Obras para amenizar o sofrimento

São cinco anos de flagelo sem trégua. Uma calamidade que poderia ter sido evitada. Em 21 de abril de 2012, o Jornal do Commercio estampava na manchete: “À espera de dias mais secos”. Lá atrás, já se sabia: seria difícil. “Situação pode ficar pior que a de 1983 e 1984”, diziam as autoridades. O temor da “estiagem mais grave dos últimos anos” se concretizou. Materializou-se para uma nação inteira em forma de humilhação, mendicância, desemprego, queda na produção, fechamento de fábricas, morte e desesperança. Mais uma vez, as obras estruturadoras, tão alardeadas por sucessivos governos, ficaram pelo caminho. Incompletas. Apesar dos milhões de reais já investidos. Em seu lugar, a urgência imposta pelo sofrimento. A pressa para remediar o que já deveria ter tido solução.

Os números falam por si. Em 2013, a Adutora do Agreste recebeu do governo federal, num intervalo de apenas seis meses, R$ 250 milhões. O cenário não poderia ser mais otimista. A obra iria operar o milagre de levar a sonhada água da Transposição do Rio São Francisco para as torneiras dos moradores do Agreste. Seria a redenção. Seria, se os repasses tivessem continuado. Pelo contrário. Foram interrompidos. Menos da metade do serviço foi concluído e os recursos, ao longo desses três anos, praticamente são os mesmos liberados naqueles seis meses de vacas gordas. Com o dinheiro a conta-gotas, a Adutora do Agreste, que já deveria ter ficado pronta, ainda se arrasta. E o Estado corre agora para remediar e fazer valer os R$ 570 milhões já investidos na obra bilionária.

Para não perder tempo e dinheiro, a saída foi recorrer a outro rio, não o da integração nacional, mas um ali, bem mais perto, na Zona da Mata de Pernambuco. As águas do Rio Pirangi, em Catende, vão socorrer 10 cidades do Agreste, reforçando o Sistema do Prata, que assumiu o posto de principal reservatório da região, depois que a Barragem de Jucazinho secou completamente, em setembro deste ano. Como não há previsão de chuvas, o esforço é para evitar que o Prata tenha o mesmo destino de Jucazinho, sobretudo porque o reservatório abastece municípios estratégicos e de grande peso para a economia do Estado, como Caruaru e Santa Cruz do Capibaribe. Somada, a população apenas dessas duas cidades totaliza 360 mil pessoas. É mais do que todo o contingente que hoje encontra-se em situação de colapso no Agreste, espalhado por 25 cidades que estão sem água nas torneiras.

Escavadeira trabalhando na obra
Obra da Adutora do Agreste em Belo Jardim
tubulação na estrada
Tubulação vai levar água da Transposição para o Agreste
Homens erguem uma tubulação
Escavadeiras transportam tubulação da Adutora do Agreste
Homens colocam cimento em obra
Trabalhadores colocam concreto para proteger tubulação

Com os cofres públicos esvaziados pela crise financeira, o governo do Estado correu atrás de outras fontes de financiamento para bancar as ações hídricas emergenciais. No caso da Adutora do Pirangi, o dinheiro é empréstimo do Banco Mundial. São R$ 60 milhões, para um conjunto de intervenções que vão além da captação do rio. A adutora sai de Catende e percorre 27 quilômetros até chegar em Bonito, na Barragem do Prata. A previsão é de que, em fevereiro do próximo ano, as torneiras de cidades como Agrestina, Toritama, Santa Cruz e Caruaru já estejam sendo socorridas pelas águas do Pirangi.

ramal não saiu do papel

Caberia ao Ramal do Agreste levar a água do Eixo Leste da Transposição do Rio São Francisco para a Adutora do Agreste, que, por sua vez, faria essa água chegar a 68 municípios da região. O problema é que a obra sequer saiu do papel. Chegou a ser licitada, mas ainda aguarda a ordem de serviço. Por se tratar de um projeto complexo (integrado por túneis, aquedutos, adutoras, elevatórios e barragens), não ficará pronto em menos de quatro anos. Ou seja: se, na melhor das hipóteses, o ramal fosse iniciado em 2017, só seria entregue em meados de 2021. Até lá, o bicho e o povo da região mais castigada pela estiagem já teriam morrido de sede. O atraso na execução da Adutora e do Ramal do Agreste fez a Compesa mudar os planos. Na verdade, antecipá-los.

