Desemprego assombra polo de confecções

As lavanderias são o coração do polo têxtil do Agreste. A água, a matéria-prima que bombeia e faz esse coração pulsar. Uma não existe sem a outra. Sem água não há lavagem do jeans e sem jeans sai de cena o carro-chefe que movimenta uma das principais economias da região. A crise hídrica, provocada por cinco anos consecutivos de seca, jogou o polo num cenário devastador de demissões, queda nas vendas e fechamento de lavanderias e fabricos. O colapso total da Barragem de Jucazinho, que alimentava as torneiras das cidades produtoras de confecção, foi o golpe derradeiro.

Anderson Pereira dos Santos é um sobrevivente. Resistiu, heroicamente, a uma onda de demissões que atingiu todos que trabalhavam no seu setor. Só sobrou ele. Ficar não lhe trouxe tranquilidade. “Do jeito que eles foram demitidos, eu também posso ser.” Anderson é funcionário da maior lavanderia de Vertentes, uma das cidades do polo de confecções do Agreste. Num trabalho de formiguinha, desfia o jeans, peça a peça, para dar diferentes efeitos de textura a cada uma delas. O medo de Anderson é chegar pela manhã e receber o aviso: “Não precisa mais voltar”. Um temor que não é só dele. Por causa da falta d’água, a lavanderia corre o risco de fechar as portas, até o fim do ano. E colocar na rua, de uma tacada só, 40 funcionários. Em todo o polo de confecções, 20% dos empregos formais já deixaram de existir.

A equação é fatal: não há como trabalhar sem água. E a que tem está cada vez mais cara e difícil de conseguir. Por dia, a lavanderia na qual Anderson é funcionário consome 200 mil litros de água. Antes era abastecida por cinco poços. Dois já secaram. Se ficar dependendo só do carro-pipa, é a falência. Há dois anos, a empresa empregava 60 pessoas. Demitiu 20. A produção também caiu. Reduziu 25% nesse período. A lavanderia recebia, na época, 200 mil peças por mês. Agora só consegue lavar 50 mil peças. “A gente sabe que os empregos da região dependem do jeans. É triste botar um pai de família para fora. Mas não tem o que fazer. Se não chover, o desemprego vai ser geral”, prevê o gerente da empresa, Gilvan Siqueira.

Funcionário segurando jeans
Demissões atingiram lavanderias do Agreste

O cenário traçado por ele já é realidade em Toritama, principal produtora de jeans do polo têxtil de Pernambuco. Das 76 lavanderias regularizadas no município, 22 fecharam as portas nos últimos dois anos. Pelo menos a metade teve como causa principal do encerramento das atividades o alto custo com água. Ronaldo Jonas da Silva conhece os dois lados do balcão. Presidente da Associação Comercial e Industrial de Toritama, tem os dados da crise em números e comparativos. Mas tem, mais do que tudo, uma história para contar. Dono de uma das lavanderias de médio porte na cidade, amargou prejuízos de R$ 1 milhão e teve que demitir 50 funcionários. Fechou as portas e arrendou o maquinário para não perder por completo. Em pouco mais de dois anos, a crise hídrica e econômica levou um patrimônio que o empresário passou décadas para construir.

“Assim como eu, muitos tiveram que se desfazer de bens pessoais para pagar dívidas. E a conta não fecha. Porque o jeans representa 90% da economia de Toritama. Se esse comércio vai mal, todas as atividades em volta sentem os reflexos da crise”, ressalta. Ronaldo avalia que a seca provocou uma queda de 40% na produção têxtil da cidade. “Hoje a nossa cadeia produtiva perdeu lucratividade. As demissões são diárias. Se essa estiagem continuar, eu não sei até quando a nossa indústria de confecções vai conseguir se manter.” As consequências vão muito além do município. Toritama é responsável por cerca de 45% do jeans comercializado em Caruaru. E boa parte da mão de obra das lavanderias e do comércio da cidade vem de Vertentes. A quebradeira em um canto rebate diretamente em outro.

