Vez e voz das mulheres negras

Não é só o machismo que mata. Entre as mulheres negras, o racismo carrega o peso da exclusão. Discrimina, condena. Para onde se olha, as fotografias e estatísticas evidenciam o que um passado de escravidão e preconceito teima em não querer apagar: o corpo da mulher negra é o mais violado, o que mais morre, o que é menos respeitado. Elas são as mais vulneráveis entre as vulneráveis.

É assim nas contas da violência: 82% das mulheres assassinadas em Pernambuco nos sete primeiros meses deste ano eram negras. Nas contas da saúde: 73% das mulheres mortas por aids no Estado em 2013 tinham a cor da pele negra. Nas contas do mercado de trabalho: 72% do total de mulheres ocupadas no trabalho doméstico são negras.

Num País que gosta de alimentar o mito da democracia racial, não há como falar em questões de gênero sem dar voz ao feminismo negro.

De tão gritante, a desigual situação de mulheres brancas e negras ganhou um registro à parte no capítulo de gênero do Atlas da Violência 2017, divulgado em junho deste ano, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O documento é contundente: “Enquanto a mortalidade de mulheres não negras teve uma redução de 7,4% entre 2005 e 2015, atingindo 3,1 mortes para cada 100 mil mulheres não negras – ou seja, abaixo da média nacional -, a mortalidade de mulheres negras observou um aumento de 22% no mesmo período, chegando à taxa de 5,2 mortes para cada 100 mil mulheres negras, acima da média nacional.” Um cenário perturbador.

Não só nos homicídios, mas no conjunto de dados de violência as mulheres negras são as mais vitimizadas. São mais afetadas porque o cotidiano delas é marcado tanto pelo sexismo e machismo, quanto pelo racismo. E o racismo no Brasil, com o patriarcado, tem características extremamente perversas.

Com 30 anos de ativismo feminista, Mônica Oliveira, uma das coordenadoras da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, diz que a discriminação se dá em frentes tão diversas, que muitas são subliminares, se escondem em gestos, negativas, desconstruções de identidade. Por isso mesmo, são mais difíceis de serem fotografadas pelas estatísticas.

“O mito da fragilidade das mulheres, por exemplo, é algo que nunca foi aplicado às mulheres negras. Elas nunca foram consideradas frágeis, dignas de proteção, de cuidado. Muito pelo contrário. Por causa da hipersexualização, o corpo da mulher negra foi tratado não só como objeto, mas também como alvo de exploração e violência”, avalia.

Embora acredite que o imaginário da democracia racial já tenha sido derrubado há tempos, desmoralizado pela cor que impera nas favelas, nos presídios, nos necrotérios; Mônica diz que o País vive uma espécie de esquizofrenia: parte da população admite que há racismo, mas as pessoas não se reconhecem racistas. “Um dos mecanismos de persistência do racismo no Brasil é justamente a negação dele.”

A face da desigualdade racial

82.40 %

das mulheres assassinadas em Pernambuco, nos sete primeiros meses de 2017, eram negras

65.93 %

dos registros de violência doméstica, de janeiro a julho de 2017, tiveram como vítimas mulheres negras

22 %

é o percentual de aumento do número de assassinato de mulheres negras entre 2005 e 2015

7.4 %

é o percentual de redução do número de homicídio de mulheres brancas entre 2005 e 2015

63.5 %

das mulheres assassinadas no Brasil no ano de 2015 tinham a pele negra

73 %

as mulheres mortas por aids em Pernambuco em 2013 eram negras

Para quem sente na pele, é impossível não ver o racismo. Edcleia Santos é dona de casa e por 30 anos foi vítima de violência doméstica. Quando chegava bêbado, o marido quebrava os móveis, gritava, partia para cima, forçava o sexo mesmo que ela não quisesse. Só depois que entrou para o movimento de mulheres é que ela descobriu que fazer sexo contra a vontade é estupro. Mesmo no casamento.

Edcleia sofreu violência doméstica por 30 anos. Fora de casa, o preconceito pela cor negra se manifesta até na hora de entrar numa loja e a vendedora lhe oferecer peças mais baratas. “Isso também é uma violência.”

Por ser negra, a violência de casa extrapolava para as ruas. “Eu já sofri todo tipo de violência: física, psicológica, sexual, assédio. Nós, mulheres negras, sofremos isso todos os dias. Na rua o preconceito é escancarado. Quando entramos numa loja no shopping, à procura de uma roupa, a vendedora indica logo a mais barata; ou fica só de longe, muitas vezes nem vem atender. E isso também é uma violência.”

Ter consciência das violações diárias a que as mulheres negras são submetidas é condição essencial para se insurgir contra elas. Cria da internet, o Coletivo Faça Amor Não Faça Chapinha nasceu como uma página de Facebook onde homens e mulheres com cabelos crespos tinham lugar para colocar suas fotos e experiências de transição capilar. Não demorou para as meninas do coletivo perceberem que ali era um espaço político, de afirmação de identidade, de desconstrução de estereótipos.