É aqui que entra em cena o Sistema Adutor do Moxotó, obra considerada prioritária pelo governo do Estado e que vai colocar em operação, de forma mais rápida, um trecho da Adutora do Agreste que deveria ser alimentado pelo ramal. Serão 67 quilômetros de adutora que vão abastecer Arcoverde, no Sertão, e mais seis cidades do Agreste: Pesqueira, Alagoinha, Sanharó, Belo Jardim, Tacaimbó e São Bento do Una. A previsão é de que a execução seja concluída em 2017. Mas para que a água, de fato, chegue às torneiras, é preciso que o governo federal conclua o trecho da transposição que vai até Sertânia. “Vamos tentar conciliar o nosso cronograma de execução com o da transposição para que não haja um descompasso entre as ações”, afirma o presidente da Compesa, Roberto Tavares.

Desde que as torneiras dos recursos vindos de Brasília escassearam, Tavares vive com o mapa de Pernambuco debaixo do braço, estudando alternativas para dar efetividade ao que já existe pronto da Adutora do Agreste. E, o mais importante, tentando garantir dinheiro para esses projetos. “Nossa prioridade número 1 é concluir a espinha dorsal da adutora”, diz o presidente da Compesa, se referindo ao trecho que margeia a BR-232, começando no Sertão (perto de Custódia) e seguindo até Caruaru, no Agreste.

"Esse sofrimento só vai acabar quando a água do Rio Pirangi chegar para gente”

Olímpio João da Silva, aposentado e morador de Agrestina

espinha dorsal é prioridade

A lógica é de natureza prática: sem isso, não tem engenharia financeira ou logística que dê certo. “Se o peixe vai comer pela boca ou por uma veia, não interessa. O lugar por onde a comida passa é o que importa. Se eu não fizer a espinha dorsal, o corpo não fica em pé”, diz Tavares, numa analogia para destacar a necessidade de concluir o traçado estrutural da adutora.

O presidente da Compesa faz uma conta e diz que precisaria hoje de cerca de R$ 350 milhões (dos cerca de R$ 630 milhões que ainda faltam ser liberados) para dar utilidade aos 45% que estão prontos da Adutora do Agreste. Nessa contabilidade, ele inclui a estrutura principal da adutora, o Sistema Adutor de Moxotó e a construção de 20 poços profundos na cidade Tupanatinga, que levariam água para sete cidades, entre elas Itaíba, Águas Belas e Iati. Mesmo com todo o planejamento, ele reconhece que 2017 ainda será um ano de sofrimento para o povo do Agreste. “É o ano que nós esperamos concluir todas essas obras. Mas a velocidade de execução vai depender da disponibilidade financeira do governo federal. Planejamento nós tivemos, o que faltou foi dinheiro para executá-lo”, diz Tavares.

A segurança hídrica que o Agreste hoje tanto carece chegou primeiro no Sertão, E fez toda a diferença. A região não depende mais de água acumulada em barragens. É abastecida por sistemas adutores integrados que vêm do Rio São Francisco. O sertanejo, tão associado ao drama da seca, experimenta hoje uma outra realidade. Não que a estiagem prolongada também não tenha feito estragos no Sertão. Mas já não produz mais as imagens de moradores mendigando por água nas torneiras. Severino Ramos da Silva não consegue conter as lágrimas. “O que a gente está vivendo hoje é vergonhoso, uma calamidade.” Ele mora em Agrestina e sonha com o dia que a Adutora de Pirangi vai amenizar o sofrimento de viver entre baldes, tonéis e tudo o que possa juntar um pouco de água. Um cotidiano de descaso que ainda humilha o Agreste.

Soluções emergenciais para socorrer o Agreste

Entenda em 10 pontos o que essas obras vão representar para os moradores da região

Vai levar água do Rio Pirangi, em Catende, na Mata Sul do Estado, para reforçar a Barragem do Prata, localizada em Bonito e hoje o principal reservatório do Agreste, depois do colapso da Barragem de Jucazinho, em setembro de 2016.

Vão ser atendidas: Caruaru, Santa Cruz do Capibaribe, Toritama, Agrestina, Altinho, Ibirajuba, Cachoeirinha, Cumaru, Passira e Riacho das Almas.

800 mil pessoas serão beneficiadas com o reforço da adutora.

A vazão do sistema adutor será de 500 litros por segundo.

Quando a Adutora de Pirangi estiver funcionando, o Sistema do Prata vai trabalhar com 950 litros por segundo, sendo 850 litros por segundo para Caruaru e 100 litros por segundo para a região de Agrestina, Cachoeirinha e Ibirajuba.

