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Para além dos safáris

Mona Lisa Dourado

A África do Sul é bem próxima do Brasil. Muito mais do que as oito horas de voo entre os dois países sugerem. A diversidade cultural, a natureza vigorosa, a musicalidade, a alegria e até o gosto pela mesa farta fazem qualquer brazuca se sentir em casa na “Nação Arco-Íris”. A descoberta dessa hospitalidade, regada a vinho pinotage e cerveja artesanal, tem levado cada vez mais viajantes a cruzar o Atlântico.

 

Mona Lisa Dourado / JC

Turistas exibem a bandeira sul-africana no Cabo da Boa Esperança

 

Desde a Copa do Mundo de 2010, sediada em solo sul-africano, cresce a quantidade de brasileiros que desembarca ano a ano por lá. Antes do Mundial, não passavam de 17 mil. Em 2015, foram 46 mil.

No que depender da oferta de voos, os números só tendem a subir. A partir de 2 de outubro, a Latam começa a operar frequências regulares de São Paulo a Joanesburgo, aumentando a disponibilidade de bilhetes e a competitividade na rota, hoje ocupada apenas pela South Africa Airlines. As passagens de ida e volta custam a partir de R$ 1.642 ou 58 mil milhas.

 

NUANCES - RESTAURANTE

Litoral banhado por dois oceanos (Atlântico e Índico) é convite à vida outdoor

 

Com as cotações ainda proibitivas do dólar e do euro desencorajando as viagens aos Estados Unidos e à Europa, a África do Sul desponta como alternativa vantajosa. Frente à moeda local, chamada de rand, o real vale quatro vezes mais. Nessa proporção, dá para turistar sem culpa, e sem trazer dívidas na bagagem. Especialmente num lugar onde a relação custo-benefício em hotéis, restaurantes e serviços em geral é das mais justas.

 

Mona Lisa Dourado/JC

Visitantes têm oportunidade de ver animais selvagens de perto nos safáris pela savana

 

De surfistas a enófilos, de viajantes que prezam pela sofisticação a aventureiros em busca dos mistérios da savana, ninguém deixa de ser contemplado pelo extenso cardápio de atrações turísticas. O litoral banhado por dois oceanos (Atlântico e Índico), montanhas dignas de cartão-postal e reservas naturais repletas de animais selvagens são os highlights do roteiro, que ainda inclui belas propriedades vinícolas, cidades coloniais, museus de padrão internacional, vibrantes mercados públicos, hospedagens de charme, gastronomia cinco estrelas e o maior shopping a céu aberto do continente africano.

 

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Vinícolas como a Maison Estate harmonizam alta gastronomia com os elegantes vinhos locais

 

Em oito dias no país, divididos entre a Cidade do Cabo, Joanesburgo e o complexo de entretenimento Sun City, pude degustar um pouco de quase tudo desse menu de sabores marcantes.

 

 

Tão familiar quanto indigesto, só um aspecto não cai bem. Na África do Sul, como no Brasil, a desigualdade social choca. Impossível de ignorar, reflete mais de quatro décadas de apartheid, o regime de segregação racial que negava direitos essenciais aos negros e deixou cicatrizes profundas na sociedade sul-africana. A eleição do líder Nelson Mandela como o primeiro presidente negro do país, em 1994, pôs abaixo o sistema e trouxe melhorias concretas a curto prazo. Pouco mais de duas décadas de experiência democrática, no entanto, ainda não foram suficientes para debelar os altos índices de pobreza, principalmente na periferia das grandes cidades.

 

Inspirado na autobiografia homônima de Nelson Mandela, publicada em 1994, o longa acompanha a jornada de um dos maiores líderes mundiais. Desde a sua infância numa pequena aldeia rural até a posse como primeiro presidente negro da África do Sul, o filme se debruça sobre os mais marcantes momentos da luta de Madiba (interpretado por Idris Elba) contra o apartheid, passando pelos 27 anos em que esteve encarcerado como prisioneiro político.
Adaptação da biografia Winnie Mandela: A Life (Winnie Mandela, uma vida), o drama é dedicado à ativista Winnie Madikizela (Jennifer Hudson). Segunda esposa de Nelson Mandela (Terrence Howard), Winnie foi uma das principais militantes da luta antiapartheid. Principalmente após a prisão do marido, enfrentou assédio contínuo da polícia de segurança e mais de um ano de confinamento na solitária, proibida de ver as filhas pequenas.
A trajetória da poetisa sul-africana Ingrid Jonker (Carice von Houten) inspira o longa baseado em fatos reais. Rejeitada pelo pai, que trabalha como censor no regime do apartheid, ela sofre para encontrar uma casa e um amor, refugiando-se na escrita. O reconhecimento como poeta vem quando Nelson Mandela, em seu primeiro discurso para o parlamento da África do Sul, em 1994, lê seu poema The dead child of Nyanga (A criança assassinada pelos soldados de Nyanga).
Jack Ngubane reencontra seu antigo parceiro Twala, depois de cinco anos preso por participar de um assalto. Além de ter conseguido ficar em liberdade, o amigo ainda se casou com a sua antiga noiva. Jack tenta então reconstruir sua vida, mas um empréstimo negado pelo banco lhe devolve ao mundo do crime, quando ele resolve aceitar um trabalho que pode render US$ 2 milhões.
Estrelado por Morgan Freeman (no papel de Mandela) e Matt Damon (interpretando François Pienaar, capitão da equipe sul-africana de rugby), o enredo é baseado no livro de John Carl sobre a Copa do Mundo de Rugby de 1995, realizada na África do Sul logo depois do fim do apartheid e da eleição de Mandela para a presidência.
Gravado em Joanesburgo, Distrito 9 é um longa de ficção científica, com uma mensagem subliminar das mais realísticas. Wikus van de Merwe é um burocrata africâner cuja missão é deslocar uma raça de alienígenas presos no Distrito 9, uma favela de Joanesburgo, para um campo de refugiados.
Skin é um filme biográfico baseado no livro When she was white: the true story of a family divided by race (Quando ela era branca: a verdadeira história de uma família dividida pela raça), escrito por Judith Stone. O drama narra a saga de Sandra Laing. Nascida de pais brancos, ela foi reclassificada como “coloured” (mestiça) durante o apartheid e enviada a outro bairro distante da família.
O filme é uma adaptação da obra-prima homônima do Nobel de literatura J.M. Coetzee. O protagonista é o professor universitário David Lurie (John Malkovich), que vê sua carreira desabar depois de um caso amoroso com uma aluna. Sem emprego e com a reputação abalada, decide visitar a isolada fazenda de sua filha Lucy. No início, ele pensa ter encontrado sossego, até que ele e a filha são violentamente atacados por três jovens negros. Aos poucos, os dramas pessoais vão intrinsecamente sendo conectados à conjuntura de uma África do Sul em transição pós-apartheid.
Os 18 anos em que Nelson Mandela (Dennis Haysbert) ficou preso em Robben Island são o pano de fundo da narrativa baseada em fatos reais contada a partir da perspectiva do carcereiro James Gregory (Joseph Fiennes), cuja vida foi completamente transformada a partir da convivência com o líder sul-africano.
O lado sombrio de Joanesburgo e o choque de classes com a ascensão de uma burguesia negra pós-apartheid são os ingredientes do longa. O protagonista é Tsotsi, um jovem bandido de rua que rouba um carro e descobre um bebê no banco de trás. Tsotsi leva a criança para o gueto onde vive e convence a jovem mãe, Miriam (Terry Pheto), a cuidar do “seu filho”, numa relação cheia de confrontos.
Adaptação do romance premiado de Alan Paton, o drama descortina a relação entre dois pais – um pastor negro e um fazendeiro branco rico. Ambos vêm da mesma área rural, mas nunca se encontraram. Um dia, o pastor Stephen Kumalo (James Earl Jones), recebe uma carta convocando-o a ir a Joanesburgo, quando seu filho, Absalão Kumalo (Eric Miyeni ) é acusado do assassinato de um menino branco.
No auge do apartheid, Sarafina (Leleti Khumalo) é uma jovem negra alheia à discussão sobre direitos civis, até que sua brilhante professora Mary Masembuko (Whoopi Goldberg) é presa. Com a consciência política que adquire sobre a realidade ao seu redor, se une aos colegas em um levante de proporções imprevisíveis.
Baseado em fatos reais, o longa retrata trechos da vida do ativista Steve Biko (Denzel Washington) e sua relação com o jornalista Donald Woods (Kevin Kline), crítico da atuação de Biko como militante antiapartheid. Quando Biko convida Woods para visitar um bairro negro e testemunhar o efeito das restrições impostas pelo governo, seu ponto de vista muda e uma amizade, acompanhada de perto pela polícia, começa a se desenvolver entre eles.
Come Back, Africa é um semidocumentário apoiado por organizações negras norte-americanas, realizado ilegalmente na África do Sul no auge do apartheid. Conta a história do camponês Zachariah, de origem Zulu, que se muda para Joanesburgo em busca de emprego. Na cidade, se depara com o racismo dentro e fora do trabalho. Logo, sua esposa e seu filho juntam-se a ele no subúrbio de Sophiatown, onde a esperança dá lugar a uma grande tragédia.
Zulu foi o primeiro filme gravado na África do Sul que ganhou reconhecimento internacional. Retrata a batalha de Drift Rorke, uma mais famosas da Guerra Anglo-Zulu, quando 150 soldados britânicos enfrentaram quatro mil guerreiros zulus.

Em que ficou o legado de Mandela? Por toda a parte. Onipresente não apenas nos monumentos em homenagem à sua luta pela igualdade, como na memória do povo, consciente de que onde há liberdade há esperança.

 

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Legado de Mandela está presente em museus, monumentos e na vida diára dos sul-africanos

 

 

 

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Diversão, história e boemia à beira-mar

Mona Lisa Dourado

Se cidade fosse gente, Cape Town seria aquela figura descontraída, de espírito jovem, adepta da vida ao ar livre, cosmopolita e cheia de história pra contar. Um dos dez destinos mais cobiçados do planeta, a prima africana do Rio de Janeiro sintetiza o que há de melhor na nação arco-íris.

 

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Cabeça de Leão (Lion’s Head) é uma das montanhas emblemáticas da Cidade do Cabo

 

Esparramada entre o mar e as montanhas, daí a semelhança com a Cidade Maravilhosa, Cape é irresistível na junção das riquezas de uma geografia privilegiada com as comodidades de uma metrópole multicultural.

O primeiro caso de amor que o visitante estabelece ao desembarcar na cidade é com uma gigante de pedra. A Table Mountain, o platô em forma de mesa a 1.086 metros de altura, exerce uma atração quase hipnótica, que leva 900 mil pessoas por ano ao seu topo.

 

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Bondinho leva ao topo da Table Mountain em cerca de cinco minutos

 

Escolha um dia de céu aberto para subir, de preferência do meio para o fim da tarde, quando a luz dourada do pôr do sol torna a paisagem ainda mais estonteante. A forma mais rápida e prática de chegar lá é no bondinho que carrega até 65 pessoas por vez e faz a viagem em cerca de cinco minutos, a 240 rands (R$ 60) ida e volta.

Detalhe: o teleférico tem chão giratório. Significa que você pode fotografar o trajeto em 360 graus, sem precisar disputar a janela com ninguém (\./). Uma possibilidade desafiadora para os mais dispostos é subir de bondinho e descer a pé, ou o contrário. Plano na maior parte do tempo, o caminho dura cerca de três horas, permitindo apreciar as variações do relevo e da vegetação. Para os amantes dos esportes radicais, outra alternativa é descer de rapel, quase beijando a rocha.

 

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Do alto da Montanha da Mesa, visitante tem vista em 360 graus da Cidade do Cabo

 

Uma vez no cume, wow! Você descobre por que a Montanha da Mesa é patrimônio mundial da Unesco e considerada uma das Sete Novas Maravilhas Naturais do Mundo, ao lado da Floresta Amazônica e das Cataratas do Iguaçu. O símbolo maior de Cape Town é tão farto em belezas que um dia pode ser pouco para degustá-lo.

Trilhas bem sinalizadas possibilitam dar a volta completa no platô em percursos de até três quilômetros. Em cada mirante, desvenda-se uma nova perspectiva. De um lado, contempla-se Camps Bay e as entrecortadas praias da costa. Do outro, está o Centro, o porto e o Green Point, onde fica o modernoso estádio reformado para a Copa de 2010. Mais ao fundo, emergem os contornos da ilha-prisão Robben. Fique até o início da noite e ganhe de brinde o espetáculo de luzes da cidade.