A situação começou a se agravar no ano passado. As cidades do polo têxtil conseguiram driblar os primeiros anos de seca, mas a estiagem prolongada foi secando os reservatórios até atingir o mais importante da região: a Barragem de Jucazinho, em colapso total desde setembro deste ano. O presidente do Núcleo Gestor da Cadeia Têxtil e de Confecções de Pernambuco, Fred Maia, diz que as projeções de queda para o setor estão relacionadas diretamente à seca. “Em 2015, a gente produziu em torno de 720 milhões de peças. Este ano, com o agravamento da crise hídrica, a expectativa é de uma redução de 20 milhões de peças. Isso representa 13% do consumo do Brasil, o que significa um impacto grande”, destaca.

"Se essa estiagem continuar, eu não sei até quando a nossa indústria de confecções vai conseguir se manter.”

Ronaldo Jonas da Silva, presidente da Associação Comercial e Industrial de Toritama

queda na produção

O que Toritama enfrenta em relação às lavanderias Jataúba está vendo acontecer com as suas fábricas de confecções. Os custos com água para manter funcionários nos fabricos inviabilizaram o negócio. Sem conseguir pagar as despesas com caminhão-pipa, Roseângela Josefa de Araújo vendeu as máquinas, demitiu funcionários e mudou de ramo. No lugar onde produzia centenas de peças íntimas para a Feira da Sulanca, abriu um mercadinho. “Não adianta colocar muita gente para trabalhar, porque os meus gastos mensais com água eram muito altos. Só com a água “de gasto”, para consumo, eu pagava R$ 350. Fora a potável, para beber. Estava trabalhando praticamente para pagar água”, diz. Ela admite que, apesar da tristeza de desfazer-se de todo o maquinário, hoje se sente mais aliviada. “Virou um pesadelo. Eu vivia fazendo conta, atrás de caminhão-pipa. Essa seca está acabando com tudo. E estava tirando também o meu sossego.”

Na mesma rua, no Centro de Jataúba, onde Roseângela transformou o fabrico em mercadinho, Sonicleide Farias faz malabarismos para se manter de pé. Não tem sido fácil. Por semana, ela vendia 20 mil peças de moda íntima para Santa Cruz do Capibaribe. Hoje comercializa cerca de 8 mil peças. Isso, quando as vendas estão boas. “Quando a semana é ruim, no máximo, consigo 2 mil peças”, compara. Depois de ver as vendas despencarem, decidiu ir atrás de clientes novos nas redes sociais e em outros Estados. Foi o caminho para não perder a batalha para a falta d’água. “Eu estou conseguindo me sobressair porque peguei a estrada e abri mão de parte da minha lucratividade. “É melhor ganhar menos do que perder tudo.” Tem sido esse o raciocínio entre os empresários do setor. Em vez de contabilizar lucros, eles calculam prejuízo para saber até onde aguentam ir.

fugindo do carro-pipa

A hipótese de depender exclusivamente do carro-pipa para alimentar um empreendimento que chega a receber, por semana, cerca de 150 mil pessoas se mostrava totalmente inviável. Tanto do ponto de vista logístico quanto do financeiro. A saída teria que ser outra: a prevenção. Há quatro anos, quando as previsões já apontavam para um cenário de seca prolongada, o Moda Center Santa Cruz resolveu se planejar e fazer investimentos. Construiu uma cisterna com capacidade para 300 mil litros e perfurou poços. A estratégia adotada pelo maior centro atacadista do Brasil, com mais de 10 mil pontos comerciais, entre boxes e lojas, mostrou-se certeira. E está fazendo escola. Em Toritama, o Parque da Feira segue o mesmo caminho. Um reservatório com capacidade para 700 mil litros está sendo construído no subsolo do estacionamento do empreendimento. Esperar só pela chuva já mostrou ser um péssimo negócio para a indústria têxtil da região.

O gerente-geral do Moda Center, George Pinto, faz as contas e mostra como a dimensão do centro atacadista exigia um planejamento diferenciado. “No pico das feiras, a gente chega a consumir, por hora, 100 mil litros, totalizando um milhão de litros de água, por feira. Imagina o custo e a operação de guerra para garantir esse abastecimento. Já decidimos, inclusive, construir um segundo reservatório para melhorar a nossa capacidade de armazenamento”, afirma o administrador. Santa Cruz é hoje uma das 25 cidades do Estado que estão em pré-colapso, submetida a um severo esquema de racionamento.