“O cabelo crespo vai muito além do penteado. Assumir a estética negra é um ato de resistência, é dizer que aquele visual é bonito, tem força, tem poder. Desmistifica a visão negativa que é associada a essa estética e quebra a ideia de solidão, de violência, a que as mulheres negras estão confinadas”, afirma Letícia Carvalho, uma jovem mulher negra, de 20 anos.

Quando criou a página, em 2013, não tinha a dimensão do quão longe aquele espaço poderia levá-la. Hoje diz que a internet ajudou a fortalecer o debate e a multiplicar, numa velocidade supersônica, as vozes das mulheres negras. Por saber que a tenda virtual é campo fértil também para as manifestações racistas, Letícia diz que as posturas preconceituosas fazem parte da luta.

“A cada passo que se dá para frente vai ter uma reação para tentar dar dois para trás.” Mas a jovem se enche de esperança quando vê, cada vez mais, crianças negras se apropriando de sua identidade, longe das chapinhas e dos alisamentos. “Não vamos nos calar.”

O silêncio foi quebrado.

Sao nossos filhos que morrem

De cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 têm a pele negra. As vítimas majoritárias da violência são homens, jovens e de baixa escolaridade. São os filhos, sobrinhos, maridos e vizinhos das mulheres negras que estão morrendo. Por uma razão óbvia, o genocídio da juventude da periferia tem sido uma bandeira prioritária do feminismo negro. A luta para barrar a matança deles é uma urgência delas.

A opressão de raça atinge a todos. Lutar por transformação social significa romper o preconceito que mata, humilha e subjuga mulheres e homens negros. O extermínio de parcela tão extensa da população é de tal magnitude hoje que colabora diretamente para a manutenção desse contingente na pobreza porque desestrutura as famílias e provoca o adoecimento especialmente das mulheres.

“Existem inúmeras mulheres negras morrendo de tristeza por terem perdido seus filhos. Isso é algo que afeta a população negra de tal forma que, para nós, é quase inconcebível perceber como a sociedade brasileira consegue assistir quase que tranquilamente a esse grau de extermínio, de naturalização da violência e da morte”, afirma Mônica Oliveira, uma das coordenadoras da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco.

Morre-se um pouco a cada dia. E são os corpos negros que continuam sendo enterrados.”

Uma pauta que as próprias ativistas brancas têm compreendido cada vez mais a importância. “O racismo não é um problema dos negros. É um problema da sociedade como um todo. Ele precisa ser enfrentado coletivamente. Não haverá mudança nem superação das desigualdades, enquanto isso não for assumido por todos os segmentos sociais”, pondera Mônica.

Combater o racismo é uma questão de futuro, de um amanhã mais justo que o agora. Porque essas vidas jovens ceifadas não são tiradas apenas no momento em que o tiro é disparado. A vida desses garotos vem sendo engolida aos poucos. Um tanto de cada vez. Na favela sem esgoto nem posto de saúde. Na escola sem professor, no mercado de trabalho excludente, pela arma do agente público durante a batida policial. Morre-se um pouco a cada dia. E são os corpos negros que continuam sendo enterrados.

“Que projeto de futuro nós estamos construindo quando levamos a sociedade a acreditar que a violência é uma saída?”, provoca Mônica Oliveira.

A questão que a ativista levanta diz respeito não a uma raça, gênero ou classe social. É um projeto de nação. E para onde caminha uma nação que desconsidera o valor e a vida de 53% de sua população?

“Não é dizimando um segmento, que é maioria, que vamos achar o caminho. Tratar essa parcela da população como descartável é uma forma de olhar o País de forma extremamente danosa. Ou a saída será construída com a população negra, ou não será. Nós não somos o problema. Somos parte da solução. Sem nós, não há saída.”

Ser negra em Pernambuco

“A invisibilidade mata”

Entrevista Djamila Ribeiro

Ela é uma das vozes mais contundentes do movimento feminista negro atual. Mestre em filosofia política pela Universidade Federal de São Paulo, Djamila Ribeiro diz que é essencial incluir o racismo como pauta feminista. “A mulher negra carrega um histórico de desumanização.” Ao pensar os vários feminismos, ressalta a importância das diferenças dentro da luta de gênero: “Mulher não é uma categoria universal.”

JORNAL DO COMMERCIO – Por que a mulher negra é a maior vítima da violência em geral e, mais notadamente, do estupro?

DJAMILA RIBEIRO – A mulher negra carrega um histórico de desumanização. Essa construção de colocar a mulher negra como lasciva justifica, inclusive, a violência contra o seu corpo. É dizer: ‘Ah, elas gostam’. Como elas são objetificadas historicamente, tem essa questão da mulher não ser vista como um ser humano respeitável. Isso vem desde o período colonial. A gente precisa fazer essa relação de colonização e cultura do estupro. O corpo da mulher negra vem sendo violado desde essa época.

JC – Toda a violência está muito relacionada a essa não-posse do corpo da mulher. Ela pertence ao marido, ao ex-marido… No caso da mulher negra, isso está ainda mais enraizado na cultura escravocrata, que é a base da nossa formação?