 

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Visitante pode percorrer trilhas de até 3 km no topo da Table Mountain até o pôr do sol

 

A estrutura lá em cima surpreende. Tem lanchonete, loja de suvenir e até wi-fi grátis, além de mesinhas ao ar livre para quem providenciou o piquenique e o vinhozinho propício para driblar o vento frio que começa a bater justo na hora em que a fila para descer o bondinho ganha corpo.

 

SAIBA MAIS:

Se você tem poucos dias na cidade, a qualquer hora, quando o céu abrir, nem pense duas vezes. Corra para a Table Mountain. Ventos de até 100 km ou neblina intensa costumam fechar o acesso. Na base da montanha você encontrará um painel indicando as condições climáticas. O site oficial também mantém informações atualizadas sobre a temperatura, visibilidade e previsão de espera na fila. Uma forma de ganhar tempo é comprar seu ticket diretamente no site da Table Mountain. O bilhete ainda tem a vantagem de ser válido por 14 dias a partir da data escolhida. Não esqueça de levar um casaco corta-vento, principalmente se for se estender até a noite.

 

A Table é a mais célebre, mas não a única moldura da fotogênica Cape Town. Signal Hill, Lion’s Head e o morro Doze Apóstolos são outras das personagens ilustres que acompanham o turista na cidade, principalmente no caminho para as praias.

 

 

O litoral generoso tem pedaços de areia para todos os públicos. Próximo ao Centro, está Camps Bay, a mais badalada, especialmente nos domingos de verão. Não à toa. Além da infraestrutura de bares e restaurantes à beira-mar, a praia tem o visual mais incrível da costa. A imagem formada pelo contraste entre a areia branca, o mar azul e as montanhas de fundo parece pintada à mão.

 

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Imagens captadas em Camps Bay parecem pintadas à mão. Ao fundo, o Morro Doze Apóstolos

 

A vizinha Clifton chama a atenção pelo luxo desmedido das mansões de suas encostas. Dividida em quatro partes, agrada de  famílias com crianças a adeptas de topless e jovens em busca de agito. Já Sand Bay recebe os nudistas, enquanto Boulders abriga uma colônia de simpáticos pinguins-africanos.

 

South Africa Tourism/Divulgação

Clifton é dividida em quatro partes para todos os perfis de público / South Africa Tourism

 

E por falar em vida selvagem, de Hout Bay, a “pequena baía arborizada” onde está um porto de pesca, saem passeios para a Ilha das Focas. O santuário de aves e lobos-marinhos do Cabo fica a 20 minutos de navegação turbulenta. A recompensa é ver os animais aos milhares, nadando, namorando e alimentando os filhotes. Na volta, aproveite para garimpar pechinchas na diversificada feirinha de artesanato.

 

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De Hout Bay partem os passeios para a Ilha das Focas

 

Para o surf, há boas ondas em Muizenberg, Noordhoek, Kalk Bay, Outer Kom, Misty Cliffs, Milnerton, Table View, Big Bay… A lista vai longe. Os surfistas, aliás, são praticamente os únicos espécimes humanos a encarar as águas geladas (em torno dos 10º) do sul da África. Como se não bastasse, o mar ainda é coalhado de tubarões. Em muitos trechos, há sinalização com bandeiras que indicam o perigo. Banho por essas paragens, só se for de sol.

 

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Aproveite da garimpar pechinchas da feirinha de artesanato de Hout Bay

 

Mais vale descortinar o horizonte soberbo nos vários níveis da Chapman’s Peak Drive, a sinuosa via de 9 quilômetros e 114 curvas que margeia o litoral e vale cade centavo dos 40 rands (R$ 10) de pedágio.

 

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Sinuosa Chapman’s Peak Drive oferece vistas espetaculares do litoral de Cape Town

 

O trajeto espetacular conduz até o Cabo da Boa Esperança. O check-in no cartão-postal emblemático da África já vale pela relevância histórico-geográfica. Uma placa escrita em inglês e afrikaner com os respectivos dados de latitude e longitude marca o local onde gente do mundo todo se reveza para garantir o clique no ponto famoso.

 

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Descoberta do Cabo da Boa Esperança mudou a história do comércio mundial

 

DA TORMENTA À ESPERANÇA

Até o século 15, as embarcações que se atreviam a navegar por ali eram tragadas por ventos vorazes e mares tempestuosos. Por causa das condições adversas, o lugar foi chamado inicialmente de Cabo das Tormentas pelo português Bartolomeu Dias, o primeiro a contorná-lo, em 1488. Quando o rei João III percebeu que finalmente chegar às Índias Orientais era um empreendimento viável, rebatizou o cabo com o nome atual.

A jogada de marketing incentivou outros navegadores a cruzar a esquina Ocidente-Oriente, até que dez anos depois Vasco da Gama finalmente estabeleceu a rota marítima que mudou a história do comércio mundial. O Cabo da Boa Esperança passou a ser, então, ponto de abastecimento para os navios de passagem em busca de especiarias.

O que não costuma constar nos livros escolares é que o encontro entre os oceanos Atlântico e Índico não se dá de fato ali, e sim 260 quilômetros mais a sudeste, no quase desconhecido Cabo Agulhas.

 

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Parque histórico-natural é farto em opções de lazer para ecoturistas

 

Como integrante do Parque Natural Table Mountain, o Cabo da Boa Esperança ainda oferece variadas opções de lazer, como trekking, ciclismo e observação de baleias, numa área que se estende por 7.750 hectares e engloba 40 quilômetros de praias semi-desertas, de Schuster’s Bay a Smitswinkel Bay. Ideal para um dia de bate-perna ecológico.

A vegetação rasteira concentra 1.100 espécies de plantas, entre elas variações da Protea, flor símbolo da África do Sul. Só é preciso ter cuidado com os babuínos, que costumam se aproximar quando sentem o cheiro de comida. Placas por toda parte indicam a presença dos macacos.

 

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Turista contempla as belezas do Cabo da Boa Esperança

 

No Centro de Visitação, o turista tem acesso a mapas para explorar melhor a região e a uma pequena exposição que conta a história do Cabo. Também pode fazer um pitstop para o almoço no Restaurante Two Oceans, onde o mar azul transparente disputa a atenção com o cardápio repleto de frutos do mar fresquinhos.

Dali se alcança ainda Cape Point, mais de 200 metros acima do nível do mar. Por 48 rands (R$ 12), um funicular leva até a base do farol sem grandes sacrifícios. Caminhar morro acima, no entanto, permite desbravar passo a passo a vista arrebatadora que resume em 360 graus as belezas do litoral sul-africano.

 

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Farol em Cape Point está a mais de 200 metros acima do nível do mar

 

NOITE DE SABORES INTENSOS

A variedade de atividades outdoor de Cape Town se estende à vida noturna. O berço da boemia na cidade é a Long Street, no Centro, cujos 3,8 quilômetros de extensão fervem durante quase 24 horas.

Pelas calçadas dos charmosos imóveis vitorianos restaurados, circula gente de todas as origens e sotaques, refletindo a diversidade dos estabelecimentos. Há de tudo: de hamburguerias a lugares com música ao vivo e nightclubs hype.

Os nativos preferem se concentrar na Kloof Street, continuação da Long, onde os restaurantes são menos lotados e mais em conta. Caso do Deck House, que dispõe de generosas porções de petiscos, como siri mole, camarão e lula empanados, ideais para compartilhar.

A rua também vale o passeio durante o dia para conferir os antiquários, livrarias, galeria de arte e muitas lojinhas de produtos naturais. Outra dica de quem mora na cidade é a Bree Street, onde costuma haver degustação de vinho e cerveja artesanal nas galerias locais.

 

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Na Long Street está o berço da boemia de Cape Town

 

A fim de sofisticação? Na região dos Gardens, o estrelado Aubergine convida a uma saborosa noite longe do burburinho. O restaurante une o ambiente elegante à criativa composição de texturas e sabores em pratos como o Springbok Loin. Destaque do menu, trata-se da carne curada da pequena gazela que habita as savanas, servida ao molho de alho poró e shitake.

Para uma experiência gastronômica ainda mais intimista, o destino é o bairro muçulmano de Bo-Kaap (acima do Cabo), reduto que abriga a primeira mesquita construída no país. Nas casinhas coloridas do fim do século 18, chefs renomados servem o melhor da cozinha Cape Malay. O Marco’s African Place e o Bo Kaap Kombuis são duas das opções mais tradicionais.

 

SHOPPING À BEIRA-MAR

 

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Às margens da Table Bay, V&A WaterFront é o maior complexo de entretenimento da cidade

 

Caso a ideia seja encontrar de tudo em um só lugar, vá em direção ao V&A WaterFront. O festivo píer à beira da Table Bay atrai artistas de rua e músicos locais que tocam ao ar livre, fornecendo a trilha sonora perfeita para um passeio descompromissado e sem pressa na companhia de aves marinhas.

Construído pelo filho da Rainha Victoria, Alfred, em 1860, o porto protegia os navios dos fortes ventos no inverno. Abandonado na década de 60, foi revitalizado nos anos 90 para se converter no maior complexo de entretenimento de Cape Town e primeira atração turística, em quantidade de visitantes, de toda a África.

Os turistas vêm em busca principalmente das marcas famosas e produtos exclusivos disponíveis nas cerca de 300 lojas e quiosques, onde você pode aproveitar para garantir as lembrancinhas da viagem.

 

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Shopping reúne mais cerca de 300 lojas e quiosques com marcas famosas e produtos típicos

 

Do cais, saem cruzeiros, inclusive noturnos, para várias partes da costa. O mais procurado é o que leva à ilha Robben, a prisão onde Mandela ficou enclausurado durante 18 dos 27 anos em que esteve preso nos tempos do apartheid. 

 

 