R$ 60 milhões é o valor do empreendimento, que contempla outras intervenções, principalmente no Sistema do Prata. Os recursos são do Banco Mundial.

27 quilômetros é a extensão da adutora, que terá duas estações elevatórias (para bombeamento) garantindo o funcionamento do sistema.

O primeiro trecho tem uma extensão de 5,6 quilômetros. O segundo de 6,3 quilômetros, mais a reabilitação de um trecho de 15 quilômetros.

60% da obra já estão concluídos.

Fevereiro de 2017 é o prazo da Compesa para entregar a obra pronta.

Vai captar água no Eixo Leste da Transposição do Rio São Francisco, antecipando o funcionamento da Adutora do Agreste, que deveria ser alimentada pelo Ramal do Agreste, cuja obra foi licitada, mas ainda não foi dada ordem de serviço.

Será realizada em duas etapas e prevê a implantação de 67 quilômetros de adutora e três estações elevatórias.

O primeiro lote já foi contratado e as obras, iniciadas. O segundo lote está em processo de licitação.

Vai abastecer Arcoverde, no Sertão, e outros seis municípios do Agreste: Pesqueira, Alagoinha, Sanharó, Belo Jardim, Tacaimbó e São Bento do Una.

325 mil pessoas serão beneficiadas pela obra.

A primeira etapa da adutora está sendo feita no município de Sertânia.

R$ 100 milhões é o investimento previsto para a implantação do sistema adutor. Os recursos são do Ministério da Integração (mesmo convênio da Adutora do Agreste).

De Belo Jardim, a adutora será interligada ao Sistema Integrado do Bitury para atender as cidades de Tacaimbó, São Bento do Una e Sanharó.

Para entrar em operação, depende da conclusão da obra da Transposição, em Sertânia.

A previsão é de que fique pronta até o final de 2017.

É mais uma alternativa para antecipar a operação da Adutora do Agreste.

20 poços profundos serão perfurados pela Compesa. Quatro já foram concluídos. A licitação para os 16 restantes será lançada no início de dezembro.

Os poços serão conectados à Adutora do Agreste, através de um conjunto de adutoras.

7 cidades serão atendidas, entre elas, Itaíba, Águas Belas e Iati.

Vai injetar água, no sentido inverso, para as cidades de Buíque, Pedra, Venturosa.

Os poços estão sendo construídos numa área bastante arenosa e que fica distante da rodovia. É necessário construir estradas vicinais para chegar até os locais de perfuração.

R$ 52 milhões é o custo da perfuração dos poços e do sistema adutor.

110 mil pessoas serão beneficiadas.

A vazão do sistema adutor, a partir dos poços, é de 200 litros por segundo.

A previsão é que fique pronta até o final de 2017.

Vai levar água da Barragem de Serro Azul, em Palmares, na Mata Sul, até a Adutora do Agreste, na localidade de Encruzilhada de São João, em Bezerros.

Vai abastecer São Caetano, Tacaimbó, Belo Jardim, Sanharó, Santa Cruz de Capibaribe, Toritama, Bezerros e Gravatá.

O convênio é com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

A licitação deverá ser lançada em dezembro de 2016.

R$ 150 milhões é o valor da obra

800 mil pessoas beneficiadas.

4 estações de bombeamento.

58 quilômetros de adutora.

A vazão será de 500 litros por segundo.

A expectativa de conclusão da obra é 1º semestre de 2018.

Implantação de uma adutora interligando o Sistema Siriji, em Vicência, na Mata Norte, ao Sistema Palmerinha, em Bom Jardim, e à cidade de Surubim e região.

Vai permitir o reforço do abastecimento a partir da Barragem de Palmerinha, também chamada de Pedra Fina, responsável pelo atendimento de Bom Jardim, João Alfredo e Orobó.

Com a interligação, a Compesa irá captar 150 litros de água por segundo.

São 37 quilômetros de adutoras de 500mm de diâmetro.

A obra receberá um investimento de R$ 40 milhões e deverá beneficiar 12 municípios da região.

A Compesa pretende ampliar o atendimento deste projeto para outras cidades atendidas pelo Sistema Jucazinho, como Casinhas, Santa Maria do Cambucá, Vertentes e Vertente do Lério.

Os recursos serão do governo federal, através da Defesa Civil.

130 mil pessoas serão beneficiadas.

6 meses é o prazo de execução da obra

A previsão de entrega da obra pronta é primeiro semestre de 2017.

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