Entre o Brasil e a África,
o mensageiro

A gente animada, amiga e receptiva o fisgou. “Lembrou-me dos momentos que vivi na França, quando frequentava os bailes das Antilhas”, disse Pierre Verger sobre Salvador, no documentário Mensageiro Entre Dois Mundos. A Bahia, terra do compositor Dorival Caymmi, do escritor Jorge Amado, e dos artistas plásticos Mario Cravo e Carybé — que no futuro se tornariam amigos dele — seduziu o viajante. A África brasileira e o Brasil africano estavam ali, diante dos olhos do francês.

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“Fui seduzido na Bahia pela presença de numerosos descendentes africanos e por sua influência na vida cotidiana deste lugar. Durante muito tempo nem sonhava em apontar minha Rolleiflex na direção de pessoas de cores mais anêmicas”, contou ele.

Verger trabalhou sempre com fotografia, a moeda simbólica e verdadeira da vida dele. Antes de chegar às terras brasileiras, num dos momentos mais importantes de sua carreira, o trabalho no Instituto Francês de África Negra (IFAN), ele pôde buscar o Continente Africano. “As primeiras expedições de Pierre Verger, nos anos 1930, foram para países africanos que falavam francês. Isso tem um peso, um sentido, que facilitou a comunicação. Foi lá que ele teve os primeiros contatos com o culto afro”, explica o antropólogo Raul Lody.

Um convite para trabalhar na revista O Cruzeiro fez o francês se mudar para o Brasil, País que conhecera seis anos antes, numa rápida passagem. Na coletânea Pierre Verger: Repórter Fotográfico, de 2004, em que estão reunidas 31 reportagens fotografadas pelo francês, a pesquisadora Ângela Lühning conta que a atividade profissional na revista permitia a Verger finalmente fincar raiz no Brasil como desejava desde a sua primeira estada, em 1940.

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“Ele escolheu Salvador como ponto de partida para inúmeras viagens que realizou durante os anos de 1946 a 1951, quando de sua primeira contratação para O Cruzeiro”, escreve Ângela. “Esses anos foram fundamentais para que Verger descobrisse, nas suas sucessivas viagens pelo Nordeste, e até países vizinhos no Caribe, os aspectos de uma cultura popular que até antão, dentro de um discurso voltado para o desenvolvimento e a chegada do progresso no País, ou eram desconhecidos para o público das metrópoles ou então vistos como elementos de uma cultura popular exótica dentro da cultura nacional, normalmente designada como folclore.”

Nessa época, o francês chegou a Pernambuco, onde registrou o Carnaval, com os passistas de frevo e o Maracatu Elefante; foi a Caruaru e testemunhou o trabalho de Mestre Vitalino; e visitou o Sítio de Pai Adão, no Recife.

O MENSAGEIRO

Na Bahia, Pierre Verger entrou para o candomblé, iniciado por Mãe Senhora, uma das principais ialorixás de Salvador, líder do Ilê Axé Opô Afonjá, onde em seguida ele chegou a ocupar cargo de conselheiro. A sacerdotisa consagrou o francês ao orixá Xangô, porque, como relata a antropóloga Ângela Lühning, viu no destino dele o papel de mensageiro entre a Bahia e a África.

O intercâmbio que fez entre as duas culturas tornou Verger reconhecido tanto aqui quanto no outro Continente. Assim sendo, em 1953, na África, o francês foi rebatizado Fatumbi: “presente do Ifá ao mundo”. “Rompi assim as últimas ligações com o que ainda tinha de minha família e, se mais tarde me acontecer de mentir a um profano, terei mesmo mais restrição mental a fazer e lhe declarar: ‘Se isto não é verdade, que eu não me chame mais Pierre Verger’”, escreveu em carta enviada ao amigo etnólogo Alfred Métraux.


O mergulho no mar cultural que separa e, ao mesmo tempo, une a África e o Nordeste brasileiro despertou em Pierre Verger a vontade de se aprofundar em pesquisas inesgotáveis. “Sem deixar o seu endereço fixo em Salvador, ele continuou viajando para a África, exatamente para a região de onde vieram os negros da Bahia: a Nigéria”, ressalta Gilberto Sá, presidente da Fundação Pierre Verger, na capital baiana. “Verger se apaixonou pelas pessoas, pelas festas religiosas brasileiras, o tipo de arquitetura e a língua de Salvador. Foi quando decidiu escrever o livro Fluxo e Refluxo, para descrever esse fenômeno de influências.”

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O livro publicado em 1968, em Paris, e em 1987, no Brasil, é um dos pilares da escrita de Verger. Para Raul Lody, junto a essa obra estão outras três seminais: Deuses da África (que, inclusive, contém raríssimas imagens coloridas feitas pelo francês), Orixás e, a última publicação de Fatumbi, Ewe -- um estudo aprofundado sobre 3,5 mil espécies de plantas, a maioria ligada à religião afro.

“Graça a Pierre Verger, muito brasileiro tomou conhecimento realmente sobre muita coisa da África, inclusive no que se trata dos vegetais de lá que usamos aqui. Ewe é um livro muito importante para a pesquisa religiosa e medicinal sobre o uso das plantas”, elogia Mãe Stella de Oxossi, atual ialorixá do Axé Opô Afonjá. “Ele era o homem das folhas, das representações.”

Fatumbi transitou livremente pelos terreiros baianos. Além da Casa de Mãe Senhora, ele frequentou a Casa Branca, o Gantois e ajudou a erguer o Aganju, o axé do seu amigo e babalorixá Balbino Daniel de Paula.

MEMÓRIA

À escrita foi que Pierre Verger se dedicou praticamente até os últimos dias de sua vida. Em 1973, decidiu parar de fotografar, após 50 anos de profissão. Ao morrer, em 11 de fevereiro de 1996, com 93 anos, o antropólogo deixou um acervo robusto e precioso, hoje guardado pela fundação criada por ele em Salvador, na casa onde morou, na Ladeira Vila América.

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Verger não casou nem teve filhos. Doou tudo que tinha para a Fundação. Um acervo de 62 mil negativos e mais de 30 livros editados por ele. Entre as fotos, 22 mil são da América do Sul (13,5 do Brasil, 7 mil em Salvador) e outras 16 mil são da África (metade feita em países de cultura ioruba). “É com esse material que fazemos exposições, livros, vendemos fotos também. Assim a fundação sobrevive”, conta Gilberto Sá, que assumiu a presidência do memorial após a morte do amigo. “Nosso objetivo é salvaguardar e preservar a memória de Verger e os registros dele.”

A Fundação Pierre Verger atende 300 crianças, que participam de 10 a 12 oficinas ligadas à cultura afro-brasileira. No ano em que são celebrados os 70 anos do renascimento brasileiro de Verger, a sua mudança para a Bahia, a fundação pretende criar ações em homenagem a ele. A primeira dela aconteceu em abril, com a abertura do espaço Pierre Verger, em um dos fortes da orla soteropolitana, com exposição coletiva de 40 fotógrafos locais que registram Salvador.

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