Inspirado na autobiografia homônima de Nelson Mandela, publicada em 1994, o longa acompanha a jornada de um dos maiores líderes mundiais. Desde a sua infância numa pequena aldeia rural até a posse como primeiro presidente negro da África do Sul, o filme se debruça sobre os mais marcantes momentos da luta de Madiba (interpretado por Idris Elba) contra o apartheid, passando pelos 27 anos em que esteve encarcerado como prisioneiro político.
Adaptação da biografia Winnie Mandela: A Life (Winnie Mandela, uma vida), o drama é dedicado à ativista Winnie Madikizela (Jennifer Hudson). Segunda esposa de Nelson Mandela (Terrence Howard), Winnie foi uma das principais militantes da luta antiapartheid. Principalmente após a prisão do marido, enfrentou assédio contínuo da polícia de segurança e mais de um ano de confinamento na solitária, proibida de ver as filhas pequenas.
A trajetória da poetisa sul-africana Ingrid Jonker (Carice von Houten) inspira o longa baseado em fatos reais. Rejeitada pelo pai, que trabalha como censor no regime do apartheid, ela sofre para encontrar uma casa e um amor, refugiando-se na escrita. O reconhecimento como poeta vem quando Nelson Mandela, em seu primeiro discurso para o parlamento da África do Sul, em 1994, lê seu poema The dead child of Nyanga (A criança assassinada pelos soldados de Nyanga).
Jack Ngubane reencontra seu antigo parceiro Twala, depois de cinco anos preso por participar de um assalto. Além de ter conseguido ficar em liberdade, o amigo ainda se casou com a sua antiga noiva. Jack tenta então reconstruir sua vida, mas um empréstimo negado pelo banco lhe devolve ao mundo do crime, quando ele resolve aceitar um trabalho que pode render US$ 2 milhões.
Estrelado por Morgan Freeman (no papel de Mandela) e Matt Damon (interpretando François Pienaar, capitão da equipe sul-africana de rugby), o enredo é baseado no livro de John Carl sobre a Copa do Mundo de Rugby de 1995, realizada na África do Sul logo depois do fim do apartheid e da eleição de Mandela para a presidência.
Gravado em Joanesburgo, Distrito 9 é um longa de ficção científica, com uma mensagem subliminar das mais realísticas. Wikus van de Merwe é um burocrata africâner cuja missão é deslocar uma raça de alienígenas presos no Distrito 9, uma favela de Joanesburgo, para um campo de refugiados.
Skin é um filme biográfico baseado no livro When she was white: the true story of a family divided by race (Quando ela era branca: a verdadeira história de uma família dividida pela raça), escrito por Judith Stone. O drama narra a saga de Sandra Laing. Nascida de pais brancos, ela foi reclassificada como “coloured” (mestiça) durante o apartheid e enviada a outro bairro distante da família.
O filme é uma adaptação da obra-prima homônima do Nobel de literatura J.M. Coetzee. O protagonista é o professor universitário David Lurie (John Malkovich), que vê sua carreira desabar depois de um caso amoroso com uma aluna. Sem emprego e com a reputação abalada, decide visitar a isolada fazenda de sua filha Lucy. No início, ele pensa ter encontrado sossego, até que ele e a filha são violentamente atacados por três jovens negros. Aos poucos, os dramas pessoais vão intrinsecamente sendo conectados à conjuntura de uma África do Sul em transição pós-apartheid.
Os 18 anos em que Nelson Mandela (Dennis Haysbert) ficou preso em Robben Island são o pano de fundo da narrativa baseada em fatos reais contada a partir da perspectiva do carcereiro James Gregory (Joseph Fiennes), cuja vida foi completamente transformada a partir da convivência com o líder sul-africano.
O lado sombrio de Joanesburgo e o choque de classes com a ascensão de uma burguesia negra pós-apartheid são os ingredientes do longa. O protagonista é Tsotsi, um jovem bandido de rua que rouba um carro e descobre um bebê no banco de trás. Tsotsi leva a criança para o gueto onde vive e convence a jovem mãe, Miriam (Terry Pheto), a cuidar do “seu filho”, numa relação cheia de confrontos.
Adaptação do romance premiado de Alan Paton, o drama descortina a relação entre dois pais – um pastor negro e um fazendeiro branco rico. Ambos vêm da mesma área rural, mas nunca se encontraram. Um dia, o pastor Stephen Kumalo (James Earl Jones), recebe uma carta convocando-o a ir a Joanesburgo, quando seu filho, Absalão Kumalo (Eric Miyeni ) é acusado do assassinato de um menino branco.
No auge do apartheid, Sarafina (Leleti Khumalo) é uma jovem negra alheia à discussão sobre direitos civis, até que sua brilhante professora Mary Masembuko (Whoopi Goldberg) é presa. Com a consciência política que adquire sobre a realidade ao seu redor, se une aos colegas em um levante de proporções imprevisíveis.
Baseado em fatos reais, o longa retrata trechos da vida do ativista Steve Biko (Denzel Washington) e sua relação com o jornalista Donald Woods (Kevin Kline), crítico da atuação de Biko como militante antiapartheid. Quando Biko convida Woods para visitar um bairro negro e testemunhar o efeito das restrições impostas pelo governo, seu ponto de vista muda e uma amizade, acompanhada de perto pela polícia, começa a se desenvolver entre eles.
Come Back, Africa é um semidocumentário apoiado por organizações negras norte-americanas, realizado ilegalmente na África do Sul no auge do apartheid. Conta a história do camponês Zachariah, de origem Zulu, que se muda para Joanesburgo em busca de emprego. Na cidade, se depara com o racismo dentro e fora do trabalho. Logo, sua esposa e seu filho juntam-se a ele no subúrbio de Sophiatown, onde a esperança dá lugar a uma grande tragédia.
Zulu foi o primeiro filme gravado na África do Sul que ganhou reconhecimento internacional. Retrata a batalha de Drift Rorke, uma mais famosas da Guerra Anglo-Zulu, quando 150 soldados britânicos enfrentaram quatro mil guerreiros zulus.

 

O local também conta com uma moderna roda-gigante e o aquário The Two Oceans, que exibe exemplares da fauna marinha dos oceanos Atlântico e Índico.

Sem falar dos inúmeros cafés, bistrôs e restaurantes, como o Belthazar e o Quay Four, especializado em pescados e mariscos. Não deixe de provar o delicioso kingklip para guardar na memória gastronômica um dos sabores típicos de Cape Town.

 

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Robben Island: onde a dignidade triunfou sobre a opressão

Mona Lisa Dourado

Em frente ao memorial da liberdade, o semblante sério de Ntoza Talakumeni se descontrai. O prisioneiro 58/86 lembra vividamente o dia em que deixou Robben Island. Era parte do primeiro grupo de detentos libertados quando a África do Sul quebrou as correntes do apartheid no início da década de 90. “Minha pena era de 14 anos, mas os quatro em que fiquei aqui pareceram uma eternidade”, conta Notza, que havia sido o 58º preso a chegar à ilha em 1986, pelas mesmas razões que levaram Nelson Mandela àquele cárcere 22 anos antes.

O crime: terrorismo. Assim como milhares de outros ativistas políticos enclausurados, torturados e assassinados naqueles tempos sombrios, Ntoza e Nelson (veja cronologia no fim do post) se opunham às atrocidades do regime segregacionista. De 1948 a 1991, o sistema de discriminação imposto pela minoria branca da África do Sul suprimia de negros e mestiços direitos tão básicos quanto o de ir e vir. 

 

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Ntoza Talakumeni é um dos ex-prisioneiros políticos que conduzem a visita a Robben Island

 

A 12 quilômetros de Cape Town, a famosa ilha onde Mandela cumpriu 18 dos seus 27 anos de prisão já não recebe condenados. Em vez de balsas da polícia, hoje atracam diariamente no cais amplos catamarãs lotados de visitantes de todas as latitudes.

 

 

Inspirado na autobiografia homônima de Nelson Mandela, publicada em 1994, o longa acompanha a jornada de um dos maiores líderes mundiais. Desde a sua infância numa pequena aldeia rural até a posse como primeiro presidente negro da África do Sul, o filme se debruça sobre os mais marcantes momentos da luta de Madiba (interpretado por Idris Elba) contra o apartheid, passando pelos 27 anos em que esteve encarcerado como prisioneiro político.
Adaptação da biografia Winnie Mandela: A Life (Winnie Mandela, uma vida), o drama é dedicado à ativista Winnie Madikizela (Jennifer Hudson). Segunda esposa de Nelson Mandela (Terrence Howard), Winnie foi uma das principais militantes da luta antiapartheid. Principalmente após a prisão do marido, enfrentou assédio contínuo da polícia de segurança e mais de um ano de confinamento na solitária, proibida de ver as filhas pequenas.
A trajetória da poetisa sul-africana Ingrid Jonker (Carice von Houten) inspira o longa baseado em fatos reais. Rejeitada pelo pai, que trabalha como censor no regime do apartheid, ela sofre para encontrar uma casa e um amor, refugiando-se na escrita. O reconhecimento como poeta vem quando Nelson Mandela, em seu primeiro discurso para o parlamento da África do Sul, em 1994, lê seu poema The dead child of Nyanga (A criança assassinada pelos soldados de Nyanga).
Jack Ngubane reencontra seu antigo parceiro Twala, depois de cinco anos preso por participar de um assalto. Além de ter conseguido ficar em liberdade, o amigo ainda se casou com a sua antiga noiva. Jack tenta então reconstruir sua vida, mas um empréstimo negado pelo banco lhe devolve ao mundo do crime, quando ele resolve aceitar um trabalho que pode render US$ 2 milhões.
Estrelado por Morgan Freeman (no papel de Mandela) e Matt Damon (interpretando François Pienaar, capitão da equipe sul-africana de rugby), o enredo é baseado no livro de John Carl sobre a Copa do Mundo de Rugby de 1995, realizada na África do Sul logo depois do fim do apartheid e da eleição de Mandela para a presidência.
Gravado em Joanesburgo, Distrito 9 é um longa de ficção científica, com uma mensagem subliminar das mais realísticas. Wikus van de Merwe é um burocrata africâner cuja missão é deslocar uma raça de alienígenas presos no Distrito 9, uma favela de Joanesburgo, para um campo de refugiados.
Skin é um filme biográfico baseado no livro When she was white: the true story of a family divided by race (Quando ela era branca: a verdadeira história de uma família dividida pela raça), escrito por Judith Stone. O drama narra a saga de Sandra Laing. Nascida de pais brancos, ela foi reclassificada como “coloured” (mestiça) durante o apartheid e enviada a outro bairro distante da família.
O filme é uma adaptação da obra-prima homônima do Nobel de literatura J.M. Coetzee. O protagonista é o professor universitário David Lurie (John Malkovich), que vê sua carreira desabar depois de um caso amoroso com uma aluna. Sem emprego e com a reputação abalada, decide visitar a isolada fazenda de sua filha Lucy. No início, ele pensa ter encontrado sossego, até que ele e a filha são violentamente atacados por três jovens negros. Aos poucos, os dramas pessoais vão intrinsecamente sendo conectados à conjuntura de uma África do Sul em transição pós-apartheid.
Os 18 anos em que Nelson Mandela (Dennis Haysbert) ficou preso em Robben Island são o pano de fundo da narrativa baseada em fatos reais contada a partir da perspectiva do carcereiro James Gregory (Joseph Fiennes), cuja vida foi completamente transformada a partir da convivência com o líder sul-africano.
O lado sombrio de Joanesburgo e o choque de classes com a ascensão de uma burguesia negra pós-apartheid são os ingredientes do longa. O protagonista é Tsotsi, um jovem bandido de rua que rouba um carro e descobre um bebê no banco de trás. Tsotsi leva a criança para o gueto onde vive e convence a jovem mãe, Miriam (Terry Pheto), a cuidar do “seu filho”, numa relação cheia de confrontos.
Adaptação do romance premiado de Alan Paton, o drama descortina a relação entre dois pais – um pastor negro e um fazendeiro branco rico. Ambos vêm da mesma área rural, mas nunca se encontraram. Um dia, o pastor Stephen Kumalo (James Earl Jones), recebe uma carta convocando-o a ir a Joanesburgo, quando seu filho, Absalão Kumalo (Eric Miyeni ) é acusado do assassinato de um menino branco.
No auge do apartheid, Sarafina (Leleti Khumalo) é uma jovem negra alheia à discussão sobre direitos civis, até que sua brilhante professora Mary Masembuko (Whoopi Goldberg) é presa. Com a consciência política que adquire sobre a realidade ao seu redor, se une aos colegas em um levante de proporções imprevisíveis.
Baseado em fatos reais, o longa retrata trechos da vida do ativista Steve Biko (Denzel Washington) e sua relação com o jornalista Donald Woods (Kevin Kline), crítico da atuação de Biko como militante antiapartheid. Quando Biko convida Woods para visitar um bairro negro e testemunhar o efeito das restrições impostas pelo governo, seu ponto de vista muda e uma amizade, acompanhada de perto pela polícia, começa a se desenvolver entre eles.
Come Back, Africa é um semidocumentário apoiado por organizações negras norte-americanas, realizado ilegalmente na África do Sul no auge do apartheid. Conta a história do camponês Zachariah, de origem Zulu, que se muda para Joanesburgo em busca de emprego. Na cidade, se depara com o racismo dentro e fora do trabalho. Logo, sua esposa e seu filho juntam-se a ele no subúrbio de Sophiatown, onde a esperança dá lugar a uma grande tragédia.
Zulu foi o primeiro filme gravado na África do Sul que ganhou reconhecimento internacional. Retrata a batalha de Drift Rorke, uma mais famosas da Guerra Anglo-Zulu, quando 150 soldados britânicos enfrentaram quatro mil guerreiros zulus.

 

“É bom que o mundo não esqueça como os negros foram tratados apenas por causa de sua cor”, dispara Ntoza, que se libertou da sentença, mas continua ligado a Robben Island por um compromisso com a história. Ele é um dos 10 ex-prisioneiros que trabalham como guia na ilha, convertida em museu em 1997 e, dois anos mais tarde, em Patrimônio Mundial da Humanidade.

 

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No cárcere de segurança máxima, Mandela cumpriu 18 de 27 anos de prisão

 

Apesar da proximidade do continente, com a majestosa Table Mountain no horizonte, Robben Island sempre figurou como exílio para os sul-africanos. Antes de virar presídio de segurança máxima para presos comuns e políticos, foi usada para confinar os portadores de lepra. De 1892 a 1931, quando se acreditava que a doença era contagiosa, os doentes eram banidos pra lá. Já durante a Guerra Mundial, a ilha foi transformada em fortaleza, com o objetivo de proteger a Cidade do Cabo.   

 

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Antes de virar presídio de segurança máxima, Robben Island era um leprosário

 

Devidamente ambientados, chega a hora de percorrer as dependências da prisão. Em muitas das celas continuam lá os pertences dos seus ocupantes notórios, com uma foto e um breve perfil. Nenhuma causa maior comoção do que a do  prisioneiro 466/64, mundialmente conhecido como Nelson Mandela.