Em Toritama, a ideia é aproveitar a água da chuva para ajudar a encher o novo reservatório. O presidente da Associação dos Lojistas do Parque da Feira, Prudêncio Gomes, explica que a falta d’água impactou nas vendas e gerou uma queda de 30% nos negócios. “Cinco anos de estiagem estão pesando no bolso de empresários, comerciantes e compradores. É um custo altíssimo no meio de uma crise econômica. Temos que aprender a não desperdiçar nem mais uma gota. O reservatório vai aproveitar a água da chuva que cai no telhado e que sempre foi jogada fora”, explica Prudêncio Gomes.

O reaproveitamento da água tem sido a salvação para muitas lavanderias do Agreste não fecharem as portas. Como é preciso fazer um investimento em infraestrutura, nem todas tiveram fôlego para isso. Mas quem apostou no reúso está ganhando sobrevida. Para o presidente do Núcleo Gestor da Cadeia Têxtil e de Confecções de Pernambuco, Fred Maia, se não fosse o sistema de reciclagem da água a situação de desemprego no setor e de fechamento de lavanderias seria ainda mais grave.

“A água é essencial na lavanderia. As que têm reúso estão em situação melhor. As que não têm, muitas estão fechando, porque não suportam o custo de ir buscar água. As empresas que fazem reúso conseguem lavar 1.600 peças com a mesma água que lavaria 1.000 peças. É mais barato reciclar do que comprar água de caminhão-pipa.” Mais barato e mais viável, já que encontrar água tem sido uma missão cada vez mais impossível no Agreste massacrado pela estiagem.

A crise hídrica no polo têxtil

A seca tem sido devastadora para o polo de confecções do Agreste. Demissões, fechamento de lavanderias e queda de produção são efeitos perversos da maior estiagem dos últimos 60 anos.

20%

dos empregos formais da região deixaram de existir.

20%

é a média da queda da lucratividade das empresas que atuam no setor, devido ao aumento dos custos, principalmente com a compra de água.

A produção do polo de confecções do Agreste representa

13%

do que é consumido no mercado brasileiro.

Em 2015, foram produzidas em torno de 720 milhões de peças. Em 2016, com o agravamento da estiagem, a expectativa é de uma redução de 20 milhões de peças.

45%

do jeans comercializado em Caruaru é produzido na cidade de Toritama.

76

lavanderias eram regularizadas em Toritama. Dessas, 20 fecharam as portas nos últimos anos. Pelo menos a metade teve como causa principal do fechamento o alto custo com água.

300

lavanderias estavam em atividade nas principais cidades do polo têxtil, há cerca de 3 anos. Hoje só 60% dessas empresas continuam funcionando.

60%

do que é fabricado no polo de confecções é vendido para milhares de pessoas que se deslocam até as feiras da região para comprar os produtos. Por isso a necessidade de uma grande oferta de água para receber esses clientes.

60%

da água pode ser reaproveitada nas lavanderias que possuem sistema de reuso instalado.

A água utilizada, por exemplo, para lavar 1.000 peças consegue alcançar 1.600 peças com o sistema de reuso.




Mais de

18

mil empreendimentos no polo têxtil estão espalhados por 18 municípios do Agreste. Os mais importantes são Caruaru, Santa Cruz do Capibaribe, Toritama, Brejo da Madre de Deus, Surubim, Vertentes e Jataúba.

30%

é o percentual de queda nas vendas do Parque da Feira, que reúne 300 lojas e 3 mil bancos, na cidade de Toritama.

120

litros de água eram usados para lavar uma calça jeans. Com o aprimoramento das técnicas e o aumento da eficiência, hoje há empresas que utilizam 49 litros no processo de lavagem de uma peça de jeans.

Pernambuco ocupa o 2º lugar na produção nacional de peças de confecção no geral. Só fica atrás do Estado de São Paulo.

90%

das empresas do polo de confecções do Agreste são de pequeno porte.

Muitas das lavanderias que não têm um sistema de reuso de água fecham porque não conseguem arcar com os custos de comprar água por meio de carros-pipa.

O processo de tratamento para garantir o reuso da água hoje é muito mais barato do que comprar água nova por caminhão-pipa.

15%

das peças de jeans produzidas no Brasil saem do polo de confecções do Agreste, principalmente da cidade de Toritama.

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