casaco que custa R$ 180. E a crise? “Não chegou na minha porta e continuo vendendo”.

“A feira de Caruaru é o grande estopim que aquece a economia da região. Quando se empresta dinheiro para um dono de banco da sulanca, ele compra de outras pessoas, paga um funcionário. Isso gera microcélulas de prosperidade que têm o efeito multiplicador. E cada vez mais demanda de outros serviços financeiros”, afirma o superintendente do Prospera Santander, Tiago Abate.

O Prospera é o programa de microcrédito do Santander que emprestou R$ 450 milhões até meados de setembro deste ano somente em Pernambuco, com destaque para as cidades de Caruaru, Garanhuns e Vitória de Santo Antão. As duas primeiras estão no Agreste. O tíquete médio desses financiamentos foi R$ 2 mil.


A Feira de Caruaru na década de 70

A Feira de Caruaru na década de 70


Objetos utilitários na Feira de Caruaru

Objetos utilitários na Feira de Caruaru


Ainda de acordo com Tiago, o Agreste é uma região com grande potencial para crescimento dos serviços bancários. “No Polo de Confecções muitos empresários compram em Caruaru, mas uma quantidade grande adquire mercadorias em São Paulo e, para isso, precisam estar bancarizados. Fizemos uma pesquisa em Vitória de Santo Antão e Caruaru e constatamos que 30% dos pequenos empreendedores já usam o cartão de débito ou crédito. Há dez anos, esse percentual era 10%”, conta Tiago.

Mas como foi que surgiu esse movimento do comércio em Caruaru? Quando ainda era um arruado, o local começou a ser usado para a comercialização de mercadorias produzidas na Zona da Mata e no Sertão de Pernambuco.

A feira já era considerada grande para a época em 1793”, afirma o historiador Walmiré Demiron Porto

O atual crescimento puxado pelo Polo de Confecções ocorreu nos últimos 40 anos, segundo alguns economistas. “A necessidade de sobreviver acabou materializando essa produção têxtil na feira de Caruaru que era a maior da região. Essa cultura empreendedora surgiu também de uma geração cujos pais já trabalhavam na feira. Em Pernambuco, o Agreste é uma das regiões em que o empreendedorismo está mais presente na economia”, afirma o técnico do Sebrae em Caruaru, Gilson Gonçalves.

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