Um travesseiro sobre o cobertor no chão de cimento batido, um pequeno banco de madeira, prato e copo de alumínio, além do balde usado como latrina, são tudo a que ele teve acesso nos muitos anos em que também foi privado de receber cartas e visitas da família. Para manter a sanidade física e mental, acordava antes das 5h30 e praticava exercício, espremido no cubículo de 2,5 x 2,1 metros.

 

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Nesta cela de 2,5 x 2,1 metros Nelson Mandela foi confinando por se opor ao apartheid

 

Entre um e outro pavilhão, o pátio externo me remete a uma passagem da autobiografia (Longo Caminho para a Liberdade) iniciada por Mandela nos anos de cárcere: a da madrugada chuvosa e gelada em que policiais bêbados atiraram os presos ao relento até o amanhecer.

 

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Trabalho forçado em pedreiras de calcário causou danos irreversíveis aos pulmões e à visão dos detentos

 

Na obra, transformada em longa-metragem em 2013, a cena é descrita como a noite de maior horror enfrentada na ilha. Não foi o único pesadelo. Parte da tortura diária era o trabalho forçado em pedreiras de calcário, cujo pó fino, aliado ao reflexo do sol, causaria danos irreversíveis aos pulmões e à visão dos detentos.

 

EACH ONE TEACHES ONE

A atividade extenuante não tirou deles a capacidade de resistência, subestimada pelo regime segregacionista. Segundo análises contemporâneas, o governo teria cometido seu maior erro estratégico ao concentrar muitos dos seus adversários políticos na mesma prisão.

Embora proibidos de se comunicar, eles encontravam meios de passar adiante a lei interna instituída por Mandela: “each one teaches one” (cada um ensina um).  Dos intelectuais aos menos escolarizados, o conhecimento circulou dentro da cadeia, de modo a fornecer tanto habilidades básicas de leitura e escrita quanto conteúdos de teoria política. Nessa “universidade” informal, o próprio Mandela aprendeu afrikaner, a língua do opressor.

 

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Mandela transformou a cadeia em uma universidade informal, onde cada um ensinava um

 

No dia em que os portões de Robben Island foram destrancados, os presos que saíam de lá tinham ensinado um ao outro como conduzir uma nova África do Sul sem discriminação.

A filosofia ficou incorporada à ilha, mesmo quando Mandela já não estava lá, recorda Ntoza, que não chegou a conviver com o líder. Quando desembarcou em Robben Island, Mandela já havia cumprido 18 anos de pena ali e sido transferido para Pollsmoor, outro centro de detenção no subúrbio ao sul da Cidade do Cabo.

Nesse período, já era o prisioneiro político mais conhecido do mundo e o clamor pelo fim do apartheid crescia em todos os continentes. De lá, ainda seria enviado a uma casa particular dentro dos muros do presídio Victor Verster. Foi quando iniciou as negociações com o governo segregacionista, que se reuniu com ele em pelo menos 47 ocasiões até a sua libertação tornar-se inevitável, em 11 de fevereiro de 1990. Mandela tinha então 72 anos.

Em 1994, foi aclamado como o primeiro presidente negro da África do Sul, refutando o revanchismo com uma proposta de paz e reconciliação nacional.

 

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Diariamente, barcos carregados de turistas de todos os continentes desembarcam na ilha

 

O passeio completo à Robben Island dura cerca de 3h30, contando com a navegação de ida e volta em águas nem sempre tranquilas, mas com uma paisagem de fazer esquecer o malestar. Inclui também uma volta de ônibus por uma parte da ilha, encravada no meio da Table Bay.

De uma ponta a outra, são apenas 5,4 quilômetros. Já a área total soma 540 hectares, povoados na maior parte do ano por pinguins e pelas focas, que dão nome ao lugar.

No retorno ao píer, a lojinha de suvenir convida a gastar alguns rands em favor da manutenção do patrimônio histórico. Mas a principal lembrança que se leva de Robben Island está resumida na citação do ex-prisioneiro político Ahmed Kathrada, inscrita na porta de entrada do museu: “Queremos que Robben Island reflita o triunfo da liberdade e da dignidade humana sobre a opressão e a humilhação”.

 

SAIBA MAIS

Não deixe para pegar o último barco do dia em direção à ilha, se quiser ter algum tempo de percorrer as instalações também por conta própria depois que o tour guiado, e um tanto frenético, termina. O passeio completo custa 320 rands (R$ 80). Clique aqui para mais informações.

 

NO CORAÇÃO DA CIDADE DO CABO

Para completar o mergulho na história sul-africana, é imprescindível circular a pé por City Bowl, o coração comercial da cidade. Seguindo os passos de Mandela, o próximo destino é a prefeitura. Da sacada desse belo edifício renascentista erguido em 1905, o líder fez o seu primeiro discurso público após 27 anos de prisão, para uma multidão ansiosa reunida na Grande Parada.

 

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Da sacada da prefeitura de Cape Town, Madiba fez seu 1º discurso público após deixar a prisão

 

A área histórica onde hoje funciona um mercado é o local da primeira fortaleza de Cape Town, construída após a chegada do colono holandês Jan Van Riebeeck, por volta de 1650.  Ao lado, permanece bem preservado o Castelo da Boa Esperança, uma construção pentagonal que não por acaso lembra o nosso Forte das Cinco Pontas. O local abriga um museu de acervo militar e também funciona como sede regional do exército sul-africano.

 

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Suprema Corte realizava sessões de reclassificação racial durante o apartheid

 

A Suprema Corte é outro edifício que não passa despercebido. Do lado de fora, estão os bancos reservados a “whites” (brancos) e “non whites” (não brancos), numa alusão à reclassificação racial que se fazia ali para determinar quem tinha ou não acesso aos direitos civis. Entre os testes humilhantes, estava o da caneta espetada no cabelo.

O roteiro no Centro ainda inclui a Catedral Gótica de Saint George, cenário de sermões emblemáticos do arcebispo Desmond Tutu, o ganhador do Nobel da Paz que escondia no porão militantes fugidos da perseguição poítica.

 

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Na Catedral Gótica de Saint George, o arcebispo Desmond Tutu escondia militantes como Mandela

 

A igreja fica na região dos Company Gardens, um oásis dentro da cidade, ideal para um refresco merecido embaixo da sombra. Ao todo, há oito mil espécies de plantas espalhadas por ali, incluindo a pereira mais antiga da África do Sul, plantada há quase quatro séculos. Em Cape Town, até as árvores têm história.

 

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Company Gardens reúne oito mil espécies de planta, entre elas a pereira mais antiga do país

 

 

 

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Passeio vintage por parreirais seculares

Mona Lisa Dourado

O transporte não poderia ser mais adequado. Um charmoso Ford Sedan 1936 nos espera de manhã cedo na porta do hotel para um passeio idílico. As vinícolas nos arredores da Cidade do Cabo são o nosso destino, informa o gentil Rudolph Langhoff, que mantém com o pai uma empresa especializada em recuperar carros antigos e guiar turistas em roteiros de atmosfera vintage.

 

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Carros antigos guiam enófilos a passeio vintage pelas vinícolas de Cape Town

 

Assim que deixamos a área urbana, a paisagem ganha ares europeus. No pé de montanhas cobertas de verde, surgem parreirais de encher a vista – e a taça. As belas fazendas anunciam nossa chegada à Stellenbosch. O pacato distrito abrigou a primeira colônia holandesa no interior da África do Sul. No centrinho, estão casarões, igrejas, cafés e lojinhas de artesanato que remontam a esse passado colonial.

 

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Parreirais e carvalhos indicam chegada a Stellenbosch

 

Mas a maior herança cultivada por ali são os vinhedos, os mais antigos e tradicionais do país, alguns plantados desde o final do século 17. Para o deleite dos enófilos, a região também foi a pioneira a criar, na década de 70, uma Rota do Vinho, que inclui hoje mais de 150 propriedades, a maioria aberta à visitação.

 

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Stellenbosch e Franschheok estão a não mais que 50 km da Cidade do Cabo

 

Bem pertinho dali, o distrito de Franschheok amplia a experiência, também com vinícolas históricas e o plus da gastronomia de inspiração francesa, integrante da rede internacional Délice de cidades dedicadas aos prazeres da mesa.

Como Stellenbosch e Franschheok estão a não mais que 50 km da Cidade do Cabo, dá pra fazer um bate e volta de um dia, conhecendo de três a quatro vinícolas. Mas se a sua paixão pela bebida de Baco pede mais, tanto no sítio histórico como na zona rural há hotéis e pousadas aconchegantes, muitos até com vista dos vinhedos. Pra dormir e acordar sonhando com cabernet, shiraz, merlot… e acrescentar uma variedade a mais no vocabulário enológico: pinotage.

 

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Em Franschheok, vinhos locais são harmonizados com pratos da alta gastronomia francesa

 

Criada do cruzamento entre as clássicas cepas francesas Pinot Noir e a Heritage (apelido da Cinsault), a uva nativa sul-africana é obrigatória em qualquer degustação. Intensos e encorpados, os vinhos tintos elaborados com a casta têm personalidade forte, com alguns rótulos entre os mais bem conceituados do mundo.

A qualidade dos vinhos sul-africanos, aliás, faz do país o oitavo no ranking global de produção, com 420 milhões de litros exportados em 2015. O Brasil exporta pouco mais de três milhões.

 

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Rota do Vinho foi criada na década de 70 e inclui cerca de 150 propriedades

 

Além dos marcantes pinotage, a região costeira da Cidade do Cabo produz bons vinhos de quase todas as uvas nobres, assim como excelentes assemblages e varietais, resultado da sua diversidade de terroirs.

Para achar o seu preferido, só provando. E nem precisa se preocupar com o bolso, porque os preços são de causar euforia antes mesmo da primeira taça.

 

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Vinícola Grande Provence oferece a degustação a preços módicos

 

Começamos pela Grande Provence Heritage Estate, fundada em 1694, onde a degustação de quatro vinhos premium custou 90 rands (cerca de R$ 22,50). As garrafas mais caras da casa (Shiraz e Muscat d’Alexandrie) não saíam por mais de 160 rands (R$ 40). Na média, seja nas vinícolas, seja em supermercados, encontra-se bons rótulos sul-africanos a partir de R$ 20.

 

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Na Maison Wine Estate, o almoço pode ser ao ar livre, com vista para os vinhedos

 

Agendar a visita às vinícolas é uma boa ideia, principalmente para quem pretende ficar para o almoço, recomendadíssimo na Maison Wine Estate. A decoração sofisticada combina com a elegância dos vinhos harmonizados com deliciosos pratos de frutos do mar ou suculentos cortes de carne. É possível escolher entre um dos agradáveis espaços internos ou, se o dia estiver convidativo, optar pelo jardim, sob a sombra das árvores. Com o parreiral e as montanhas de companhia, resta brindar: Cheers, South Africa!

 

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Turismo cultural é o forte de Joburg

Mona Lisa Dourado

Blocos e mais blocos de edifícios separados por extensas e intrincadas avenidas se multiplicam até onde a vista não alcança. Da janela do avião, Joanesburgo parece indomável.

Em terra firme, a cidade de 4,5 milhões de habitantes espalhados por 1,6 mil km2 revela mais que arranha-céus. “Nenhum outro lugar na África do Sul contém tamanha variedade cultural. Foi esta robusta mistura de nacionalidades, raças, culturas e línguas que deu a Joanesburgo o seu caráter único”, crava uma inscrição no mais importante museu local, sintetizando o espírito de uma das maiores, vibrantes e controversas metrópoles do mundo.  

 

 

As minas de ouro descobertas em 1886 fizeram a fama e a riqueza da cidade, que se converteu no epicentro financeiro do país, até hoje um dos maiores exportadores de minérios do planeta.

No roteiro da maioria dos turistas que desembarcam no movimentado Aeroporto Oliver Reginald Tambo, Joburg, como chamam os moradores, é apenas ponto de passagem para os safáris e praias do litoral.

A cidade, no entanto, oferece atrativos suficientes para justificar uma visita menos apressada e cheia de descobertas interessantes, em especial para quem curte uma “vibe” cosmopolita. Confira alguns destaques do roteiro.

