Depressão tem cura.
Na economia e na vida

Parece não ser à toa que a palavra “depressão” se desdobra em diagnósticos na medicina e na economia.

Da mesma forma, o remédio para essas duas abordagens é: aceitar a realidade do problema, pensar em como superá-lo, encontrar energia a partir da dificuldade e se reinventar. Economistas e profissionais da saúde são unânimes em dizer que a vida é feita de ciclos e que os momentos de dificuldade não devem ser encarados como algo permanente. A economia imita a vida.

De uma forma pragmática, crises econômicas se resolvem com a geração de empregos, controle da inflação, valorização cambial e crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) . “O que precisamos é de políticas que permitam a retomada do crescimento econômico para reduzir o desemprego. Ao fazer isso, melhora o sentimento das pessoas, elas mudam objetivamente suas perspectivas para o futuro”, defende o economista diretor da Fenasaúde e ex-ministro da Previdência do governo Fernando Henrique Cardoso, José Cechin.

Mas para que se alcance a retomada do crescimento, alguns economistas defendem também um esforço da sociedade para com os indivíduos. “Antes de tudo é preciso entender o que é a crise. As pessoas não entendem o que está acontecendo. Estão perdidas porque estão muito endividadas, se sentem culpadas porque compraram com o cartão de crédito e não sabiam o que era o (juro) rotativo. Isso gera uma situação de ansiedade. Ninguém teve uma aula de matemática financeira”, argumenta o professor do departamento de economia da PUC-SP, Ladislau Dowbor.

Para o pesquisador, a necessidade de educar financeiramente a população é uma das principais urgências criadas a partir da crise atual. Isso não significa que o comportamento dos brasileiros venha a ser usado como justificativa para o cenário econômico, mas que através da educação é possível tomar decisões mais adequadas a cada quadro, já que a economia é cíclica.

O professor de psiquiatria da Universidade de Pernambuco (UPE) e membro da Associação Americana de Psiquiatria (APA), Antonio Peregrino lembra que durante grandes crises econômicas do passado (confira a linha do tempo abaixo) e após desastres naturais, o senso de coletividade sempre ajuda no controle de doenças mentais que emergem após traumas. “Na saúde é de muita importância a busca pelo outro. Pessoas religiosas têm apoio espiritual, grupos não religiosos oferecem apoio comunitário”, sugere Peregrino.

Talvez um indício de um novo comportamento voltado ao coletivo seja o avanço do Brasil no ranking do World Giving Index (WGI) – índice mundial que mede a generosidade em diversos países com base em número de pessoas que fazem doações, realizam trabalho voluntário ou ajudam estranhos. Entre os anos de 2015 e 2016, o País subiu 34 posições na avaliação que analisa 140 nações de todo o mundo e atualmente ocupa o 68º lugar.

Outra forma de repensar a própria situação é através da arteterapia. O método procura resgatar a criatividade de cada paciente, capacidade profundamente afetada pelo quadro depressivo. “É um momento para se recriar”, resume a psicóloga e diretora do Espaço Rizoma, Cristina Pinto Lopes. Ela garante que houve um aumento significativo, porém difícil de mensurar, da procura por tratamento a partir da instalação da recessão. “As pessoas já estavam sobrecarregadas com o ritmo da sociedade atual, em que há o apelo constante do consumo, as pessoas executam múltiplas funções, o que resulta em falta de foco”, analisa.

POLÍTICAS PÚBLICAS

Segundo o estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre as consequências da crise econômica na saúde mental da população europeia, em decorrência da crise mundial iniciada em 2008, políticas públicas são determinantes para minimizar esses efeitos. A pesquisa comprova que países cuja estrutura de bem-estar social é eficiente costumam sofrer menos com os reflexos da recessão na saúde da população. Em casos como Finlândia e Suécia, onde esse amparo público funciona, os índices de suicídio sofrem pouca alteração.

No caso do Brasil, o sistema de saúde, educação, segurança e moradia, por exemplo, já não funcionam plenamente em períodos de prosperidade, o que torna ainda mais difícil fortalecer o amparo social durante a depressão. “De um lado temos o estado de bem-estar social que faz a crise afetar menos a cabeça e a saúde das pessoas. Mas, ao mesmo tempo, isso custa dinheiro. No Brasil, estamos passando por uma crise que afetou as receitas do governo, que hoje está no pior momento para fazer investimentos nesses programas”, analisa José Cechin.

Mesmo diante desse impasse, a OMS aponta caminhos alternativos para dar suporte à população afetada. Treinamentos de qualificação para ajudar na recolocação mais rápida da população desempregada e programas de treinamento que ajudem as pessoas que ainda estão trabalhando a se manterem com mais segurança nos seus trabalhos. Nesse último caso, o trabalho é essencial para diminuir a tensão e o estresse diante do cenário econômico geral.

Esse sentimento é medido no Brasil através do Índice de Medo do Desemprego, pesquisa realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). De acordo com o levantamento de dezembro, o número ficou em 64,8 pontos - a média histórica é de 48,4. “Percebemos que enquanto os índices empresariais de confiança já estavam caindo, o de medo do desemprego demorou muito a apresentar um impacto. Podemos fazer uma leitura de que as pessoas só se sentem ameaçadas quando pessoas muito próximas começam a ficar desempregadas”, analisa o gerente executivo de pesquisa de competitividade da CNI, Renato da Fonseca. Apesar do índice alto, o pesquisador aposta em um senso comum de positividade. “Em alguns casos as pessoas tendem a responder positivamente mais rápido. É como uma necessidade de acreditar que vai dar certo”.