DJAMILA – Sem dúvida nenhuma. Esse imaginário ainda está muito presente na nossa sociedade, do modo como o corpo da mulher negra segue sendo retratado na mídia em geral. Até o ano passado, a gente tinha no Brasil uma globeleza que aparecia nua sambando no período do Carnaval. E a gente não enxerga a mulher negra desempenhando outros papéis dentro das emissoras, como jornalistas e produtoras. Reforçando o tempo todo essa construção em torno do corpo da mulher negra. Ela é hipersexualizada nesse imaginário.

JC – O movimento feminista, de uma maneira geral, está sensível a essas questões específicas da luta das mulheres negras?

DJAMILA – De uma maneira geral esse feminismo hegemônico das mulheres brancas e de classe média demorou muito tempo para perceber que há várias categorias de mulher, que mulher não é uma categoria universal. Nesse sentido, as mulheres negras têm um papel pioneiro de não só denunciar, mas de propor ações para quebrar essa construção universal de mulher e a pensar nessas várias possibilidades de ser mulher. Acho que as mulheres negras conseguiram tensionar o debate, disputar uma narrativa importante dentro desses vários feminismos. Não tem como pensar na mulher sem pensar na mulher negra, na mulher lésbica. Não tem como pensar nenhum modo emancipatório sem considerarmos como fundamentais essas diferenças entre nós. Hoje essas narrativas conseguem ganhar mais força, fazendo, inclusive, com que as mulheres brancas entendam essa necessidade.

JC – O que é mais urgente hoje na luta feminista negra?

DJAMILA – O desafio prioritário é romper com essas questões. Se a gente não tiver um olhar étnico-racial na hora de pensar políticas de enfrentamento à violência contra as mulheres, a gente só atinge um grupo de mulheres. Tem que ter um olhar inter-racial e de orientação sexual. É necessário entender que, se mulheres negras existem, racismo tem que ser, necessariamente, uma pauta feminista.

JC – A pauta do feminismo negro, então, é desconstruir esse mito da democracia racial que ainda resiste no Brasil?

DJAMILA – É uma maneira de derrubar esse mito. E derrubar também o mito de que mulheres são totalmente vítimas. Porque mulheres brancas podem ser racistas, podem oprimir também. É de colocar as mulheres entendendo que a gente tem essa diferença entre nós. E aquelas que têm um privilégio social podem usar esse privilégio para oprimir, sim. Não necessariamente estão preocupadas com a transformação fundamental. Muitas estão preocupadas só com o seu grupo.

JC – Praticamente todas as estatísticas mostram que a mulher negra é a maior vítima da violência de gênero. A que mais morre, a que é mais estuprada, a que é menos assistida. Em que medida a produção e divulgação desses dados fortalece a luta feminista negra?

DJAMILA – São essenciais. O que as feministas negras, historicamente, nos ensinaram é que é preciso nomear. Se a gente não nomeia um problema, não vamos pensar solução para ele. E a invisibilidade mata. Esses dados vão gerar demandas e políticas públicas. A visibilidade é o primeiro passo para o reconhecimento das desigualdades. É essencial que na área do atendimento à saúde, por exemplo, a gente coloque cor, raça. Pensar isso em todos os espaços institucionais.

JC – Conhecer os dados e melhorar o atendimento à mulher negra no sistema de saúde é tão essencial quanto no sistema de segurança?

DJAMILA – Totalmente. Se o homem negro morre na mão do Estado por conta da violência policial, a mulher negra é em relação à saúde. O número de mortalidade materna, o fato de o aborto ser criminalizado atinge principalmente mulheres negras, então é necessário falar o quanto que o Estado, em relação à saúde, mata mulheres, quando não pensa nessa situação. A mulher negra toma menos anestesia, tem menos tempo de consulta, então é necessário discutir o racismo institucional em relação à saúde, porque é uma forma de violentar essas mulheres. Na década de 80, as mulheres negras eram esterilizadas. Em 1991, houve a CPI da esterilização que esterilizou mulheres negras, principalmente no Norte e Nordeste. Isso é genocídio também. Se a gente não falar dessa violência obstétrica, as mulheres continuarão morrendo, decorrente desse racismo institucional.

"Ei, silencio, a preta tá falando"





Poesia para se ver, ouvir, reconhecer, descobrir. Joy Thamires faz questão de dizer: “Minha poesia é marginal.” Tem a força de retratar a realidade como ela é. Como, às vezes, não deveria ser. A jovem paulista de 23 anos está no Recife há dois anos. Fincou território no Ibura, periferia da Zona Sul da capital. Aqui descobriu que, escrevendo, se fazia espelho. “Fico feliz quando uma mulher preta chega e diz: ‘Recita aquela tua poesia. Tenho certeza que foi feita para mim.'” É para elas e inspirada nelas que Joy escreve: “Quem me inspira? É minha vizinha, é Fernanda que está varrendo o chão, é Carla que trabalha no metrô para sustentar os fihos.” Costuma dizer que é a continuidade de Carolina Maria de Jesus, umas das mais importantes escritoras negras do País. Como ela, busca a delicadeza, que, às vezes, parece ser bruta. Apenas por ser a verdade. Nua e crua.


Expediente

29 de Outubro de 2017

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