 

MABONENG

Não importa quanto dias você decida passar em Joanesburgo, inclua um domingo entre eles e rume para Maboneng. Em meio à selva de pedra, grafites impressos em viadutos e paredes de antigas fábricas dão as boas-vindas a uma região que já foi considerada “no-go” e hoje é reduto da economia criativa local, que adota a arte como via de regeneração urbana.

 

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Antiga região industrial de Maboneng sintetiza a efervescência cultural de Joanesburgo

 

Dezenas de ateliês, escolas de música, brechós, galerias, tendas de artesanato, restaurantes e bares descolados renovam os ares do bairro industrial abandonado na década de 90, quando uma onda de violência varreu a cidade no período de transição entre o apartheid e a democracia.

“Nessa época, as empresas se mudaram para bairros considerados mais seguros, ao norte, e posseiros tomaram os edifícios desocupados, tornando a região perigosa. Só a partir de 2009 pudemos voltar e fazer de Maboneng um lugar da moda”, conta o empresário Emilio Alexandra, dono de um quiosque de pipoca gourmet no Arts on Main.

 

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Maboneng capitaneia a revitalização do Centro de Joanesburgo, abandonado no pós-apartheid

 

O armazém construído em 1911 abriga aos domingos o Market on Main, uma animada feira gastronômica que reúne a variedade de sabores de Joburg.

Oferece de sanduíches artesanais a comida chinesa, falafel (o tradicional bolinho de soja árabe) e produtos típicos sul-africanos, como o biltong (carne seca de caça), além de uma infinidade de especiarias, geleias, doces, chá etíope e tantas outras lembrancinhas culinárias.

 

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Aos domingos, Market on Main oferece o melhor da gastronomia de Joburg

 

Enquanto os turistas se divertem, jovens como o estudante de gastronomia Winston Whitehead enxergam em Maboneng um futuro mais promissor. “Estou me especializando para abrir o meu próprio negócio. Além de me fornecer uma fonte de renda, o mercado é um verdadeiro laboratório”, comenta.

Johnson Ahiable, coordenador do projeto Ahenfu Cultural Edutainments (mistura de educação e entretenimento), é outro entusiasta do bairro. “Aqui temos a oportunidade de incorporar a arte ao dia a dia da cidade e aumentar a autoestima de jovens músicos, orgulhosos de seus tambores, danças e canções.”

 

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Johnson Ahiable (E) apresenta a percussão africana aos visitantes de Maboneng

 

Pela tenda do Ahenfu, ninguém passa sem tocar um instrumento. “Interagimos com as pessoas para apresentar a percussão como uma música que vem do fundo da alma e que nos conecta a todos.

Dessa forma, também mostramos a riqueza da nossa cultura, combatendo os estereótipos sobre os africanos”, diz, apontando que a efervescência de Maboneng tem tudo para ser duradoura.

 

CARLTON CENTRE

Aproveitando a proximidade do Centro, a próxima parada pode ser no Carlton Centre, também conhecido como Top of Africa, o prédio mais alto do continente africano, com 50 andares e 223 metros de altura. O último piso funciona como um mirante, de onde se tem um panorama completo de Joanesburgo.

Mesmo quem vai sem guia consegue entender a história e o traçado urbano da cidade por meio de painéis em cada extremo do espaço e de uma exposição de fotos antigas, dedicada principalmente ao período do auge da mineração.

Dali, é possível avistar até os distritos mais afastados, como Soweto e Sandton, além de várias indústrias dos arredores e os estádios construídos para a Copa do Mundo de 2010: o Soccer City/FNB Stadium e o Ellis Park.

 

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No Top of Africa, a 223 metros de altura, tem-se uma visão panorâmica da Cidade do Ouro

 

Antes de subir, é preciso comprar o ingresso (15 rands, R$ 4) na bilheteria que passa quase despercebida junto aos elevadores do segundo andar. O acesso é pelo shopping center do subsolo, que também conta com uma  praça de alimentação.

No mais, o edifício tem uma aura nostálgica, com muitos andares vazios e, vizinho a ele, um hotel homônimo desativado.

 

CONSTITUTION HILL

No morro que separa os distritos de Braamfontein e Hillbrow, Constitution Hill emerge como símbolo de liberdade e proteção aos direitos humanos. Mas nem sempre foi assim. O lugar que hoje sedia o Tribunal Constitucional da África do Sul, a mais alta côrte do país, abrigou por mais de um século a prisão de Old Fort.

Cada um com a sua luta, Mahatma Gandhi e Nelson Mandela foram os dois prisioneiros políticos mais ilustres a serem encarcerados ali.

 

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Atual sede do Tribunal Constitucional da África do Sul serviu como cárcere para Mandela e Gandhi

 

Além do presídio, a visita ao complexo inclui um instigante museu, que dispõe de uma coleção de arte com mais de 200 obras de autores contemporâneos. Não bastasse a bagagem histórica, graças à localização privilegiada, Constitution Hill ainda proporciona uma perspectiva única da Cidade do Ouro.

 

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Coleção de arte do museu de Constitution Hill conta com mais de 200 obras contemporâneas

 

 

SANDTON

Sorriso aberto, uma escultura gigante recebe os turistas na Nelson Mandela Square. A praça que homenageia o líder sul-africano integra uma extensa área comercial e de entretenimento formada por corredores repletos de lojas de departamentos e de grifes, supermercados, cinemas, cafés, bares, empórios e requintados restaurantes. É o principal reduto turístico do luxuoso bairro de Sandton, onde se concentra a maioria dos hotéis.

 

South Africa Tourism/Divulgação

Escultura de Madiba recebe os turistas na Nelson Mandela Square / South Africa Tourism

 

Nesse distrito predominam as mansões suntuosas de muitos pisos e intermináveis jardins. A Bolsa de Valores de Joanesburgo, a primeira do continente e 19a do mundo, também se situa ali, onde o dinheiro parece correr solto. Pelas ruas, é raro ver gente caminhando. Em contrapartida, desfilam Ferraris, Lamborghinis, Mercedes… Uma África do Sul onde, não importa a cor da pele, a opulência desconhece limites.

 

MUSEU DO APARTHEID

A experiência começa visceral. Na bilheteria, você recebe um ingresso que determina o seu portão de entrada de acordo com uma cor atribuída aleatoriamente: white ou non-white. No Museu do Apartheid, o visitante sente na pele as arbitrariedades do regime de segregação racial que  privilegiava brancos e oprimia negros.

O sistema durou de 1948, com a ascensão do Partido Nacional ao poder, até 1991, após a libertação de Nelson Mandela. Ninguém sai o mesmo depois de uma imersão nesse espaço criado em 2001 para refletir sobre dominação e resistência, esperança e reconciliação.

 

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Na entrada do Museu do Apartheid, visitante sente na pele as arbitrariedades do regime

 

Desde a arquitetura, que lembra uma fortaleza em concreto, metal e aço, cada detalhe dos 6 mil m2 do museu remete à brutalidade de uma história ainda bem recente na memória dos sul-africanos.

Mais que prover informações sobre as condições soicioeconômicas e políticas que propiciaram o apartheid, a ideia é que o espectador  “testemunhe a tragédia, o sofrimento e o heroísmo” através de um diversificado acervo de fotografias, documentos, artefatos históricos, áudios e vídeos.

A curadoria, aliás, preza pela interatividade e engajamento. Esqueça, portanto, a câmera fotográfica e prepare-se para uma viagem ao obscurantismo.

 

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Área externa reverencia pessoas de todas as origens que compõem o tecido social de Joburg

 

A jornada se inicia ainda no pátio externo, nos tempos dos primeiros garimpeiros e fundadores de Joanesburgo, lembrando a composição multiétnica da cidade.

Pedras dentro de cercas nas laterais simbolizam os milhares de mineiros que trabalhavam no subsolo em busca do metal precioso que conduziu o desenvolvimento do país e, logo, a trajetória do apartheid.

No topo da rampa, passado e presente se encontram numa paisagem que revela os skylines ícones da metróple fundada sobre o sacríficio de milhares para benefício de poucos.

 

South Africa Tourism-Divulgação

Verbete define o regime de discriminação racial imposto na África do Sul / South Africa Tourism

 

Alguns lances de escada abaixo levam finalmente ao interior, onde claustrofóbicos labirintos de grades e, na sequência, 131 forcas penduradas no teto remetem às pessoas presas e executadas por crimes políticos na África do Sul do apartheid. Caso do líder negro Steve Biko. Não raro, a polícia justificava as mortes no cárcere como suicídio, prática incomodamente familiar.

Réplicas das celas solitárias, tais quais as ocupadas por Winnie (segunda mulher de Mandela) durante mais de um ano ininterrupto dão a dimensão da tortura psicológica imposta a quem ousasse se opor ao sistema. As armas dos rebeldes e um dos carros-tanques usados na repressão mostram o quanto a luta era desigual.

 

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Forcas penduradas no teto remetem aos prisioneiros políticos executados / South Africa Tourism

 

Os acontecimentos continuam em ordem cronológica: por meio painéis e vídeos emocionantes da época, mergulhamos de maneira cada vez mais profunda na sombria realidade sul-africana dos anos 60, acompanhando o massacre de Sharpeville, a ascensão do Black Consciousness, o movimento de consciência negra, e os levantes estudantis de 1976, no bairro de Soweto.

Difícil não se comover com as fortes imagens de perseguição e assassinato de crianças e adolescentes negros na tela. Impossível também não se chocar com os discursos do governo afrikaner, que insistia em sustentar o apartheid baseando-se em justificativas de superioridade e pureza racial de óbvia inspiração nazista.

 

South Africa Tourism-Divulgação

Carro-tanque usado no massacre de Soweto faz parte do acervo / South Africa Tourism

 

Outra parte importante do acervo é dedicada ao período de fortalecimento da resistência na década de 80, que culminou com a mobilização internacional pela libertação de Mandela, no início dos anos 90.

Seguiram-se o Acordo Nacional de Paz e a transição para a democracia, com as eleições de 1994, a elaboração da nova constituição e, posteriormente, a famosa Copa do Mundo de Rúgbi retratada no filme Invictus, quando Mandela conclamou os sul-africanos a esquecer as diferenças e se unir em torno do esporte.

 

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Num gesto simbólico, visitante é convidado a firmar o compromisso de combater a discriminação

 

Sem se dar conta, enquanto trafega pelos últimos episódios, o visitante é devolvido à luz natural e convidado a passear livremente pelos jardins externos do museu. Não sem antes passar pelo espaço da Nova Constituição e firmar seu compromisso pessoal de lutar contra a discriminação e o racismo onde quer que os identifique.

 

SOWETO

Da tentativa do regime do apartheid de isolar os negros em guetos distantes do Centro de Joanesburgo, nasceu Soweto. O nome resulta da abreviacão de South Western Townships (bairros do sudoeste). Nos anos de segregação, era sinônimo de resistência. Hoje, a despeito das muitas lacunas infraestruturais, é símbolo da força e da autoestima de um povo avesso à dominação.

 

 

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Maior distrito de Joanesburgo, Soweto tem cerca de 1,5 milhão de habitantes

 

Transformado em distrito autônomo em 1983, Soweto reúne cerca de 1,5 milhão de habitantes (equivalente à população do Recife). Como nos subúrbios brasileiros, enfrenta inúmeros problemas decorrentes do crescimento desordenado. Mas de 15 anos para cá aprendeu a fazer da sua história aliada na geração de renda.

Longe da ideia de exploração da pobreza como atrativo, o turismo funciona principalmente como afirmação cultural de uma comunidade orgulhosa do seu passado e confiante num futuro melhor. Nos fins de semana animados do bairro, a maioria dos visitantes é formada pelos próprios africanos vindos de outras partes do país ou do continente.

 

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Casa de Mandela fica na Vilazaki Street, onde também morou Desmond Tutu

 

O coração dessa Soweto turística está na Vilakazi Street. A rua mais famosa da África do Sul é a única do mundo onde já moraram dois vencedores do Prêmio Nobel da Paz: o arcebispo emérito Desmond Tutu e Nelson Mandela. Só a casa do ex-presidente, no número 8115, é aberta à visitação.

Convertido em museu, o imóvel de dois quartos, sala, cozinha e um banheiro do lado de fora guarda fotos e objetos pessoais de quando Mandiba viveu ali, a partir de 1946, primeiro com Evelyn Mase e depois com Winnie Madikizela. Buracos de balas ainda presentes nas paredes denunciam a perseguição à família, nos tempos de ativismo contra a segregação racial.

 

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Imóvel guarda fotos, lembranças e objetos pessoais de Mandela e sua família

 

No entorno da rua, o ambiente atual é de festa, com apresentações artísticas, feira de artesanato, bares e restaurantes. O mais badalado deles é o Sakhumzi, que serve pratos típicos sul-africanos no esquema de buffet (165 rands/R$ 40 por pessoa).

As longas mesas compartilhadas do jardim convidam a passar uma tarde despretensiosa, observando a rotina do bairro, enquanto saboreia-se uma deliciosa chakalaka, espécie de feijoada picante à base de vegetais e carnes. Para refrescar, peça uma Carling encorpada ou geladíssimo chope artesanal Soweto.

 

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Restaurante Sakhumzi serve pratos típicos sul-africanos no esquema de buffet

 

Saindo da Vilakazi, pelo menos outros dois pontos merecem atenção. Na Khumalo Street, o Memorial Hector Pieterson homenageia um dos jovens mortos no Levante de Soweto. Naquele 16 de junho de 1976, milhares de estudantes se reuniram para protestar contra a má qualidade das escolas destinadas aos negros e à obrigatoriedade do ensino do africâner (a língua dos brancos), em detrimento dos idiomas nativos.

 

Inspirado na autobiografia homônima de Nelson Mandela, publicada em 1994, o longa acompanha a jornada de um dos maiores líderes mundiais. Desde a sua infância numa pequena aldeia rural até a posse como primeiro presidente negro da África do Sul, o filme se debruça sobre os mais marcantes momentos da luta de Madiba (interpretado por Idris Elba) contra o apartheid, passando pelos 27 anos em que esteve encarcerado como prisioneiro político.
Adaptação da biografia Winnie Mandela: A Life (Winnie Mandela, uma vida), o drama é dedicado à ativista Winnie Madikizela (Jennifer Hudson). Segunda esposa de Nelson Mandela (Terrence Howard), Winnie foi uma das principais militantes da luta antiapartheid. Principalmente após a prisão do marido, enfrentou assédio contínuo da polícia de segurança e mais de um ano de confinamento na solitária, proibida de ver as filhas pequenas.
A trajetória da poetisa sul-africana Ingrid Jonker (Carice von Houten) inspira o longa baseado em fatos reais. Rejeitada pelo pai, que trabalha como censor no regime do apartheid, ela sofre para encontrar uma casa e um amor, refugiando-se na escrita. O reconhecimento como poeta vem quando Nelson Mandela, em seu primeiro discurso para o parlamento da África do Sul, em 1994, lê seu poema The dead child of Nyanga (A criança assassinada pelos soldados de Nyanga).
Jack Ngubane reencontra seu antigo parceiro Twala, depois de cinco anos preso por participar de um assalto. Além de ter conseguido ficar em liberdade, o amigo ainda se casou com a sua antiga noiva. Jack tenta então reconstruir sua vida, mas um empréstimo negado pelo banco lhe devolve ao mundo do crime, quando ele resolve aceitar um trabalho que pode render US$ 2 milhões.
Estrelado por Morgan Freeman (no papel de Mandela) e Matt Damon (interpretando François Pienaar, capitão da equipe sul-africana de rugby), o enredo é baseado no livro de John Carl sobre a Copa do Mundo de Rugby de 1995, realizada na África do Sul logo depois do fim do apartheid e da eleição de Mandela para a presidência.
Gravado em Joanesburgo, Distrito 9 é um longa de ficção científica, com uma mensagem subliminar das mais realísticas. Wikus van de Merwe é um burocrata africâner cuja missão é deslocar uma raça de alienígenas presos no Distrito 9, uma favela de Joanesburgo, para um campo de refugiados.
Skin é um filme biográfico baseado no livro When she was white: the true story of a family divided by race (Quando ela era branca: a verdadeira história de uma família dividida pela raça), escrito por Judith Stone. O drama narra a saga de Sandra Laing. Nascida de pais brancos, ela foi reclassificada como “coloured” (mestiça) durante o apartheid e enviada a outro bairro distante da família.
O filme é uma adaptação da obra-prima homônima do Nobel de literatura J.M. Coetzee. O protagonista é o professor universitário David Lurie (John Malkovich), que vê sua carreira desabar depois de um caso amoroso com uma aluna. Sem emprego e com a reputação abalada, decide visitar a isolada fazenda de sua filha Lucy. No início, ele pensa ter encontrado sossego, até que ele e a filha são violentamente atacados por três jovens negros. Aos poucos, os dramas pessoais vão intrinsecamente sendo conectados à conjuntura de uma África do Sul em transição pós-apartheid.
Os 18 anos em que Nelson Mandela (Dennis Haysbert) ficou preso em Robben Island são o pano de fundo da narrativa baseada em fatos reais contada a partir da perspectiva do carcereiro James Gregory (Joseph Fiennes), cuja vida foi completamente transformada a partir da convivência com o líder sul-africano.
O lado sombrio de Joanesburgo e o choque de classes com a ascensão de uma burguesia negra pós-apartheid são os ingredientes do longa. O protagonista é Tsotsi, um jovem bandido de rua que rouba um carro e descobre um bebê no banco de trás. Tsotsi leva a criança para o gueto onde vive e convence a jovem mãe, Miriam (Terry Pheto), a cuidar do “seu filho”, numa relação cheia de confrontos.
Adaptação do romance premiado de Alan Paton, o drama descortina a relação entre dois pais – um pastor negro e um fazendeiro branco rico. Ambos vêm da mesma área rural, mas nunca se encontraram. Um dia, o pastor Stephen Kumalo (James Earl Jones), recebe uma carta convocando-o a ir a Joanesburgo, quando seu filho, Absalão Kumalo (Eric Miyeni ) é acusado do assassinato de um menino branco.
No auge do apartheid, Sarafina (Leleti Khumalo) é uma jovem negra alheia à discussão sobre direitos civis, até que sua brilhante professora Mary Masembuko (Whoopi Goldberg) é presa. Com a consciência política que adquire sobre a realidade ao seu redor, se une aos colegas em um levante de proporções imprevisíveis.
Baseado em fatos reais, o longa retrata trechos da vida do ativista Steve Biko (Denzel Washington) e sua relação com o jornalista Donald Woods (Kevin Kline), crítico da atuação de Biko como militante antiapartheid. Quando Biko convida Woods para visitar um bairro negro e testemunhar o efeito das restrições impostas pelo governo, seu ponto de vista muda e uma amizade, acompanhada de perto pela polícia, começa a se desenvolver entre eles.
Come Back, Africa é um semidocumentário apoiado por organizações negras norte-americanas, realizado ilegalmente na África do Sul no auge do apartheid. Conta a história do camponês Zachariah, de origem Zulu, que se muda para Joanesburgo em busca de emprego. Na cidade, se depara com o racismo dentro e fora do trabalho. Logo, sua esposa e seu filho juntam-se a ele no subúrbio de Sophiatown, onde a esperança dá lugar a uma grande tragédia.
Zulu foi o primeiro filme gravado na África do Sul que ganhou reconhecimento internacional. Retrata a batalha de Drift Rorke, uma mais famosas da Guerra Anglo-Zulu, quando 150 soldados britânicos enfrentaram quatro mil guerreiros zulus.

 

Com a repressão violenta da polícia, a manifestação se transformou em tragédia. Captada pelo fotógrafo Sam Nzima, a imagem do corpo de Hector, 13 anos, carregado pelo amigo Mbuyisa Makhubu, diante da expressão horrorizada da irmã, Antoinette Sithole, correu o mundo.

Tijolos soltos e espalhados pelo chão do memorial trazem os nomes daqueles que deram à vida pela causa durante o Levante, que reforçou o apoio internacional ao movimento antiapartheid e acelerou a queda do sistema.

 

Mona Lisa Dourado/JC

Memorial homenageia Hector Pieterson, estudante de 13 anos morto no Levante de Soweto

 

O resto da história é contado na Igreja Regina Mundi, onde muitos dos estudantes se refugiaram tentando escapar dos tiros. Vitrais lembram o massacre e fazem tributo a Mandela, ao lado de buracos de bala de 40 anos de idade. Perdoar mas não esquecer é o lema que ecoa por ali.  

 

Mona Lisa Dourado/JC

Igreja Regina Mundi abrigou jovens que tentavam escapar da perseguição policial

 

SAIBA MAIS:

Complemente o roteiro em Soweto com uma passada pelo FNB Stadium – o maior da África, também conhecido como Soccer City – e pelas Orlando Towers, duas enormes chaminés de uma usina térmica desativada que servem de pontos para saltos de Bungee Jumping. Se aventura não é a sua praia, ao menos os grafites nas torres valem o clique.

 

Mona Lisa Dourado/JC

Orlando Towers são usadas para a prática de bungee jumping

 

 

 

ARTE_AFRICA_TURISMO

 

 

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Aventura na savana

Mona Lisa Dourado

Entre tantas atividades que a África do Sul oferece, o safári é um clássico. Por mais zoológicos que você já tenha visitado na vida, nada se compara a estar frente a frente com os animais no ambiente selvagem da savana. Em todo o país, há várias reservas públicas e privadas abertas aos visitantes em busca de aventura. Quem chega a Joanesburgo já louco para ver os bichos pode dar de cara com eles a apenas duas horas da cidade, no Parque Nacional de Pilanesberg, o quarto maior em solo sul-africano.

 

 

Também conhecido como Game Reserve, Pilanesberg ocupa 55 mil hectares sobre a cratera de um vulcão extinto há 1,3 milhão de anos. As montanhas do entorno propiciam o habitat ideal para que centenas de espécies vivam em segurança. São pelo menos 50 tipos de mamíferos, quase 400 de aves, 65 de répteis e 18 de anfíbios, convivendo livremente num ecossistema que ainda conta com inúmeras espécies vegetais.

 

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Mais de 50 espécies de mamíferos, como o impala, habitam a savana

 

Para percorrer o parque, o turista pode contratar um tour em jipe 4×4, que conduz até 25 pessoas por passeio e custa 510 rands (R$ 130). Outra opção é dirigir por conta própria, com o auxílio de um GPS ou de um mapa da reserva adquirido em uma das suas quatro portarias.

 

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Tour em jipes abertos permite ver de perto os maiores mamíferos da savana

 

A maior parte das vias é de chão de terra batida, mas sem nenhum grande obstáculo para carros comuns. Só é preciso respeitar a “etiqueta” da savana: não ultrapassar os 40 km/h, não perturbar nem alimentar os bichos, não atirar lixo pela janela e não sair do veículo, a não ser em algumas poucas áreas sinalizadas e devidamente protegidas.

Compartilhar informações sobre a localização dos animais com outros motoristas também faz parte do “código de conduta” local.

 

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Rinoceronte é um dos Big Five. Grupo ainda inclui leão, leopardo, elefante e búfalo-africano

 

Seja qual for o meio de transporte, a diversão é garantida. De manhãzinha, enquanto você se distrai com a beleza dos raios de sol que começam a iluminar a savana, já tem bicho caçando o café da manhã. De repente, somos surpreendidos por uma alcateia de leões e leoas devorando um antílope.

Eles comem, a gente clica entusiasmado os primeiros dos Big Five que encontramos pelo caminho. O grupo dos cinco mamíferos mais difíceis de serem caçados a pé pelo homem ainda é formado por elefante, rinoceronte, leopardo e búfalo-africano.

 

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Família de leões devora um antílope no Parque de Pilanesberg

 

As celebridades da savana não se mostram facilmente. Avistar todos eles num mesmo sáfari é pura sorte. Fizemos dois passeios, um no começo e outro no fim do dia, na tentativa de cumprir a missão, mas ainda assim não vimos nem rastro do leopardo ou do búfalo.

 

 

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Alheios aos turistas, elefantes se divertem em Pilanesberg

 

Em compensação, os elefantes não se fizeram de rogados. Caminharam tranquilos bem na nossa frente, brincaram dando trombadas uns nos outros e se refrescaram com as folhas arrancadas das árvores. Já os rinocerontes parecem mais avessos às investidas humanas, talvez por serem as maiores vítimas da caça ilegal na África do Sul.

 

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Gnus, também conhecidos como wildbeest, andam sempre em bandos

 

Depois de uma encarada, não restou dúvida de quem manda no pedaço. Saímos de fininho à procura de outras paragens. Logo nos deparamos com uma manada gigantesca de gnus (wildebeest) correndo no descampado. Aos poucos, surgiram ainda impalas, javalis, cães selvagens, girafas e centenas de zebras.

 

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Zebras parecem posar para as fotos em Pilanesberg

 

À noitinha, já satisfeitos com tantas imagens espetaculares, ainda cruzamos com um hipopótamo à espreita, num ciclo em busca da sobrevivência que se repete a cada dia na savana.

 

SUN CITY

Fazer um bate e volta a Pilanesberg pode ser uma alternativa para quem tem pouco tempo, mas o bom mesmo é pernoitar por lá e aproveitar outras opções de lazer que o complexo de entretenimento Sun City oferece, incluindo voos de balão e safáris a pé ou em quadriciclos.

 

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Sun City oferece entretenimento dia e noite

 

Coladinho à entrada Mankwe do parque, o empreendimento ocupa 250 mil m2 e conta com quatro hotéis de diferentes portes e preços: Cascade, The Cabanas, Sun City e The Palace of the Lost City.

 

Mona Lisa Dourado/JC

Frutas frescas e vinho sul-africano aguardam os hóspedes na suíte do Palace

 

Este último é o mais suntuoso. Esculturas de animais selvagens em tamanho real, mosaicos, fontes e afrescos remetem ao mito da cidade perdida. Se a decoração soa exagerada, o serviço é na medida. Frutas frescas e vinho sul-africano aguardam os hóspedes na suíte depois de cada passeio, enquanto o café da manhã e o chá da tarde servidos no restaurante Crystal Court dão um toque extra de requinte.

 

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Chá da tarde é repleto de guloseimas no Palace of the Lost City

 

Na área compartilhada, destaque para o enorme parque aquático com tobogãs e praia artificial com ondas. O complexo dispõe ainda de lago e estrutura para prática de esportes, como parapente, além de espaço para shows e eventos, campo de golfe, aquários, lojas, bares e restaurantes para todo tipo de paladar.

 

 

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Economia esbarra em velhos fantasmas

Mona Lisa Dourado

“Você precisa ser forte”, avisa o guia, antes de entrarmos no espaço mais impactante do Museu do Apartheid. Mario, um moçambicano boa praça que vive em Joanesburgo há mais de 20 anos, prefere ficar do lado de fora. Não por já ter estado ali dezenas de vezes. “Há dias em que é mais difícil perdoar.” Soou como um estalo. Finalmente alguém verbalizava a tensão que eu vinha sentindo no ar nos cinco dias em que rodava pela África do Sul, a convite do órgão governamental de turismo do país.

Até ali, não me saíam da cabeça olhares e gestos hostis, aparentemente gratuitos, que flagrei entre brancos e negros em distintas situações e que continuaria a perceber pelos próximos três dias de viagem.  A ressalva de Mário também me trouxe à memória outra frase que havia escutado ainda na Cidade do Cabo. Num passeio de carro à região vinícola de Stellenbosch, o motorista de ascendência alemã se queixava de um “racismo às avessas” praticado agora contra a minoria branca, segundo ele, preterida nas vagas de emprego. Fato é que nessa intensa semana, só uma vez vi pessoas de diferentes tons de pele juntas numa mesma mesa de bar ou restaurante.

 

Mona Lisa Dourado/JC Imagem

Casado com uma sul-africana, guia Mario revela que cicatrizes do apartheid persistem

 

O passado se faz presente na profunda desigualdade social que desafia a reconciliação pretendida por Nelson Mandela após o fim do regime de segregação racial, posto abaixo em 1991 às custas de muito sacrifício. O próprio Mandela passou 27 anos preso, por ter aderido à luta armada contra o apartheid. O filme Longo Caminho para a Liberdade (2013), baseado na autobiografia do líder sul-africano, conta parte dessa história de lutas para construir uma nação mais justa e igualitária.

 

Inspirado na autobiografia homônima de Nelson Mandela, publicada em 1994, o longa acompanha a jornada de um dos maiores líderes mundiais. Desde a sua infância numa pequena aldeia rural até a posse como primeiro presidente negro da África do Sul, o filme se debruça sobre os mais marcantes momentos da luta de Madiba (interpretado por Idris Elba) contra o apartheid, passando pelos 27 anos em que esteve encarcerado como prisioneiro político.
Adaptação da biografia Winnie Mandela: A Life (Winnie Mandela, uma vida), o drama é dedicado à ativista Winnie Madikizela (Jennifer Hudson). Segunda esposa de Nelson Mandela (Terrence Howard), Winnie foi uma das principais militantes da luta antiapartheid. Principalmente após a prisão do marido, enfrentou assédio contínuo da polícia de segurança e mais de um ano de confinamento na solitária, proibida de ver as filhas pequenas.
A trajetória da poetisa sul-africana Ingrid Jonker (Carice von Houten) inspira o longa baseado em fatos reais. Rejeitada pelo pai, que trabalha como censor no regime do apartheid, ela sofre para encontrar uma casa e um amor, refugiando-se na escrita. O reconhecimento como poeta vem quando Nelson Mandela, em seu primeiro discurso para o parlamento da África do Sul, em 1994, lê seu poema The dead child of Nyanga (A criança assassinada pelos soldados de Nyanga).
Jack Ngubane reencontra seu antigo parceiro Twala, depois de cinco anos preso por participar de um assalto. Além de ter conseguido ficar em liberdade, o amigo ainda se casou com a sua antiga noiva. Jack tenta então reconstruir sua vida, mas um empréstimo negado pelo banco lhe devolve ao mundo do crime, quando ele resolve aceitar um trabalho que pode render US$ 2 milhões.
Estrelado por Morgan Freeman (no papel de Mandela) e Matt Damon (interpretando François Pienaar, capitão da equipe sul-africana de rugby), o enredo é baseado no livro de John Carl sobre a Copa do Mundo de Rugby de 1995, realizada na África do Sul logo depois do fim do apartheid e da eleição de Mandela para a presidência.
Gravado em Joanesburgo, Distrito 9 é um longa de ficção científica, com uma mensagem subliminar das mais realísticas. Wikus van de Merwe é um burocrata africâner cuja missão é deslocar uma raça de alienígenas presos no Distrito 9, uma favela de Joanesburgo, para um campo de refugiados.
Skin é um filme biográfico baseado no livro When she was white: the true story of a family divided by race (Quando ela era branca: a verdadeira história de uma família dividida pela raça), escrito por Judith Stone. O drama narra a saga de Sandra Laing. Nascida de pais brancos, ela foi reclassificada como “coloured” (mestiça) durante o apartheid e enviada a outro bairro distante da família.
O filme é uma adaptação da obra-prima homônima do Nobel de literatura J.M. Coetzee. O protagonista é o professor universitário David Lurie (John Malkovich), que vê sua carreira desabar depois de um caso amoroso com uma aluna. Sem emprego e com a reputação abalada, decide visitar a isolada fazenda de sua filha Lucy. No início, ele pensa ter encontrado sossego, até que ele e a filha são violentamente atacados por três jovens negros. Aos poucos, os dramas pessoais vão intrinsecamente sendo conectados à conjuntura de uma África do Sul em transição pós-apartheid.
Os 18 anos em que Nelson Mandela (Dennis Haysbert) ficou preso em Robben Island são o pano de fundo da narrativa baseada em fatos reais contada a partir da perspectiva do carcereiro James Gregory (Joseph Fiennes), cuja vida foi completamente transformada a partir da convivência com o líder sul-africano.
O lado sombrio de Joanesburgo e o choque de classes com a ascensão de uma burguesia negra pós-apartheid são os ingredientes do longa. O protagonista é Tsotsi, um jovem bandido de rua que rouba um carro e descobre um bebê no banco de trás. Tsotsi leva a criança para o gueto onde vive e convence a jovem mãe, Miriam (Terry Pheto), a cuidar do “seu filho”, numa relação cheia de confrontos.
Adaptação do romance premiado de Alan Paton, o drama descortina a relação entre dois pais – um pastor negro e um fazendeiro branco rico. Ambos vêm da mesma área rural, mas nunca se encontraram. Um dia, o pastor Stephen Kumalo (James Earl Jones), recebe uma carta convocando-o a ir a Joanesburgo, quando seu filho, Absalão Kumalo (Eric Miyeni ) é acusado do assassinato de um menino branco.
No auge do apartheid, Sarafina (Leleti Khumalo) é uma jovem negra alheia à discussão sobre direitos civis, até que sua brilhante professora Mary Masembuko (Whoopi Goldberg) é presa. Com a consciência política que adquire sobre a realidade ao seu redor, se une aos colegas em um levante de proporções imprevisíveis.
Baseado em fatos reais, o longa retrata trechos da vida do ativista Steve Biko (Denzel Washington) e sua relação com o jornalista Donald Woods (Kevin Kline), crítico da atuação de Biko como militante antiapartheid. Quando Biko convida Woods para visitar um bairro negro e testemunhar o efeito das restrições impostas pelo governo, seu ponto de vista muda e uma amizade, acompanhada de perto pela polícia, começa a se desenvolver entre eles.
Come Back, Africa é um semidocumentário apoiado por organizações negras norte-americanas, realizado ilegalmente na África do Sul no auge do apartheid. Conta a história do camponês Zachariah, de origem Zulu, que se muda para Joanesburgo em busca de emprego. Na cidade, se depara com o racismo dentro e fora do trabalho. Logo, sua esposa e seu filho juntam-se a ele no subúrbio de Sophiatown, onde a esperança dá lugar a uma grande tragédia.
Zulu foi o primeiro filme gravado na África do Sul que ganhou reconhecimento internacional. Retrata a batalha de Drift Rorke, uma mais famosas da Guerra Anglo-Zulu, quando 150 soldados britânicos enfrentaram quatro mil guerreiros zulus.

Pouco mais de dois anos após a sua morte, ao conhecer a terra de Madiba, minha sensação é que só os primeiros passos foram dados nessa estrada ainda cheia de obstáculos a serem vencidos pela jovem democracia que ele ajudou a erguer.

É certo que a chegada de Mandela ao poder, em 1994, quando se tornou o primeiro presidente eleito democraticamente no país (até então, os negros não votavam), levou a África do Sul a um pujante período de ascensão econômica. Com o fim das duras sanções comerciais impostas nos tempos de segregação, o país viu os seus produtos ganharem o mundo, com as exportações pulando de 10% para 25%. Já a inflação cedeu nove pontos percentuais em uma década, estabilizando-se em torno dos 6% atuais. As taxas de juros caíram em mais da metade de lá para cá, de 14% para 7%.

 

Mona Lisa Dourado/JC

Desemprego de 24,5% atinge mais os jovens

 

No rastro da economia e de políticas afirmativas abrangentes, alguns dos indicadores sociais também melhoraram em 20 anos. Caso da taxa de alfabetização, que atingiu 93,73% em 2014, segundo a Unesco, e da expectativa de vida, ampliada de 52 para 61 anos na última década. Verdade que um terço das mortes ainda é causada pela aids e que 12% da população está contaminada pelo HIV. Órgãos de saúde, no entanto, comemoram a redução em 40% do índice de mortes em 10 anos, conscientes do trabalho árduo que ainda têm pela frente.

Aliado à conquista de direitos civis e políticos, o crescimento econômico abriu oportunidades para o surgimento de uma classe média negra e de uma elite de capitalistas e altos funcionários públicos chamados de diamantes negros. Apesar disso, a população que representa 79% do total de habitantes da África do Sul tem presença tímida nos bairros luxuosos de Joanesburgo e Cidade do Cabo. Já nas “townships” – como são chamados as comunidades da periferia criadas nos anos de apartheid para confinar negros, mulatos e imigrantes da classe trabalhadora – até hoje é difícil encontrar um morador de pele alva. É o que diz o músico Simphiwe, 28 anos, que conheci numa feira de artesanato de Soweto, o distrito legendário na região metropolitana de Joanesburgo.

 

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Condições de vida melhoraram, mas pobreza ainda castiga os negros, diz Simphiwe

 

Por outro lado, pertence aos brancos, 9% da população, a maior parte das terras, tomadas em séculos de expropriação. Também eles têm acesso às melhores escolas e universidades – consequentemente aos postos de trabalho que exigem maior qualificação e pagam salários mais altos.

Desequilíbrios internos, aliadas ao contexto internacional de crise e queda do preço das commodities têm contribuído para inflamar a ferida racial ainda aberta. Principalmente no que se refere à galopante taxa de desocupação, que atingiu 26,7% no primeiro trimestre de 2016, castigando mais os negros. A desaceleração do PIB, de 1,5% em 2014 para 1,3% em 2015, torna a reversão do indicador mais demorada. “O desemprego é o calcanhar de Aquiles da África do Sul”, crava um estudo do banco Goldman Sachs. Novamente são os 85% dos negros que continuam pobres os mais castigados, sobretudo os jovens abaixo dos 25 anos, quase metade sem trabalho. Tanto no Centro de Cape Town, por onde passamos a pé, quanto no de Joanesburgo, onde o guia nos pediu para fechar as janelas da van, as estatísticas ganham rostos. Ali, em meio às áreas mais deterioradas das cidades, eram faces negras que se sobressaíam.  

 

Mona Lisa Dourado/JC

Em em meio às áreas mais deterioradas das cidades, são faces negras que se sobressaem

 

Uma das consequências nefastas da falta de emprego, a discrepância entre ricos e pobres na África do Sul está entre as mais altas do mundo. Maior até, segundo algumas medições, do que na era do apartheid, de acordo com o coeficiente Gini: 0.65 em 2014, contra 0.59 em 1993.  No Brasil, o mesmo indicador é de 0,49 atualmente. Quanto mais próximo de 1, mais desigual é o país.

Não bastassem as mazelas econômicas, a população sul-africana enfrenta uma crise política decorrente dos constantes escândalos de corrupção envolvendo o presidente Jacob Zuma e o Congresso Nacional Africano (ANC, na sigla em inglês), o histórico partido da maioria negra que sempre teve Mandela como referência moral.

 

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Presidente sul-africano Jacob Zuma enfrenta crise política / Divulgação

 

Diante de tantas contradições, pelo menos um consenso impera: a de que a maior democracia da África precisa se valer das suas grandezas, entre elas as reservas minerais e  o maior parque industrial do continente, para reencontrar o rumo do desenvolvimento e assegurar os ganhos sociais das últimas duas décadas. Ou corre o risco de voltar a dar vida a fantasmas que nunca deixaram de rondar.

 

EM TEMPO:

Na sala escura que Mario evitou no Museu do Apartheid são exibidas imagens dos conflitos que permearam a luta pelo fim da segregação racial. Na passagem sobre o Levante de Soweto, em 1976, vemos crianças e jovens negros munidos de pedras serem mortos por policiais brancos investidos de armamento pesado no alto de carros-tanques. O guia estava certo. É mesmo preciso recobrar as forças para conter a emoção. E, a despeito da barbárie, seguir acreditando na viabilidade da “nação arco-íris” tolerante e reconciliada idealizada pelo arcebispo Desmond Tutu e defendida por Mandela.

 

Inspirado na autobiografia homônima de Nelson Mandela, publicada em 1994, o longa acompanha a jornada de um dos maiores líderes mundiais. Desde a sua infância numa pequena aldeia rural até a posse como primeiro presidente negro da África do Sul, o filme se debruça sobre os mais marcantes momentos da luta de Madiba (interpretado por Idris Elba) contra o apartheid, passando pelos 27 anos em que esteve encarcerado como prisioneiro político.
Adaptação da biografia Winnie Mandela: A Life (Winnie Mandela, uma vida), o drama é dedicado à ativista Winnie Madikizela (Jennifer Hudson). Segunda esposa de Nelson Mandela (Terrence Howard), Winnie foi uma das principais militantes da luta antiapartheid. Principalmente após a prisão do marido, enfrentou assédio contínuo da polícia de segurança e mais de um ano de confinamento na solitária, proibida de ver as filhas pequenas.
A trajetória da poetisa sul-africana Ingrid Jonker (Carice von Houten) inspira o longa baseado em fatos reais. Rejeitada pelo pai, que trabalha como censor no regime do apartheid, ela sofre para encontrar uma casa e um amor, refugiando-se na escrita. O reconhecimento como poeta vem quando Nelson Mandela, em seu primeiro discurso para o parlamento da África do Sul, em 1994, lê seu poema The dead child of Nyanga (A criança assassinada pelos soldados de Nyanga).
Jack Ngubane reencontra seu antigo parceiro Twala, depois de cinco anos preso por participar de um assalto. Além de ter conseguido ficar em liberdade, o amigo ainda se casou com a sua antiga noiva. Jack tenta então reconstruir sua vida, mas um empréstimo negado pelo banco lhe devolve ao mundo do crime, quando ele resolve aceitar um trabalho que pode render US$ 2 milhões.
Estrelado por Morgan Freeman (no papel de Mandela) e Matt Damon (interpretando François Pienaar, capitão da equipe sul-africana de rugby), o enredo é baseado no livro de John Carl sobre a Copa do Mundo de Rugby de 1995, realizada na África do Sul logo depois do fim do apartheid e da eleição de Mandela para a presidência.
Gravado em Joanesburgo, Distrito 9 é um longa de ficção científica, com uma mensagem subliminar das mais realísticas. Wikus van de Merwe é um burocrata africâner cuja missão é deslocar uma raça de alienígenas presos no Distrito 9, uma favela de Joanesburgo, para um campo de refugiados.
Skin é um filme biográfico baseado no livro When she was white: the true story of a family divided by race (Quando ela era branca: a verdadeira história de uma família dividida pela raça), escrito por Judith Stone. O drama narra a saga de Sandra Laing. Nascida de pais brancos, ela foi reclassificada como “coloured” (mestiça) durante o apartheid e enviada a outro bairro distante da família.
O filme é uma adaptação da obra-prima homônima do Nobel de literatura J.M. Coetzee. O protagonista é o professor universitário David Lurie (John Malkovich), que vê sua carreira desabar depois de um caso amoroso com uma aluna. Sem emprego e com a reputação abalada, decide visitar a isolada fazenda de sua filha Lucy. No início, ele pensa ter encontrado sossego, até que ele e a filha são violentamente atacados por três jovens negros. Aos poucos, os dramas pessoais vão intrinsecamente sendo conectados à conjuntura de uma África do Sul em transição pós-apartheid.
Os 18 anos em que Nelson Mandela (Dennis Haysbert) ficou preso em Robben Island são o pano de fundo da narrativa baseada em fatos reais contada a partir da perspectiva do carcereiro James Gregory (Joseph Fiennes), cuja vida foi completamente transformada a partir da convivência com o líder sul-africano.
O lado sombrio de Joanesburgo e o choque de classes com a ascensão de uma burguesia negra pós-apartheid são os ingredientes do longa. O protagonista é Tsotsi, um jovem bandido de rua que rouba um carro e descobre um bebê no banco de trás. Tsotsi leva a criança para o gueto onde vive e convence a jovem mãe, Miriam (Terry Pheto), a cuidar do “seu filho”, numa relação cheia de confrontos.
Adaptação do romance premiado de Alan Paton, o drama descortina a relação entre dois pais – um pastor negro e um fazendeiro branco rico. Ambos vêm da mesma área rural, mas nunca se encontraram. Um dia, o pastor Stephen Kumalo (James Earl Jones), recebe uma carta convocando-o a ir a Joanesburgo, quando seu filho, Absalão Kumalo (Eric Miyeni ) é acusado do assassinato de um menino branco.
No auge do apartheid, Sarafina (Leleti Khumalo) é uma jovem negra alheia à discussão sobre direitos civis, até que sua brilhante professora Mary Masembuko (Whoopi Goldberg) é presa. Com a consciência política que adquire sobre a realidade ao seu redor, se une aos colegas em um levante de proporções imprevisíveis.
Baseado em fatos reais, o longa retrata trechos da vida do ativista Steve Biko (Denzel Washington) e sua relação com o jornalista Donald Woods (Kevin Kline), crítico da atuação de Biko como militante antiapartheid. Quando Biko convida Woods para visitar um bairro negro e testemunhar o efeito das restrições impostas pelo governo, seu ponto de vista muda e uma amizade, acompanhada de perto pela polícia, começa a se desenvolver entre eles.
Come Back, Africa é um semidocumentário apoiado por organizações negras norte-americanas, realizado ilegalmente na África do Sul no auge do apartheid. Conta a história do camponês Zachariah, de origem Zulu, que se muda para Joanesburgo em busca de emprego. Na cidade, se depara com o racismo dentro e fora do trabalho. Logo, sua esposa e seu filho juntam-se a ele no subúrbio de Sophiatown, onde a esperança dá lugar a uma grande tragédia.
Zulu foi o primeiro filme gravado na África do Sul que ganhou reconhecimento internacional. Retrata a batalha de Drift Rorke, uma mais famosas da Guerra Anglo-Zulu, quando 150 soldados britânicos enfrentaram quatro mil guerreiros zulus.

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Parceria para o futuro

Mona Lisa Dourado

Jovens democracias, detentoras do maior PIB industrial dos seus respectivos continentes e profundamente desiguais. São muitas as semelhanças e desafios que unem Brasil e África do Sul nos campos político, econômico e social. Por isso, estreitar os laços comerciais é uma estratégia vantajosa para os dois países, que possuem um alto grau de complementaridade econômica, segundo estudos de ambos os governos.

Quase inexistente durante o apartheid, o intercâmbio comercial só foi retomado em 1994. Constituído por produtos primários e industrializados, cresceu 300% em uma década, mantendo-se em US$ 2 bilhões nos últimos cinco anos, segundo a Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviço do Brasil.

 

FH0906152021

Intercâmbio comercial entre Brasil e África do Sul movimenta US$ 2 bilhões ao ano

 

A cifra deve se repetir em 2016, considerando-se os resultados do primeiro semestre, quando o comércio bilateral já movimentou US$ 837 milhões, dos quais US$ 660 milhões representam exportação do Brasil e US$ 177 milhões, as importações.

Apesar de crescentes, os números ainda são modestos diante do potencial de ambas as nações. “A balança mostra que cada um de nós tem muito a aprender sobre seus respectivos mercados e produtos para que os negócios entre nós se desenvolva”, atesta o diretor geral do Departamento de Relações Comerciais e Indústria da África do Sul, Lionel October.

 

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Descampado revela antiga área de mineração, uma das maiores riquezas sul-africanas

 

Acordos bilaterais e parcerias de transferência tecnológica, dentro da perspectiva dos Brics (grupo de países emergentes, que inclui também Rússia, China e Índia) são as apostas de October para um futuro de trocas mais profícuas. “Nosso foco daqui para frente deve ser mudar a estrutura para produtos de maior valor agregado.

Os dois países são importantes players em seus continentes. Isso pode servir como uma vantagem competitiva para nossas companhias exportadoras, uma vez que podem utilizar o Brasil e a África do Sul como pontos de entrada e conexão para distribuir as exportações na América Latina e na África”, sugere.

 

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Brasil e a África do Sul são pontos de entrada para exportações em seus respectivos continentes

 

Uma iniciativa fundamental nesse sentido é o Acordo de Comércio Preferencial entre Mercosul e União Aduaneira da África Austral (Sacu), que entrou em vigor em abril deste ano e prevê a redução das taxas de importações de mais de mil produtos de ambas as partes.

“Há grande coincidência de visões entre Brasil e África do Sul, não só pela proximidade cultural e dilemas sócio-econômicos, mas também pela busca de maior peso econômico e político regional em âmbito internacional. Por isso, as relações entre os dois países devem seguir pujantes e mutuamente benéficas, mesmo ainda havendo grande espaço para um maior aprofundamento”, corrobora a Secretaria de Comércio Exterior do Brasil, em nota.

 

TURISMO

O turismo é outro setor que tem recebido investimentos para propiciar o trânsito de visitantes e possibilitar viagens de negócios nos dois lados do Atlântico Sul. A partir de 2 de outubro, a Latam iniciará voos diários entre São Paulo e Joanesburgo. Hoje, só a South Africa Airlines opera na rota.

 

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Única a operar voo São Paulo-Joanesburgo, SAA ganhará concorrência da Latam em outubro

 

Impulsionado pelo crescimento de 66,7% do fluxo de turistas brasileiros em 2010-2011, e de 44,7% em 2012, o governo sul-africano tem reforçado a promoção de seus destinos no País.

Em setembro de 2014,  o South Africa Tourism (SAT) abriu seu primeiro escritório na América do Sul, em São Paulo, e já conta com 20 operadores vendendo os seus atrativos no mercado nacional. “Participamos também de eventos, como a Abav Expo, uma valiosa plataforma que permite a criação e consolidação de novos negócios e oportunidades de intercâmbio comercial”, diz a gerente global de Comunicação do SAT, Risuna Mayimele.

 

 

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